Astoria

3 Capítulo 2 - O Mundo Espiritual


De certa forma, creio que um bilhete em cima de minha carteira não é algo impressionante. Na maioria das vezes continha insultos como: “gay”, “bicha”, “mariquinha” entre outros. Não hesitei, abri o bilhete e me surpreendi com o que se dizia:

“Seus olhos refletem um pouco de si, seu sorriso é uma forma clara de amor. Quando poderei sentir os mesmos lábios que produzem tal maravilha?” J.P.

Eu não sabia qual seria minha expressão no momento. É claro que eu não queria me olhar num espelho, pois a timidez foi alta em meu ser. Sentei-me corriqueiro na carteira e guardei o bilhete em meus bolsos da blusa.

Senhor Carter adentrou a sala e disse:

– Muito bem, alunos! Seus diários foram entregues e espero que comecem a produzi-los desde já, afinal, jornalismo também é uma arte. Não só por palavras, mas por imagens e gestos. Como primeiro plano, gostaria que vocês criassem um relatório contendo o que vocês esperam para esse novo ano, o que precisam melhorar e o que desejam alcançar. Entreguem na minha mesa até amanhã. – Levemente tocou a mesa como se tocasse um piano e encarou a todos nós. Seu olhar às vezes era muito assustador.

Realmente, não tinha ideias para expor ante a meu diário. O bilhete ficava na minha cabeça, como um martelo batendo em um sino, tentando soar um pensamento sobre. Mas, quem era J.P.?

Perambulando pelos corredores da faculdade, noto certo aspecto sombrio no corredor. Normalmente, a faculdade é cinza e estranha. Resolvi olhar apenas por curiosidade. Um rapaz surge das sombras, da porta da sala de música e sorri para mim. Aquele sorriso era engraçado, esdrúxulo.

– Olá, Alan. – disse aquela voz sinuosa.

– Oi... Não sei o que me trouxe aqui, porém sinto que há algo que devo saber. – disse em alto tom.

– Bem, não há nada que deva temer. Você está protegido, seguro. Mesmo que as sombras aparentem te cegar. – sorriu o rapaz.

As luzes se acenderam aos poucos, um temporal se aproximava, aparentemente. Eu pude perceber o vento frio correndo pelo meu pescoço. Uma mão fina e suave tocou meus ombros. Um toque feminino, suave.

– Muito prazer, Alan. Meu nome é Andrea Doria. Sou a rainha de Astoria. – disse uma voz melodiosa.

Eu não tinha ideia do que era Astoria. Ou quem era. Apenas olhei espantado aquela senhora surgir do nada.

Com cabelos louros bem claros, olhos azuis e um manto azul celeste com plumas, Andrea Doria era totalmente luxuosa e magnífica. Em suas mãos, luvas finas de seda estampavam um brasão todo caprichado som símbolos seculares, e no busto, um grandioso colar com turquesa.

– O...o que é Astoria? – perguntei.

– Acalme-se meu querido. Tudo será respondido a seu tempo. – sorriu Andrea.

Comecei a pensar que alguém deste lugar, grupo ou movimento psicodélico quisesse me conhecer e se chamasse J.P. fiquei comovido e duvidoso.

– Vocês conhecem algum J.P.? – perguntei inocente.

– Quem? – perguntou um súdito da rainha.

– Nada... – respondi.

O tempo passava vagarosamente, era como se estivéssemos dentro de uma centelha de segundo. Andrea apontou dizendo:

– Bem, meu jovem. Astoria é um reino, composto por um mundo surreal, de onde sua família saiu. Talvez você deve estar achando que somos loucos, mas não. Nunca notou algo estranho na sua infância? Poderes de sua mente? – Andrea sentou-se num banco do corredor.

Realmente na minha infância, tímida em maioria, mas diferente de todas, eu conseguia interagir com as pessoas mentalmente, atraindo-as para mim. Foi uma afirmação surpreendente.

– Sim, senhora. – respondi.

– Não me chame de senhora. Chame-me de Andrea. Gosto de ser agraciada com meu nome. – respondeu um tanto quanto áspera.

– Bem, vim trazer a novidade de que você deverá ir para Astoria. Nós o aguardaremos, para que no quinto mês, o mês de Utizch, você realize seu dever como membro de nossa corte. – disse entregando-me um pergaminho com selos azuis.

Mas o que era isso tudo? Pensei.

