Assombrado
4 Capítulo 3
“Querido amigo, algo incrível aconteceu. Killian aceitou minha ajuda... E sim, eu ofereci minha amizade a ele mesmo depois do beijo. Não fique bravo, Graham, o fiz porque percebo que Jones é um homem sozinho e que precisa de companhia. Vejo que ele sente falta de ter um amigo... Assim como vejo que por baixo de toda aquela marra, Killian é um homem bom. Tenho passado as noites na cabine com ele, cuidando o seu sono e tenho o conhecido melhor para saber do que estou falando. E gosto desse homem que conheço todas as noites. Gosto de me ajoelhar ao lado de sua cama, segurar sua mão e rezar. Gosto de dar-lhe um beijo de boa noite na bochecha e cobri-lo. Às vezes é fácil confundi-lo com uma criança que se sente deixada de lado, porque Jones realmente gosta quando faço essas coisas mínimas que estávamos acostumados quando crianças. Para nós, um beijo na bochecha, uma leitura antes de dormir, alguém ao seu lado para ensiná-lo a rezar, assim como uma pessoa para lhe cobrir e afagar seus cabelos antes de dormir não é nada, para ele é tudo. Vejo como tem um grande significado. Estou fazendo isso tem poucos dias, mas já vejo mudanças. Jones está mais falante, seus olhos mais suaves e ele está sendo mais gentil com todos. Gosto de acreditar que estou ajudando-o na maneira que eu posso e sei: cuidando com todo carinho...”
Carta de Emma Swan para Graham Humbert. Maio de 1862.
Nada em Gotland.
Apenas um punhado de corpos em decomposição em uma caverna perto da praia.
Nenhum deles de minha Emma, felizmente.
Se ela estivera ali, havia tido sucesso em vencer e proteger o mundo.
Minha guerreira.
Apenas esperava que estivesse viva.
Com todos os videntes, e pessoas com dons que conversei todos me diziam a mesma coisa: que como o juramento fora quebrado, a donzela havia ido embora para sempre.
Mas esse “ir embora” significava “morrer”, porque as donzelas, assim como os cisnes, apenas tinham um companheiro para a vida toda, e quando ficavam sozinhas, morriam de tristeza.
Eu precisava encontra-la antes que isso acontecesse.
Estávamos navegando em direção à Merseyside, onde eu esperava que ela estivesse. Emma com toda certeza voltaria para casa... Ela conhecia como chegar até lá. Poderia voar sem problemas para um lugar familiar.
Então por que não voara de volta para mim?
Cada dia era uma luta em que eu a procurava pelo navio, até recordar que ela não estava mais comigo. Em que eu a buscava para irmos dormir, ou então para provocá-la. Sentia falta de conversar com ela. Emma tornara-me um homem falante e agora não tinha com quem falar.
Seu silêncio me incomodava.
Das outras vezes, mesmo que Swan não estivesse falando comigo, eu a tinha ali, a um olhar de distância. Poderia ir durante a noite observá-la dormir e afagar seu rosto, tentando resistir à tentação de beijá-la.
Apesar de seu silêncio, eu podia vê-la.
Agora não tinha nada.
—Capitão. – Smee se aproximou sem jeito do leme. – Encontrei isso na despensa e imaginei que... O senhor se interessaria.
Ele esticou uma caixinha de madeira em um tom de azul escuro e imediatamente a reconheci.
—A caixinha de Emma! – peguei de suas mãos, admirando-a. – Obrigado por ter me dado. Assuma o leme para mim, sim?
—Claro capitão. – concordou, tomando meu posto.
Desci para a cabine, a respiração um pouco irregular com a expectativa de ter um pedaço de minha menina comigo.
Sempre pedi para que ela conversasse comigo.
Agora eu teria todas aquelas conversas.
Sentei na cama, abrindo a caixa e encontrando as cartas empilhadas, organizadas por data.
Observei a caligrafia conhecida de Swan, lendo cada uma de suas palavras com cuidado, com medo de deixar passar alguma coisa, ouvindo sua voz em minha mente, como se estivesse ali, conversando, como costumávamos fazer.
