Assassin's Creed: Aftermath
53 Um Passo Definitivo
Notas iniciais
Davenport Homestead. 01 de Janeiro de 1779.
A inquietude daqueles dias me acompanhava em meus sonhos. Desde a chegada de Eseosa, a trazer más notícias de horizontes tão distantes, meus sonhos tinham desaparecido, dando lugar a noites em claro, passadas em minha cama, entre apreensão e temor. Tanta coisa tinha acontecido, tantas novas experiências eu havia passado e agora, que parecia que o pior em minha vida já havia cessado, que finalmente poderia viver feliz e plenamente, o neto do lendário Adewalé surge para lembrar-me de que esta guerra secreta que travo dentro de mim ainda estava longe de terminar. Agora, os Templários possuíam a arma mais poderosa que se tinha em mente, e infelizmente pouco havia o que se fazer. Não tardaria até que eles acionassem a Maçã. E em uma perspectiva pior, com a minha ajuda.
Isso me trazia aflição, colocando-me em total estado de nervos. Dias se passariam desde a chegada de Eseosa e de minha expulsão dos Assassinos e me vejo a andar distraído, pensando no que poderia ter acontecido se tivesse tomado decisões diferentes, tentando enxergar todas as possibilidades que deixei escapar.
E para completar, eu não era mais um Assassino. Como pude ter errado tanto para ter-me tornado indigno de servir à Irmandade?
Quando pus minha cabeça sobre o travesseiro outra vez, em mais uma sucessiva noite de apreensão, pensei que esta seria mais uma noite em claro. Aquela era noite de Ano-Novo. Tínhamos acabado de jantar, seguindo as tradições do povo de meu pai, tendo esperado até a Meia-Noite para comemorar a chegada de mais um ano. Fomos até o pub, onde Norris preparou uma queima de fogos improvisada com um pouco de pólvora da mina de ferro. Foi improvisado, mas ao mesmo tempo algo bonito de se ver, o céu repleto de explosões, luzes e cores. Coisas do homem branco, pensei comigo.
Neste ano, eu ainda caçava templários e ajudava Washington e os Patriotas, sem ter a mínima idéia de que minha busca por liberdade pouco traria. Após abraçar meus pais e minha irmã, aleguei indisposição e me recolhi, deixando meus pais conversando animadamente, fazendo planos para o ano seguinte enquanto tomavam algumas taças de vinho – quão estranho era, observar minha mãe beber tal coisa – enquanto Tessa parecia animada com as outras meninas da Herdade.
Depois de rolar sobre minha cama um par de vezes, percebi que lutar contra aquela insônia seria em vão.
Sem contar aos meus pais para onde estava indo, decidi ir para Nova York. Amália estava lá. Provavelmente, eu chegaria lá em manhã alta e poderia encontra-la tirando uma soneca da noite passada em claro, mas eu pouco me importava. Eu precisava vê-la, precisava contar de meus sentimentos. Desde que fui afastado da Ordem, eu não mais estive com ela. Mas apesar de os últimos acontecimentos terem sido desastrosos, algo de bom aconteceu, em meio à tragédia de meu destino: Amália. Sem dúvida, eu a amava. E notar seu olhar apaixonado sobre mim, naquele breve sonho provocado pela Maçã, eu tive certeza de que ela também deveria nutrir algo por mim além de uma inofensiva amizade.
Era hora de contar a respeito de meus sentimentos.
Foi bom ter optado pelo cavalo mais resistente, pois cheguei lá perto das seis da manhã. Nova York já se encontrava de ressaca pela recente festividade, com as ruas mais imundas que o normal, repleto de bêbados e gente caminhando pela rua, cumprimentando uns aos outros. Fui até o pub dela, The White Falcon, e o encontrei ainda aberto e bastante cheio. Claro, o que mais eu poderia esperar? Ela era dona de um pub, afinal, e estava acostumada com este tipo de movimentação.
Amália andava de um lado a outro, servindo bebida a alguns e ajudando os garçons no atendimento. Quando me viu, ela deixou escapar um sorriso – tão bonito que me intimidou.
–Olá. – disse, simplesmente.
–Olá. Estou surpresa em vê-lo aqui hoje. Pensei que tivesse passado o Ano-Novo com sua família.
–E passei. Mas eu... Eu... Bem, eu decidi vir aqui depois.
–Encarar horas de cavalgada apenas para me ver? Quão gentil de sua parte.
