Assim Estava Escrito
18 Jantar na casa da Dona Chica
Notas iniciais
Marina andava de um lado para o outro em seu quarto. Escolhia uma roupa, experimentava. Logo depois, pensava em outra peça que poderia ficar melhor, e se vestia novamente. Demorou um tempo ainda, mas na sexta troca de roupa finalmente sentiu que estava bem.
Clara havia lhe falado do convite de Chica para jantarem em sua casa alguns dias antes, mas mesmo se preparando para isso, a fotógrafa não conseguiu conter o nervosismo. Afinal, era sua apresentação oficial como namorada à mãe da assistente, e isso lhe dava um frio na barriga que ela tinha sentido pouquíssimas vezes antes.
Já vestida, Marina foi terminar de se maquiar. Não pretendia exagerar muito, mas fez questão de realçar os traços delicados de seu rosto. Queria impressionar! E foi neste momento que Vanessa entrou em seu quarto.
– Mas olha só, a que deve essa preparação toda especial?!? — Especulou a ruiva.
– Hoje eu e a Clara vamos jantar na casa da Chica, e é a primeira vez que eu vou encontrá-la desde que ficamos juntas. — A fotógrafa falou enquanto terminava de passar o batom.
– Hum, entendi. E você tá querendo impressionar a sogrinha?! Você pode até tentar viu Marina, mas acho que ela preferia que a Clara levasse lá alguém com um bocado mais de testosterona. — Vanessa continuou perturbando.
A fotógrafa tinha finalmente acabado se aprontar, e ao ouvir a sócia, não conseguiu se segurar:
– Olha Vanessinha, você pode gorar o tanto que você quiser, mas eu e a Clara não vamos nos separar mais. A gente se ama, estamos muito felizes juntas, e nada que você fizer ou falar vai abalar o nosso amor. Aliás, eu queria pedir pra você tomar cuidado com algumas coisas, para o seu próprio bem, porque você sabe que quando a Clara fica nervosa é difícil de segurar. Aquele dia que você estava aqui no meu quarto ela não gostou. Ela achou que você tinha dormido aqui, ficou triste, nervosa. E eu não quero vê-la assim mais. Então Vanessinha, — Marina falou o nome da ruiva com ironia — eu queria te lembrar que você é minha sócia, minha amiga, mas não somos namoradas mais, e eu não posso admitir algumas interferências suas na minha vida pessoal, no meu relacionamento, e muito menos a sua presença na minha cama, tá?! — A fotógrafa abriu um sorriso irônico enquanto dava leves tapinhas no rosto da ex. — Bom, eu vou sair agora, porque não pretendo me atrasar. E já que você quer tanto saber, eu quero impressionar a sogrinha sim, e tenho certeza que ela vai me aceitar exatamente do jeito que eu sou, porque eu faço a filha dela feliz, e é isso que os pais mais querem para os seus filhos.
Depois do discurso da ex namorada, Vanessa ficou sem palavras. Estava boquiaberta e só conseguiu observar Marina pegar suas coisas e sair. Sua ficha ainda não havia caído, mas a ruiva percebia cada dia mais que talvez a sócia nunca mais voltasse a ser sua.
A fotógrafa entrou no carro e partiu para o Leblon. Naquela noite dormiria na casa de Clara, e seria também a primeira noite das duas sozinhas no apartamento da morena. No caminho, aproveitou para passar em uma floricultura.
Chegando ao prédio da assistente, Marina subiu até o apartamento da amada. Tocou a campainha, e mais uma vez seu coração disparou ao ver a namorada, que estava deslumbrante como sempre. Com os lábios entreabertos, a fotógrafa percorreu a morena com os olhos, até que suas vistas se cruzaram novamente.
– Você é mesmo um escândalo viu Clara?! — A namorada a elogiou.
– Ah pára, assim eu fico sem graça. — A assistente olhou pra baixo um pouco tímida.
Marina se aproximou e selaram os lábios.
