Assombrado
5 Capítulo 4
“Killian beijou-me sem eu estar esperando no dia anterior, quando estávamos na Ilha dos Mouros, Graham. Não sei como não percebi que ele acabaria por fazer isso novamente... Mas não estou irritada por causa do beijo. Para ser sincera, eu gostei de ter sido beijada mais uma vez por ele. Contudo estou com medo, meu amigo... Medo porque estou apaixonada por Killian Jones. Perdoe-me, eu não queria, tentei a todo custo evitar que isso acontecesse. Todavia prometo-lhe que irei tirar esse amor de meu peito. Não sei como fazer tal coisa, mas prometo que não irei amá-lo mais...”
Carta de Emma Swan para Graham Humbert, julho de 1862.
—Tem certeza que não quer companhia? – Landon indagou pela milésima vez, enquanto me ajudava com as vestes que não estava nem um pouco acostumado.
—Tenho Landon... Vamos fazer como combinado. Vocês irão para Toulon onde ficarão atracados. Encontrarei vocês lá, vou a cavalo até a casa de Belle. Ganharemos tempo assim. Irei bem mais rápido por terra do que por mar.
—Mas e se Emma estiver aqui?
—Se ela estiver, tenha certeza que estaremos com vocês até o fim da noite. – respondi, recordando quando Emma nos levou de volta para o navio com suas asas.
—Não acha melhor ir com suas roupas? – quis saber. – Emma nunca implicou com elas. Inclusive ouso dizer que ela prefere suas vestes de pirata.
—Eu irei encarar o “pai” dela. Preciso estar apresentável para que ele veja que sou um homem sério para casar com Emma. Sem falar que se Graham estiver aí, precisarei da aprovação dele também.
—Entendo. Você quer impressionar... Espero que a encontre. – Ladon bateu em meu ombro, andando comigo até o bote e ajudando-me a descê-lo.
Remei até a costa, tomando cuidado para não molhar muito a roupa. Talvez fosse um bom sinal que o mar aquele dia não estivesse agitado.
Talvez eu tivesse sorte.
Abandonei o bote assim que toquei a areia sem me preocupar em amarrá-lo. Quem o encontrasse poderia ficar com ele se interessasse.
Caminhei até o inicio da vila, procurando uma floricultura para comprar as tulipas. Pressionei a mão falsa na lateral do corpo, imaginando que deveria ter vindo com o gancho. Emma dizia que preferia, ele e talvez, estar com algo familiar para ela fosse bom.
—Boa tarde. – cumprimentei um senhor que estava parado com uma carruagem cheio de flores. – O senhor teria tulipas vermelhas? E brancas também.
O velho suspirou, levantando-se do banquinho que estava sentado, procurando em meio às outras flores, com toda a paciência do mundo, até formar um buquê, entregando para mim.
—Vocês jovens fazem as coisas erradas, depois acham que flores resolvem tudo. – falou. – Provavelmente decepcionou sua futura senhora, indo deitar-se com outra no calor do momento, e agora ela não quer mais se casar com senhor. – deduziu. – Os tempos estão mudando, rapaz. As mulheres não estão sendo como as mães delas que aceitavam uma traição sem dizer nada.
Entreguei-lhe as moedas pelas flores, agradecendo com um leve balançar da cabeça, irritado com sua observação.
—Boa sorte com ela. – gritou as minhas costas.
[...]
Bati na porta branca da imensa casa, recordando do tempo em que ficava escondido para vigiar Emma para me certificar que eu faria o trabalho corretamente.
Vi a chegar e sair várias vezes. Conversando com uma senhora de idade, que hoje deduzo ser Granny ou então com Graham. Lembro-me de vê-la na janela do quarto no fim da tarde olhando para o horizonte, com os últimos raios pálidos do sol batendo em seu rosto pensativo.
Hoje eu daria qualquer coisa para voltar aquele tempo. Eu teria ido conversar com ela, teria conhecido a melhor antes de prosseguir com o trabalho. Teria a admirado com outros olhos e provavelmente teria amado a como aconteceu.
