Assim Estava Escrito
6 Na aula de fotografia
Notas iniciais
Marina estava feliz com as aulas de fotografia no Galpão Cultural, pois além de poder compartilhar um pouco de tudo que já tinha aprendido em seus anos de experiência como fotógrafa, era também a oportunidade de ficar um pouco mais perto de Clara, visto que a morena tinha se afastado do trabalho no estúdio para cuidar de Cadu e do bistrô enquanto o marido se recuperava do transplante de coração.
Aquela era somente mais uma aula, mas para Marina era especial, pois Clara havia encontrado um tempinho para participar, e a presença da morena dava à aula e à professora um outro astral.
Nesta dia, Marina falava sobre a importância da sensibilidade do olhar, requisito fundamental ao bom fotógrafo, independente do equipamento que se tenha em mãos:
– Então pessoal, o item essencial para a realização de uma boa fotografia é a sensibilidade de cada um, a prática do olhar, conseguir imprimir na foto aquele momento único e especial que seus olhos conseguiram captar. Este é o item fundamental que precisa ser trabalhado por vocês. E para isso, nada como a prática e a observação. Porque esse olhar é algo que se ganha com o tempo, apreciando, praticando. É importante analisar outras fotografias e também fazer muitas e muitas fotos. Experimentar.
– Professora, mas também é necessário ter um equipamento bacana, profissional, isso é o que vai ajudar a definir uma boa foto, não é?! — Um dos alunos indagou Marina.
– Bom, o equipamento ajuda sim, mas não é o essencial. A câmera é um instrumento a serviço do seu olhar. Quanto mais controles e recursos ela tiver, maiores são as possibilidades de trabalho com a foto. Mas isso não é definitivo. Por exemplo, observem essas fotografias que vou projetar aqui.
Neste momento, Marina apresenta algumas fotos de uma de suas exposições, quando trabalhou o tema "Mulheres trabalhadoras na região norte do Brasil". Como fazia a catalogação das exposições da chefe, Clara já conhecia todas aquelas imagens.
– Vejam essas mulheres aqui. — A fotógrafa falou apontando para a projeção. — Essas mulheres estavam em suas casas, fazendo as mesmas tarefas que realizam todos os dias. Mulheres comuns, com vidas comuns, mas nem por isso desinteressantes. Porque a vivência dessas mulheres tem muita riqueza, a experiência delas é magnífica. Mas muitas vezes, ninguém nota isso. E a proposta deste ensaio foi exatamente dar visibilidade a esses mulheres comuns e ao mesmo tempo tão especiais. Então a ideia era retirá-las deste lugar em que elas se encontram todos os dias, despi-las de todas essas vestes que a sociedade lhes impõe, e tentar capturar com a câmera a essência dessas mulheres, algo que está sempre com elas, mas nem todo mundo vê.
Marina disse essas últimas palavras olhando para Clara. Para ela, a assistente era exatamente como os exemplos de mulheres das fotografias apresentadas. Quando a fotógrafa realizou o ensaio da morena, o que ela fez foi exatamente dar visibilidade para uma Clara que sempre esteve ali, mas nunca fora vista antes, nem por sua família, nem por seus amigos, e nem mesmo por Cadu. Mas Marina viu desde o início a mulher que Clara era. E tudo que fez foi estimulá-la a se mostrar, a deixar aparecer essa Clara que estava adormecida dentro dela.
A turma toda ouvia Marina com atenção e olhava com admiração os trabalhos que a fotógrafa ia apresentado. Clara também estava atenta, mas seu olhar para Marina trazia algo mais. Simplesmente era encantada pelo trabalho da chefe, e a paixão com que Marina realizava suas fotos era algo que deixava a assistente muito emocionada e orgulhosa.
– Bom pessoal, então a tarefa que vou passar hoje e que eu gostaria que vocês trouxessem na próxima aula é fotografar coisas do dia a dia, lugares ou pessoas com as quais vocês convivem cotidianamente. Mas tentem imprimir um outro olhar, vê-los de uma forma diferente desta vez. O importante é vocês olharem para lugares e pessoas de uma outra maneira, verem de uma forma diferente. Verem a essência. Verem o que sempre esteve ali, mas nunca foi visto antes. Daí vocês trazem suas fotos na próxima aula, e a gente projeta elas aqui e vai conversando sobre cada uma, tá ok?! — Marina encerrou, liberando a turma e despedindo-se de todos.
Os alunos foram saindo, e enquanto Marina recolhia seu material Clara foi se aproximando da fotógrafa. Ficaram sozinhas.
