Astoria

5 Capítulo 4 - O Trem


O assoalho gélido tocara minhas costas. Meus cachos afagavam meu corpo despido de uma forma confortável, sentia fio a fio, rastejando minha pele alva. Ouvi barulhos vindos do fundo do ambiente. Estava escuro. De repente, senti um forte embalo e entrei em movimento, sacudindo o corpo e percebendo que estava dentro de uma espécie de locomotiva.

Fui andando em direção à porta, meu objetivo era sair, custe o que custar. A chegar, deparei-me com uma maçaneta toda ornada em detalhes dourados, infelizmente a mesma estava trancada. Peguei um pequeno objeto presente à minha volta e bati na maçaneta até ela estourar. Meu coração pulsava aceleradamente, eu reconhecia meu destino. Ao entrar dentro daquele espaço que tanto lutei para entrar, me deparei com pisos alvos, pastilhas refletindo minha imagem e uma pequena pia de louça.

Uma visão atingiu minha mente. Toda a vida que eu conheci já se desfazia em pedaços. Ninguém mais poderia lembrar de mim, eu era uma louca, esquecida. Desde minha infãncia era notável que eu, a mais jovem entre cinco irmãs seria a mais insensível ou a mais excluída. Eu não possuia talentos incríveis como minhas irmãs, porém nunca fui valorizada o bastante para poder dizer os meus. O que seriam sentimentos? Bem, acho que isso não era importante.

Olhando meu reflexo no espelho, exerguei uma lâmina pairar sobre um canto da pia. Talvez seja isso mesmo, é o fim. Meus pulsos estavam doendo, porém não hesitei de cravar a lâmina neles. O sangue fluía por entre os fundos cortes que fiz, e aos poucos sentia que a vida se esvaía, e ouvia murmúrios que talvez seriam gritos apagados pela escuridão de meu ser.

Embora eu tivesse apenas vinte e dois anos, apenas vinte e dois, não me arrependi. Eu conseguia sentir cada gota de meu sangue cair no piso do banheiro. A vida não existia mais. Eu, Jane Morriston, estou morrendo. Meu ex-marido não se importaria, assim como ninguém. A família já estava distante, só sei que, neste trem dei verdade ao mundo.

***


Os guardas forçaram minha entrada em uma cabine decorada com âncoras. Um senhor de quepe branco apareceu repentinamente dizendo:

– Oh! Senhor Alan, que prazer recebê-lo. — sorriu.

– Me desculpe, mas o senhor está louco? — gritei desesperado.

– Não, não, não... — o velho balançou os dedos de forma negativa.

– Eu lhe trouxe aqui porquê você é um elemento muito importante, senhor Alan. Em verdade, não deveria estar andando por Astoria. — disse enquanto pegava um cigarro em uma caixa sobre a mesa.

– Eu não estou sozinho. — respondi.

– Muito bem — tragou o cigarro — Creio que voce esteja acompanhado por alguns seres do mundo espiritual. Devo lhe advertir que Astoria é muito diferente do seu mundinho.

– Eu não conheço nada aqui, mas já entendi essa informação. — afirmei.

– Que bom, afinal, acabei de lhe dizer. — sorriu.

'Mas que velho chato', pensei. Ele realmente era intrigante.

– Bem, deixe-me apresentar. Meu nome é Elliot Holfstat, sou o coordenador de segurança de Astoria — disse exibindo as medalhas nas vestes.

Elliot era um homem robusto, de meia ideade e com um colete cheio de medalhas condecorativas. Sua barba era branca e seu bigode fazia uma volta próximo às bochechas. Suas vestes lembravam roupas militares de época, porém eram bem atuais, simultâneamente.

– Aquele plebeu que lhe acompanha, qual é mesmo o nome dele? — perguntou.

– Marcus, e ele não é plebeu. Muito gentil ao seu saber. — respondi.

– Não me questione, rapazinho. Eu que dou as ordens por aqui. — respondeu com um sorriso malicioso.

– Tudo bem. — acatei sem expressões.

