Assombrado
6 Capítulo 5
“Sei que havia prometido para você, meu amigo, que iria tirar esse amor de meu peito, mas foi impossível. Sinto muito por tê-lo deixado para trás, Graham. Eu o amo como amigo, porém nada além, disso. Quero ficar com Killian. Eu o amo de todas as formas possíveis que se é permitido amar. Amo ser abraçada por ele e de seus beijos. Amo seus sorrisos no fim de noite quando nos deitamos juntos para dormir. Amo acordar ao lado dele. Se Jones quisesse as mesmas coisas que eu e me pedisse em casamento, eu diria “sim” sem nem pensar duas vezes. Aceitaria de bom grado viver para sempre nesse navio, desde que estivesse com Killian. Não consigo mais me imaginar sem ele. Amo-o tanto que chega até a doer de um modo bom, meu amigo e certamente não irá me julgar por isso, não é mesmo? Seria ainda melhor se ele quisesse as mesmas coisas que eu.”
Carta de Emma Swan para Graham Humbert. Outubro de 1862.
Bati a porta da grande casa que apontaram dizendo ser da família French.
Havia mandado uma carta para Belle avisando que estava indo visita-la em Paris.
Não havia dito o motivo.
A porta se abriu e um mordomo de idade, estudou-me.
—Oui? – falou.
—Bonsoir... Je m’appelle, Killian Jones. Je suis un ami de mademoiselle French. – pronunciei sem saber se era aquilo mesmo. Emma havia tentando me ensinar, mas achei complicado demais e acabei por desistir.
O homem deve ter entendido, já que indicou que entrasse e esperasse, enquanto se enfiava para dentro da casa.
Observei o vestíbulo em tons claros, mais para o salmão, com um espelho grande e redondo ao fundo. Esculturas estavam espalhadas e havia candelabros presos às paredes. Duas poltronas florais estavam dispostas cada uma ao lado de um sofá branco.
—Bem diferente da casa de campo, não? – a voz familiar atingiu meus ouvidos e olhei para o corredor por onde o mordomo havia desaparecido e encontrando Belle caminhando com um sorriso em minha direção. – O espelho ao fundo, colocado em direção à porta é para espantar a inveja. Se algum invejoso entrar aqui, irá olhar para o próprio reflexo e a inveja se voltará para ele... – explicou. – Como vai Killian?
—Indo da melhor forma possível, senhorita French. Desculpe por chegar tão tarde em sua residência.
Belle olhou ao redor, voltando a fitar meu rosto, a interrogação surgindo em seus traços.
—Onde está Emma? – quis saber.
—É exatamente por esse motivo que estou aqui. Eu esperava que você soubesse. – falei, dando um passo em sua direção, mostrando o colar vermelho. – Eu a perdi, Belle e não consigo encontrá-la. – contei.
Ela ficou séria.
—Muito bem. Venha comigo e conte-me o que aconteceu. – pediu, dando-me as costas e saindo, para o corredor.
[...]
—Então você a traiu? – instigou assim que terminei de contar, empertigando-se, o rosto preso em uma carranca. – No dia seguinte que minha amiga se entregou para você? Mandou-a embora sabendo que tem uma louca querendo mata-la? Deixou-a sozinha?
—Foi uma escolha errada Belle. Eu a amo...
—Duvido muito. – resmungou. – O senhor disse que não a amava antes quando estiveram em minha casa... Por que agora seria verdade?
—Porque naquela época não era verdade quando disse que não a amava. Eu estava assustado por estar amando Emma tanto que cada dia que eu a via, apaixonava-me mais por ela... Belle, eu quero transformá-la em minha senhora Jones, dar filhos para Emma. Eu estou sendo assombrado por aquela noite todos os dias. Estou desesperado procurando-a para implorar por perdão. Já estive em Gotland, Swan esteve lá, mas conseguiu fazer sua parte e proteger o mundo. Estava no condado, todavia não há nada, senhor Mills não sabe de seu paradeiro. Imaginei que você soubesse, já que é a melhor amiga dela... Olhe nos meus olhos, Belle, e verá que não estou mentindo. Eu amo a Emma, mais que tudo. Ela é tudo de mais importante que tenho. Quando ela confiou em mim na noite que fizemos amor, foi o melhor presente que eu poderia ter ganhado.
Belle observou meu rosto, seu corpo relaxando, enquanto ela levava a xicara de chá aos lábios.
—Agora eu estou preocupada, senhor Jones, pois não tenho notícias de minha amiga desde que foram embora naquela noite quando senhor Humbert e o pai dela os encontraram. Se ela não está em Gotland, no condado e nem aqui... Não imagino onde possa estar.
