Assim Estava Escrito
2 Na praia...
Notas iniciais
Naquela praia deserta, depois que saíram da água e sentaram-se na areia, desde o momento em que Marina tirara a parte de cima do biquíni, Clara empreendia um esforço sem igual para desviar o olhar do corpo da fotógrafa. Mas seus olhos e aquele corpo escultural pareciam ímãs que insistiam em se unir, assim como fora no segundo encontro das duas, quando a morena levou Marina até a banheira de seu quarto. Naquela ocasião, no momento em que a fotógrafa deixou o roupão cair, Clara não conseguiu disfarçar sua inquietação ao ficar perto da outra completamente nua.
Clara sempre fora muito reservada, não estava acostumada a ficar nua ou estar perto de pessoas nuas, exceto por seu marido. Ficava a pensar em como Marina tinha facilidade para se expor, se despir, mesmo na frente de pessoas estranhas, como Clara ainda se sentia para ela naquele segundo dia de encontro das duas. No entanto, Marina, que já tinha uma longa trajetória de trabalhos com mulheres nuas, não via nenhuma dificuldade em se despir na frente de outras pessoas, muito menos de Clara, a quem já considerava muito próxima desde o momento em que seus olhares se encontraram.
Marina era uma admiradora do corpo feminino, das expressões e sentimentos carregados em cada movimento, gesto e olhar de uma mulher. Não via a nudez como algo banal, mas como uma forma de se expressar sem barreiras, sem convenções, sem amarras. E por esta razão ela tinha tanta facilidade em se expor.
Ali naquela praia, Clara voltava a poder admirar o corpo escultural da fotógrafa, apesar de sua luta constante para não olhar para Marina. "Como ela é linda", Clara pensava. Ela era mesmo dona de uma 'beleza marmórea' sem igual.
A verdade é que, mesmo de relance, Clara conseguia observar todo o corpo de Marina: desde seus pés, passando por suas belas pernas, o desenho de seu quadril, seu abdômen magistralmente bem definido, seus belos seios, o contorno de seus ombros, sobre os quais caiam seus lindos cabelos negros. E tinha ainda o rosto da fotógrafa, com suas maçãs bem delineadas, os olhos que transbordavam sedução, um sorriso estonteante e os lábios perfeitos, sob os quais havia o detalhe de uma pinta que se tornara quase hipnótica para Clara. Toda vez que olhava diretamente para o rosto de Marina, Clara não conseguiu deixar de fixar seu olhar por pelo menos alguns segundos naquela pinta e naqueles lábios que a deixavam sem estruturas.
Mesmo com a assistente tentando disfarçar seu olhar, ela já havia decorado cada contorno do corpo de Marina, e a imagem de cada curva dele tomava seu pensamento enquanto conversavam ali na praia. O esforço em desviar os olhos da fotógrafa era perceptível, e deixava óbvia a necessidade que Clara tinha em não transparecer o tanto que a presença de Marina nua a inquietava, de formas que ela ainda nem conseguia definir.
No entanto, todo o auto-controle de Clara foi desafiado pelo pedido de Marina para que a assistente lhe ajudasse a passar o bronzeador em seu corpo. Clara, que empreendia um esforço descomunal para não olhá-la, agora ainda teria que tocá-la.
Estavam lado a lado e Clara começou a passar o bronzeador nos ombros da fotógrafa, mas sua posição sentada não favorecia o trabalho de distribuição do óleo na pele de Marina. Clara então resolveu ajoelhar-se às costas da fotógrafa, o que lhe daria maior mobilidade e alcance na realização daquela tarefa. E a nova posição assumida por Clara ainda tinha a vantagem de deixá-la fora do ângulo de visão de Marina, o que lhe permitiria contemplar o corpo da fotógrafa sem que a mesma pudesse perceber.
Então a assistente continuou a distribuição do bronzeador no ombro da outra, massageando-a desde os braços até o pescoço. A pele da fotógrafa era lisa e macia, o que fazia com que a mão de Clara deslizasse delicadamente enquanto passava o líquido.
