Assim Estava Escrito
8 O Jantar
Notas iniciais
Clara olhou para Marina uma última vez. A fotógrafa tinha dito que não olharia para trás, que não aguentava mais ver a morena indo embora. E não olhou. Ao ver Marina de costas, a morena sentiu uma angústia, uma vontade enorme de voltar, de abraçá-la, beijá-la, dizer a ela que não iria mais embora, que ali era o seu lugar. Mas se controlou. Apertou uma mão na outra, pressionou seus dedos, e segurou sua vontade quase incontrolável de viver naquele momento tudo que estavam sentindo. "Ainda não é hora. Ainda não". Reproduzia mentalmente essas frases, como se a repetição fosse ajudá-la a acreditar nas palavras que no fundo não lhe faziam sentido mais.
Clara passou pela porta do estúdio, mas assim que saiu, teve novamente o impulso de voltar. Do lado de fora, voltou-se para a porta, encostou sua testa na mesma. Fechou os olhos. Respirou fundo. Um silêncio tomou conta do ambiente, o suficiente para que ela ouvisse baixinho o choro da fotógrafa lá dentro.
A morena se virou e encostou suas costas na porta. Não segurou as lágrimas, que escorriam silenciosamente. Seus lábios sussurravam baixinho: "Desculpa Marina. Desculpa meu amor". Pela primeira vez Clara se sentiu pressionada pela fotógrafa. Mas não culpava Marina, pelo contrário, sabia que ela tinha sido extremamente tolerante e compreensiva desde o início. E se ela agora lhe fazia algum tipo de pressão, é porque não aguentava mais controlar sua paixão, assim como Clara também não resistia mais. E não poder correspondê-la, não poder dar a resposta que Marina tanto esperava foi demais para a assistente. As lágrimas que começaram silenciosas agora desabavam incontroladamente, e Clara foi em direção à saída da casa, antes que fosse percebida, antes que aceitasse que não queria ir embora mais...
No taxi foi chorando durante todo o percurso até o Leblon.
Marina ficou por mais alguns minutos sentada no chão, perto da mesinha baixa do estúdio. Suas lágrimas escorriam lentamente, mas sem cessar. Tomava grandes goles do vinho, e logo terminou com a metade da garrafa que tinha sobrado quando Clara foi embora.
Encostou o cotovelo na mesinha, e com a mão apoiando sua cabeça ficou alguns minutos olhando para o nada. Era a primeira vez que ela cobrava uma resposta da morena. Até então tinha conseguido se segurar, controlar seus impulsos e desejos, mas nessa noite ela não resistiu em questionar a assistente sobre quando iriam viver tudo que estavam sentindo. Porém, Clara recuou. Marina sabia que a posição da outra era difícil, e procurava entender as decisões da morena. Mas isso não diminuía sua dor.
Subiu para seu quarto. Sentia o corpo pesar um pouco, talvez pela velocidade com que tivesse terminado o vinho, que fora degustado com pressa na esperança de tirar de seu pensamento as lembranças de Clara. Em vão. Ao deitar em sua cama, Marina fechou os olhos, e a única coisa que preenchia sua mente eram os momentos que já tinha vivido com a morena.
Embalada pelo vazio que Clara deixara ainda há pouco, lembrou-se de todas as outras vezes que a assistente tinha ido embora, todas as vezes que se distanciou, do afastamento radical quando a morena se demitiu... lembranças tristes preenchiam seu pensamento:
"Eu não estou aqui fechando uma porta entre a gente... eu só estou encostando..."
"Eu não tenho o direito de ficar insistindo com a minha presença aqui...eu não tenho o direito de impedir a sua sobrevivência..."
"Se precisa existir um afastamento, que esse afastamento seja radical... pra gente não sofrer... muito..."
Mas logo essas memórias ruins deram lugar às lembranças de momentos bons que a fotógrafa viveu com Clara, e das palavras carinhosas que ela já tinha ouvido da assistente:
"Marina, como você não existe outra".