Fiquei horas lendo e relendo seus escritos. Vendo nossa história ali, contada desde o começo, até o dia que ela havia me perdoado. Recordei cada pedaço que vivemos e que havia esquecido.
Nunca fiquei tão feliz por Emma não ter conversado comigo.
Pude ver quando aconteceu, mesmo que fosse suas palavras, seu ponto de vista, que nos apaixonamos. Vi nosso relacionamento criando formas através de cada vírgula e frases bem estruturadas. Sabia que faltavam cartas, afinal, lembro-me que Swan escrevia quando ficamos na casa de Belle e essas ficaram lá... Mas todo o resto estava ali, disponível para eu reviver quantas vezes quisesse até encontrá-la.
—Tudo bem. Já me desculpei e eu vou indo me deitar. — avisou as mãos batendo na lateral do corpo. — Você deveria fazer o mesmo. — sugeriu sem jeito.
Arqueie uma das sobrancelhas, abrindo um sorriso malicioso para ela.
—Está convidando para me juntar à senhorita?
Reprimi a risada que quis sair ao ver seus olhos se arregalando.
—Não, claro que não! Que ideia, Jones. Só estou dizendo que está parecendo cansado e não me lembro de tê-lo visto descansando nos últimos dias, fica apenas aí o tempo todo. — explicou com gestos exagerados para o leme.
—Para garantir que cheguemos ao lugar planejado.
—O senhor e Bae conseguiram descobrir o lugar? — quis saber e vi seu corpo se retesando.
—Temos uma ideia de onde possa ficar.
—E vai me contar?
—Duvido muito que saiba onde fica, Swan.
—Certo, mas vá descansar. O senhor está péssimo, acorde Bae e peça para ele ficar em seu lugar ou Landon. Vai ser inútil todo esforço para chegar até lá para no fim o senhor não aguentar ficar acordado. Uma boa noite de sono também é sinal de saúde, senhor Jones.
Senti um sorriso sincero surgindo em meu rosto ao perceber que Emma estava de fato preocupada comigo. Com meu bem estar.
—Irei dormir pela manhã. Feliz?
Swan pressionou os lábios como se dissesse “sim”, e então seu rosto assumiu uma expressão como se ela compreendesse algo simples.
—O senhor tem pesadelos. — afirmou com convicção. Fitei-a surpreso pela sua dedução tão certeira. — Não gosta de dormir a noite, pois tem medo dos pesadelos. Sobre o que são seus pesadelos, Killian? — perguntou com doçura. — São com Milah, não são? — sugeriu suavemente.
Precisei desviar o olhar e comecei a assoviar, deixando claro que não queria falar sobre aquele assunto. Não com ela, e nem com ninguém. Swan havia deduzido, apenas porque era perceptiva demais e havia ligado os pontos, isso não queria dizer que precisava ficar sabendo de tudo que fosse relacionado a mim e ao meu passado.
Não era da conta dela sobre o que e com quem eram meus pesadelos.
Emma pegou um caixote e o arrastou até estar sentada ao meu lado, observando-me com aqueles olhos verdes e que naquela noite, pareciam ser tão profundos, como se tivesse visto muito mais do que deixava transparecer.
Como se soubesse das coisas.
—Quando eu era criança costumava ter medo do escuro também. — começou. — Eu tinha esses pesadelos realmente horríveis, com mãos negras me puxando ou eu sendo tirada a força dos braços protetores de uma mulher sem rosto. E tinha gritos, muitos gritos desesperados, como se implorassem. — contou, a voz como se estivesse engasgando. Apesar de seus olhos estarem fixos em meu rosto, percebi que estava longe dali.
Aguardei uns minutos, querendo que ela falasse mais. Querendo saber mais.
—E como você superou?
—Tive ajuda de Granny, mas eram sonhos realmente perturbadores para uma criança. — Emma engoliu em seco, piscando, e sua atenção retornando para mim. Por algum motivo, quis sentar-me com ela e segurar sua mão, garantindo que eram apenas sonhos ruins, que não tinha nada para se preocupar. — Porque... Essas mãos negras puxavam cada membro meu com força, até se descolar e me deixavam deitada, sangrando. E sempre escutava uma voz dizendo “quando a troca for feita, finalmente teremos tudo”. — repetiu sem emoção e percebi como estava perturbada tendo que reviver aquilo. E ela estava fazendo para tentar mostrar que eu não estava sozinho. Estava relembrando seus pesadelos para tentar me ajudar. — Não sei por que tinha esses sonhos. Granny sempre entrava em meu quarto quando eu começava a gritar e a chorar.
