Notas iniciais
Olá pessoal! Será que vai dar bom esse leilão?! Vamos ao capítulo! Boa leitura! Comentem à vontade!

Na casa de leilões da Família Fernandes, Helena e a irmã organizavam os últimos detalhes para o início do evento. Chica e Ricardo também estavam nos preparativos. Os interessados começavam a ocupar os lugares no salão. Helena tinha explicado para Clara como ela deveria fazer a chamada dos lances e era a morena quem estava encarregada da apresentação das peças e do valor inicial de cada item. Às 19 horas em ponto os trabalhos foram abertos.

Aos poucos Clara ia se habituando à função de leiloeira. Estava no meio da apresentação de um objeto quando Marina chegou ao local. A morena não a viu. A fotógrafa encontrou um lugar ao fundo e como o salão estava cheio, acabou ficando anônima por ali.

O leilão transcorreu normalmente e depois de aproximadamente 2 horas era chegada a hora de apresentar a última peça: uma escultura bidimensional feita em uma placa de ferro de aproximadamente 50 cm, na qual era possível identificar os contornos do corpo de uma mulher. Um belo trabalho de escultura em metal da década de 1970. Clara apresentou o item e declarou o lance inicial: 2 mil reais.

Aos poucos os participantes do leilão foram elevando este número: R$2.200, R$2.500, R$2.800, R$3.000, R$3.500, R$4.000, R$4.500, R$5.000.

— Quem dá mais?! — Perguntou Clara.

— R$5.500. — Respondeu um participante.

— Quem mais?! Dou-lhe uma. — A morena iniciou a contagem para o fechamento do leilão.

— R$7.500. — Respondeu um outro interessado.

— Dou-lhe duas! — Clara continuou. — Valendo o lance de R$7.500 por essa bela escultura em metal da década de 1970. Quem dá mais?!

A assistente preparava-se para bater o martelo quando uma voz suave que ela já conhecia falou com firmeza lá no fundo do salão:

— R$15 mil reais! — Marina falou se levantando. Todos os presentes viraram para trás para ver quem tinha dado lance tão audacioso. Clara perdeu a noção da contagem que fazia.

As duas se olharam. O coração de Clara batia forte em ver a mulher ali, linda, deslumbrante, como na primeira vez que tinham se visto. Marina sorriu levemente ao perceber o efeito que ainda tinha na esposa.

— Eeee... — Clara estava um pouco engasgada ainda. Como ninguém no salão ousou cobrir aquele lance, ela precisava encerrar o leilão. Falou deixando transparecer a rouquidão de sua voz: — Dou-lhe três! Escultura vendida para Marina Meirelles! — Conseguiu finalizar olhando séria e firme para a esposa, tentando inutilmente fazer-se de forte.

Clara agradeceu a todos os presentes e deu o leilão por encerrado. As pessoas começaram a se dispersar. Alguns levaram os itens arrematados, outros deixaram para buscá-los depois. A morena andava como uma barata tonta na frente do salão quando Marina se aproximou.

— Como você está Clara?! — Perguntou a fotógrafa.

— Estou bem! — A esposa respondeu. — Com muito trabalho por aqui, como você pode ver. — A assistente disse as últimas palavras pegando qualquer coisa pela frente para fingir que estava mexendo com algo naquele exato momento.

Helena e Chica perceberam que era importante que Clara e Marina ficassem a sós e resolveram não se aproximar para deixá-las à vontade. Preferiram cuidar dos outros detalhes do encerramento do leilão.

— Você vai querer levar sua peça hoje ainda Marina?! — A morena perguntou um pouco desconcertada.

— Se for possível, quero sim! — A fotógrafa respondeu.

— Eeee... — Clara continuava engasgada. — Eu vou levá-la pros fundos pra embalar pra você. — A morena disse já levando a peça. Sem titubear, Marina respondeu:

— Eu vou com você então! — Disse a fotógrafa seguindo a esposa, que nem teve tempo de reagir.

Chegando à sala, a morena se apressou em encontrar o material para embalar a peça adquirida por Marina. Estava afobada. A fotógrafa percebeu o nervosismo da amada. Chegou por trás da mulher, passou sua mão direita ao lado do corpo de Clara e segurou a mão da esposa que tentava embalar a obra. Sussurrou em seu ouvido:

— Deixa que eu te ajudo. — Disse sussurrando no ouvido da morena. Clara estava arrepiada. A proximidade da esposa a deixava inquieta. Tudo que queria era abraçar e beijar aquela mulher que tinha mudado sua vida, a mulher pela qual ela era tão perdidamente apaixonada. Mas não podia. Seu orgulho estava ferido e ela não queria dar o braço a torcer.

Se afastou e deixou que Marina continuasse a fazer o embrulho sozinha.

— Você voltou a dar aulas no Galpão?! — Perguntou para a esposa, apenas para puxar conversa e disfarçar seu nervosismo.

