Astoria

4 Capítulo 3 - A Hospedaria


O som da harpa parecia inundar minha mente. A divisão que Marcus falara nada mais era do que um corredor estranho. Várias estátuas de anjos, algumas bem macabras rodeavam o caminho. No fim, havia uma porta toda de vidro alvo e um querubim.

– Por que aqui tudo é tão diferente? – perguntei respirando o ar gélido do corredor.

– Bem, Alan. O mundo espiritual não é para qualquer um. Jamais ande nesse corredor sozinho. Atrás de cada anjo, vive o ser real que administra um caminho diferente. Não são apenas imagens. – respondeu Marcus.

– Mas, são tão assustadoras. – afirmei.

– Sim, porém não toque nelas. Aos viajantes terrenos, que não possuem chave ou conhecimento de como usar tais portais, os Anjos fazem charadas, e o custo de um erro pode ser até mesmo a própria morte. Prometa que não vai tocar em nada aqui. – disse sério. – Chegamos. – bateu os pés empoeirados.

No fim do corredor, uma linda estátua de querubim dominava a área, em suas mãos estava um pergaminho escrito “Astoria”. Marcus tomou o anel novamente, derreteu um pouco de cera que tirou do bolso e carimbou o pergaminho, selando-o. Foi algo extremamente diferente do que já vi na vida.

Atrás do anjo se abriu a parede e adentramos mais um breve corredor, mas dessa vez, com uma escadaria em “L”. No fim da escadaria, consegui ouvir vozes de pessoas conversando normalmente, barulhos de animais, panelas e vidro tilintando. Marcus abriu a porta e disse:

– Isso, meu caro Alan, é Astoria! Seja muito bem vindo! – sorriu.

Saímos em um bairro simples. O cenário era mágico, mulheres ainda com vestidos e véu na cabeça, religiosas, talvez. Crianças brincavam em volta de uma fonte que havia em meio à via. O pavimento era feito de pedras cinza, brilhantes. Já era por do sol.

– Que horas são, Marcus? – perguntei curioso.

– Bem, acho que são aproximadamente seis horas. Não tenho o costume de usar relógio – respondeu. – Aqui em Astoria, o tempo passa diferente da humanidade em normal. Nós temos um calendário próprio, porém com durações semelhantes. – mostrou um pedaço de papel dobrado de seu bolso.

Realmente era algo diferente:

Alenkor, Utizch, Jyffra, Klepör, Ferefraw, Houlik, Stroika, Nysilk, Dergh, Bourghek, Vlidwas, Consolatorker. Meses realmente estranhos e sem nenhum sentindo para mim. Exceto por Utizch, o mês que acho que deve ser importante para os testes que Andrea havia dito.

– Aqui só nossos meses mudam de nomes, em honra aos fundadores do reino. Porém, o décimo segundo mês é diferente. O décimo segundo fundador traiu a corte com o passar dos anos, e desde então mantém seu próprio reino longe daqui. – disse Marcus.

– Quando podemos visitar? – perguntei na inocência.

– Jamais, repito, jamais vá para o reino desta pessoa. – respondeu Marcus com um tom de ira.

– Sim, senhor. – respondi medroso.

Entramos em um estabelecimento na via Leizs. Uma taverna onde diversos homens estavam bebendo ou jogando um estranho jogo de tabuleiro. Marcus pediu para me sentar numa mesa mais afastada. Minhas roupas realmente não condiziam com o lugar.

Todos dentro da taverna vestiam trajes um tanto inusitados. Calças largas ou bem curtas, paletós ou sobretudos. Eram homens mais de idade, porém era evidente de que a boemia vencia seus hábitos quotidianos.

– O que os senhores gostariam? – perguntou uma voz vinda de trás de mim.

– Apenas dois copos de latte. – respondeu Marcus.

– Okay. Mesa treze, dois Lattes! – disse a garçonete.

– Marcus, por que há pessoas me encarando? – perguntei disfarçando com o guardanapo xadrez.

– Bem, Alan. Você não é conhecido em Astoria. Mesmo que seja um reino grandioso, a maiorias das pessoas se conhecem e trocam interesses em comum. É normal, apenas fique calmo. – respondeu para meu consolo.