—Sua mãe não a confortava? — consegui perguntar, minha voz saindo estranha.
Swan balançou a cabeça, tirando fios de cabelos que a brisa jogava em seu rosto.
—Minha mãe sofre dos nervos, não tinha paciência para ir acalmar uma criança barulhenta e fresca. — explicou com um dar de ombros como se não fosse nada demais. — Mas é para isso que temos babás, Granny me abraçava e ficava horas conversando comigo, então lia uma história bem bonita, daqueles livros cheios de gravuras, sabe? Ela beijava meus dedos assim. — ela levantou a mão, depositando um beijo em seus dedos. — Ela diz que significa “eu lhe respeito e vou cuidar de você”, de onde veio. Até que um dia ela fez eu me ajoelhar ao lado da cama e comecei a rezar todas as noites. — não resisti a não soltar uma risada de deboche ao ouvir aquilo. As pessoas tinham que parar de achar que havia alguém olhando por elas e aceitar o fato que era cada um por si no mundo. — Você ri, mas realmente ajuda. Depois que comecei a rezar, os pesadelos deram uma parada e no lugar comecei a sonhar com um casal que sempre me conforta. Eles me dizem coisas que nunca ouvi de meus pais, e sinto que me amam. Sei que é loucura, mas consigo sentir isso sempre que me abraçam em meus sonhos.
—Não acredito que rezar irá resolver meu problema. — confessei. Eram pecados demais carregados nas costas. Se houvesse um ser superior de verdade, já teria me abandonado há tempos.
—Você ao menos já tentou? — questionou com curiosidade. Fiquei em silêncio. Para que tentar rezar se eu sabia da verdade? Que estava sozinho como sempre fora. — Imaginei que não. Não foi fácil no começo, Granny muitas vezes chegou a dormir no meu quarto. Ela dizia que se, dormirmos com a segurança de que há alguém conosco, é o suficiente para afastar os sonhos ruins, pois nos sentimos protegidos.
—Quantos anos você tinha quando os pesadelos pararam?
Emma fechou os olhos, seu rosto se contorcendo de leve, enquanto tentava lembrar-se.
Aproveitei esses segundos para admirar sua face e como todos seus traços eram bem desenhados. Provavelmente os pintores adoravam retratá-la quando chamados e outros tantos deviam ter desenhos dela, que Emma nem soubesse da existência.
—Por volta dos meus dez, acho. Às vezes eles ainda aparecem. E se quer saber eles começaram quando tinha quatro anos. Graham acha que pode ser algum trauma, uma memória escondida de quando eu ainda era bebê.
—Você ainda era um bebê quando começou a ter esses sonhos, Emma. — resmunguei. — Você conversava com Graham sobre seus pesadelos?
—Claro, ele é meu amigo. Até pouco tempo atrás sabíamos tudo um do outro. E então quer compartilhar histórias? — instigou.
Respirei fundo, olhando para as estrelas. Eu não precisava contar. Não era por que Swan se abrira para mim que eu tinha que fazer o mesmo. Eu não havia pedido.
—Sim, são com Milah, da noite em que a perdi. — ouvi-me respondendo, ainda sem encará-la.
—O que aconteceu? — continuou de leve e com uma sinceridade que me surpreendeu. Ela não estava sendo curiosa e intrometida. Estava realmente interessada no que eu tinha para dizer. E pelo seu tom, se eu decidisse não contar mais nada, Emma não iria insistir. Não iria me forçar a lembrar-me algo que sabia que me causava dor.
E nunca havia convivido com uma pessoa assim, tirando Landon que presenciara tudo.