"Porque você... é encantadora".
"Eu gostei assim de você de primeira, desde a primeira vez que eu te vi".
"Essa sedução que você exerce sobre as pessoas, quem te conhece nunca mais esquece de você... Nunca mais vou te esquecer".
"Eu precisava te ver, te abraçar, dizer pra você que eu... eu te adoro".
"Qualquer pessoa que vê a gente se olhando sabe que existe alguma coisa diferente né..."
– "Só não esquece de mim..." — "Como se isso fosse possível".
"Não esquece que meu pensamento tá com você sempre".
"Eu não tô brincando com você. Tudo que a gente viveu até aqui foi de verdade, foi muito importante pra mim. Porque eu... eu me redescobri como mulher".
"Eu quero... tanto quanto você! Eu quero".
E foram essas memórias que habitaram as lembranças de Marina até o sono chegar, leve e tranquilo.
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Cena posterior — Clara mente para Cadu (05/06/2014): http://globotv.globo.com/rede-globo/em-familia/t/cenas/v/clara-mente-para-cadu/3397350/
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Dois dias depois, já era de tarde quando Clara aprontava-se para trabalhar com o marido no Bistrô, mas seu pensamento não saía de Santa Teresa. Não conseguia esquecer a noite em que esteve no estúdio e a forma como deixou Marina depois do jantar. A atitude que lhe pareceu certa naquele momento, agora a deixava inquieta e dispersa.
Estava em casa, e Cadu a esperava para irem juntos ao Galpão Cultural. Mas a morena precisava ver Marina, precisava falar com a fotógrafa, não aguentava mais conviver com o clima triste que tinha ficado desde a última vez que se viram. Decidiu ir até Santa Teresa.
– Clara, vamos saindo, eu precisava chegar no Bistrô hoje mais cedo para verificar alguns estoques. — Disse-lhe o marido.
– Ehhh... sabe Cadu, eu precisava passar na Helena antes pra saber sobre a internação do Felipe. Você se importa de ir na frente?! — A esposa lhe respondeu, se enrolando um pouco com a desculpa que arrumou para sair depois do chef e passar no estúdio antes de ir para o Galpão.
Cadu estranhou a decisão repentina da esposa, mas entendeu que ela tinha razão em querer ter notícias do irmão, e fazia sentido que ela quisesse conversar com Helena um pouco. O chef então se despediu da morena e saiu.
Clara voltou para seu quarto e se aprontou um pouco mais do que de costume. Tinha planos para aquela noite, e preferiu já ficar pronta, caso tudo corresse conforme planejado. Seguiu para Santa Teresa.
Após entrar na mansão, foi em direção ao estúdio, imaginando que Marina estivesse lá naquele horário, o que se confirmou quando Clara chegou na porta de seu antigo local de trabalho. E para sua felicidade, a fotógrafa estava sozinha, o que a deixava mais à vontade para conversar com ela.
A assistente ficou parada na porta observando Marina. Permitiu-se apreciá-la por alguns instantes, visto que ultimamente tinham poucas oportunidades de se ver. Observar Marina era algo que sempre gostava de fazer, porque ela lhe passava paz e harmonia. A fotógrafa, que estava de costas para a entrada, parecia concentrada em algo que via no computador e não percebeu a presença da morena.
Clara aproximou-se devagar, tentando não ser notada, e quando chegou perto de Marina, levou suas mãos aos olhos da outra, tapando-os, em um gesto semelhante ao que a fotógrafa já tinha feito com ela em outra oportunidade.
Marina não se assustou. Pelo contrário. Sorriu. Já havia reconhecido o toque e o cheiro de Clara.
– Clarinha, que surpresa boa! — O coração da morena logo se aquietou, pois pelo tom da fotógrafa, sentiu que estavam bem, apesar de como a tinha deixado naquele mesmo local dois dias antes.
Clara abaixou suas mãos e olhou sorrindo para a chefe.