Agora estava em pé em frente à sua porta branca, esperando que ela estivesse do outro lado dela.
Para correr para seus braços que eram minha casa, mais uma vez e ficar para sempre.
—Sim?
Uma criada loura abriu a porta, olhando-me com curiosidade. Engoli em seco, tentando achar minha voz. Eu quase não a estava usando nos últimos meses, deixava Landon dar as ordens necessárias para o navio continuar funcionando e ele era a única pessoa com quem me sentia a vontade para conversar.
—Srta. Emma Swan, por favor? — perguntei sentindo a ansiedade em cada espaço e letra daquele simples pedido.
A criada voltou a me encarar, trocando o peso dos pés e abrindo mais a porta.
—Sinto muito, senhor…?- incitou.
—Jones. Killian Jones. – apresentei-me.
—Como eu estava dizendo, sinto muito senhor Jones, mas a Srta. Swan nunca mais foi vista. O senhor não ouviu que ela está desaparecida?
Respirei fundo, sentindo a decepção pesar em meus ombros.
“Onde você se enfiou fada?”
—Eu ouvi algo, estava apenas esperando que ela tivesse sido encontrada.
—Sendo sincera... Todos já perdemos as esperanças… O senhor a conhecia de onde?
—Éramos amigos.
—Ella quem está na porta?- a voz grossa e meio falha indagou. A criada olhou para trás.
—Um senhor… Disse que era amigo da Srta. Swan.
O “pai” de Swan surgiu na porta e seus olhos se estreitaram.
—Você!
O cumprimentei com um aceno.
—Senhor.
—Ella pode se retirar. — ordenou e a criada anuiu, saindo sem dizer nada. — O que está fazendo aqui?
—Estou à procura de Emma, senhor. Imaginei que ela teria voltado para cá.
—A última vez que a vi ela estava fugindo com o senhor, se não me falha a memória, para que fosse entregá-la a Cora. — cuspiu. Olhei-o surpreso. — Sim, eu sei de seu trabalhinho sujo.
—As coisas mudaram senhor. Emma não era mais um trabalho naquela época, nós estávamos e ainda estamos apaixonados. Eu a amo e estou à procura dela.
—Se estão apaixonados por que a procura? Era de se esperar que estivesse com o senhor.
—Cometi erros. Preciso perdoar-me com ela para que Emma se case comigo... Por isso eu lhe imploro, se ela está aí dentro com o senhor... Deixe-me falar com Swan. – pedi.
—Emma não está aqui dentro. Como lhe disse a última vez que a vi, ela estava em sua companhia. Agora saía da minha casa! – ordenou, fechando a porta e eu impedi, forçando-a até que estivesse aberta novamente.
Peguei o anel em meu bolso, mostrando-lhe.
—Quero pedir sua benção para poder me casar com Emma.
—E o que o leva a pensar que eu a daria a alguém como você? – instigou com deboche.
Apertei o buquê de tulipas que segurava com o braço esquerdo, contra o peito.
—Eu sei senhor, que nenhum pai em sã consciência permitiria que esse casamento acontecesse... Mas eu a amo e prometo para o senhor que irei cuidar dela. Não deixarei faltar nada. Emma terá uma vida de princesa... Eu não sou mais aquele homem de antes. Sua filha é a tudo que mais tenho de importante.
Ele estudou-me atentamente.
—Rapaz, Emma não está aqui. – repetiu. – E como já deve saber, eu não sou o pai dela. Se ela voltou para casa, não foi para essa.
Assenti, guardando a aliança.
—O senhor sabe ao menos o nome do reino onde ela nasceu?
O homem negou com a cabeça, segurando na porta como se estivesse pronto para fechá-la.
—E mesmo que soubesse, eu não contaria para o senhor. Se Emma quisesse ser encontrada, ela teria ido ao seu encontro.
—Mas ela não pode, esse é o problema. Se eu não encontrá-la, Swan irá morrer.