– Mas é a mais pura verdade! — Completou a fotógrafa. — Olha, eu trouxe esta rosa aqui pra você! — Entregou-lhe a flor. — E esses lírios aqui são pra sua mãe!
– Ah, que lindos! Não precisava preocupar com isso meu amor! Mas muito obrigada viu?! Amei! Entra aqui! Vou só colocar a rosa na água e a gente já vai lá pra mamãe.
Marina fechou a porta. Foi caminhando pelo apartamento da morena. Deixou o buquê de Chica sobre a mesa e bem devagar adentrou a cozinha. Sem que Clara percebesse, abraçou a assistente por trás.
– Já que estamos adiantadas, será que dava pra gente namorar um pouquinho antes de ir pra casa da sua mãe?! — Falou no ouvido da morena. — Só um pouquinho, pra relaxar. — Marina pediu.
Clara se virou para ela e sorriu. Levou as mãos até o rosto da namorada e a acariciou. Juntaram seus lábios novamente. O beijo começou delicado, mas logo foi esquentando. As mãos da morena chegaram até a cintura da outra e, sem parar o contato de suas bocas, foi levando a fotógrafa para trás, até sentir que haviam alcançado o balcão da cozinha. Os lábios continuaram se explorando enquanto Clara pressionava seu corpo no da namorada. A morena fez o movimento de suspender a cintura de Marina, que a ajudou com um pequeno impulso, e logo a fotógrafa estava sentada no balcão. O beijo continuou, cada vez mais intenso, e a assistente, que estava entre as pernas da outra, subiu suas mãos pelas coxas da namorada, e, chegando até o quadril, puxou-o para junto de si, pressionando seus sexos.
Clara passou a beijar o pescoço da fotógrafa, e a seguir, levou seus lábios até o lóbulo da orelha esquerda da namorada, chupando-o com vontade. Marina gemeu com o toque. Logo depois, Clara ficou novamente de frente para o rosto da outra, e sorriu ao perceber as reações que tinha provocado na amada.
– Relaxou agora? — A morena perguntou.
Marina sorriu ao perceber o que a namorada tinha feito.
– Muito! Até demais minha linda! — Deu outra risada. — Obrigada por me tranquilizar, viu?! — Respondeu a fotógrafa.
– Então tá bom! — Clara a acariciou no rosto novamente. — Agora vamos porque senão a gente vai atrasar de verdade.
– Vamos sim! — Marina concordou. Retocaram o batom e seguiram até o apartamento de Chica.
Chegando na porta, Clara olhou novamente para a namorada, que deu um suspiro profundo.
– Fica calma, tá?! Foi a mamãe que nos convidou, sinal que ela está lidando bem com toda essa história. Vai dar tudo certo! — A assistente afirmou.
– Tá bom! — Concordou Marina, acenando positivamente com a cabeça. A fotógrafa respirou fundo mais uma vez.
Voltaram-se para a entrada do apartamento e a morena tocou a campainha.
Pouco depois, Chica e Ricardo abriram a porta. A mãe da assistente as recebeu com um sorriso grande, o que deixou Marina mais sossegada. Cumprimentaram-se e a fotógrafa entregou as flores para a sogra.
– Nossa, que lindo buquê de lírios! Obrigada Marina! Muito atenciosa você! — Sorriu a matriarca. — Vamos entrando meninas! — Completou.
Clara e a namorada entraram no apartamento de Chica e se sentaram juntas no sofá, enquanto a anfitriã ocupou uma das poltronas. Ricardo serviu champanhe para todos, e sua mulher se ofereceu para fazer um brinde:
– Bom, eu queria aproveitar essa ocasião mais do que especial, para dar as boas vindas para a Marina a essa família! — Exclamou Chica, enquanto os olhos da fotógrafa marejaram, assim como os de Clara. — Sei que a trajetória de vocês duas até aqui não foi fácil, e há muitos desafios pela frente, mas eu espero do fundo do meu coração que vocês sejam muito felizes! — Completou a dona da casa.
– Amém! — Clara respondeu, levantando sua taça.