– Ah, você nem esperou eu te perguntar "advinha quem é". — Riu a morena, sentando-se ao lado de Marina e dando-lhe um carinhoso abraço.
– Você sabe que eu te reconheço até vendada, né Clarinha?! Seu cheiro e seu toque já estão guardados na minha memória. — Disse-lhe sorrindo.
– Senti saudades... — Declarou a morena.
– Eu também... — Respondeu-lhe a fotógrafa, segurando a mão de Clara. Tinha uma expressão melancólica, e a assistente sabia porque.
– Marina, eu queria te pedir desculpas por ter te deixado aqui daquele jeito no outro dia. Eu fui para casa tão angustiada. — A fotógrafa lhe olhava com atenção. — Não consegui parar de pensar em você nesses dois dias. Eu queria me desculpar, queria te levar pra sair, um programa só nosso, uma noite de 'mulherzinha', só nós duas. O que você acha?!
A fotógrafa sorriu e o olhar melancólico deu lugar a uma expressão de alegria que encheu o coração da morena.
– Eu acho ótimo! — Respondeu Marina, abraçando a assistente mais uma vez. — Que coisa boa! — Completou.
– Então tá marcado! — Confirmou Clara. — Eu tô indo para o Bistrô agora, mas hoje eu saio mais cedo e a gente se encontra lá, às 19h, pode ser?!
– Combinado! — Marina respondeu sorridente.
A morena se despediu dela e deixou o estúdio rumo ao Galpão. Marina ficou parada por um tempo, olhando para o nada, com um sorriso bobo nos lábios. O encantamento da fotógrafa era tão grande que bastava um sorriso de Clara para que ela se desmanchasse toda, esquecendo qualquer fato que pudesse ter lhe aborrecido.
Marina permaneceu trabalhando no estúdio, e no final da tarde subiu para seu quarto para se aprontar para a saída com Clara. Sabia que não era um encontro, e sim uma saída de 'mulherzinhas', como a própria assistente havia falado quando lhe fez o convite. Mesmo assim, a fotógrafa queria ficar linda para a morena.
Após o banho, vestiu uma calça preta e uma bela blusa, de mesmo tom, que tinha delicados desenhos e deixava seu colo parcialmente à mostra. Perfumou-se bastante e finalizou sua preparação com o habitual batom vermelho em seus lábios.
Quando estava saindo de casa, encontrou-se com Vanessa, que não perdeu a oportunidade de lhe interrogar:
– Onde a senhorita vai toda linda assim?!
– Tô indo encontrar a Clara, Vanessinha. A gente vai dar uma volta no shopping, fazer umas compras, programa de 'mulherzinha' como ela mesma disse. — Respondeu-lhe Marina.
– Ah, sei... — Disse a ruiva com um certo deboche. — Mas do jeito que você se arrumou parece mais que está indo para um encontro. — Continuou, aproveitando para alfinetar a sócia.
– Vanessinha, me deixa tá?! Eu tô super animada pra essa saída com a Clara, não vai ser você que vai me aborrecer.
– Tá bom, tá bom, não está mais aqui quem falou. — A ruiva se desculpou.
– Bom, eu vou indo que até o Galpão é um longo caminho. — Marina falou, preparando-se para sair.
– Eu e Flavinha vamos resolver um negócio para aqueles lados, você não quer uma carona?!
Marina estranhou a gentileza da ruiva, mas resolveu aceitar:
– Ué, quero sim Vanessinha. É até melhor, porque a Clara tá de carro hoje, assim a gente não precisa sair nos dois.
– Então vamos. Vou chamar a Flavinha.
A ruiva foi em busca da assistente, e pouco depois seguiram para o Galpão, onde deixaram Marina.
Assim que desceu do carro a fotógrafa mandou uma mensagem para o celular da morena:
"Ei Clarinha, tô aqui do lado de fora te esperando! Beijos".
Ao receber o SMS, a assistente preparou-se para sair.