— Uma tempestade nos atingiu, das bem furiosas, acho que você nunca deve ter presenciado uma ainda. Ela ficou no convés comigo, ajudando a manter o navio controlado... — contei, sentindo um aperto na garganta ao recordar daquela noite. Ao lembrar-me de minha Milah. -Uma onda veio daquela direção e outra nos encontrou de frente. — apontei para esquerda e para proa, ainda sendo capaz de ver as ondas adentrando o convés e arrastando tudo em seu caminho. — E invadiu o convés na intenção de levar e esmagar o que encontrasse pela frente, eu tive tempo de me segurar, porém quando procurei por Milah... — precisei parar para recuperar o fôlego e controlar a respiração. — Eu deveria ter me preocupado em segurá-la ao invés de me salvar e isso me assombra. Imagino o peso da onda esmagando seus ossos, ela sendo jogada de um lado para o outro nas águas traiçoeiras. Até ela desistir de lutar. Por isso que não queria ter Baelfire a bordo, ele me recorda ela e não quero que nada aconteça com ele enquanto estiver à minha vista. — justifiquei, ainda sem conseguir fitá-la.
Senti um toque hesitante e delicado em meu braço, e encontrei sua mão ali, pousada, como se tentasse me dar algum conforto. Emma apertou um pouco, seus olhos leves, observava-me de maneira carinhosa e então ela sorriu.
Ah se Emma Swan soubesse que o sorriso dela já era capaz de confortar alguém porque parecia que irradiava calor e luz, juntamente com toda paciência do mundo daquele simples esticar de lábios.
—Por que você não tenta dormir um pouco? Eu lhe faço companhia. — sugeriu de supetão. Emma piscou, endireitando-se como se pesasse as palavras que acabara de proferir, confirmando que havia dito aquilo de fato. — Posso ler... Posso lhe ensinar a rezar, podemos conversar ou cantar uma canção... Não sei alguma coisa. — continuou com um dar de ombros, como se não fosse nada demais o que havia acabado de oferecer.
Encarei-a com descrença. Swan realmente achava que poderia me ajudar com as técnicas que sua babá usou com ela quando era criança?
—Por que não? Se não resolver nós não tentamos novamente. Não custa nada. — insistiu.
Pressionei os lábios. Seria ótimo aceitar o que ela estava oferecendo... Facilitaria tanto o meu serviço de conquistar sua confiança como o contratante pedira.
—Me sinto um idiota considerando isso. — atalhei.
—Já eu me sinto contente só pelo fato de estar considerando aceitar minha ajuda.
Mas por outro lado, estava de certa forma, irritado por Swan achar que eu queria sua ajuda para superar Milah. Os pesadelos me assombravam pelo o único motivo que era para não me deixar esquecer que a mulher que eu amava havia morrido por minha culpa. Porque eu decidi me salvar e esqueci que precisava salvá-la.
Eu não tinha que superar. Aquele era o meu castigo.
—Não vejo isso funcionando, Swan. — respondi por fim.
Seus ombros caíram e sua expressão ficou desapontada. Suas bochechas ficaram levemente rosadas e ela encarou as palmas das mãos, antes voltar seu olhar para o meu rosto, um sorriso forçado em sua face.
—Bom... Tudo bem. — Emma apoiou as mãos nas coxas, se levantando e abaixando-se para pegar o caixote. Queria dizer que não precisava sair correndo, que poderia ficar ali sentada se ainda quisesse. Que o fato de eu não ter aceitado sua ajuda, não queria dizer que não queria sua companhia. —– Vou ir me deitar. Boa noite Killian.
—Então você encontrou as cartas de Emma? – Landon indagou enquanto treinávamos com as espadas.
Assenti, atacando-o.
—Smee as encontrou na verdade. Ele apenas entregou.
—Você acha que ela está no condado?
Suspirei fundo, sendo “morto” por ele, para então recomeçarmos a luta.
—Sinceramente? Eu não sei Landon... Eu espero que sim, ao mesmo, tempo que algo aqui dentro já sabe que não encontrarei nada... Emma deve estar com quase dois meses agora de gestação, já deve ter tido a certeza que está grávida. O bebê já deve ter começado a se mexer dentro dela para que saiba que está ali, crescendo.
—Como você sabe?
