Assassin's Creed: Aftermath

19 Um Passeio por Boston


Notas iniciais
Olá!!! Fico feliz de ver que vocês estão gostando dos rumos da história. E quem ainda espera por coisas ruins acontecerem... Acho que esse cap é um bom prelúdio. Obrigada por acompanharem e boa leitura!

Kenway Homestead. 4 de Março de 1770.

Quando o bebê já estava com seis meses, negócios referentes a venda de alguns produtos da fazenda requisitaram a presença de meu pai na cidade. Embora eu conhecesse bem as atividades da fazenda, toda a parte referente à venda dos produtos ficava em sua mão.

Mas naquela manhã, fui surpreendido ao saber que não haveria treino. Ao invés de irmos à clareira onde costumávamos treinar ao ar livre, ele me levou ao seu escritório. Lá, ele decidiu me apresentar ao Livro de Contabilidade da fazenda.

Não era algo tão difícil como ele deu a entender, afinal eu já tinha intimidade com tais negócios, pois há alguns anos eu tomara a frente dos negócios da propriedade Davenport, de Achilles. Complicado foi mostrar que nada sabia, mas creio ter sido convincente o bastante.

–Agora que está consciente da Contabilidade, Connor, creio que podemos ir para Boston ainda hoje.

–A Boston? – perguntei, surpreso. Ao que parecia, ele jamais me levara à cidade.

–Sim, rapaz. Creio que é chegada a hora de você conhecer uma cidade de verdade. – ele disse, sorrindo. Ao que indicava, eu deveria ser muito ansioso por este dia. Procurei me mostrar assim, mas não sei se fui eficaz. Afinal, a paisagem de Boston já era algo até corriqueiro demais para mim.

–Vamos lá. Vista-se. Coloque sua melhor roupa e um dos chapéus que comprei para você, sem reclamar. Partiremos ainda hoje. Com sorte, chegaremos lá para pernoitar, e ainda cedo resolveremos nossos assuntos por lá.

Assim o fiz, colocando um terno azul marinho – que com desgosto notei ser minha melhor roupa – e o tal chapéu tricórnio, bastante parecido com o que ele usava. Tentei escapar do espelho, mas não houve jeito. Minha visão era, simplesmente, a de uma versão mais nova de Haytham Kenway. Com a pele mais morena, mas ainda assim, muito semelhante ao que ele deveria ter sido em minha idade.

Após ajustar minhas roupas, meu pai deu seu veredicto. – Ótimo. Creio que está adequado.

Enquanto embarcávamos no cabriolé, notei minha mãe a nos encarar, da janela, com o pequeno Jim em seus braços. Duvido que estivesse satisfeita com minha ida à cidade. Não só pelos perigos, mas também por temer os perigos que pessoas como eu e ela sempre estávamos submetidos. Como poucos, ela sabia o que era viver cercada por preconceito.

–Eu vou trazê-lo em segurança, Ziio. Você tem a minha palavra. – disse meu pai, antes de partirmos da fazenda, provavelmente adivinhando seus pensamentos.

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Foi a escuridão que me recebeu, com seus braços nada gentis e acolhedores, na que era a minha primeira ida a uma cidade grande. Apesar de já ter anoitecido, a cidade parecia inquieta, movimentada. Carroças passavam pelas ruas apertadas, dividindo espaços com cavalos, pessoas e animais como porcos e cães. O cheiro de estrume e fumaça invadia minhas narinas. Aquele cheiro não mudaria nem mesmo em outra realidade.

–Não sei se Boston está correspondendo ao que você imaginou, meu filho. – disse meu pai, tirando-me de meus pensamentos.

–Pouca coisa. Juro que imaginava um lugar mais... Limpo. – disse, lembrando das primeiras impressões que tive da cidade, quando estive lá ao lado de Achilles pela pela primeira vez.

Ele pareceu divertido. – Todas as grandes cidades são assim. Mesmo as europeias sofrem deste mal. Londres só tem requinte e luxo em certas partes. Um dia, eu hei de te levar para conhecer a Europa, e então verá com seus próprios olhos porque a América não pode se sentir menosprezada por ser um Novo Mundo. Me acompanhe, há algo que quero te mostrar.