Inclinei-me, segurando com hesitação em sua mão.
—Emma está no reino dela, eu acho. Como deve saber, ela não é filha de Cora e Henry, Swan foi sequestrada quando bebê. Regina armou para que nos conhecêssemos porque sabia que somos destinados. Ela descobriu isso quando conversou com Branca, a verdadeira mãe de Emma. Foi por esse motivo que ela me contratou...
—Espere! – ela me cortou, erguendo as mãos. – Minha amiga era um trabalho?
—Inicialmente, sim... Eu teria que levá-la até Gotland... Contudo nos apaixonamos como deveria ter acontecido se ela não tivesse sido tirada de seus pais. No entanto... Elas não chegaram a mencionar o nome desse reino.
Belle piscou atordoada.
—Não sei como ajudá-lo, Killian... E já não sei se acho uma boa ideia. Você sempre quebra o coração de minha amiga. Quantas vezes achou que poderia fazer tal coisa e ainda tê-la esperando-o de braços abertos no fim da noite? Sorrindo e perdoando-o? Você fala que suas palavras daquela noite foram vazias, mas foi isso que sempre fez. Procurava Emma depois de fazer as coisas erradas. No aniversário de Emma, se divertiu com prostitutas e então foi atrás dela. Minha amiga o perdoou. Teve aquele acontecimento na Ilha dos Mouros que Emma me contou em que você passou a noite com uma, tal de Zirba, em um momento que ela estava precisando de alguém ao lado dela e no dia seguinte, quando já estava tudo bem, que Baelfire tinha a ajudado, você vai lá e a beija. Ela confiou em você e depois que lhe entregou tudo, o que fez? Enfiou outra mulher em sua cama!
Balancei a cabeça em uma negativa.
—Eu não... – comecei. – Eu nunca a usei, Belle. Sempre respeitei Emma. Ela nunca foi um divertimento. Sei das coisas que fiz de errado, mas eu não irei mais cometer esses erros. Desde que Emma foi embora, eu não estive com nenhuma outra mulher, porque ela é a única que quero em minha vida. Eu quero me casar com ela. Prometo que não irei mais quebrar o coração dela, pois estaria fazendo isso com o meu. Temos um coração, Belle. Eles são idênticos, batem no mesmo ritmo. Sentem da mesma forma.
A mulher mexeu a cabeça, tirando uma linha inexistente solta do vestido.
—Tentou algum modo de entrar em contato com ela?
—Venho conversando com videntes, feiticeiras, qualquer pessoa que eu encontre e tenha um dom. Todas dizem mesma coisa.
—Dizem o que?
—Que como teve quebra de juramento a donzela partiu para sempre. E esse partiu significa morte, já que elas têm apenas um companheiro para a vida toda... Por isso preciso encontrar Emma logo. Eu não posso deixá-la morrer. Não quando eu estou aqui, amando-a cada dia mais mesmo estando longe. Eu sou o guerreiro dela, amante, amigo e tudo mais. Devo protegê-la do mesmo modo que ela me protegeu... A última feiticeira que conversei, ela me aconselhou a mandar uma mensagem amarrada à perna de um cisne e murmurar o nome de Emma para a ave, que iria leva-la.
—E funcionou?
—Não sei. Já tem um tempo que fiz isso.
Belle suspirou, colocando-se de pé.
—Eu espero que essas pessoas estejam erradas, caso contrário eu mesma irei matá-lo. – ameaçou. – Gostaria de passar a noite?
Anuí, colocando-me em pé.
—Se não houver problema e seus pais não acharem ruim, eu gostaria sim, Belle.
—Não se, preocupe com meus pais, eles estão “viajando”... Cada um para a casa de seus amantes. – informou. – Pedirei para Jehan preparar um dos quartos de hospedes para você. Se precisar de mim, estarei na biblioteca, tentando achar um modo de ajudá-lo.
—Eu poderia... – comecei.
—Não. Não pode. Você não saberia buscar respostas em livros, é impaciente demais e acabaria, atrapalhando, dizendo que é inútil.
Suspirei profundamente, aquiescendo, sabendo que Belle estava certa ao deduzir que eu faria aquilo. Não possuía paciência para ler, mesmo que fosse importante, eu divagava para longe no meio de uma frase e nunca entendia todo seu conteúdo. Por isso eu gostava de ouvir Emma contando histórias. Ela não deixava a atividade monótona. A musicalidade em sua voz, a tonalidade em cada palavra e como parecia brincar com cada linha, dialogo e vírgula que estava lendo.
—Tudo bem. Muito obrigado.
[...]
Eu não fazia ideia de que horas eram, apenas que não conseguiria voltar a dormir mesmo que quisesse.