—Estou deduzindo pelo tempo que ela foi embora. Sei disso porque ajudava Milah a tirar quando ficava grávida, você sabe. – comentei, sentindo-me desconfortável. – Ela sempre esperava o segundo mês para ter certeza e então dizia “tem algo se mexendo dentro de mim, Killian”. Eu não conseguia sentir, mas ela sim... Nosso ovinho já deve estar se mexendo dentro de Emma e ela deve estar feliz. – sorri imaginando como seria a reação de Swan ao ter certeza que está grávida. Querendo ter estado com ela para receber a noticia. – Agora eu entendo porque Emma ficou tão furiosa comigo quando contei o que Milah e eu fazíamos quando um bebê estava a caminho... Eu simplesmente não consigo entender o porquê de eu ter feito tal coisa.
—Você deixou seus traumas para trás, filho. Você era machucado demais naquela época, seu passado e tudo mais. Não era o correto, mas eu sei que você o fazia pensando no bem maior. Agora finalmente tem consciência e sabe que é verdade, que é capaz de ser amado e dar amor, Killian. Você sempre foi muito inseguro nessa parte. Agora você cresceu e se tornou um homem que sabe o que quer. Que tem muito amor para dar e sabe que merece sim receber. Quando estamos machucados demais, isso nos impede de crescer, porque ficamos presos a aquelas feridas e o que nos levou a consegui-la, desse modo nunca ultrapassamos as dificuldades que surgirão, ficando um passo atrás daquilo que as causou, com medo de nos machucar novamente. Recuar nunca é a solução, porque isso não nos faz crescer.
—Graças a Emma isso aconteceu. – respondi e Landon balançou a cabeça em negativa.
—Graças a você mesmo, rapaz. Emma apenas o direcionou para conseguir superar isso, ela ajudou-o a limpar suas feridas para que conseguisse caminhar sem problemas. Emma esteve aqui para ajuda-lo, mas foi você que escolheu ser ajudado e ir nessa caminhada para superar tudo. Emma lhe mostrou qual caminho seguir, contudo foi você que decidiu segui-lo para se tornar o homem que é hoje. Se você não quisesse ser melhor, de nada adiantaria ela lhe orientar no caminho certo, porque não iria segui-lo. Então o mérito é todo seu, nunca se esqueça. Se, é o homem completo que é hoje, foi porque você quis assim.
Abaixei a espada, fitando o rosto dele.
—Por que você ficou? Quando eu me perdi, por que ficou Landon?
—Porque eu o amo como se fosse meu filho, achei que já soubesse disso. Um pai de verdade, não deixa uma parte sua para trás quando ele está em seu pior momento... Talvez eu devesse ter sido mais firme, não ter cedido as suas vontades e ter mostrado que não era o melhor caminho a se seguir aquele que escolheu para tentar aplacar a dor. Mas eu não iria deixa-lo, Killian, não quando você esteve do meu lado no instante que mais precisei. E eu vou ajuda-lo sempre que precisar. Nós iremos encontrar Emma, nem que para isso eu tenha que ir com você até o fim do mundo.
Funguei, olhando para o outro lado.
—Muito obrigado por ter ficado... E por achar que o mérito é meu, mas não acho que consigo sem Emma aqui.
—Eu sei que você consegue. Você sabe que consegue, mas Emma é o amor da sua vida, aquela que foi feita para você amar e para retribuir esse amor. É natural que pense dessa forma, que não irá conseguir, porque havia planejado um futuro com ela. Casamento, uma casa, filhos... Você atingiu o maior nível de segurança que poderia querer. O de compartilhar uma vida feliz, com amor e completa, com outra pessoa. O “felizes para sempre” das histórias.
Comecei a rir, pensando como eu não havia percebido antes o quanto Landon era sábio.
—O que foi? – quis saber curioso.
—Perdoe-me por não ter te dado o valor necessário... Você realmente é um pai, Landon.
Ele coçou a nuca sem graça, olhando para a espada.
—Está tudo bem... Quer continuar treinando ou podemos nos abraçar agora?
Abri os braços e Landon revirou os olhos rindo, empunhando a espada.
[...]