Certamente alguns olhares eram fulos. Mas uma senhora no canto do balcão de mogno realmente me deixou intrigado. Ela parecia me observar tanto, até mesmo a porção de saliva que descia pela minha garganta. Senti um arrepio, mas no fim de nosso café, que por sinal estava maravilhoso, levantamos.

– Bem, primeiro vou te levar na hospedaria .Vamos comprar um quarto para você. – disse Marcus.

– Comprar? Um quarto? Mas e minha vida? – perguntei histérico.

– Relaxe, sua mãe sabe que seu curso de férias está indo bem. – disse Marcus rindo.

– Minha mãe o quê? – gritei.

– Acalme-se, Alan. Há muito que ver e aprender. – Marcus puxou-me pelo ombro e me afagou como figura paterna.

Chegamos à hospedaria. Era um prédio de cerca de três andares, todo de madeira rústica e escura. Ao entrarmos, tapetes vermelhos felpudos e lustres de cristais variados se faziam presentes. Mais uma vez, era notável da arquitetura de Astoria corredores finos e longos. Andamos e pelo corredor haviam quadros assustadores. Cenas de pessoas afogadas, incêndios e má colheita. Realmente me apavoraram de certo modo. Ao chegarmos ao fim do corredor, lá estava um pequeno balcão e atrás dele um homem um tanto baixo, chamado Amork.

Amork era o recepcionista da hospedaria, usava um barrete vermelho com detalhes dourados, um colete dourado e vermelho e botas com asas coladas. Atrás dele se encontrava uma prateleira imensa, com quase 5 metros de altura, com gavetas e etiquetas.

– Quarto 126, Amork. – disse Marcus.

– Oh... Vejo que trouxe alguém com você. – disse em uma voz rouca.

– Este é Alan, ele será o proprietário do quarto. – respondeu Marcus apontando o dedo para mim.

– Muito bem, 47 Dahks. – respondeu Amork.

Eu nunca tinha ouvido falar de moedas onde com tão pouca quantidade se comprava um quarto. Bem, o significado da moeda pairou no ar.

Marcus deu uma bolsinha para Amork e o mesmo entregou-me a chave. Quando fui pegar a chave, Amork disse:

– Mas antes, iremos fazer sua ficha. Seu nome completo? – sorriu.

– Alan Sonian Gourgel — respondi.

– Okay, senhor Gourgel, preencha os dados abaixo e tudo estará bem. – disse me entregando uma via destacada.

Preenchi todas as especificações, como referências, peso, idade, etc. Aquilo se tornou burocrático, mas achei interessante. Marcus interveio no silêncio:

– Bem, quando vier para cá terá onde colocar suas coisas, não é muito, mas já ajuda. – disse humildemente. – Vamos, Alan. Depois voltaremos. – começou a caminhar em direção à saída.

Voltando o corredor tenebroso, notei que os quadros estavam diferentes, apareciam cenas bonitas e culturais. E uma delas me chamou a atenção: um grupo de rapazes em forma de rosa dos ventos, com violinos nas mãos. Aquilo era estranho e interessante.

Andamos cerca de cinquenta metros, e chegamos a uma praça com um campanário. O dia estava baixando completamente. Marcavam seis e meia no relógio. O relógio era estritamente razoável e bonito. Seus dois ponteiros tinham o formato do Sol e da Lua, e no seu painel havia os signos do zodíaco em volta dos números. Achei muito diferente e interessante. Toda essa cultura surpreendera minha cabeça.

– Aqui em Astoria, Alan, não usamos carros. Possuímos nossos trens, carruagens e lambretas. – disse Marcus apontando para cada um dos citados. — Mas primeiro, gostaria de te levar à bilheteria da estação central. Devemos adquirir seu passe desde já. – disse Marcus.

– Sim... isso é tudo tão mágico! Realmente sinto-me deslumbrado. – disse andando vagarosamente.

– PARADO! – uma voz gritou na multidão. – EU REPITO! PARE AÍ MESMO! – a voz persistiu.

Assustei-me e tentava procurar o que acontecia. E não estava entendendo nada. Quando de repente olhei para o lado e dois homens me puxaram pelo braço. Marcus desapareceu de minha vista. O que está acontecendo?