— Voltei sim Clara! Eu tinha esquecido o quanto me faz bem estar ali com os alunos, poder compartilhar com eles um pouquinho do que eu sei, do que eu aprendi. — Terminou de falar olhando para a esposa. — É gostoso ver como o olhar dos alunos vai se modificando, se tornando mais sensível. Como aconteceu com você, não foi?! — Perguntou para a morena, que acenou afirmativamente com a cabeça.

— Fico feliz de te ver de volta ao trabalho! — Comentou Clara.

— Eu vou reconquistar tudo que eu perdi Clara! Tudo! — Marina falou afirmativamente olhando nos olhos da esposa. A assistente se impressionou pela segurança da fotógrafa. Após alguns segundos se olhando, Marina quebrou o silêncio: — Bom, acho que assim está bom! — Completou, finalizando o embrulho.

— Quer que eu leve até o seu carro?! — A morena perguntou.

— Pode deixar Clara! Te agradeço. Não está tão pesado assim. — Respondeu a fotógrafa se aproximando da morena. Ficaram frente a frente e o clima voltou a esquentar. Marina foi se aproximando devagar e deu um beijo demorado no rosto de Clara. Em seguida, se afastou lentamente enquanto ainda se olhavam nos olhos. — Até logo! — Disse Marina antes de sair.

A morena acompanhou a saída da esposa e ficou ali reflexiva por um tempo até que Helena a chamou para ajudar com o restante das coisas que precisavam finalizar na casa de leilões.

Naquela noite, quando foram dormir, Marina em sua casa e Clara na casa da mãe, embora distantes, estavam conectadas em pensamento. A fotógrafa percebeu que poderia se aproximar de Clara à medida que a esposa baixasse a guarda. Já a morena repassava cada instante daquela noite em que teve a mulher por perto. Tentava lidar com os sentimentos que habitavam seu coração: a tristeza pelos acontecimentos recentes e o forte amor que sentia por Marina.

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No dia seguinte, Marina e Clara retornaram ao Galpão para suas respectivas aulas. Embora ainda resistisse voltar a ser aluna da fotógrafa, a morena sempre encontrava um jeito de se aproximar da esposa. Desta vez, estava decidida a passar na sala da mulher após a última aula. Queria perguntar se poderia acompanhá-la até o estúdio para pegar alguns materiais que precisaria para a aula de pintura.

A fotógrafa estava recolhendo o material após a classe de Fotografia Avançada. De repente, ouviu alguém bater na porta que estava entreaberta.

— Pode entrar! — Declarou, esperançosa de que fosse Clara.

Para sua surpresa, quando a fotógrafa se voltou para a porta, era Dani quem estava lá. Marina fechou os olhos e suspirou fundo.

— Dani, Dani, o que você tá fazendo aqui?! Já não nos enrolamos demais?! A minha mulher saiu de casa. Eu estou passando por momentos muito difíceis. Mas apesar de tudo, estou tentando reconquistar o amor da minha vida!! Pelo amor de Deus Dani, a Clara tem aulas aqui no Galpão Cultural. A minha reaproximação com ela vai por água abaixo se ela te vir por aqui. — A fotógrafa falou desesperada.

Dani se aproximou, deixando a porta aberta.

— Calma Marina. Eu não estou aqui para atrapalhar a vida de ninguém. Muito pelo contrário. Acho que as coisas ficaram mal resolvidas naquele dia lá em casa. Desde então eu quis te procurar para conversar, mas estava esperando as coisas se acalmarem. Liguei para o estúdio, Vanessa disse que você não estava. Ela me contou tudo que tinha acontecido desde aquele dia, que eu já tinha causado confusão demais. Pedi que ela se acalmasse e me dissesse onde eu poderia te encontrar. E é por isso que eu estou aqui. Só te peço que me ouça Marina, por favor. — Dani pediu, passando a mão carinhosamente no rosto da fotógrafa. — Será que a gente pode conversar em um lugar mais tranquilo?! — A modelo perguntou.

Marina respirou fundo.

— Podemos sim Dani. Vamos lá pro estúdio, lá pra casa. Eu não quero que a Clara te veja por aqui. — A fotógrafa completou.

Assim que Marina terminou de falar, Clara entrou na sala de aula e viu as duas se preparando para saírem juntas.

— Clara, não é nada do que... — Marina nem conseguiu terminar sua frase quando a morena saiu em disparada para fora do Galpão.

Clara estava louca de raiva por encontrar modelo ali e pela lembrança de tudo que tinha visto naquela manhã que insistia em permanecer na sua cabeça.

A fotógrafa tentou correr atrás da esposa mas Dani a segurou.

— Espera Marina. Vamos conversar primeiro. Agora ela está de cabeça quente. Não vai querer te ouvir. Vamos conversar, por favor. — A modelo pediu mais uma vez.

A professora concordou e foram caminhando então para o estacionamento. Entraram no carro de Marina e seguiram em silêncio para o estúdio.

Clara tinha entrado no primeiro táxi que viu pela frente. Pediu que o motorista a levasse até Santa Teresa. Estava disposta a pegar seus materiais no estúdio mesmo sem a presença de Marina. Nessa altura, até preferia assim. Só queria pegar suas coisas e não ver a fotógrafa por um bom tempo. Mas o que ela não sabia era que a esposa e a modelo estavam se encaminhando exatamente para lá.