Estava sentado na cabine, encarando a xícara de chá de mulungu que Landon insistia que eu tomasse toda noite para que eu conseguisse dormir. Ele acreditava que poderia fazer efeito eventualmente.
E fazia de fato, o problema era que os pesadelos eram mais fortes que qualquer chá para dormir.
Engoli o liquido tépido de uma vez, indo para a cama e encarando o broto de feijão que ficava ao lado, sentindo-me mais próximo do meu bebê dessa forma. Coloquei um pouco de água no algodão, deixando-o na direção que a luz da lua iluminava.
Meu corpo começou a ser atacado pela moleza e deixei-me cair na cama, tirando as botas com dificuldade, minha cabeça pesando.
Não me preocupei em tirar a roupa, apenas me ajeitei no colchão e esperei a escuridão do sono me invadir por completo, pelo tempo que decidisse me deixar descansar.
Eu estava parado no meio de uma sala de estar sozinho. Dois sofás verde musgo estavam próximo. Uma mesa com bebidas ficava ao canto. Uma lareira de mármore branco estava apagada, as cinzas caídas, borrando o chão de madeira.
A casa estava escura e dali, poderia dizer que era aconchegante. As paredes de um leve tom de azul com branco demonstrava que quem quer que, morasse ali não gostava de extravagância. A única claridade no ambiente, era a luz que vinha de fora. Os pássaros fazendo algazarra demonstrava que deveria ser dia.
Comecei a caminhar, tentando reconhecer o lugar, algo familiar.
Tentando me localizar.
Até que eu a vi pela janela do corredor e meu coração bateu um pouco mais rápido ao perceber que era ela.
Emma.
Swan usava um vestido azul escuro e seus cabelos estavam escondidos por uma bandana. Ela parecia cansada e carregava uma cesta cheia de legumes apoiada em sua barriga.
Procurei a saída da casa com desespero, querendo chegar até minha menina, abraçá—la, mal acreditando que havia a encontrando.
—Emma!- gritei atraindo sua atenção. Swan olhou para mim e sorriu, parando e esperando que eu chegasse até ela pacientemente.
Tirei a cesta de suas mãos e a abracei com força, sentindo-me aliviado e feliz de tê—la em meus braços novamente.
Nunca mais iria soltá—la.
—Nossa! O que eu fiz para merecer um abraço desses?- instigou brincalhona enquanto me retribuía.
—Onde você esteve Emma? Eu senti tanta a sua falta que achei que morreria. — confessei, beijando sua bochecha.
Ela se separou o suficiente para estudar meu rosto, a testa franzida.
—Como assim onde eu estive? Estava aqui em casa o tempo todo. — respondeu simplesmente, com um dar de ombros.
Olhei para a casa pequena e de aparência acolhedora.
—Essa... É nossa casa?- perguntei receoso.
—Sim. Nós a escolhemos. Recorda-se? Assim que nos casamos. — explicou.
Segurei sua mão esquerda, encontrando o anel de noivado e uma aliança dourada em seu dedo anelar.
—Nós estamos casados?- questionei. — Você é minha senhora?
—Você está bem Killian? — Emma indagou preocupada, tocando meu rosto. — Está um pouco quente... Será que está ficando doente?
—Eu a amo, senhora Jones. Minha senhora. Meu amor. Minha fada. Mãe dos meus filhos. Eu a amo, Emma. — falei, gostando da forma que as palavras soavam em minha boca. — Eu a amo. — repeti.
Ela sorriu, alcançando meus lábios.
—Eu o amo, meu marido. Amo de verdade meu senhor Jones.
Desci meus olhos para sua barriga, encontrando-a razoavelmente grande.
Sorri, tocando-a com cuidado, sentindo as lágrimas pesando em meus olhos.
—Você está grávida. — constatei. — Quanto tempo?
—Uns cinco meses, você sabe. — respondeu com uma careta, soltando-se de mim e se abaixando com dificuldade para juntar o conteúdo da cesta que eu derrubara. Juntei-me a ela para ajudá—la. — Onde esteve por sinal? — quis saber, olhando-me de relance. — Você desapareceu ontem o dia todo. Deixou-nos sozinhos.