–-------------------------------- (Início da cena que foi ao ar) ---------------------------------
Clara joga na cara de Cadu que tem um encontro com Marina (05/06/2014):
http://globotv.globo.com/rede-globo/em-familia/t/cenas/v/clara-joga-na-cara-de-cadu-que-tem-um-encontro-com-marina/3397401/
Clara atendeu uma última mesa e foi até Cadu, que estava sentado no balcão fazendo um balanço do estoque.
– Você ainda precisa de mim pra mais alguma coisa? — Perguntou ao marido.
– Nós não vamos voltar juntos pra casa?! — Cadu questionou.
– Não dá, eu tenho um compromisso. — A morena respondeu. — Eu até queria ver se você podia ficar com o Ivan numa boa.
– Claro que eu posso ficar com o meu filho. Você nem precisa fazer esse tipo de consulta.
– Eu sei que você é um super pai, ok?! — Clara falou meio impaciente com o tom de Cadu. — Só estou perguntando porque vai que você tinha alguma programação, sei lá... Brigada.
Clara se virou. Já afastava-se do marido quando ouviu:
– Antigamente você costumava dizer aonde ia, com quem ia... — Clara mordeu os lábios tentando encontrar paciência e se voltou para o lado de Cadu novamente. — Agora só diz que tem um compromisso... — Falou, deixando insinuações no ar.
– Vou dar uma volta. — Clara respondeu meio ríspida. — Vou no shopping, comprar umas coisas pra mim. — Falou, encarando o marido.
– Até para mentir você já teve mais habilidade. — Ele declarou. — Tá bom Clara, é muito mais honesto com a gente você dizer a verdade.
– Também vou encontrar a Marina. — Disse-lhe tranquilamente, sem culpa.
– Ah, que novidade!! — Retrucou Cadu, ironizando a esposa por assumir que estava saindo com a fotógrafa.
Clara não se segurou mais.
– Qual o problema?! — Questionou. — Ela é muito importante pra mim. Você sabe disso! O que é que tem encontrar com uma amiga?! Eu não vou fazer nada que meu marido não possa saber, ou que eu tenha que esconder de você. Vou sair, pra bater um papo mesmo, conversar, eu tô sempre conversando com mãe, irmã, sobrinha... nunca tive uma amiga assim, querida, que eu pudesse abrir meu coração, que pudesse ser minha confidente. Qual o problema?! — Voltou a encará-lo.
– Ótimo. Sinceridade é essencial num relacionamento. — Cadu falou com ambiguidade e ironizou mais uma vez. — Divirta-se com essa pessoa que é tão importante pra você.
O chef voltou a olhar para o caderno. A esposa fechou os olhos e deu um longo suspiro. Ele lembrou-se de algo mais que queria falar:
– Só uma coisa Clara.
– Hum.
– Saber que você vai sair com a Marina já não me causa tanta dor assim. — olhou para a esposa. — Tá passando.
– Melhor pra você que seja assim. — A morena respondeu. — E eu vou realmente sair pra conversar com a Marina, pra comer alguma coisa. Eu não vou me jogar numa noite de amor com ela, que é o que você deve estar pensando. Porque eu não penso nisso. Ainda. Ok?!
Clara se virou e saiu. Cadu levou uma mão à cabeça. Seu olhar estava distante. Tinha ficado desconcertado com a última fala da esposa.
No caminho para o shopping, Marina dirigia o carro de Clara. No banco do carona, a morena não conseguia deixar de encarar a fotógrafa, que lhe correspondia o olhar sempre que podia. A assistente mordeu os lábios com desejo. O sorriso chegou naturalmente. Parecia uma adolescente apaixonada, tinha borboletas no estômago. Estarem ali juntas lhe fazia muito bem. Sentia-se feliz!
Trocavam sorrisos e olhares. A morena se aproximou e encostou sua cabeça no ombro da fotógrafa, que retribuiu o gesto de carinho acariciando seu rosto.