Chegando na casa, Clara foi direto para o estúdio. Não havia ninguém por ali. Subiu para o mezanino e começou a juntar os materiais da aula de pintura que tinha deixado naquele canto. Não demorou muito para que ouvisse barulho de gente chegando. Olhou por uma fresta do mezanino e viu Marina entrar no estúdio com a Dani.

— Ai meu Deus, eu não acredito nisso! — Sussurrou com raiva. — É muita provação, meu Deus. — Continuou a sussurrar e se escondeu no canto do mezanino. Não queria ser vista.

— Pronto, chegamos Dani. Você queria conversar em um lugar tranquilo, e aqui estamos a sós. Pode falar. — Declarou a fotógrafa um pouco impaciente.

— Calma Marina. Eu vou falar tudo. Senta e me ouve. — Pediu a modelo. — Bom, naquela noite você já tinha bebido tantas doses de uísque que eu perdi a conta. Estávamos dançando lá no meio da pista. Acho que o efeito da bebida com aquela luz estroboscópica foi te deixando ainda mais tonta, mais zonza. Você me abraçou, não conseguia ficar em pé sozinha mais. — Clara fechou os olhos tentando inutilmente tirar aquelas cenas de sua cabeça enquanto Dani continuava a contar. — Eu resolvi te levar embora, você não tinha mais condições de ficar ali. Com muita dificuldade, você conseguiu falar que seu carro estava lá fora. Eu peguei a chave com você e fui te levando escorada no meu ombro até o carro. Preferi que fôssemos pra minha casa, como que eu ia te trazer pra casa naquele estado?! — Marina ouvia tudo atentamente, buscando em sua memória alguma lembrança do que Dani estava contando ali. — Quando chegamos na minha casa, eu resolvi te colocar debaixo do chuveiro. Tirei sua roupa, te dei uma ducha e te coloquei na minha cama. — Clara estava com uma interrogação na testa. — E foi isso. O resto eu imagino que você se lembre bem, não é?! — Dani completou. Do rosto de Clara, caíram as primeiras lágrimas. Ela começava a perceber o que se passara.

— Mas nós não dormimos juntas naquele dia?! — Marina questionou.

— Eu e você?!? — Dani riu. — Você tá brincando né?! Claro que não! Bom, eu não digo que esse pensamento não tenha passado pela minha cabeça no início da noite. Mas depois Marina, você tinha bebido demais, mal se aguentava em pé. E a única coisa que conseguia falar era da Clara, do seu amor por ela... "Clara, Clara, blá blá blá". Eu tenho um pouco de amor próprio né Marina?! Jamais iria dormir com alguém tão fragilizada e apaixonada pela mulher como você! — Quando Dani terminou de falar, Marina começou a chorar e rir ao mesmo tempo. Estava aliviada em saber que não tinha dormido com outra mulher. No rosto de Clara, as lágrimas desciam sem parar. Mas a morena continuava no lugar em que havia se escondido.

— Bom Marina, eu espero que eu tenha deixado as coisas esclarecidas pra você. E espero que de alguma forma você e sua mulher consigam se entender também. Eu vou indo. — Disse Dani, começando a se despedir.

Marina a abraçou e agradeceu.

— Muito obrigada Dani!! — Era só o que a fotógrafa conseguia dizer. Não conseguia parar de chorar nem sorrir. — Obrigada obrigada!!

Despediram-se e a modelo deixou o estúdio.

Logo em seguida, Marina ouviu passos de alguém descendo a escada do mezanino. Quando olhou para ver quem era, Clara já havia chegado ao piso do estúdio. Chorava copiosamente. A fotógrafa também não conseguia parar de chorar.

— Me perdoa?! — Clara pediu, aproximando-se da mulher.

— Só se você me perdoar também. — Disse-lhe Marina, arrependendo-se da forma precipitada como deixou o Galpão Cultural naquele triste dia.

— Perdoadas então! — Atestou Clara aproximando-se da esposa.

Beijaram-se calorosamente. Voltaram a sorrir. Abraçaram-se forte e deixaram seus corpos manifestarem todo o amor que havia ficado contido naquelas últimas semanas. Amaram-se deliciosamente naquele espaço que tanto havia marcado a vida das duas. Escreviam ali mais um capítulo feliz de sua história.

Notas finais
A dica de hoje vai para o filme "Retrato de uma Jovem em Chamas", vencedor do prêmio de roteiro no Festival de Cannes em 2019. Um filme lindo e extremamente sensível que nos apresenta a história de amor de Marianne (Noémie Merlant) e Héloïse (Adèle Haenel) na França do século 18. Uma obra de arte! Segue o trailer oficial legendado: https://www.youtube.com/watch?v=EwFE6FMY1tQ Até amanhã pessoal! Não deixem de comentar a fic!! Ainda temos mais 4 capítulos de "Assim Estava Escrito"!! Próximo capítulo: De volta a Angra Capítulo 33 postado em 20 de setembro de 2021.