Fiquei em silêncio, tentando recordar onde estivera e por que fui estúpido de deixá—la sozinha e grávida, um dia todo.
E pelo visto a noite também.
Peguei a cesta do chão e ofereci o gancho para Emma se levantar.
—Estive ocupado. Nada com o que se preocupar, fada. Estou aqui agora e não sairei.
Swan presenteou-me com seu sorriso que eu tanto amava e entrelaçou seu braço ao meu.
E então ela parou de repente, um protesto de dor saindo de seus lábios.
Olhei assustado para Emma que tinha uma mão pousada em sua barriga, os olhos fixos no chão.
Segui seu olhar, ficando apavorado ao encontrar sangue.
—Emma! — soltei a cesta. Se eu corresse com ela para o quarto, talvez ajudasse. Talvez ela precisasse de repouso depois de fazer esforço físico.
Tinha lido que aquilo às vezes acontecia e a mulher não podia fazer nada muito pesado.
Então um grito cortou sua garganta e ela se encolheu, gotas grandes de suor descendo por sua testa.
—Vou levá—la para dentro amor. — falei tentando manter a calma para não deixá—la nervosa. — Vocês vão ficar bem. Vou cuidar dos dois.
—Você me traiu. — acusou com um fiapo de voz, apertando meu braço com força e com a outra mão ainda amparando a barriga. — Por que você me traiu?
—Conversamos depois sobre isso.
—Por que você não me ama? — instigou a voz embargada, um gemido de dor escapando dela.
—Eu a amo. Você sabe que eu a amo, Emma. Amo mais que tudo nesta vida.
Ela gritou mais uma vez, cambaleando.
Mais sangue.
Nosso bebê estava morrendo.
E eu não sabia o que fazer para mantê—lo dentro dela.
Não sabia como ajudar.
—Não. — ela resfolegou, cravando seus olhos em mim. — Eu sou apenas mais uma vagabunda que você procura quando está entediado… Sou um verdadeiro fardo em sua vida...
Balancei cabeça em uma negativa, trazendo-a para perto de mim, beijando sua testa gelada.
—Nós estamos casados, não estamos? Temos nossa casa. Estamos começando nossa família, Emma. Eu estou aqui com você porque a amo, porque você me fez querer essas coisas. Uma vida doméstica. Uma vida completa e cheia de amor. Nosso bebê é a prova disso. Uma parte minha e sua. Isso que eu disse não tem valor algum. Perdoe-me por essas palavras. Minha vida é um inferno quando você não está nela. Eu a amo minha menina, você é a minha esposa porque gosto de chegar aqui e ser recebido com todo esse amor que apenas você sabe me amar.
Swan soluçou, engasgando, o rosto marcado pelas lágrimas.
—Você nunca o quis. Nunca quis nosso filho… Isso está acontecendo por sua culpa.
—Emma eu quero nossos filhos. Agora eu quero ser pai. Eu nunca a faria perder um bebê. Nunca a induziria a abortar uma parte nossa. Amo nossos filhos, meu amor. Amo você. — peguei a nos braços, correndo em direção a casa, a respiração saindo pesada. — Perdoe-me por tudo de errado que fiz se em algum momento a fiz pensar que meus sentimentos não eram reais…— comecei em pânico, enquanto ouvia as reclamações de dor saindo dela e o sangue quente escorrendo. — Nunca quis ofendê—la, fada. Perdoe-me por cada palavra vazia que direcionei para você... Emma? — chamei-a quando, tornou-se imóvel, os sons que emitia cessando. — Fada? — tentei novamente, ajeitando-a nos braços para ver seu rosto. Os olhos estavam abertos e vítreos, a boca entreaberta. — Não… Emma não, você não pode. Fique comigo. Eu a amo. Quero nossa família. Nossa casa cheia, como combinamos, lembra? Amor, responda-me. Podemos tentar outra vez um bebê. Estarei aqui do seu lado, cada momento. Não deixarei que saia da cama. Não a deixarei sozinha nunca mais. Vou cuidar de você, meu amor.
Mas seu corpo pequeno e que antes emitia calor, estava pesado, tornando-se gelado em meus braços.
E o sangue que um dia seria nosso filho continuava a pingar.
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