Enquanto caminhávamos, desviando de alguns pedestres apressados e evitando ambulantes e pedintes, percebi que estávamos nos direcionando para próximo da área central da cidade. No quarteirão seguinte, ele pediu que eu parasse, e me apontou a um lugar.

–Está vendo? Aquela é a Catedral da cidade. Alto, não é?

–Sim, de fato. – disse, tentando parecer embasbacado, como na primeira vez que vi.

Ele pareceu satisfeito. Bateu em meu ombro, carinhosamente, e pediu que eu o continuasse. Indo até os fundos da Igreja, ele olhou para os lados, e ao notar que não havia ninguém, começou a subir.

–Não fique apenas a observar, Connor. Eu quero que você suba também. Há algo valiosíssimo que gostaria de te ensinar.

Tal como ele dissera, eu comecei a subir, sem maiores dificuldades. Ia me agarrando a fresas na madeira, ou mesmo a janelas e qualquer detalhe onde meus dedos pudessem se agarrar. Assim que comecei a subir, percebi que ele parou, só voltando a escalar a Igreja quando eu tinha completamente lhe ultrapassado. Uma medida de segurança, certamente, para garantir que eu não cairia.

–Cuidado. – ele disse, sempre prestando atenção em mim. – Por mais que seja forte, não confie apenas em suas mãos, e não se esqueça de se atentar aos seus pés.

–Está bem. – disse, prosseguindo com a escalada, até finalmente estarmos perto da cruz, no topo da torre da Igreja. Apesar de já ser noite alta, a paisagem diante de nossas vistas era impressionante. Aquele era o ponto mais alto de Boston, e dava uma visão privilegiada da cidade.

–Sempre que estiver em um lugar pela primeira vez e for necessário pressa em conhece-lo, procure o ponto mais alto, e suba. Veja só. Dá para ver as ruas, os comércios... Praticamente tudo.

–É impressionante. – disse, sinceramente.

–Esta foi uma das primeiras visões que tive, no início de minha estadia na América. Há quase vinte anos atrás, eu era um recém-chegado, sentindo-me perdido, e tendo de recorrer à escalar o ponto mais alto para compreender, ao menos um pouco, o mundo que se mostrava desconhecido e perigoso diante de mim. Você pode, alguma vez, se sentir assim. – ele suspirou. – Mas agora, vamos à sua lição número dois de hoje... A descida.

Claro. Ele queria fazer o Salto de Fé, mas não tinha tanta "fé" em minhas habilidades a ponto de me ensinar. Foi isso o que constatei, quando ele começou a procurar um modo de descer menos perigoso, mas quando olhei em seus olhos, percebi que estava enganado.

Não era falta de confiança, mas preocupação. E preocupação de pai.

–Vamos, Connor... – disse, se preparando para descer por uma escada, mas eu o ignorei. Olhei ao redor, e vi que havia uma carroça de feno parada ali perto.

–Connor, o que pensa que está fazendo? – desesperou-se, quando me viu à borda, preparado para saltar.

Acredito que ouvi um sonoro “não”, antes de me lançar ao monte de feno despreocupadamente. Ninguém noticiou minha queda ali, e saí sentindo-me vitorioso e rindo sozinho, depois da agradável sensação do vento a bater meu rosto, a medida que eu me aproximava do feno. Fazia muito tempo que saltava com tamanho prazer. Enquanto estava me limpando dos fenos agarrados à minha roupa, senti algo cair perto de mim.

Claro. Ele também saltou, assim como eu.

Ao sair do monte de feno, meu pai sequer tentou fazer o memso que eu e se limpar, mas logo agarrou minha orelha, dando-me um terrível puxão.

–Foi divertido, não foi? – resmungou, enquanto puxava minha orelha ainda mais. Pensei em retrucar, mas achei melhor o silêncio. – O que deu em você, garoto?!

–Desculpe. – disse, com sinceridade. Mas não parecia o suficiente.

–Você poderia ter morrido, seu irresponsável! Foi muita sorte sair ileso depois desse salto! Gostaria muito de saber como aprendeu a fazer isto...

–Fiz algumas vezes, na floresta. Já estou acostumado, acredite em mim.