Seu rosto permaneceu o mesmo, como se a informação da morte da menina que cresceu o chamando de pai não fosse nada.
Ou como se ele não estivesse surpreso. Como se já soubesse.
—Sua vinda até aqui foi inútil. – murmurou com pesar.
—Eu... – comecei sem jeito. – O quarto dela, ainda existe?
—Claro. Está intocado desde quando foi embora.
—Eu poderia entrar para vê-lo? – indaguei.
—Esse pedido é para abusar da minha paciência. – comentou. – Minha filha não está aqui e não deixarei você entrar em minha casa. Se a amasse, ela estaria com você, prova de que não é tão capaz assim de cuidar dela. Passar bem. – e bateu a porta em minha cara, sem me dar a chance de dizer mais nada.
Se eu não entrei por bem, teria que entrar por mal.
[...]
Andei vagarosamente até a igreja que Emma havia estado na manhã que eu a assaltei, encontrando-a vazia e já com as velas acesas. Observei as pinturas e o vitral ao fundo, as imagens dos santos e por fim, escolhi um dos bancos próximo ao altar, onde poderia observar a figura de Jesus, que parecia olhar para baixo, como se estivesse me vendo.
Olhando para mim, como um amigo e esperando que eu contasse meus problemas para Ele.
Acordei puxando o ar com desespero, como se ainda estivesse naquela tempestade, sendo sufocado pelas águas, enquanto buscava por Milah, mesmo sabendo que ela havia ido para sempre.
Um movimento sutil no chão chamou-me a atenção e encontrei Emma, ali caída, com a mão no queixo e uma careta de dor no rosto.
—Swan? — indaguei surpreso por ela ainda estar ali. Imaginava que assim que eu pegasse no sono a garota iria se esgueirar para fora, não se sentindo confortável de dormir ali.
—Ainda bem que acordou. — suspirou aliviada, colocando-se de pé, a mão ainda pressionando o queixo. — Estava um pouquinho complicado de lhe despertar. Foi muito ruim? — quis saber preocupada.
—O mesmo de sempre. — respondi com a respiração ainda irregular. Sempre demorava um tempo para o terror do pesadelo se dissipar por completo. — Por que está com a mão no queixo? — instiguei não aguentando de curiosidade.
Emma no mesmo instante abaixou a mão, como se tivesse lembrando que a colocara ali, abrindo um sorriso tranquilizador para mim.
—Não é nada. — falou com a maior naturalidade possível.
Apertei os olhos, escrutinando seu rosto, a falta de luz na cabine não ajudava e precisei acender a vela que estava ao lado da cama para poder ver qual era o problema, aproximando-a do rosto de Swan.
Abri a boca sem acreditar ao ver a marca vermelha, que com toda certeza iria se tornar um belo de um roxo mais tarde.
Ela tentava me ajudar, mesmo eu não merecendo sua ajuda, afinal eu estava levando-a para morte e ainda a agredia.
—Eu fiz isso? Eu lhe bati?
—Não foi culpa sua. — garantiu com calma, afastando o rosto da claridade. — Está tudo bem. Sério que já está aparecendo à marca?
—Não está tudo bem. — retruquei. — Deixe-me ver isso. — coloquei as pernas para fora da cama, para poder ficar mais próximo de Swan. — Eu sabia que isso não iria dar certo. Eu não acredito que bati em você, Emma. E seu queixo está vermelho.
Toquei onde estava vermelho, com cuidado, temendo machuca-la ainda mais com meu jeito rude. Afaguei o lugar, nem ousando respirar quando vi os olhos de Emma brilhando e seu corpo em alerta.
E então ela começou a gargalhar.
Foi um som estranho, que explodiu sem eu estar esperando. Que invadiu o lugar e pareceu deixa-lo mais alegre, com cores que apenas eu conseguia enxergar. Que vez meu corpo vibrar com aquela risada gostosa de ouvir-se, que a fazia fechar os olhos e seus lábios esticarem-se ainda mais, deixando os dentes perfeitos a mostra.