Marina olhou para Clara e sorriu.
– Que bom que você veio hoje Clarinha. Acho que a aula fica muito melhor quando você tá por perto. Fiquei triste na última aula quando você saiu, nem se despediu de mim... — Marina disse com o olhar um pouco triste.
– Ehhh, desculpa Marina. Eu tive que resolver uma coisa e saí de repente, nem pude falar com você. Me perdoa mesmo. Tá tudo bem?! — Clara perguntou.
– Tá sim Clarinha. Agora está tudo bem. Com você perto de mim, tudo fica melhor.
Clara sorriu.
– Eu gosto muito de vir na sua aula. Adorei quando você falou dessa questão do olhar, de ver as coisas com uma outra perspectiva. Amo te ver falando do seu trabalho, você faz tudo com tanta paixão, é bonito de se ver.
– É, tenho que admitir que faço tudo com muita paixão mesmo. Sou muito intensa. — Marina afirmou, olhando para Clara com seu olhar sempre sedutor.
O sorriso de Clara se manteve em seu rosto. Ela sabia que aquelas palavras eram para ela também. E lhe fazia bem saber dos sentimentos e da admiração da fotógrafa por ela. No início se sentia um pouco desconcertada com as falas de Marina, mas agora não mais. Gostava de saber que era amada pela chefe, pois também a amava, ainda que não soubesse quando poderiam viver tudo que estavam sentindo.
– Eu queria te pedir uma ajuda para fazer esse exercício para a próxima aula. — Disse-lhe Clara. — Na verdade, acho que eu ainda nem estou sabendo pegar na câmera direito. — Riu a assistente.
– Quem disse que não?! — Marina retrucou. — Claro que você sabe.
– Ah, mas não do jeito que você faz. Queria fazer como você.
– Bom, eu posso te mostrar mais uma vez, mas uma coisa é certa Clarinha: você tem a sensibilidade no olhar. Saber trabalhar com isso aqui — Marina apontou para a câmera — é como aprender a manusear uma ferramenta. Quanto mais você usar, mais vai se familiarizar e melhor vai conseguir utilizar os recursos dessa 'ferramenta'. Mas esse olhar sensível que você tem, essa percepção aguçada, isso é o mais importante. Porque isso a pessoa só ganha com o tempo, exercitando o olhar e sendo sensível ao mundo ao seu redor. E isso você já é Clarinha. — A fotógrafa concluiu, olhando para a assistente com seu sorriso arrebatador.
Clara ruborizou um pouco com o elogio de Marina. A chefe realmente sabia como mexer com ela.
– Bom, vem cá, deixa eu te mostrar essa questão da câmera. — Marina puxou Clara. — Segura a câmera aqui. — A fotógrafa se posicionou atrás de Clara e envolveu a morena com seus braços, levando suas mãos até as mãos da assistente, que já seguravam a câmera.
Marina chegou seu queixo até os ombros da morena e segurou suas mãos, chegando a câmera bem próxima do rosto de Clara. A fotógrafa agora a envolvia completamente, e seus braços contornavam os braços da outra.
– Tá vendo aqui Clarinha, o próprio formato da câmera ajuda a deixar os controles mais importantes acessíveis rapidamente durante a sessão.
Clara podia sentir o calor do corpo de Marina contra o seu, e fechou os olhos por um instante tentando voltar sua concentração para a explicação que a fotógrafa lhe dava.
– Daí sua mão esquerda vai controlar esses arcos aqui, que são para ajuste do obturador e do diafragma. — Com sua mão, Marina levou a mão esquerda de Clara até os arcos e fez o movimento junto com a morena. — E a sua mão direita aqui, tem que ficar firme segurando a câmera, nessa voltinha aqui, que se ajusta perfeitamente ao formato da mão. — Marina segurou firme a mão direita de Clara. — Daí o seu dedo indicador vai ficar livre para apertar o botão e tirar as fotos.
Marina agora segurou a câmera e a aproximou ainda mais do rosto da morena, que mantinha suas mãos sob as da fotógrafa. Para enxergar no visor da câmera, Marina chegou bem perto do rosto de Clara. A concentração da assistente foi embora novamente. Ela podia sentir a respiração da professora em sua pele, e não resistiu em virar o rosto para o lado da fotógrafa. Seu nariz tocou o dela e seus olhares se encontraram.
A proximidade de suas bocas denunciava a respiração mais intensa que mantinham naquele instante. Esqueceram onde estavam. Simplesmente fecharam os olhos e deixaram-se levar pelo momento. O coração e o desejo que sentiam era o que as guiava agora. Não queriam mais resistir. Cada dia que se passava, seus corpos imploravam para se tornar um só.
