Assim Estava Escrito

32 O que os olhos veem o coração sente


Notas iniciais
Olá pessoal! Deu ruim para o nosso casal, não é?! Aiaiaiaiai... Mas acalmem-se, ainda temos mais 6 capítulos! Será que elas vão se resolver?! Boa leitura! Comentem à vontade!

Os dias se passaram. Clara e Marina continuavam separadas. Não se viram nem se falaram mais. Clara não estava indo às aulas de fotografia e nem às de desenho, às quais ela decidiu retornar somente quando a professora Regina voltasse. Enquanto isso, dividia-se entre os cuidados com o filho e a casa de leilões, onde passou a ajudar a irmã Helena todos os dias à tarde. Desde que começou a trabalhar com Marina, Clara habituou-se a uma rotina mais agitada. Por este motivo, afastada da fotógrafa e do estúdio, a morena ofereceu ajuda à irmã, pois lhe inquietava a ideia de ficar em casa o tempo todo. Além do mais, ficar em casa era ter mais tempo para lembrar da fotógrafa, e isso ela não queria.

Por sua vez, Marina resolveu dar tempo e espaço para a esposa, conforme havia lhe pedido Chica na conversa que tiveram. Passava os dias na expectativa de que Clara a procurasse. Não queria sair de casa, não queria ver ninguém. Parou de dar aulas no Galpão e só aparecia no estúdio tarde da noite, quando ninguém mais estava. Às vezes deitava-se no chão, onde tantas vezes estivera antes com Clara. Agora sozinha, apenas acompanhada de uma garrafa de uísque, ela ficava a rever fotos e mais fotos da amada. Normalmente adormecia por ali mesmo. Durante o dia, alternava entre seu quarto e a beira da piscina, sempre bebendo.

À medida que o tempo passava e Clara não lhe procurava, Marina bebia mais e cada vez mais cedo. Para cumprir o compromisso assumido junto ao Galpão Cultural, Flavinha assumiu as aulas de fotografia de Marina.

No dia marcado para a volta da professora Regina, Clara organizou-se para o retorno às aulas de pintura. Preparou-se também para o reencontro com a esposa. Imaginando que Marina continuava a frequentar o Galpão, sabia que o encontro com ela seria inevitável.

Clara sentia falta da fotógrafa. Sofria por estar distante de Marina. Muitas vezes quis esquecer tudo e simplesmente ir correndo para os braços da amada. Mas junto com a lembrança da esposa, vinha também a imagem de Marina nua na cama de outra mulher. Assim, toda a mágoa que sentia retornava e dominava qualquer possibilidade de reconciliação com a fotógrafa.

A morena se preparou para a aula e foi. Chegou no Galpão um pouco mais cedo. A primeira pessoa que reencontrou foi Regina, a professora de pintura.

— Ei Clara, que saudades de vocês, do Galpão, das aulas! — Exclamou Regina.

— Também sentimos sua falta Regina! Especialmente eu! Nossa, aconteceu tanta coisa. — A morena falou com os olhos marejados.

Percebendo a angústia de sua aluna, Regina chamou Clara para conversarem em um lugar mais reservado antes que a aula começasse. A morena então desabafou. Contou das aulas com Juan, como ele confundiu a aproximação deles. Contou o que Marina viu e como as coisas foram desmoronando a partir disso. Não conteve o choro quando falou da separação.

Regina ouviu tudo consternada. Não podia crer que sua ausência e consequente substituição fossem trazer tanto transtorno para a vida da morena.

— Clara, eu nem sei o que dizer. Sinto muito por tudo que o Juan causou a vocês. Nunca imaginei. Estou com tanta vergonha.

— De jeito nenhum Regina! Você não tem culpa de nada, é todo mundo adulto aqui. Pelo amor de Deus, eu estou apenas desabafando com você, não estou falando isso pra você se sentir culpada. Não quero isso de forma alguma.

— Nossa Clara, estou sem palavras. Te peço sinceras desculpas e espero de coração que você e Marina se acertem.

— Quem sabe Regina... quem sabe... — Clara demonstrava certo ceticismo, mas o coração ainda batia forte pela fotógrafa. — Mas vamos parar com esse negócio de pedir desculpas, se não eu nem vou pra aula mais. — A morena ameaçou brincando.

— Então tá bom, parei! — Respondeu Regina, ainda um pouco sem graça. — Vamos falar de pintura então?! — A professora perguntou. Clara concordou.

Encaminharam-se para a sala de aula. Lá Clara reencontrou a pintura que havia feito de Marina. O quadro permanecia no cavalete, do jeitinho que ela havia deixado quando tudo aconteceu.

