Assim Estava Escrito

3 Marina cai da escada


Notas iniciais
Pessoal, Queria agradecer muito muito muito pelos comentários ao último capítulo e também agradecer àqueles que embora não comentem, sei que estão acompanhando a fic. Vocês me incentivam e me enchem de alegria! Dando prosseguimento às cenas que deixaram algumas lacunas Em Clarina, vamos ao momento entre a sequência em que Clara recebeu a notícia de que Marina havia caído da escada até a cena em que a assistente chega para visitar a fotógrafa com o pé imobilizado. Achei que ficou faltando algo neste percurso, então vamos a ele. Boa leitura a tod@s!! Cena anterior - Clara é avisada sobre acidente de Marina (24/03/2014): http://globotv.globo.com/rede-globo/em-familia/t/cenas/v/clara-e-avisada-sobre-acidente-de-marina/3235987/

Após receber de Flavinha a notícia de que Marina havia caído da escada, Clara desligou o telefone. Havia dito à moça que não poderia ir à Santa Teresa àquela hora, mas o faria no dia seguinte bem cedo.

Ficou um tempo refletindo, ainda encostada na porta do banheiro. Após alguns minutos, respirou fundo, titubeou, mas resolveu voltar para a cama.

Deitou novamente ao lado de Cadu. Fechou os olhos, na tentativa frustrada de retornar ao sono de minutos antes, mas não conseguiu. As palavras ditas nas últimas duas conversas que havia tido com Marina ainda martelavam em sua cabeça, indo e voltando, e chegavam doloridas ao seu coração:

"A gente não é criança, tudo que a gente não falou verbalmente, a gente disse nesse tempo todo com gesto, com olhar, com emoção, quase que por telepatia... você sabe do que eu tô falando".

"Eu não posso, eu não consigo mais conviver com a presença da ausência do seu amor".

"Por uma questão de sobrevivência minha... eu tô te demitindo do meu coração".

"Eu não estou aqui fechando uma porta entre a gente... eu só estou encostando..."

"Se precisa existir um afastamento, que esse afastamento seja radical... pra gente não sofrer... muito..."

"Eu não vou aguentar..."

Mas junto às frases lhe faziam sofrer, ditas pelas duas, chegavam também as palavras carinhosas que Marina havia lhe dito, e que naquele momento lhe traziam um certo conforto:

"Você sabe que desde a primeira vez que eu te vi eu fiquei...fascinada!"

"A gente é diferente, mas eu quero que você saiba que foram justamente por essas diferenças que eu me senti atraída por você... como um imã!"

"É claro que eu tô falando de amor... do que você acha que eu tô falando?!"

Um sorriso chegou aos lábios de Clara ao lembrar das palavras doces da fotógrafa. Ao mesmo tempo, lhe veio um aperto no peito de imaginar que nas últimas duas conversas que tiveram, deixara Marina chorando no estúdio, quando ela mesma não conseguia conter suas lágrimas ao sair de lá. E a tristeza que se abateu sobre a fotógrafa certamente tinha influenciado aquela queda na escada, razão pela qual ela tinha recebido a ligação de Flavinha que a tirara de um sono para o qual ela agora não conseguia voltar mais, definitivamente.

Não podia, não queria ficar longe de Marina, e a imagem da fotógrafa chamando por ela passou a povoar seus pensamentos. Não resistiu mais. Clara teria que vê-la naquela noite, não conseguiria esperar até a manhã seguinte.

Se levantou devagar, e andando pé ante pé chegou ao armário, onde escolheu uma roupa para sair de casa. No mesmo ritmo saiu do quarto, e decidiu que se trocaria no banheiro social, para não correr o risco de acordar o marido. Arrumou-se rapidamente e em 10 minutos estava pronta para sair. Voltou até a entrada de seu quarto, e olhou pela fresta da porta entreaberta. Cadu continuava a dormir profundamente. Foi até a sala, pegou as chaves do carro e saiu.

Durante todo o percurso até Santa Teresa as palavras de Marina iam e voltavam em sua mente. Clara sentia-se confusa, não conseguia organizar seus pensamentos e muito menos seus sentimentos. Mas seu coração lhe levava até a fotógrafa, e ela não tinha dúvidas que precisava ir até lá.

Chegando na casa em Santa Teresa, o vigia lhe reconheceu e Clara entrou com o carro no estacionamento da mansão. Ao descer do veículo, olhou para o jardim, que estava florido, coberto por flores amarelas. Aproximou-se das florzinhas e sentiu o perfume gostoso que elas exalavam. Pensou que não faria mal em presentear Marina com uma delas, e escolheu uma flor, que arrancou delicadamente do jardim.

Rumou até a casa da fotógrafa, e quando entrou na sala deparou-se primeiramente com Flavinha, que ficou surpresa em vê-la ali.

– Ei Clara, você aqui?! Achei que só viria amanhã. Mas que bom, Marina não pára de chamar por seu nome.

– Então Flavinha, eu não consegui voltar a dormir, precisava ver a Marina e me certificar que está tudo bem. Mas, me fala, o que aconteceu, como foi o acidente?! — questionou a morena.

– Olha Clara, estávamos eu, a Van e a Marina aqui no estúdio agora à noite. Parecia que a Marina já estava bebendo desde a tarde. Aliás, quando eu cheguei da rua, no final da tarde, eu a senti muito triste e pensativa, já com um copo de uísque na mão. Então a Van entrou no estúdio, colocou uma música e tentou dar uma animada no ambiente. A Marina custou, mas começou a se animar, à medida que bebia mais. Mas na verdade parecia que ela estava bebendo para esquecer algo, e a animação só escondia uma tristeza que ainda estava ali. Na hora que ela caiu, estavam somente ela e a Van no estúdio. Pelo que a Van me contou, Marina subiu no mezanino, mas não estava conseguindo se equilibrar direito mais. Quando ela chegou no topo da escada, antes de pisar no primeiro degrau ela caiu rolando até lá embaixo. A Van começou a me gritar e quando cheguei lá, Marina estava desacordada.