– Eu lhe trouxe para minha sala pois você irá passar por um teste, antes de se encontrar com a rainha Andrea. Afinal, como saberei se você tem honra o bastante para isso? — disse cuspindo em minha face.

– Eu não sei, mas eu estou aqui para outras coisas, pergunte a Marcus, ele irá lhe responder, senhor. Por favor, não me puna. — implorei com medo.

– Levem ele para a torre. — disse Elliot.

A torre era inóspita para meus olhos. Além de escura e úmida, com um odor desagradável Eu só queria saber onde estava Marcus. Suspirei sem rumo diversas vezes até pensar no que estaria aconteendo. No dia seguinte, ao amanhecer, fui recebido por um soldado dizendo que meu banho estava pronto.

– O senhor irá almoçar com vossa majestade hoje. — disse o soldado

Não disse nenhuma palavra. O soldado me puxou pelo braço e e levou em uma sala repleta de banheiras de madeira e sais de banho. Eu entrei dentro de uma das banheiras e senti uma leve sensação no corpo e na alma. Até que a neblina passa um pouco e percebo que havia um homem na mesma banheira.

– Olá, jovem. Como vai você? — disse o homem olhando para o nada.

– B-bem. — respondi sem reação.

– Chegue mais. — disse.

Eu não sabia o que fazer neste momento, apenas desviei o olhar e fingi que nada estava acontecendo. De repente senti os pés dele tocarem os meus dentro da banheira. Senti um leve arrepio e não expressei nada.

– Meu nome é Josh Klempf, prazer. — sorriu.

– Alan Gourgel — disse seco.

– Bem, Alan. És um jovem um tanto quanto atraente. Está sozinho aqui por quê? — perguntou Josh.

Eu procurava o guarda com os olhos e não o achava em lugar nenhum, então fiquei sem escolhas e comecei a dar atenção a Josh.

– Apenas vim tomar banho. — respondi com um sorriso.

– É mesmo? — disse Josh ironicamente.

Eu não conseguia me mexer muito bem estava muito fatigado e a água aparentava anestesiar minhas reações. Espantei-me.

– Vejo que não consegue tomar banho direito. — disse Josh.

– Está tudo bem. — afirmei.

Josh se levantou, nu. E veio para perto de mim, tocando meus braços e me levantando de forma ereta, ajeitando-me sentado na banheira. Comecei a tremer, até olhar nos olhos do mesmo.

– Não tenha medo — disse Josh.

Josh era um homem jovem, barbudo e inspirador. Olhei fundo em seus olhos castanhos e pensei por um momento que ele queria alg comigo.

– Agora sim, posso lhe ver melhor. — disse enquanto acariciava meus cabelos.

– Por favor, pare. — argumentei.

– Acalme-se, querido. Vou apenas lhe dar algo bom e relaxante. — disse enquanto se aproximava de mim.

Nossos lábios se encostaram. Eu mal conhecia aquele homem, porém meu coração estava aelerado. Cedi-me ao beijo e o beijei. Senti-o ficar excitado por mim e o afastei. Porém ele sorriu e disse:

– Há muito mais disso, se vir comigo. — sorriu maliciosamente.

Não expressei nenhuma reação, apenas levantei-me da banheira e fui em direção à porta. Eu estava com vergonha e também não sabia o que fazer. Abri a porta e fui atrás de minhas roupas. Quando chego no vestiário, encontro um bilhete escrito sobre minhas vestes:

"Isso é apenas o começo" — J.K.

Eu sabia que era daquele tarado. Porém não deixei de gostar do bilhete. Aquilo foi um bom momento. Agora só me restava uma flechada no rosto para que eu o procure novamente. Um pequeno pó saiu de minhas roupas. Achei estranho, porém fiquei bem.

Quando estava indo para a sala de testes, dada pelos homens de Elliot, encontro novamente um bilhete próximo ao meu quarto, dizendo da seguinte forma:

"Pode ter ignorado, mas ainda estarei de volta". A.A.

Eu não tinha ideia de quem poderia ser além de Josh, então guardei o bilhete no meu criado mudo e fui tentar relaxar. Afinall, aquilo era apenas o começo.