O olhar da morena ficou triste quando viu a pintura. Logo vieram as lembranças de tudo que se passou na última vez em que esteve ali. Percebendo a mudança no semblante da aluna, a professora se aproximou.

— Você está bem Clara?! — Perguntou Regina.

— Estou sim Regina! — A morena tentou ser forte. — Só não sei o que fazer agora. — Clara estava desolada.

— A pintura está finalizada?! — A professora questionou.

— Sim, está sim! — Respondeu Clara.

— Então vamos embrulha-la pra você levar e você começa outra nova, pode ser?! — A professora perguntou.

— Pode ser sim! — Clara concordou gesticulando com a cabeça.

E assim a professora ajudou a morena a trocar as telas. A aula transcorreu normalmente. Ao final, depois que a professora dispensou a turma, Clara pegou a tela com a pintura de Marina e saiu. Ao passar pela sala onde aconteciam as aulas de fotografia, não resistiu a olhar para dentro da classe. Surpreendeu-se ao ver que Flavinha estava lecionando no lugar de Marina.

Clara ficou encucada com o que viu, mas resolveu seguir caminho. Quando chegou no estacionamento, encontrou-se com Vanessinha, que tinha acabado de parar o carro ali.

— Ei Clara, como você está?! — Perguntou a ruiva.

— Estou indo Vanessinha, tentando retomar a vida, as coisas que parei de fazer. — Clara foi afirmativa. — E você?! Está tudo bem?! Eu vi a Flavinha ali na aula de fotografia...

— Pois é, eu vim exatamente para encontrá-la. A gente vai sair depois daqui, relaxar um pouco. O clima lá no estúdio não está fácil. — Vanessa olhou nos olhos da morena. Clara sabia o que a ruiva queria dizer.

— Eu não sabia que a Flavinha estava dando aulas de fotografia também. — A morena comentou no intuito de conseguir de Vanessinha mais notícias da fotógrafa.

— Ela está substituindo a Marina, Clara. A gente precisa cumprir o compromisso assumido com o Galpão, por isso a Flavinha está vindo. Marina bebe todos os dias, o dia inteiro. Não trabalhou mais desde que você saiu de casa. — Clara estava ao mesmo tempo espantada e triste por saber disso. — Só estou te falando pra você saber o que se passa Clara. Não estou jogando a culpa em ninguém, de forma alguma. É a própria Marina que está se deixando acabar. Eu já tentei conversar com ela, a Flavinha tentou, o pai dela tentou. Nada adiantou. Enfim, entendeu o 'clima' lá?! — Clara assentiu com a cabeça. — Bom, eu vou indo, porque a aula da Flavinha já deve estar quase acabando. A gente se vê, tá bom?! — As duas se abraçaram.

Vanessa se afastou e caminhou na direção do Galpão. Ainda virou pra trás e chamou Clara uma última vez:

— Clara! Você faz falta pra todos nós viu?! — A ruiva se despediu com um sorriso. Clara também deu um sorriso sem graça. Tentou fingir que não estava mexida com tudo que tinha acabado de ouvir, mas a verdade é que saber como Marina estava a deixou muito abalada.

Ela entrou no carro e decidiu seguir para Santa Teresa.

—--------------------------------------------------------------------

Depois de descer do carro em Santa Teresa, Clara tomou o caminho da piscina por onde habitualmente costumava passar. Ali já encontrou o que procurava, mas de uma forma muito triste: Marina estava deitada de bruços sobre uma espreguiçadeira à beira da piscina. A cabeça apoiava-se sobre o braço esquerdo, enquanto o braço direito chegava até o chão, próximo de onde estava uma garrafa de uísque vazia. A fotógrafa parecia desacordada.

Quando viu a cena, Clara se aproximou rápido. Se agachou e passou a mão na cabeça da esposa ao mesmo tempo em que começou a chamá-la:

— Marina! Marina, você tá me ouvindo?!

A fotógrafa não respondia. O coração de Clara acelerou.

— Marina, fala comigo! Marina! — A morena chamou mais alto.

— Clara... você voltou meu amor?! Eu te amo tanto! — A fotógrafa tinha a voz mole. Clara respirou aliviada por saber que Marina não estava desmaiada.

— Você não pode ficar aqui no relento desse jeito Marina. Vai acabar pegando uma pneumonia. Eu vou te levar pro quarto, mas eu preciso da sua ajuda, não consigo te carregar.