Sorri, pois não sabia o que dizer.
–Aceita uma bebida? Recomendo a cerveja da casa.
–Sim, aceito. – respondi, fazendo-a encher uma caneca.
Após dar um gole, observei os lados.
–Parece que você está bastante ocupada. – disse, notando as mesas cheias de clientes. Ela assentiu.
–Essa época do ano é bastante agitada. Pessoas gostam de passar o Ano-Novo com os amigos, principalmente quando elas não têm família. Ou trabalhando, como eu, quando não possuem sequer os dois. – ela disse, limpando o balcão. Notei que ela evitava meus olhos.
–Pensei que eu fosse seu amigo.
O que disse a fez erguer os olhos novamente.
–Não pareceu muito, na última vez em que conversamos.
–Eu estava nervoso, com toda aquela situação de Maçã, e... – retruquei. – Desculpe-me, fui indelicado.
–Bom, ao menos você não me socou dessa vez.
Grunhi, o que a fez rir.
–É estranho te ver sem o Manto.
Observei a mim mesmo. Eu estava usando um terno comum, mas novo. “Você precisa usar uma roupa nova nestas festividades”, disse o meu pai, antes de me entregar um terno recém-encomendado. Eu sentia muita falta da praticidade do Manto de Assassino, mas mesmo contrariado, deveria seguir as ordens de Achilles. Afinal, aos olhos de meu Mentor, eu não era mais digno de usá-lo. E isso doía.
Decerto Amália notou minha dor, pois seu comentário tentou atenua-la.
–Desculpe-me. Não deve estar sendo fácil para você, ter sido expulso de algo que era praticamente sua vida.
–Não, não está. – disse, dando mais um gole. – Ainda estou tentando me acostumar com uma... Vida normal.
Havia diversão em seu olhar.
–O que seria essa “vida normal”? – ela disse, enquanto organizava a prateleira de bebidas.
Bufei. – Ajudar meu pai na fazenda. Sabe, com a Contabilidade, fazendo visita a fornecedores, ou então ajudar os colonos. Gosto de ajuda-los, ao menos, mas o restante, principalmente a parte mais burocrática... Nem um pouco.
–E como seu pai reagiu, ao saber do acontecido?
–Não disse qualquer comentário.
Não era mentira. Para minha abismação, meu pai nada disse a respeito. Quando dei a notícia, ele ficou com o semblante claramente chocado, mas ao contrário de minhas expectativas, não fez qualquer comentário a me caçoar do acontecido, ou mesmo querer sondar mais sobre o porquê de eu ter sido expulso – algo que não contei a ninguém. Mais tarde, minha mãe, mais curiosa, me procurou para saber o que aconteceu. Menti, dizendo que desobedeci algumas ordens de Achilles, e ela pareceu compreender, decerto porque conhecia bem o meu Mentor.
A única coisa que mudou em minha rotina foi o crescente trabalho nos últimos dias, todos eles repassados por meu pai, que agora parecia ainda mais obstinado a me transformar no homem de negócios da família Kenway, ou seja, aquele que daria continuidade ao seu legado e, quem sabe, expandiria a riqueza obtida por meu avô e por ele.
Amália parecia entender a razão de meu tédio.
–Uma vida normal não combina com você.
Ri. – Assim disse a proprietária de um pub.
Ela franziu o cenho. – Garanto a você, um pub nada tem de tedioso. Cada dia em que fecho as portas, eu tenho uma história diferente de meus clientes para contar, uma piada suja recém-aprendida, ou mesmo uma nova canção irlandesa recém-escutada. Política, religião, moda, entretenimento... Aqui é simplesmente a fonte de tudo.
Observei ao redor. Em uma mesa destacada, havia dois homens brigando de queda-de-braço, rodeado por outros que assistiam a disputa. Em um canto, um casal de namorados. No outro, dois sujeitos jogando damas, ignorando a agitação ao redor. Para não dizer do violinista, tocando e fazendo improvisos, recebendo moedas após alguns arrancar alguns aplausos.
–É. Talvez você esteja certa. O que foi? – perguntei, sentindo-me confuso. Ela tentou conter seu riso.
–Maggie, pode cuidar da clientela? Terei de me ausentar agora. – ela disse, falando com uma das garçonetes, que assentiu.
–Vamos conversar em privado. – ela disse, mexendo a cabeça, indicando a porta dos fundos. Levantei-me, abandonando minha cerveja e caminhando atrás dela.