–Céus! – ele esbravejou. – Sequer estamos a uma hora em Boston e já me aprontas uma dessas! Acho melhor irmos pernoitar de uma vez!

–E onde iremos, que mal lhe pergunte?

–Há uma taverna perto daqui, chamada The Red Dragon. Creio que terá quartos disponíveis para nós, além de uma refeição decente.

Oh, que bonito Haytham Kenway. Levar-me a um reduto templário...

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O aviso de meu pai de que pernoitaríamos no que era conhecido informalmente como Quartel General do Rito Colonial Templário causou-me grande furor. Pensei nas inúmeras possibilidades desagradáveis que poderiam ser aquela noite. Esperava, sinceramente, que meu pai não passasse a noite bebendo ao lado de Charles Lee ou Thomas Hickey, ou qualquer outro Templário, pois sabia que teria de acompanhá-lo – e provavelmente, ter de ouvir calado suas prováveis piadas e indiretas a respeito de minhas origens. Alguém acabaria morto, se isso acontecesse.

Mas, curiosamente, não havia ninguém aqui.

–Não os vejo por aqui há meses, Mestre Kenway. – disse a garçonete.

–Como eu esperava. Agora, eles se reúnem no Forte Arsenal. Bom, não faz mal. Traga-me duas canecas de cerveja.

Duas canecas?! Meus olhos se arregalaram, e procurei desviar meu olhar do seu. Apenas sua risada atraiu de volta a minha atenção.

–Ora, vamos lá! Sei que está curioso por sentir o sabor de uma cerveja! Mas não se anime, só deixarei você beber uma caneca. – disse, com o olhar mais bem-humorado. – E não conte nada a sua mãe. – avisou ameaçadoramente, deixando-me em choque.

Fiquei um tanto tímido, quando senti-me a tocar a caneca. Ao notar minha hesitação, meu pai deu o primeiro gole, tentando me encorajar. Sem dúvida, aquilo deveria ser, em sua mente, algum tipo de “iniciação” à vida adulta.

–Vamos lá. Beba, mas devagar.

Obedeci, dando um pequeno gole, deixando a bebida amarga invadir minha garganta. Então, meu pai contou-me coisas de Boston, enquanto jantávamos e bebíamos alguns goles em nossas canecas. Contou-me como chegara às Colônias, das aventuras que vivera nos meses no navio, do duelo que travara com um dos tripulantes, e da terrível tempestade que quase fizera o navio naufragar. Obviamente, ele não disse que o tal tripulante com que ele duelara era, na verdade, um Assassino disfarçado, e que seu navio estava sendo perseguido por outro devido ao Amuleto que ele tomara dos Assassinos, mas sua narrativa não deixava de ser interessante. Pela primeira vez, eu ouvia sua história através de sua voz, não de folhas de papel amareladas pelo tempo. Esta foi uma conversa que rendeu. Quando minha caneca já se encontrava na metade, meu pai já partia para a segunda rodada, ainda aparentado estar são.

Senti que ele estava prestes a dizer para subirmos quando a porta se abriu repentinamente, e logo ouvimos vozes familiares. Vozes que não desejávamos escutar naquela noite.

Era Charles Lee, acompanhado de Thomas Hickey e Willian Johnson.

Os olhos de meu pai se cruzaram com os de Lee, para meu desgosto. Não havia maneira de passarmos despercebidos. Dane-se, pensei comigo mesmo. Se eles estavam sumidos há dias daquela taverna e acharam por bem reaparecerem justamente na mesma noite em que eu e meu pai nos encontrávamos hospedados ali, que fosse. Talvez fosse alguma brincadeira do destino. Ou, quem sabe, brincadeira da Maçã.

–Ora, ora... Mas vejam quem está de volta à civilização...

Meu pai continuou concentrado em sua caneca, ignorando-os, com os olhos voltados aos meus olhos. Mas notei que seu desejo era outro. Rasgar a garganta dele, por exemplo.

–E parece que está acompanhado de seu... Filho, se assim podemos dizer.