Clara virou a esposa na espreguiçadeira e puxou seus braços, deixando Marina sentada. A morena passou o braço esquerdo da fotógrafa envolta de seu pescoço e a levantou. Começaram a caminhar. O corpo de Marina pesou sobre a esposa, porque embora estivesse de pé, a fotógrafa não conseguia manter as pernas rígidas. Clara percebeu que a missão seria difícil. Começou a andar devagar e aos poucos foi pegando o jeito. Teve mais dificuldades na escada, mas o corrimão foi um bom aliado. Quando chegaram no quarto, Clara estava exausta. Marina buscou a cama, mas a morena a levantou novamente, a despiu e a colocou sob o chuveiro frio. Só então a fotógrafa recobrou parcialmente a consciência. Parcialmente porque o porre foi grande. Ela ainda precisaria de uma boa noite de sono.

— A vida não é só beber não Marina. Você é uma mulher feita, madura, tem responsabilidades, tem o estúdio, as meninas que dependem de você. — Clara começou a bronca.

— Eu não quero nada se eu não tiver você! — A fotógrafa respondeu.

— Deixa de ser mimada. Acho que você nunca teve alguém que te desse um sermão de verdade. Foi a sua bebedeira em excesso que nos colocou nessa situação, você acha mesmo que é isso que vai fazer a gente voltar?! — A morena falou brava. Marina ficou em silêncio.

Clara finalizou o banho, desligou o chuveiro e vestiu o roupão na esposa. Marina deitou na cama e fechou os olhos.

— Deita aqui comigo Clara! A gente vai conversar e vai ficar tudo bem! Eu te amo tanto! Você é o amor da minha vida! — Marina falou ainda com a voz mole. Em seguida dormiu novamente.

Clara ficou olhando a esposa por um tempo. Gostava de admirá-la em seu sono. Tinha muito orgulho e um amor intenso pela fotógrafa, e machucava-lhe muito ver Marina tão vulnerável e fragilizada assim. Seus olhos marejaram. Aproximou-se da esposa e selou seus lábios.

— Você também é o amor da minha vida! — Clara cochichou logo após o beijo.

Afastou-se de Marina e saiu.

Estava abrindo a porta de seu carro quando Vanessa e Flavinha chegaram.

— Ué Clara, você por aqui?! — A ruiva perguntou.

— Então Vanessinha, eu fiquei preocupada com aquilo que você me contou hoje no Galpão e resolvi vir aqui pra ver como a coisa estava. Quando eu cheguei a Marina estava praticamente desmaiada na beira da piscina. Eu levei ela pra cima, dei um banho frio e coloquei pra dormir. Agora tá lá, deve acordar só amanhã.

Clara se despediu das amigas e voltou para o Leblon.

—--------------------------------------------------------------------

No dia seguinte, Marina acordou com alguns flashes da visita de Clara. Mas foi Vanessa quem confirmou que a morena tinha ido até ali. A fotógrafa soube que a esposa tinha visto o estado de bebedeira e declínio em que ela se encontrava nas últimas semanas. A ruiva disse que Clara a ajudou, levando-a da piscina até o quarto, onde lhe deu um banho e depois a colocou para dormir.

Saber que tinha sido cuidada pela esposa encheu Marina de esperanças, que sentiu naquele gesto estarem vivos o carinho e amor que Clara tinha por ela. A fotógrafa decidiu então que precisava reconquistar a confiança da morena. Naquela manhã, tomou um banho revigorante e voltou a trabalhar no estúdio.

No dia seguinte, voltou para as aulas no galpão. Quando entrou na sala em que dava aulas, teve um pouco de tristeza ao ver vazia a cadeira que normalmente era ocupada por Clara. Sabia que a morena não apareceria por ali. Mas levantou a cabeça e continuou a aula a partir de onde Flavinha havia parado.

Clara também estava no galpão naquele dia. Tinha ido para a aula de pintura. Quando saiu da classe, passou pela porta da sala de fotografia. Lá dentro Marina dava orientações para a turma do avançado. Compenetrada, a fotógrafa não viu a esposa. A morena aproveitou para ficar um tempo observando aquela mulher que tanto admirava e amava. Desde o primeiro dia, a imagem de Marina a encantou e a atraiu, reação essa que a fotógrafa continuava provocando na morena, mesmo depois de tantos contratempos. Gostava de observar os traços de seu rosto, sua boca, seus olhos, seu jeito de falar.

Após alguns instantes de contemplação, Clara relembrou os acontecimentos que levaram à separação das duas. Ficou triste. Balançou a cabeça como se quisesse afastar a imagem que tanto a entristecera. E seguiu seu caminho até o bistrô. Lá chegando, conversou com o ex marido e perguntou se poderia deixar por ali alguns panfletos de divulgação do leilão que aconteceria na casa de leilões da Família Fernandes no dia seguinte à noite.

— É claro que pode deixar os panfletos aqui. Nem precisava pedir né Clara?! — Afirmou o ex com um sorriso.

— Obrigada pela força de sempre Cadu! — Agradeceu a morena.