– Bem, mas e a minha vida normal... eu tenho família, estudos.. – respondi confuso.

– Nada será alterado. Não há lugar mais seguro do que Astoria, meu caro. – disse Andrea.

– Marcus! Stella! Apareçam, por favor! – a rainha se sentou novamente.

Dois focos de luz colorida, azul e amarela surgiram, e deles, um homem e uma mulher, aparentemente perfeitos um para o outro em aparência.

– Cuidem de Alan. – disse Andrea.

– Sim, vossa majestade. – responderam em uníssono.

– Bem, Alan. Determino os meus dois conselheiros a estar todo o tempo contigo. E você deverá obedecer ao que eles disserem, é essencial. Ah, e aqui está sua lista de objetos que você necessita. – jogou-me um pergaminho vermelho.

– Sim, Andrea. – respondi confuso ainda.

– Gosto assim. – respondeu sorridente.

Andrea deu duas palmadas no ar e tudo desapareceu, um grande vento tocou o corredor e eu estava ali, ainda. Foi mágico.

– Alan, Alan, acorde. – uma voz dizia.

– Andrea? – disse meio vagarosamente.

– Quem? Sou eu, Cassie. – disse.

– Onde está Astoria? A Magia? – perguntei abismado.

– Pare de sonhar, você está caído aqui há 3 horas. – respondeu Cassie.

– Meu Deus, como isso foi possível? – perguntei.

– Não sei, mas acho que seria bom vc ir para casa. Venha, eu lhe acompanho até a estação. – disse Cassie se mostrando preocupada.

Tudo se fez um mistério para mim, não sei se sonhei ou se foi real, quem era J.P., que diabos era Astoria. Agora apenas andava com Cassie em direção ao trem. Sentando-me num dos assentos mais do canto dos vagões já esperei as portas fecharem. Cassie me perguntava se estava tudo bem de dois em dois minutos.

– Bem, desço aqui. – disse Cassie.

– Tudo bem, obrigado! – respondi e dei-lhe um beijo na maçã do rosto.

Continuei sentado no vagão. Ainda deveria tomar mais algumas estações e integrar com outra linha. De repente um vulto começou a aparecer no canto oposto do vagão. Pensei que fosse só coisa da minha mente, porém estavam apenas eu e mais poucas pessoas naquele vagão. O trem começou a andar devagar devido à velocidade reduzida, e como numa explosão de luz, Marcus surgiu ao meu lado.

– Olá, Alan! Que bom te ver – disse bem humorado.

– Oi... Marcus. – falei meio sem jeito.

– Há muito que fazer, não acha? – ajeitou a barra da calça e colocou seu chapéu no colo. – Você precisa conhecer Astoria antes dos testes. – disse sincero.

– E o que isso tem a ver com entrar em um trem depois que vocês me nocautearam em público? – perguntei ranzinza.

– Bem, as pessoas não podem tomar conhecimento disso. Por isso é bom realizar tais protocolos. – respondeu Marcus.

– Entendi. – respondi com um sorriso amarelo.

– Não é necessário negar sua origem, meu caro. –disse Marcus.

– Devemos descer na próxima estação. Só assim posso lhe mostrar o que deve conhecer. – voltou a dizer com um sotaque estranho, assim como de Andrea.

– Não, a minha casa é mais à frente. – repliquei.

– Não me dê ordens, me obedeça. – respondeu Marcus.

O trem parava vagarosamente na plataforma da estação. Normalmente, o metrô era escuro, porém essa estação era relativamente das trevas. Talvez fosse construída sobre um cemitério, é perceptível.

Marcus guiou-me para um lugar que provavelmente seria uma conexão com outra linha abandonada ou em projeto, e com o anel da mão direita, tocou o chão. Eu achei um tanto estranho, mas de repente uma grande porta saiu debaixo daquele local. E uma música predominou no ambiente, vinda de dentro da porta. Uma harpa suave, porém melancólica. Tocava em ritmos leves como se fosse um local de repouso.

– Onde estamos? – perguntei.

– Estamos na divisão do mundo espiritual com o plano mágico de Astoria. – respondeu. – Porém, devemos passar por aqui, pois devo lhe dirigir um local de honra no mercado. Ainda mais numa hora dessas. – disse Marcus.

A porta se abriu, e poeira caía de seus bastidores, conforme o movimento do metrô fazia a terra tremer. Adentrei, minha alma ficou leve.