–-------------------------------- (Fim da cena que foi ao ar) ---------------------------------
Ao pararem no estacionamento do shopping, Clara permanecia naquela mesma posição. Naquele colo sentia segurança e conforto. A morena deu um suspiro e falou:
– Sabe que eu podia ficar a noite toda aqui com você, desse jeito...
Marina brincou:
– Ah, mas se a gente for fazer o programa de 'mulherzinha' que eu tô pensando aqui, dentro desse carro, acho melhor a gente ir para um lugar mais reservado. — Riu e mordeu seus lábios.
Clara levantou sua cabeça dando uma gostosa risada. Ela olhou para Marina.
– Doida. Adoravelmente doida. — Disse-lhe Clara, rindo novamente. — Vamos às compras então, antes que o 'meu' programa de 'mulherzinha' vire o 'seu' programa de 'mulherzinha'. — Completou a assistente, arrancando uma nova risada da fotógrafa.
– Tá bom, tá bom, você venceu. — A fotógrafa se rendeu, descendo do carro, e Clara fez o mesmo.
Caminharam um pouco pelo shopping, e logo a vitrine de uma loja de calçados lhes prendeu a atenção. Marina se encantou por um cinto que viu.
– Olha só que cinto mais lindo Clarinha! Tem um acabamento tão delicado. E o bom dessa cor é que combina com quase tudo quanto é tipo de roupa.
– É lindo mesmo! — Concordou Clara. — E aqueles sapatos ali?! — Apontou para dois modelos que também estavam na vitrine. — Ah, eu quero ver como eles ficam no meu pé. Vamos entrar?! — A morena chamou a fotógrafa.
– Vamos sim! — Marina concordou e as duas entraram no local.
Logo uma atendente se aproximou e Clara pediu para experimentar os dois pares de sapato que tinha visto na vitrine e mais um que encontrou dentro da loja. Pouco depois a vendedora retornou com os modelos que a assistente havia escolhido.
Marina observava encantada a animação da morena calçando os sapatos, e até se esqueceu do cinto que havia gostado. Ficou admirando Clara, que naquela noite lhe parecia ainda mais linda. Estava leve, sorridente.
–-------------------------------- (Início da cena que foi ao ar) ---------------------------------
Marina e Clara trocam juras de amor (06/06/2014):
http://globotv.globo.com/rede-globo/em-familia/t/cenas/v/marina-e-clara-trocam-juras-de-amor/3399901/
Marina olhava Clara enquanto a morena dava voltas na frente do espelho tentando verificar se o sapato que experimentara lhe caía bem.
– Por que sapato está sempre na lista de prioridades femininas, hein?! — Perguntou Clara, voltando-se para a fotógrafa.
Marina soltou uma risada.
– Adoro sapato, mas, sei lá, acho que eu prefiro comprar roupa. Sapato é que nem bolsa e cinto, só um acessório. — Declarou a fotógrafa.
A morena deu um profundo suspiro antes de confessar:
– E eu que morro por um par de brincos, nossa!
– Eu vi, você não repete um. — Constatou Marina, olhando para Clara.
– Não, nunca! — Confirmou a assistente. — Tenho vários! Amo! Assim, tudo bijuteria, mas as melhores. Amo!
– E aí, vamos levar os três pares?! — Perguntou a vendedora ao se aproximar de Clara.
– Que isso menina, eu sou uma modesta dona de casa. — Respondeu a morena, entregando um par de sapatos para a moça.
– Imagina, eu faço um desconto. — insistiu a atendente.
– Não, eu vou levar esse aqui só, tá?! — Confirmou Clara. — E tem mais uma coisinha que eu deixei lá com a menina do caixa. Vou pagar parcelado, tá?! Porque à vista, só se for a perder de vista. — Brincou enquanto calçava seu próprio sapato novamente. — Cadu é que fica uma fera comigo, sabe?! Até quando eu tenho dinheiro no banco eu pago tudo parcelado.
– Mas todo mundo é assim, tem a impressão que pagando parcelado tá ganhando alguma coisa. — Disse Marina.