— E por falar em força, como estão as coisas entre você e a Marina? — Perguntou o chef.

— Não estão né Cadu?! Não estão. — Clara deu um suspiro profundo e olhou pra baixo. — Eu não consigo esquecer o que aconteceu, tô muito magoada, muito decepcionada com a Marina. — A morena completou olhando para o pai de Ivan.

— Eu sei que não é fácil Clara. Mas diferentemente do nosso casamento, que tinha chegado ao fim, o de vocês não chegou. Eu te conheço e vejo o sentimento no seu olhar quando você fala dela. — Cadu afirmou olhando nos olhos da ex mulher.

A fala do chef mexeu com Clara.

— Pode ser Cadu. Pode até ser. Mas no momento eu não consigo lidar com isso. — Clara pontuou. — Aliás, vou andando porque a Marina tá dando aula hoje e daqui a pouco ela aparece aí, e eu tô querendo evitar encontrá-la por ora. — A morena pareceu afirmativa, mas obviamente não revelou que tinha ido ver a fotógrafa em casa alguns dias antes. Despediram-se e Clara saiu.

Algum tempo depois, Marina apareceu no bistrô e pediu um café. Aproveitou e perguntou a Cadu como estavam as coisas por ali. Disse que sentia muita falta do Ivan, mas que esperava que logo as coisas entre ela e Clara se resolvessem para que eles voltassem pra casa e retornassem à rotina em família que ela tanto amava.

— Ele também sente muito a sua falta Marina. — Afirmou o chef. — Inclusive outro dia estávamos tendo uma conversa de 'adultos', como você sabe que ele adora, e ele me disse que gostaria muito que você e a Clara se entendessem. Ele percebe como a mãe sente a sua falta. — Confirmou o chef.

Os olhos de Marina brilharam.

— A Clara tem vindo ao Galpão Cadu? — A fotógrafa estava curiosa.

— Tem sim Marina. Inclusive ela saiu daqui agora há pouco. — O chef olhou nos olhos da fotógrafa. — Deixou esses panfletos de divulgação de um leilão que vai acontecer amanhã lá na casa de leilões da Família Fernandes. — O pai de Ivan falou entregando um panfleto para Marina.

A fotógrafa olhou o folheto e logo sua imaginação começou a viajar.

—--------------------------------------------------------------------

No dia seguinte à noite, Marina terminava de se arrumar em seu quarto quando Vanessinha apareceu dizendo que ela e Flavinha já tinham finalizado tudo no estúdio e estavam saindo. Ao ver a fotógrafa toda produzida, a ruiva não se conteve:

— Uau! Que linda que você está! Deslumbrante! A volta ao trabalho te fez bem, hein?! — Exclamou a ruiva contemplando a beleza da amiga.

— A visita da Clara me fez bem Vanessinha! Me deu a certeza de que ela ainda me ama! E eu vou lutar por esse amor! — Declarou a fotógrafa com firmeza.

— E posso saber como você vai fazer isso? — Perguntou a ruiva.

Marina mostrou para Vanessinha o panfleto do leilão.

— Marina, Marina, você tem certeza que é hora de tentar se reaproximar?! A Clara ainda está muito magoada com você. — Aconselhou a amiga. — Você retomou sua rotina há alguns dias. Tenho medo que se decepcione e acabe voltando para o fundo do poço onde estava. — Preocupou-se a ruiva.

— Deixa comigo Vanessinha! — Marina foi afirmativa. — Eu sei que ela me ama e sei o que eu estou fazendo! Já lutei pela Clara uma vez, vou lutar quantas vezes for preciso! — A fotógrafa afirmou com uma piscadela. Abriu seu lindo sorriso.

Vanessa sabia como Marina era obstinada e que não adiantaria tentar convencer a amiga do contrário. Deu um beijo no rosto da fotógrafa, desejou sorte e saiu.

Marina continuou a se aprontar. Sentia que aquela noite seria muito importante no processo de reaproximação com a esposa.

Estava com um vestido preto não muito justo, mas que realçava o tom claro de sua pele e dava leveza em seu corpo. Caprichou na maquiagem e seguiu para a casa de leilões da Família Fernandes com a intenção de surpreender e reconquistar Clara!

Notas finais
A dica de hoje vai para a série "Bom dia, Verônica", estrelada pela nossa querida Tainá Müller, uma das melhores séries que já assisti. Para quem ainda não conhece, segue o trailer: https://www.youtube.com/watch?v=OmCnSsPLREQ Até amanhã pessoal! Não deixem de comentar a fic!! Ainda temos mais 5 capítulos de "Assim Estava Escrito"!! Próximo capítulo: O leilão Capítulo 32 postado em 19 de setembro de 2021.