– Ehhhh, desculpa interromper. — Assim que ouviram a voz Clara e Marina se afastaram rapidamente. Era Murilo, que também estava na aula que havia terminado há pouco.
– Eu esqueci uma pasta perto da cadeira onde eu estava sentado. — O rapaz, que estava próximo da porta, apontou para a pasta que estava no chão.
– Ah Murilo, pode entrar, fica à vontade. — Marina falou, ainda um pouco sem graça pelo que o aluno tinha presenciado.
Clara permanecia de cabeça baixa. Quando o rapaz saiu, ela se voltou para Marina, e embora ainda estivesse muito mexida pelo momento que haviam vivido há poucos instantes, tentou agir normalmente.
– Eu queria te agradecer Marina, pela paciência que você tem comigo.
– Ah Clara, que é isso, não precisa agradecer. Eu adoro poder compartilhar um pouco do que eu sei, é um prazer pra mim falar de fotografia, ainda mais com você.
– Que bom! — Clara sorriu. — Mas eu não estou falando só da aula de hoje Marina. Eu tô falando de tudo, de sua paciência comigo, com a minha situação, com a minha vida indefinida. — Marina ouvia com atenção olhando nos olhos da morena, que continuou. — Sei que essa confusão de sentimentos dentro de mim acaba fazendo vocês dois sofrerem, você e o Cadu. E eu não queria isso... — Uma lágrima escorreu pelo rosto de Clara.
– Não fica assim Clara. — Marina tentou confortá-la. — E eu não estou te cobrando nada, não quero te pressionar.
– Eu sei que não. E é por isso mesmo que estou te agradecendo, por sua paciência comigo, por não me cobrar. Eu estou passando por um momento muito complicado. O Cadu está tentando retomar sua rotina nesse pós-transplante. Ele precisa de mim. E eu quero estar perto dele, porque ele é meu marido e o amo. — Clara suspirou fundo. Estava pensativa. — Talvez não da mesma forma que antes, mas ainda assim, eu o amo. E ele é o pai do meu filho, merece o meu cuidado e carinho. Enquanto ele estiver nesse processo de recuperação, eu preciso estar do lado dele. Preciso focar nisso, sabe?!
– Eu sei Clarinha. — Marina agora estava cabisbaixa. Entendia a situação de Clara, mas lhe doía não saber se um dia elas viveriam tudo que estavam sentindo.
– Mas eu preciso te dizer uma coisa Marina. Tudo que a gente viu aqui na aula hoje me fez lembrar o tanto que eu sinto falta de estar no estúdio, de estar com as meninas, com você. Eu me acostumei a estar perto de você todos os dias, e sinto muita falta disso. Assim que tudo isso passar, que o Cadu já estiver bom para voltar a cuidar do Bistrô, eu quero voltar a trabalhar com você. Eu preciso estar perto de você.
Marina voltou a olhar para Clara e seus olhos marejaram com as últimas palavras da morena. Clara continuou:
– Quando eu estou perto de você, eu me sinto cheia de energia, fico mais leve, mais disposta. Eu aprendi que a vida ao seu lado é muito alegre, e eu quero me sentir assim sempre.
– Eu também preciso estar perto de você Clara. E fico feliz em saber que você sente o mesmo. — Ainda com os olhos marejados, a fotógrafa sorriu.
– Sinto sim Marina. — Clara se aproximou da chefe e segurou sua mão, levando-a carinhosamente até junto de seu peito. — E ainda que eu não possa estar do seu lado agora, eu queria que você soubesse que o meu amor está presente, há mais tempo do você possa imaginar. — Marina não conseguiu segurar as lágrimas. — O meu amor e o meu desejo estão presentes há muito tempo, pode ter certeza.
Em meio às lágrimas, Marina sorriu e se aproximou de Clara um pouco mais, envolvendo a assistente em um abraço apertado, cheio de cumplicidade e carinho. A morena deu um beijo longo no rosto da fotógrafa e se despediu. Quando chegou na porta da sala, Clara se virou e olhou para Marina mais uma vez. Sorriu e se foi.
Marina ainda ficou por ali um tempo, parada, pensando em tudo que tinha ouvido de Clara. Ainda não sabia quando poderiam concretizar seu amor, mas sabia que ele estava ali, presente e sincero. Amavam-se, e isso, naquele momento, era o suficiente para confortar seu coração.
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