Foi minha vez de desejar rasgar a garganta dele. Afinal, naquela realidade eu poderia fazer o que bem entendesse. Se quisesse mata-lo ali, ao invés de esperar anos a fio, eu poderia fazê-lo. Mas depois, pensei em Ista, e nos meus irmãos. Ao notar meu pai contido, percebi que ele pensava de modo semelhante.

–“Aytham”... – disse Thomas, dando um afago no ombro de meu pai, claramente debochado.

–Tire sua pata de meu ombro, Hickey. – ordenou meu pai, ainda bebendo sua cerveja, com um tom ameaçador e ao mesmo tempo, calmo. Thomas o obedeceu prontamente, reconhecendo que seu tom não era de brincadeira.

–Como queira, Mestre.

–Deixe-o, Thomas. – pediu Willian, o único sensato naquela noite. – Haytham é livre para agir como bem entender, apesar de não mais ser um dos nossos. Vamos, temos negócios a tratar.

Ambos se dirigiram a uma mesa afastada de nós. Depois de dar um gole em sua caneca, terminando-a, meu pai suspirou, resignado.

Acho que não foi uma boa idéia ter nos hospedado aqui. Era o que dizia seu olhar.

–Quem são estes homens, pai? – perguntei, apenas para me mostrar ignorante quanto ao que tinha acontecido. Mas sentia-me no direito de saber, ao invés de fingir que nada tinha acontecido.

–Não faz muito tempo, estes homens foram meus colegas, meu filho. Não são mais, como pôde ver com seus próprios olhos. – limitou-se a dizer.

–E por que?

–Eu tomei algumas decisões em minha vida. Decisões que causaram desagrado a eles. Mas eu não me arrependo delas, nem um pouco. Não teria um terço da felicidade que tenho, ao lado de você, da sua mãe e de seus irmãos, se eu ainda estivesse ao lado deles.

Partilhamos um silêncio confortável, a medida que terminávamos nosso jantar. A música continuava a tocar pelo Red Dragon, e alguns casais mais animados pela bebida passaram a dançar conforme a melodia. Percebi que os Templários conversavam sobre alguma coisa, mas confesso que o som e a cantoria não me permitia ouvir muito. Notei, entretanto, que meu pai estava tenso. Parecia prestar atenção...

Mas como seria possível ele conseguir ouvir aquela conversa, em meio a tanto barulho?

De repente, os Templários se levantaram, e abandonaram a Taberna. Pensei em me sentir aliviado, mas notei meu pai se levantar quase em seguida.

–Vá subindo, Connor. Daqui a pouco, eu também vou.

–Para onde você vai? – perguntei, ao vê-lo a caminhar até a porta do pub.

–Suba. – ordenou, e não vi alternativa senão obedecê-lo. Notei preocupação e tensão em sua voz, e até mesmo certa urgência em sair dali. Notei que ele saiu pela porta lateral, e não pela porta da frente, como fizera os Templários. O que quer que fosse, parecia relacionada a conversa deles.

De repente, um dos bêbados exaltados gritou.

–E mais uma rodada pelo aniversário do Billy!

Todos gritaram, até uma mulher bêbada intervir. Claramente, aquele clima festeiro pouco me interessava, o que me fez caminhar até as escadas, para obedecer meu pai.

–Seu bobo! Hoje ainda é dia 4 de março! O aniversário do Billy é semana que vem!

Apesar da risada de todos os bêbados daquela roda, meu coração congelou, ao me lembrar que dia era hoje. Meus passos pela escada momentaneamente pararam, a ponto de uma pessoa quase me empurrar, desejando passar.

4 de Março de 1770. O dia do Massacre de Boston.

Notas finais
Connor dando Salto de Fé do nada.... KKKK Assim mata seu pai do coração, garoto! Sério, seria legal se alguns Saltos de Fé que damos no jogo, aleatoriamente, nos ferissem. Tipo, a chance de isso matar alguém na vida real é tão alta... Mas o bom do game é isso. E Connor está, outra vez, em pleno Massacre de Boston... Eu sabia que algo não ia prestar!!! KKKKKKK Será que ele vai se tornar testemunha ocular de novo? E o que o Haytham tem a ver com isso? Será que ele ainda é um Templário e que aquilo no pub foi só cena? ?? Veremos as próximas emoções no próximo cap! Até lá!!!