Clara riu e continuou contando sobre a reação do marido às suas compras:
– Ele fala: "e os juros??" — Remedou Cadu. — Mas eu nem ligo. — Abriu um sorriso, que deixou a fotógrafa sem reação.
Marina não se cansava de observar a morena, ficava impressionada com sua beleza, seu jeito leve, simples e encantador ao mesmo tempo.
– Eu não consigo acreditar como você consegue ficar cada vez mais bonita. — Declarou para a assistente, que sorriu sem graça e sussurrou baixinho: — Ai, pára...
A fotógrafa continuou:
– De verdade. Você sabe que eu sou fotógrafa, fico aqui te fotografando mentalmente né?! — confessou, mordendo os lábios a seguir. — É que nem quando eu leio um livro, que eu faço um cineminha na cabeça.
Clara também a ouvia com um sorriso bobo e apaixonado nos lábios.
– Fico lembrando de você me fotografando: "mais pra cá, mais pra lá, encontra a luz". — Disse a morena sorrindo, e arrancando também um sorriso da fotógrafa.
– Acho que eu sou escrava da luz! — Constatou Marina, soltando outra risada.
Clara não resistiu ao encantamento que a fotógrafa lhe proporcionava naquele momento, e depois de um profundo suspiro, declarou com um largo sorriso no rosto:
– Eu amo você!
Ao ouvir a assistente, os olhos de Marina marejaram instantaneamente. Já tinham falado de amor antes, mas era a primeira vez que a morena se declarava diretamente para ela. A fotógrafa explodiu de felicidade com a declaração que lhe pegou de surpresa.
– Eu também te amo. — Respondeu docemente. — Muito!
Clara ouviu a declaração e não resistiu encarar os lábios de Marina. Se pudesse a beijava ali naquele instante... ah, se pudesse. Vontade não lhe faltava. Encarou a fotógrafa de cima a baixo.
–-------------------------------- (Fim da cena que foi ao ar) ---------------------------------
Fitaram-se por um breve período. Esqueceram da loja, do shopping, e se permitiram viver um mundinho só delas, pelo menos por alguns instantes.
Um tempo depois, Clara se levantou e seguiu até o balcão, onde fez o pagamento de suas compras. Marina havia até se esquecido do cinto, mas a assistente não esquecera, e decidiu fazer uma surpresa e presentear a fotógrafa.
Saindo da loja, escolheram um restaurante para jantar. Lá chegando optaram por uma salada leve. Naquela noite não beberam, pois Clara estava de carro e Marina talvez voltasse dirigindo-o até o estúdio. Mas não se divertiram menos por isso. Falaram de assuntos diversos, de casos engraçados da infância e juventude de cada uma. Clara começou a falar de como havia mudado, desde sua adolescência em Goiânia, passando por sua juventude no Rio, e de como ela se surpreendia ao perceber-se mudando até hoje. Coisas que ela achava que eram definitivas e acabavam não sendo.
– Daí eu me vejo agora com essa idade, mãe de família, e tudo que eu achei que era certo deixou de ser. É como diz aquela música do Raul, somos uma 'metamorfose ambulante' mesmo, não é?! — Constatou Clara.
– Somos mesmo! — Concordou Marina. — Eu mesma mudei tanto nos últimos tempos, principalmente depois que a gente se conheceu. Sempre tratava minhas relações com um certo distanciamento, às vezes até com frieza. Mas você Clara, você aqueceu meu coração. Fiquei mais emocional depois que te conheci. — A morena lhe abriu um sorriso. — Sinto agora que estou mais sensível com as pessoas. E também vejo que você mudou muito desde que a gente se conheceu.
–-------------------------------- (Início da cena que foi ao ar) ---------------------------------
Marina se declara para Clara (09/06/2014) — http://globotv.globo.com/rede-globo/em-familia/t/cenas/v/marina-se-declara-para-clara/3404948/
– Sabe que eu tô te achando mais solta, mais livre, não sei... — A fotógrafa continuou.