Ela foi a primeira a abrir a porta dos fundos. Assim que passei para o lado de fora, onde notei que era mau-iluminado e que não havia ninguém, ela me empurrou contra uma parede. Como parte de meu instinto, pensei que tal gesto indelicado fosse sinal de alguma ameaça inesperada, e imediatamente saquei minha lâmina oculta – algo que não deixei de usar mesmo não sendo mais um Assassino.
Tendo seu corpo completamente encostado ao meu – pressionando-me contra a parede -, Amália aproximou-se de meu ouvido e sussurrou.
–Guarde sua lâmina, Connor. A única coisa que você precisa temer neste beco sou eu.
E quando dei por mim, estávamos nos beijando. Não tive dúvidas, naquele momento, de que Amália era muito mais experiente do que eu neste departamento. Provavelmente eu não era o único homem a passar na sua vida, e perceber isso tornava minha situação ainda mais difícil. Difícil porque eu queria impressioná-la, e para meu desespero, sabia que não conseguiria. Enquanto nos beijávamos, eu lutava para não fazer nada de errado, para não soar desengonçado.
–Parece que agora você é o Noviço, Connor. – ela disse, com diversão, quando quebrou o beijo. Senti minhas bochechas queimarem. Decerto meu rubor foi percebido, pois ela começou a rir sutilmente.
–Não se preocupe, eu estou adorando isso. E eu tenho muitas lições para te ensinar. Mas este não é o local mais apropriado, a não ser que você prefira ser preso por atentado a pudor... – ela disse, observando ao redor.
Não. Ela não estava sugerindo que... Que nós dois...
–Vem comigo. – disse, pegando-me pela mão.
Quando notei que estávamos caminhando para nada menos que a casa dela, eu estremeci.
Já?!
Até que não foi tão difícil quanto pensei, apesar de minha timidez. Notei que ela sentia a mesma coisa. Nosso relacionamento tinha tudo para dar certo. Passei boa parte do primeiro dia daquele ano de 1779 trancado em seu quarto, recebendo mais “lições” de sua parte, até que ela se desse por satisfeita e decidisse que era hora de voltarmos para o pub, para almoçarmos – apesar de já ser quase três horas da tarde.
Quando dei por mim, já estava frequentando a casa de Amália e o pub há quase uma semana, ajudando-a em algumas tarefas típicas de um estalajadeiro, que acabei por notar não serem tão complicadas ou tediosas, à exceção da insuportável contagem de estoque que ela fazia de três em três dias. Temi encontrar clientes desrespeitosos, mas percebi que todos a respeitavam. Não por mera educação, mas imposição. Talvez, esta fosse uma das maiores vantagens de uma mulhe tão independente quanto ela: ao contrário de boa parte das colonas, Amália sabia se impor, colocar limites, seja por palavras ou mesmo atitudes – atitudes estas que deveriam envolver uma faca no pescoço, um chute nos testículos ou coisa pior.
–Seus pais devem estar preocupados com sua falta de notícias desde o Ano-Novo, Connor. – ela disse, enquanto me ajudava a arrastar o carregamento de vinho que havia acabado de chegar. Não era a primeira vez que ela fazia tal comentário, e isso começava a me irritar.
–Eles já estão acostumados com meus sumiços.
–Quando você era Assassino, sim. Mas não agora. Precisa entender, Connor, que sua vida mudou drasticamente e que você...
–Está bem. Amanhã, estarei partindo de volta para casa e toda a chatice dos papéis do meu pai. Satisfeita?
–Ela, talvez sim. Mas eu não.
Quase deixei a caixa de vinhos cair no chão, se Amália não tivesse sido mais rápida em me impedir de provocar um enorme prejuízo. Meu susto era justificado, uma vez que eu poderia esperar qualquer pessoa a entrar no White Falcon àquela hora, menos o meu próprio pai, com o semblante de poucos amigos.
–Pai?! O que faz aqui?!
–O que eu faço aqui?! Meu filho some na noite de Ano-Novo sem dar explicações e você me pergunta o que eu faço aqui?!
Amália me olhou com o semblante de “eu avisei”, que eu tentei ignorar.
–Mestre Kenway, porquê não conversamos em um local mais reservado?
Após observar que o pub estava com clientes, meu pai concordou.
–Está bem, Miss Lawler. – ele assentiu, educadamente seguindo-a para a casa dela, que ficava nos fundos do pub.
Fale com o autor