– Mas e aí, vocês chamaram o socorro?! — perguntou Clara, que já sentia-se culpada por tudo que Flavinha relatara.

– Não foi preciso. Logo a Marina recobrou a consciência e começou a se mover, a gente viu que nada muito grave tinha acontecido. Mas quando tentamos colocá-la de pé, ela não conseguiu colocar o pé direito no chão. Então eu e a Van conseguimos colocá-la no carro e o motorista nos levou até a emergência. Lá ela fez diversos exames, tomou uma injeção de analgésico, e o médico verificou que tinha sido apenas uma torção. Ela vai ficar com o pé imobilizado por uma bota por alguns dias. A gente voltou pra cá, e ela ainda tá meio grogue por causa dos remédios. Mas desde o momento em que ela recobrou a consciência ela não parou mais de falar o seu nome Clara. Foi por isso que te liguei, senti que precisava te avisar. Peço desculpas pela hora. Mas a Marina precisa de você aqui, isso ficou muito claro depois do que eu vi essa noite toda.

Clara ficou pensativa com essas últimas palavras de Flavinha. Tinha decidido se afastar de Marina, mas ali estava ela, ansiosa por vê-la, menos de 24 horas depois.

– Eu queria vê-la só um pouco, nem que seja por 5 minutos. Ela tá no quarto lá em...

– A Marina tá dormindo agora. — Falou Vanessa ao chegar na sala interrompendo Clara. — Fui ao quarto ver se já podia levar o lanche que ela tinha pedido mas quando cheguei ela estava dormindo. Mas o que você tá fazendo aqui Clara?! Além de ser muito tarde, você não tinha se demitido?!

– É muito tarde mesmo, e eu me demiti sim Vanessa. — Respondeu Clara. — Mas a Flavinha me ligou falando do acidente, disse que Marina não parava de chamar por mim, e eu quis vir, pra ver como ela está.

Vanessa olhou para Flavinha como se reprovasse o fato dela ter ligado para Clara, mas Flavinha não se deixou intimidar e a encarou.

– É rápido Vanessa, não quero atrapalhar. Só preciso vê-la um pouco. — Justificou a morena.

Vanessa movimentou os dois braços como se oferecesse passagem para Clara, que caminhou até as escadas em silêncio e subiu rumo ao quarto de Marina.

Clara entrou no quarto devagar, não queria acordar a fotógrafa. Marina estava deitada de lado, voltada para o centro da cama, o pé direito envolvido por uma bota. Apesar de tudo que havia acontecido naquele dia, a demissão de Clara, o porre, a queda da escada, seu sono parecia tranquilo.

A morena deu a volta na cama e sentou-se do lado esquerdo, ficando de frente para Marina. Contemplou a fotógrafa por um momento. Preferiu não se lembrar de tudo que haviam dito nos últimos encontros. Queria esquecer as palavras e pensar no tanto que se sentia bem ali, ao lado da fotógrafa, e o tanto que sua vida havia mudado desde que Marina passou a fazer parte dela.

A assistente acariciou o rosto da fotógrafa. Sentiu a maciez de sua pele, os belos contornos de seu semblante. Passou a mão pelos cabelos de Marina. Olhava-a com carinho. Percebeu sua fragilidade naquele momento, e sua vontade era acolhe-la em seus braços.

Pouco depois, a fisionomia tranquila de Marina ganhou contornos preocupados, e mesmo dormindo a fotógrafa balbuciou:

– Não vai Clara, fica, por favor. — Marina parecia estar em um pesadelo.

Clara percebeu a inquietação que o sono trazia à fotógrafa e aproximou seu rosto dela:

– Shhhhhhhh, fique tranquila, estou aqui com você — A morena tentou acalmá-la sussurrando em seu ouvido. Sentiu o perfume característico da fotógrafa, e não resistiu em dar-lhe um beijo tenro e demorado no rosto.

Após este gesto, Marina abriu os olhos.

– Clara?!? — Falou surpresa, ainda deitada, enquanto tinha o rosto da assistente bem perto de si. — Que bom que você está aqui!

A fotografa sentou-se na cama e deu um abraço apertado na morena. Os braços firmes de Clara a envolveram, e finalmente sentiu-se segura. Passou em sua cabeça um filme de tudo que tinham vivido recentemente. Mas Marina queria apenas apreciar aquele momento, o calor que o abraço de Clara lhe trazia.

Por um instante, puderam esquecer o mundo e pensar que nada mais existia além delas ali, no conforto daquele abraço caloroso. Conscientemente, sabiam que era necessário um afastamento radical. Mas queriam estar juntas, e contra esse sentimento não conseguiriam mais lutar.

Notas finais
Cena posterior - Clara desabafa com Helena sobre visita que fez a Marina (24/03/2014): http://globotv.globo.com/rede-globo/em-familia/t/cenas/v/clara-desabafa-com-helena-sobre-visita-que-fez-a-marina/3236012/ No próximo capítulo, cenas da noite de inauguração do Galpão Cultural (porque a gente não merece ver aquela noite acabar com a carinha triste da Marina quando o Cadu esfrega na cara dela a aliança nova da Clara, não é?!). Até breve! Capítulo 3 postado em 03 de outubro de 2014.