– Eu cheguei à conclusão que a gente só vive pra marido, filho, pai, mãe, irmão, sobrinho, só pra família. — Disse a morena.
– É, é verdade. — Concordou Marina. — A família nos ocupa mesmo.
– Ocupa não. A família usa a gente. Porque se um dia você não está disposto, não atende, ou tá a fim de ficar sozinha, pronto! Vira a ingrata! — A assistente disse dando um leve tapa na mesa, mostrando indignação. Marina respondeu com um sorriso.
A fotógrafa esfregou o pé suavemente na perna de Clara, que tomou um leve susto, mas logo sorriu ao sentir o toque da outra. Marina deu uma risada gostosa.
–-------------------------------- (Corte na cena que foi ao ar) ---------------------------------
A morena pegou sua sacola de compras e tirou dela um pequeno embrulho.
– Pra você! — Ela disse ao entregar o pacote para Marina. — O cinto da vitrine da loja, que você gostou.
Marina olhou para Clara com uma expressão de surpresa. A assistente continuou:
– Você gostou, disse que ia passar num outro dia pra comprar, eu estou te dando de presente, não posso?! Fiquei com vontade de te dar um presente. Nunca tenho essa oportunidade.
Encantada, a fotógrafa desembrulhou o presente e sorriu.
– Muita delicadeza sua vir ao encontro do meu desejo. Eu ia passar mesmo aqui, num outro dia, pra comprar. Obrigada Clarinha!
–-------------------------------- (Volta a cena que foi ao ar) ---------------------------------
Clara estendeu sua mão sobre a mesa, oferecendo-a a Marina, que levou sua mão ao encontro da outra. Entrelaçaram os dedos com carinho.
Marina aproximou-se da borda da mesa e se declarou, olhando nos olhos da assistente:
– Te amo!
Ao ouvi-la, Clara fechou os olhos e respirou profundamente. Marina continuou:
– Te amo! Muito!
A fotógrafa tinha o olhar emocionado. A assistente abriu os olhos e sorriu. Fitou Marina, que deu uma leve mordida nos lábios.
–-------------------------------- (Fim da cena que foi ao ar) ---------------------------------
Clara pegou a mão direita da fotógrafa, que estava entrelaçada à sua, e a levou delicadamente ao encontro de seus lábios, beijando-a suavemente. Em seguida, olhou para Marina:
– Eu também te amo. Muito! — Declarou a morena mais uma vez.
Os olhos da fotógrafa marejaram. Era a segunda vez que ouvia a assistente falar que a amava naquela noite, e sentia-se imensamente feliz por ver Clara expressando em palavras o amor que Marina já havia sentido por parte da morena de diversas outras maneiras. Ao verbalizar seu sentimento, era como se Clara se permitisse vive-lo, torná-lo real, sem culpas. Todos os medos, os receios, davam lugar agora à vontade que a morena tinha de viver esse amor, que foi mais forte que ela, mais forte que todas as barreiras que pudessem existir. E, ao ouvir a declaração de Clara, a fotógrafa sentia a força desse amor, sentia o tanto que ele pedia para ser vivido por elas.
Ficaram mais um tempo trocando olhares, acariciando suas mãos. Embora ainda não pudessem viver plenamente tudo que estavam sentindo, neste jantar Marina sentiu uma aproximação maior por parte da assistente, como se algo lhe dissesse que em breve poderiam se amar, sem barreiras, sem culpa.
Pagaram a conta e foram para o carro. A exemplo da vinda, Clara ofereceu as chaves para Marina, e a fotógrafa foi dirigindo até sua casa, em Santa Teresa. Não falaram muito no caminho, mas trocaram carinhos o tempo todo. Logo estavam na mansão.
–-------------------------------- (Início da cena que foi ao ar) ---------------------------------
Juliana é expulsa da comunidade (06/06/2014) — http://globotv.globo.com/rede-globo/em-familia/t/cenas/v/juliana-e-expulsa-da-comunidade/3399914/ (0:45 a 1:27)
Clara e Marina entraram no estúdio e encontraram Vanessa e Flavinha.