Marina também levantou a sua, mas estava muito engasgada para falar qualquer coisa. Conseguiu apenas balbuciar um "obrigada Chica", que fez a sogra sorrir. Ricardo levantou sua champanhe e finalmente tocaram as taças, completando o brinde.
Ficaram um tempo conversando sobre assuntos diversos, num clima bem descontraído. Marina se divertiu com as histórias que Chica contava da infância de Clara em Goiânia. Estava feliz por conhecer um pouco mais da vida da namorada, e pela forma como a sogra a recebeu, fazendo-a se sentir tão à vontade.
Em um determinado momento da noite, Chica se levantou e foi até a cozinha buscar uma outra garrafa de champanhe. O marido a acompanhou e aproveitou para verificar como estava o andamento do prato principal, que haviam deixado assando no forno.
Sozinhas na sala, as duas namoradas se olharam e sorriram.
– Tô tão feliz! — A morena exclamou.
– Eu também minha linda! Eu também. — Marina concordou.
A fotógrafa levou a mão até o rosto de Clara, acariciando-o com delicadeza. Chica voltou da cozinha a tempo de ver a cena. Acompanhou a filha debruçando a face na mão da namorada, beijando em seguida sua palma, ao mesmo tempo em que trocava um olhar apaixonado com a fotógrafa. As duas estavam tão imersas naquele carinho que nem se deram conta da presença da anfitriã, que por sua vez emocionou-se com o que viu. Estava encantada pelo carinho da nora com sua filha, e também pela alegria estampada no rosto de Clara, uma felicidade que ela não via na morena há muito tempo.
– Daqui a pouco o jantar está pronto! — Falou Ricardo quando voltou da cozinha, fazendo com que a esposa despertasse daquele momento de contemplação do amor das duas.
Ainda tomaram mais uma champanhe antes que fosse servido o jantar.
Ao final da refeição, Chica se voltou para a nora:
– Marina, será que você me ajuda com a sobremesa lá na cozinha?! Eu precisava de uma mãozinha pra desenformar um pudim que fiz.
Ricardo e Clara se entreolharam. Eles entenderam na hora que Chica queria um momento a sós com a fotógrafa.
– Claro Chica, ajudo sim! — Marina respondeu, lançando um olhar para a morena ao sair da mesa, como se buscasse uma resposta para o que estava acontecendo.
Depois que entraram na cozinha, a anfitriã logo esclareceu:
– Na verdade eu não preciso de ajuda. A sobremesa já está até pronta Marina. Mas é que eu precisava te falar uma coisa. — A fotógrafa a olhava atentamente. — Eu queria te pedir desculpas. Pedir desculpas pela forma como te tratei antes, por não perceber o sentimento que você sempre teve pela Clara. Aquele dia no hospital, quando o Cadu estava internado, eu sei que fui muito dura com você, grosseira até, e lhe peço perdão por isso. — A sogra segurou as mãos de Marina. — Também queria me desculpar por demorar a entender o sentimento de vocês. No início eu fui sim muito resistente, admito isso. Foi difícil processar quando a minha filha confessou que te amava. — Os olhos de Chica marejaram, mas ela os mantinha fixos na fotógrafa. — Via a aproximação de vocês com um olhar todo preconceituoso que eu carreguei por tantos anos, e me envergonho por isso. Mas lhe peço desculpas, e agradeço por vocês me permitirem olhar a vida de outra maneira, e lutar contra esse preconceito que eu tinha dentro de mim. O que eu quero agora Marina, é lhe mostrar toda a minha gratidão pelo que você está fazendo pela Clara. — Chica levou sua mão até o rosto da nora, que já tinha deixado algumas lágrimas caírem. — O amor que você tem por minha filha, e ver como ela está feliz, me dão a certeza de que você a faz bem, e me deixa muito contente por vê-las juntas! Muito mesmo! Seja bem vinda à nossa família, e saiba que vocês têm o meio apoio em tudo que fizerem!