Lancei um olhar sem entender para ela, apesar de estar gostando de presenciar aquilo.
—Qual a graça? — questionei.
Emma balançou a cabeça de um lado para o outro, fazendo os cabelos se agitarem, as mãos segurando a barriga, tentando respirar. Seu rosto estava vermelho pela falta de ar e ela se inclinou para frente, murmurando um “ai” sempre que puxava o ar, mas a gargalhada o impedia de chegar ao seu destino.
—De todas... — começou, olhando para cima e abanando o rosto com as mãos. — Ai, de todas as coisas que eu imaginei... — outra pausa, enquanto ela respirava fundo de olhos fechados. — Isso não tinha entrado na minha lista. — informou, voltando a rir.
Tirei a mão de seu rosto, percebendo que ela esperava que eu acabasse tentando atacá—la ou seduzi-la e estava com medo disso.
Todavia mesmo estando com medo, ali estava Emma Swan, mantendo sua palavra.
Peguei-me rindo com ela. Não sabia qual o motivo, mas estava. Meu corpo todo chacoalhava e eu precisei inclinar-me para frente, sentindo dor com a falta de ar, porém não me importando com isso.
Fazia tanto tempo que não ria por simplesmente rir.
Rindo, porque em momento algum, eu pensei em tentar seduzi-la como fora antes que cada passo que eu dava perto dela era com essa intenção.
Eu estava rindo, porque a companhia daquela mulher havia se mostrado algo que eu precisava, sem de fato perceber.
Swan encostou a testa em meu ombro e o cheiro fresco de grama e chuva atingiu meu nariz, mas foi um breve momento, antes que ela retornasse a sua posição original, secando os olhos, tentando se controlar.
—Isso foi engraçado. — comentou com a voz estranha.
Voltei a me ajeitar na cama concordando com ela. Com medo de falar algo e estragar aquela felicidade que emanava dela e que preencheu a cabine de vida.
—Quer voltar a dormir? — perguntou observando-me atentamente. — Aqui, dê—me sua mão. Irei lhe ensinar a rezar.
Torci o nariz, olhando para sua mão erguida.
—Eu realmente gostaria de pular a tentativa religiosa.
Emma se empertigou.
—Você acabou de me agredir. — acusou séria. — Vai mesmo me negar essa tentativa?
Fixei meus olhos em seu queixo, imaginando o quanto de força havia usado sem intenção.
—Você sabe que eu estou brincando, já falei que isso não foi nada. Irei me ajoelhar... — ela se colocou de joelhos ao lado da cama, procurando minha mão. — E então iremos rezar juntos. Você irá repetir comigo.
—Repetir com você? — instiguei com escárnio.
—Claro. Granny fazia assim comigo. — explicou os cantos de sua boca se contorcendo, enquanto ela lutava para permanecer séria.
Às vezes eu tinha a sensação que se pudesse, ela viveria sorrindo para todos, como se tivesse consciência de que parecia melhorar, mesmo que um pouquinho, os ânimos.
—E como seria? — questionei, sentindo-me relaxado de repente.
—Começaria com “Querido papai do céu, muito obrigada por mais esse dia. Obrigada pelos meus amigos, obrigada pela comida que tenho e minhas vestes. Olhe pelas pessoas que estão ao relento, pelas almas dos homens maus...” — comecei a rir da forma que ela falava, como se estivesse conversando com uma criança, silenciando-a. Swan deve ter percebido isso, pois começou a rir comigo ao invés de ficar irritada. — Pode começar a repetir. — ordenou com uma falsa autoridade.
—Sem chances, Swan.
Seu sorriso permaneceu no rosto. Um sorriso materno, de quem queria proteger da melhor forma que podia.
—Pode ficar na cama. Sei que deve pensar o contrário, mas Deus é seu amigo Killian. Converse com Ele e Ele o escutará. — seu tom estava sério, deixando claro que havia acabado o momento descontração.