Procurei a biblioteca para saber se Belle ainda estava acordada, querendo alguma companhia, mesmo que fosse para ficar em silêncio. Já havia me acostumado a procurar Landon sempre tinha um pesadelo para conversar.
Depois de entrar em vários cômodos, percebi uma luz alaranjada escapando por debaixo da porta e aproximei-me, espiando pela fresta e encontrando a morena debruçada sobre um livro, lendo atentamente, enquanto jogava um biscoito na boca.
Dei uma batidinha de leve para anunciar que estava entrando e Belle ergueu a cabeça.
—Killian! – exclamou surpresa, ajeitando-se na cadeira.
—Vim ficar um pouco com você. Isto se você não se importar... Encontrou algo?
Ela massageou os ombros, fazendo que não.
—São poucos os registros sobre as Donzelas- Cisnes... O que está me levando a acreditar que é exatamente por elas morrerem. – falou. – Veja. – Belle chamou-me para perto da mesa. – Leonardo da Vinci pintou um afresco intitulado: “Leda e o cisne”. Você conhece a lenda de Leda, não? – indagou, erguendo seus grandes olhos claros para mim.
—Eu deveria saber?
Ela bufou.
—Leda era uma bela princesa, recém- casada com o rei Tíndaro, herdeiro do reino de Esparta. Leda gostava de se deitar na relva para apreciar os cantos dos pássaros e de exibir seu corpo para os raios de sol. Em uma dessas vezes em que ela estava deitada seminua, Zeus estava passeando e a viu. Com medo de assustá-la, transformou-se em um belo e grande cisne...
—Isso não está com uma cara muito boa. – resmunguei.
—Ao ver o belo cisne, a princesa começou a observá-lo e Zeus sem perder tempo começou a mover suas plumas, a movimentar seu corpo para mostrar sua excitação diante da beleza de Leda, a voz delicada da ave demonstrando o desejo e a paixão. Então ele começou a acaricia-la com suas penas... Excitada com aquilo, a princesa deitou-se novamente na grama, onde esperou que o cisne se deitasse sobre ela, para que pudessem se amar.
Fiz um som de nojo, achando a história perturbadora.
—E onde isso se encaixa com Emma?
Belle revirou os olhos.
—Não me interrompa quando estou contando uma história. – repreendeu-me. – Leda acaba por engravidar de Zeus, e de dentro dela saem dois ovos. Do primeiro nascem Castor e Helena, do segundo Pólux e Clitemnestra. Contudo Hera, esposa de Zeus, com ciúmes proíbe Leda de viver no reino. Zeus acaba por transformar Leda em uma deusa, colocando-a para morar na constelação de Cisne.
—Terminou?
—Sim.
—Não achei essa uma história adequada para uma dama. – comentei e Belle deu de ombros. – Mas como “Leda e o cisne” se encaixa em Emma?
—A pintura original foi destruída por volta de 1515 e essa daqui... – ela apontou a imagem no livro. – É uma cópia que um dos discípulos de Da Vinci fez... Quem garante que foi realmente isso que Leonardo retratou? Quem destruiu? E se por acaso ele retratou uma Donzela-Cisne? Ninguém sabe sobre elas, porque devem ficar em segredo. E se Leda não era a princesa da lenda de Zeus, mas a Donzela-cisne que Leonardo retratou quando quebrou um juramento, na tentativa de eternizar sua amada?
—Ainda não sei como isso nos ajuda.
—O que eu quero dizer, que não há muitos registros sobre as Donzelas-Cisnes porque as pessoas não devem saber sobre elas. Emma e eu achamos muito pouco quando pesquisamos. As respostas que estão te dando Killian são baseadas em achismos por falta de informação. Tudo relacionado a elas desaparecem. Nada é concreto, além de que elas vão embora para sempre.
Andei até perto do fogo, observando-o crepitar.
—Sinto-me um pouco mais relaxado de saber que Emma possa estar viva, ainda assim, não é a resposta que quero... Preciso encontrá-la, Belle. Swan pode estar carregando meu filho, nosso bebê. Quero estar com ela.
Belle sorriu para mim.
—Eu disse para ela que você iria querer as mesmas coisas. – comentou. – O que está fazendo acordado?
—Pesadelo. – respondi.
Ela inclinou a cabeça levemente para o lado.
—Achei que não os tivesse mais.
—Haviam cessado... Até eu começar a pensar em perder Emma, depois que eu a perdi, mal consigo dormir.
—Quer conversar sobre seu pesadelo? Talvez eu consiga ajuda-lo essa noite. – Belle indicou o sofá onde se sentou e aguardou pacientemente para que eu me juntasse ao seu lado.