Ambas sorriram, muito emocionadas, e se abraçaram. No calor daquele abraço, e após tudo que ouviu, Marina sentiu como era sincero o acolhimento de Chica. Ainda com os braços envolvendo a sogra, a fotógrafa falou:
– Muito obrigada Chica! Obrigada pela filha maravilhosa que você criou, e por me acolher de forma tão generosa em sua família. Obrigada mesmo!
Ficaram ali por mais alguns instantes. Depois que o abraço se desfez, enxugaram as lágrimas, e riram ao perceber que lá na sala os dois já esperavam pela sobremesa há um bom tempo. Após voltarem à mesa, Ricardo deu um beijo carinhoso no rosto da esposa.
Clara olhou para Marina, e pelo semblante da namorada, percebeu o que tinha se passado. Sorriu. Pegou a mão da fotógrafa e a beijou. Olharam-se novamente.
– Eu te amo! — Marina declarou.
– Também te amo muito minha linda! Muito! — A morena respondeu.
Depois de apreciarem a sobremesa, ficaram por mais um tempo conversando, até que Clara se deu conta do avançado da hora.
– Bom, mamãe, Ricardo, já está muito tarde, a gente precisa ir. Muito obrigada pelo jantar, foi ótimo! — A assistente agradeceu.
– É Chica, estava tudo delicioso! Obrigada mesmo, por tudo! — A fotógrafa abraçou a sogra mais uma vez. Depois, voltou-se para Ricardo. — Primo, te agradeço também por me receber aqui! Muito bom te ver assim tão alegre, tão leve!
– Também fico muito contente por te ver feliz assim Marina! Essa família nos faz muito bem, não é?! — O piloto afirmou.
– Faz sim! Muito mesmo! — A fotógrafa concordou, a seguir dando uma piscadinha para Clara.
– Meninas, fiquei muito feliz pela vinda de vocês e espero que possamos marcar mais vezes! — Chica disse.
– Vamos sim mamãe! Teremos muitos jantares em família assim! — A morena finalizou, despedindo-se da mãe.
Após retornarem ao apartamento da assistente, estavam na sala quando Clara abraçou a namorada por trás e lhe falou no ouvido:
– E então minha linda, o que você achou?!
– Eu amei Clara! Amei tudo! Sua mãe foi tão doce, me deixou tão à vontade. Me senti mesmo como parte da família.
– Mas você é, pode ter certeza disso! Agora você vai poder experimentar as dores e delícias da família Fernandes. — A morena soltou uma risada. — De vez em quando tem uns barracos que olha... sai de baixo viu?! — As duas riram juntas. — Mas não vamos falar disso agora não. Por enquanto, ficamos só nas delícias.
– Ah é?! — Marina olhou de lado e encarou a morena, que deu um sorriso assanhado.
– E por falar em delícia, o que você acha de continuarmos o que começamos ali na cozinha antes do jantar?! — Clara sussurrou no ouvido da namorada.
A fotógrafa se virou de frente para ela.
– Eu estava pensando exatamente nisso agora! — Marina sorriu.
– A gente pode começar ali na cozinha, depois vem aqui pra sala, daí vai pro quarto, a seguir pro chuveiro... — O olhar da assistente para a fotógrafa pegava fogo. — Porque eu quero te sentir em todos os cômodos dessa casa meu amor! — A morena dava diversos beijinhos no pescoço da outra. — Quero o seu perfume em tudo aqui!
– Bom, você pedindo desse jeitinho, acho que dá pra providenciar isso sim! — A fotógrafa brincou e sorriu.
Seus lábios se uniram e o beijo não demorou a ganhar intensidade. Clara segurou a cintura da namorada, e foi a levando em direção à cozinha. Chegando lá, a pressionou novamente contra o balcão, e logo seus corpos estavam tão quentes quanto seus beijos. Amaram-se ali, e em todos os outros cômodos, e foram dormir somente de manhazinha, quando os primeiros raios de sol já tinham apontado no horizonte. Na cama da morena, seus corpos nus estavam como um só, agarradinhos, e assim dormiram tranquilamente por horas e horas naquela manhã de domingo.
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