Logo a morena começou a massagear também as costas de Marina, distribuindo o bronzeador por toda sua extensão. O toque naquela pele suave dava a Clara um prazer que ela não conseguia explicar. Na verdade, na profusão de sentimentos que a envolviam nos últimos tempos, a assistente não entendia o que verdadeiramente estava sentindo. Só sabia que naquele momento não queria e não conseguiria deixar de tocar a pele da fotógrafa.
Marina também sentia um prazer indescritível ao receber o toque de Clara. O que para alguns poderia ser apenas uma cordialidade de passar um bronzeador no corpo alheio, para ela, o simples toque das mãos da assistente tornava o momento mais do que especial. Afinal, não eram as mãos de qualquer pessoa, era o contato da mulher que havia arrebatado seu coração logo no primeiro olhar que trocaram.
A morena agora passava as duas mãos nas costas da fotógrafa, atrás da qual permanecia ajoelhada. Movimentando as mãos para frente, passando-as sob os braços de Marina, Clara levou o bronzeador até a região do abdômen da fotógrafa, quase como se a abraçasse pelas costas. No momento em que a assistente passou a contornar a parte inferior dos seios de Marina, ela sentiu que perderia o controle de seu toque.
A fotógrafa sentiu a mudança no contato das mãos de Clara. Seu corpo se arrepiou por inteiro. Mesmo que não entendesse exatamente o que a morena estivesse fazendo, não se daria o direito de questioná-la, pois não queria que aquele momento parasse: ansiava por um toque assim há muito tempo.
Ficou ainda mais surpresa e viu seu corpo inteiro estremecer quando sentiu a respiração de Clara bem próxima de seus cabelos. A morena continuava massageando-a no abdômen, movimentando suas mãos da barriga até a base dos seios da fotógrafa, quando aproximou seu rosto da nuca de Marina. Apesar do banho de mar, e do perfume do bronzeador, o cheiro amadeirado que Clara já havia guardado na memória ainda estava ali, forte e inebriante. E era essa fragrância que levara a assistente a aspirar o aroma da fotógrafa de forma tão próxima.
Da nuca, Clara levou o rosto até o ombro de Marina. Seus lábios estavam tão próximos daquela pele, e sua respiração tão forte, que em alguns momentos a fotógrafa sentia como se estivesse sendo beijada. Clara voltou ao pescoço de Marina e subiu até o lóbulo da orelha direita da fotógrafa, passando seus lábios por ali, fazendo com que Marina soltasse um leve gemido. Com a boca bem próxima do ouvido da fotógrafa, Clara não resistiu:
– Seu cheiro é extasiante. — Falou sussurrando com sua voz rouca.
Neste momento, Marina fechou os olhos e apertou seus lábios. Não resistiria mais, não conseguiria continuar ali passível, aguardando o próximo movimento de Clara. A fotógrafa virou-se de frente para a morena, ficando de joelhos também. Cruzaram seus olhares, que exalavam sensualidade e desejo. Não podiam, não conseguiam mais resistir. Fitaram os lábios uma da outra.
– Eu sei que você também quer. — Disse-lhe a fotógrafa.
Marina levou a mão direita ao rosto de Clara, que fechou os olhos, e só sentiu quando a respiração ofegante da fotógrafa aproximou-se de sua boca. Nesse momento...
Clara abriu os olhos um pouco assustada. Respirava ofegante. Olhou para o lado e viu que Cadu dormia profundamente, o que a deixou menos inquieta ao sentir que seu corpo ardia com o sonho que acabara de ter. Havia custado a dormir, e no breve momento de sono que teve, foi arrebatada pela presença avassaladora de Marina nele. Mais forte do que o desconforto de ter aquele sonho ali, na cama, ao lado do marido, era a vontade de ter continuado nele.
Clara levantou-se da cama e foi até a cozinha, na busca quase inútil de algo que pudesse esfriar seu corpo e sua mente. Mas não adiantava. A fotógrafa, que já povoava seus pensamentos, agora invadia também os seus sonhos, permanentemente.
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