—O que eu devo dizer? — escutei-me perguntando.
—Qualquer coisa que sentir vontade. Conte sobre seu dia, agradeça por alguma coisa que achou que lhe foi boa, conte para ele suas angustias. Fale sobre as pessoas que são importantes para você. Conte seus medos... O que quiser. Deus não irá lhe julgar Killian. Tudo o que Ele quer é lhe ajudar e está esperando ansioso por esse momento. Apenas converse como se fosse um velho amigo que não vê há muito tempo e que estão colocando as novidades em dia.
Apertei sua pequena mão com força, o calor que irradiava de sua palma se infiltrando pela minha e aquecendo todo meu corpo.
Por um momento imaginei ter visto uma luz branca emanando de nossas mãos.
—Tenho que fazer isso em voz alta?
—Não é necessário. Faça em silêncio, mas de coração. Tente acreditar. Então reze o Pai nosso e faça o sinal da cruz. Pronto? — quis saber.
Fechei os olhos e bufei impaciente, sem saber como começar a fazer aqui.
“Eu sinceramente não sei o que falar, porque principalmente não acredito que isso resolva em algum momento... Não sei por que concordei com isso. Não há o que agradecer, já que Você me tirou tudo, abandonou-me quando criança e tirou a mulher que eu amava. Não tenho nada. E se realmente existir, não deve estar muito orgulhoso. Veja só. Essa garota ajudando-me e eu irei levá-la para a morte. Ela nem sabe disso...”
Abri os olhos rapidamente, encontrando Swan de olhos fechados, o rosto concentrado. Comecei a afagar sua mão com o polegar.
“É estranho que alguém queira cuidar de mim sem um interesse. E ela se preocupa de verdade, eu sinto isso. Confesso que estou sendo consumido pela culpa nesse exato momento... Eu a julguei mal. Emma é, muito mais do que todas aquelas coisas que achei antes. Ela não é mimada, não é fútil. Um pouco curiosa, mas uma boa mulher. A prova disso é que está aqui comigo, confiando em mim, que irei respeitá-la...”
Espiei-a novamente, constatando que eu também estava começando a confiar nela. Que ao aceitar sua ajuda, que a principio era pensando no trabalho, eu a deixei ver em meu momento mais frágil.
Emma Swan viu que eu não era o que aparentava. Conheceu-me e eu não estava incomodado com isso, porque ela não julgava, aceitava cada parte que eu a deixava ver, tentando entender para continuar ajudando.
“Então pelo dia de hoje, irei agradecer por ela. Mesmo que eu não seja digno, pois não irei desistir do serviço, sou grato por Emma se preocupar comigo. Não são muitas as pessoas que me veem como um homem e sim como um monstro. Não sei se isso foi uma prece, mas eu tentei e de verdade. Amém.”
Ergui a mão de Emma junto com a minha, fazendo o sinal da cruz, observando seu rosto.
Ela abriu os olhos e piscou como se estivesse desnorteada.
—Então?
Dei de ombros não sentindo nada de diferente.
—Acho que eu conseguiria dormir melhor se você se juntasse comigo. — murmurei deixando bem claro que estava brincando com ela e não tentando constrangê-la como das outras vezes, escutando em minha voz a estranha sonolência se assentando.
Geralmente nunca conseguia voltar a dormir depois que acordava.
—Ficarei aqui, sentada ao lado da cama até que você adormeça. — prometeu, ainda segurando minha mão.
—Boa noite, Emma. — falei, para que soubesse que queria tentar voltar a dormir. —A propósito tenho trinta. — contei. Por algum motivo minha idade parecia ser importante para Swan, e não havia motivos para escondê-la. Emma merecia aquela informação.
—O que?
—Você queria saber minha idade. Tenho trinta anos. — repeti.
—Sério? — Emma arregalou os olhos de surpresa. — Eu jurava que devia ter uns quarenta e cinco, quase cinquenta. Está mal conservado, capitão. Talvez um banho nas águas termais de Bath lhe faria bem. — sugeriu o olhar atento escrutinando meu rosto.