– Oi! — Cumprimentou a morena.
– Ei meninas, trabalhando até agora?! — Questionou a fotógrafa.
– Estávamos! Adiantando umas coisinhas né?! — Respondeu a ruiva, encarando sua 'quase namorada'. — Tinha muita coisa atrasada. — Completou.
– Vocês estão com uma cara boa! Foram ao cinema?! — Perguntou Flavinha, olhando para a chefe e para a assistente.
– Não. — Clara soltou uma risada ao responder. — A gente perdeu a sessão.
– Perdeu, você acredita?! — Completou Marina. — Mas eu ganhei um cinto lindo da Clarinha. Olha! — Disse com alegria, mostrando para as meninas o cinto com o qual fora presenteada.
Flavinha sorriu e Vanessa fez sua habitual cara de deboche ao dizer com ironia:
– Ohhhh, que gracinha! O casal foi fazer compras!
Marina encolheu os ombros e sorriu, como se concordasse com a declaração de Vanessinha. Clara também sorriu, um pouco sem graça, e olhou para baixo. Mas nenhuma das duas retrucou. Aceitaram bem o título de 'casal'.
– Querem uma bebidinha?! — Ofereceu a ruiva.
– Eu não vou poder, vou ter que voltar pra casa. — A morena respondeu e voltou-se para Marina. — Vou ter que te deixar. — Completou, abraçando a fotógrafa.
– Ah, tá bom... — Marina disse tentando se conformar. Ainda estava dentro do abraço quando falou agradecida: — Adorei viu?!
– Clarinha! — Chamou Vanessa. — Olha o lobo mau no caminho hein?! — Avisou em tom de brincadeira, fazendo mais uma de suas caretas. — Todas riram.
– Tchau Clara! — Disse-lhe Flavinha.
A morena se despediu mandando um beijo no ar para elas. Caminhou para a saída do estúdio, enquanto a ruiva abraçava Flavinha e cantarolava a música da Chapeuzinho Vermelho.
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Assim que Clara saiu, a fotógrafa pediu licença para Vanessa e Flavinha e também deixou o local. Caminhou com pressa e avistou a assistente ainda na região da piscina.
– Clara! — A fotógrafa chamou. A morena a ouviu e parou, olhando em sua direção. Marina caminhou até ela.
– Eu esqueci alguma coisa? — A assistente questionou.
– Não Clara. Eu que esqueci. Queria te agradecer mais uma vez pela saída, pelo programa de 'mulherzinha'. Eu adorei! A noite hoje foi muito especial pra mim... — Pegou na mão da morena. — Porque foi a primeira vez que eu te ouvi dizendo que me ama, e isso me deu uma alegria tão grande, uma sensação boa aqui, sabe?! — Disse a fotógrafa, apontando para seu coração.
Clara sorriu, se aproximou e levou sua mão até o rosto da fotógrafa, acariciando-o delicadamente. Encarou o olhar de Marina.
– Eu te amo Marina. Muito. Mais do que você imagina... — As lágrimas já voltaram aos olhos da fotógrafa. Clara continuou: — Eu posso não dizer isso sempre, mas eu penso nisso todos os dias. — Finalizou com um sorriso.
Marina também sorriu, e não conseguiu segurar uma lágrima que insistentemente desceu. Clara se aproximou um pouco mais e deu um beijo carinhoso no rosto dela.
Encararam-se mais uma vez antes de se despedir. Marina seguiu para seu quarto com um olhar distante e um sorriso bobo nos lábios. Não estava se cabendo de tanta felicidade. Naquela noite custou a dormir. Mas não porque estivesse inquieta, triste como de outras vezes, mas sim pela alegria e excitação que sentia, e tanto seu coração quanto sua mente custaram a se acalmar. Ficou deitada repassando na memória os momentos que tinham vivido juntas naquele dia. Quando conseguiu se tranquilizar, o sono veio, e Marina dormiu leve e feliz.
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