—Eu sonhei que Emma segurava uma criança nos braços. – contei. Não gostava mais de guardar os pesadelos para mim. – Ela estava tão linda, os cabelos desalinhados, uma expressão de cansada, mas seus olhos estavam radiantes enquanto olhava para o bebê em seu colo. A criança abriu os olhinhos e era como se eu estivesse vendo um reflexo dos meus. Meus olhos, no rostinho que tinha o formato do de Emma. – precisei cerrar o maxilar para não chorar com a lembrança. — Nosso filho. — soltei uma risada triste. — Eu me aproximei e ela sorriu para mim, erguendo o rosto para que eu a beijasse. Então sua expressão se tornou séria e ela perguntou onde eu estava que perdi o nascimento do nosso bebê. Incrível como nem em sonho eu faço as coisas direito. — comentei com amargura. — Nosso pequeno começou a chorar e Emma sussurrava sem parar “shh que eu irei cuidar de você. Eu o amo, nunca vou abandoná-lo", ignorando-me como se ela estivesse dando a entender que eu faria aquilo, quando na verdade eu acreditava que poderia morrer de felicidade ao observar minha, nossa família começando. Sentei-me ao seu lado, querendo ajudar a acalmar nosso filho, garanti que amava os dois, que ele não tinha com o que se preocupar que eu iria protegê-los... Belle eu sentia uma alegria e orgulho ao fazer aquela promessa. Eu beijei sua cabecinha e ele me encarou parando de chorar, como se entendesse e soubesse que eu era seu pai. Olhei para Swan e falei que a amava, dando um beijo em seus lábios e a agradeci por nosso filho. Emma então saiu da cama, apertando nosso bebê em seus braços, colocando a maior distância entre nós. Nosso filho ficou imóvel e Emma se desesperou, começando a chorar quando ele se desmanchou em um monte de sangue. Aproximei-me dela apavorado e Emma rosnou que era culpa minha. "Você nunca o quis! Se você me amasse isso não teria acontecido. Por que você não me ama?". Belle, não sabe como essas palavras me machucaram "você nunca o quis", quando eu estava tão contente por tê-lo, por saber que era uma parte minha e de Emma, que ele era a prova de que estávamos unidos para sempre, nos amando. E imaginar que Emma pensa que eu não a amo... – movimentei a boca, sem conseguir produzir nenhum som, tendo que limpar a garganta com um pigarro. -Então ela acusou "você me traiu, Killian". Não foi uma pergunta. Nunca é. Sempre é uma acusação. Para finalmente dizer às palavras que mais me assombram: "não o perturbarei nunca mais" – balancei a cabeça e olhei para Belle, que prestava atenção em mim. — Esta foi à última frase que eu ouvi de seus lábios aquela noite, olhando em seus olhos. Eu não a levei a sério e ainda disse "acho bom mesmo”. Agora todos os sonhos terminam com Emma dizendo essa frase, antes de sumir de algum jeito, deixando-me sozinho. – concluí.
Belle afagou minhas costas com suavidade.
—Seus pesadelos são todos assim?
—Não... Mas esse é o mais frequente. Sonho com Emma aceitando se casar comigo e quando eu vou colocar o anel em seu dedo, ela se desmancha, respingando-me com seu sangue. Em outros eu nunca consigo alcança-la, por mais que esteja lá. Também tenho pesadelos com Cora a torturando... E assim vai.
—Desculpe-me por ter sido tão dura com você mais cedo. – pediu, oferecendo-me um lenço.
Ponderei uns instantes, antes de aceita-lo, sem saber o que fazer com aquele pedaço de pano. Não costumava enxugar minhas lágrimas com aquilo.
—Você só estava no seu modo “amiga protetora”. Não precisa pedir desculpas.
—Nós vamos encontrá-la. Eu sinto aqui que vocês vão se encontrar e serão felizes. – ela pousou a mão sobre seu coração para dar ênfase. – E por sinal, acho que isso possa lhe interessar. – Belle levantou-se em um pulo, indo para trás da mesa e puxando uma gaveta, tirando de lá um punhado de cartas amarradas com barbante. – São as cartas que Emma escreveu quando estava em casa. Não li nenhuma, mas talvez o ajude dormir melhor se tiver uma partezinha nova que desconhece dela para ler antes de tentar voltar a descansar.
Caminhei até ela pegando os papéis de sua mão e dando um beijo estalado em sua bochecha.
—Muito obrigado, Belle... Você será a madrinha de um dos nossos filhos. –prometi.
Belle pegou a vela que estava em cima da mesa, parecendo acanhada.
—Irei cobrar senhor Jones... Quando sair da biblioteca, por favor, apague a lareira, sim? Tenha uma boa noite.
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