Lancei lhe um olhar, esperando estar deixando claro que não estava achando graça.
—Estou brincando. — atalhou.
—Claro que está brincando. É bom que esteja brincando Srta. Swan. — tentei soar ameaçador, mas pela forma que Emma me fitava, sabia que havia falhado.
— Obrigada por me dizer. Se ainda não sabe eu tenho dezoito. — compartilhou.
Aquiesci, sem me atrever a falar nada. Eu sabia. Sabia quase tudo sobre a vida dela, talvez até melhor que a própria.
Segurei sua mão um pouco mais forte para que ela não a retirasse da minha e esperei ser embalado pelo sono. A cabine voltou a se tornar silenciosa, mas dessa vez parecia diferente.
Eu estava me sentindo seguro pela primeira vez em anos, constatei.
Emma ergueu minha mão e senti seus lábios tocando meus dedos delicadamente, o gesto que sua babá fazia.
“Eu o respeito e irei cuidar de você”
Era uma promessa.
Meu peito se agitou de uma forma estranha e eu soube nesse momento que não importava.
Eu não conseguiria terminar o trabalho por mais que quisesse.
—Boa noite, Killian.
A casa estava escura.
Certifiquei-me disso antes de correr para a janela que eu sabia que era do quarto de Emma e começar a escalar com dificuldade. O gancho estava no lugar que deveria e eu equilibrava o buquê que havia comprado para Swan.
Assim que pisei na varanda, forcei a janela e ela simplesmente abriu sem problemas. Afastei as cortinas, deixando que a luz da lua invadisse o ambiente. O cheiro mesmo que fraco da minha Emma atingiu meu nariz. Reparei que a decoração era azul e branca.
A cor da sala que eu sempre estava quando sonhava com nossa casa.
Adentrei no espaço, tocando tudo onde imaginei que um dia Emma teria tocado. Espalhados em todas as superfícies de forma organizada, havia coisas que não faziam sentido. Flores secas, fitas, botões, pedaços de panos aleatórios. Seus pequenos tesouros. Swan tinha a mania de guardar tudo.
Aproximei- me da penteadeira, onde a imaginei durante a noite, sentada ali, penteando os longos fios louros, já em sua camisola pronta para dormir. Peguei em minha mão o desenho de um navio inacabado que estava preso no espelho.
Jolly Roger.
Na parte de trás estava à data do dia da invasão do condado.
Guardei-o comigo sem nem pensar duas vezes.
Continuei a estudar cada parte do quarto. Abri gavetas, vidros de perfumes, cada caixinha com joias que ela possuía. Abri seu closet, entrando e sendo recebido por várias vestidos, seu cheiro bem mais presente naquele espaço. Sua essência que estava sentindo tanta falta. Os sapatos ficavam mais ao fundo, e separada solitária, havia uma camisola azul.
Aquela camisola azul.
—Ela é curta mesmo, Swan. — murmurei, tocando o tecido gelado. — Você deve ficar linda quando a veste. – elogiei, pensando que se ela estivesse ali, teria revirado os olhos para então ficar corada.
Retirei a camisola do cabide, colocando-a, dentro da bolsa de couro que estava carregando, contendo algumas coisas pessoais para minha viagem até Paris.
Voltei para o quarto, indo para a varanda, onde eu a havia visto tantas vezes. Admirei a vista que ela devia gostar de olhar. O mar, à distância, pequenas ondas brancas se quebravam antes de chegarem à praia.
Será que você já me esperava Emma?
Olhei uma última vez o quarto e pousei o buquê no meio de sua cama.
Nada ali, mas eu continuaria procurando.
Encostei a janela, descendo e tentando fazer o mínimo de barulho possível.
Voltei pelo mesmo caminho que havia chego, parando para olhar para o balcão de Emma, como se magicamente ela aparecesse e sorrisse para mim.
Mas estava vazio. Como todos os lugares onde ela um dia esteve.
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