Assassin's Creed: Aftermath
20 O Massacre de Boston
Notas iniciais
Ainda tentava reunir todos os fragmentos de memória que tinha, inutilmente. Afinal, na noite do Massacre de Boston, eu era nada mais que um menino nativo, tolamente abobado por aquela verdadeira selva de pedra que saltava em meus olhos. Saber a hora exata de quando aconteceu o massacre era impossível. Consultei meu relógio. Estava perto das oito da noite. Quem sabe o Massacre ainda não tivesse ocorrido? Quem sabe eu seria capaz de deter os Templários naquela noite, e evitar a morte de pessoas inocentes? Meu coração disparava em ansiedade. Sentia-me quase um Deus, onipotente e onisciente, com a possibilidade de decidir sobre a vida de algumas pessoas. E por mais que eu soubesse que meus sentimentos eram errados, repugnantes, eu gostava da sensação.
Não foi difícil encontrar o tumulto em Boston. O mesmo tumulto que meus olhos presenciaram, momentos antes de um tiro ser disparado e os Britânicos atirarem a esmo contra as pessoas, não importando se eram homens, mulheres ou crianças.
Embora ambos os lados tenham se beneficiado com o Massacre, não havia como negar o fato de que aquele seria o estopim para a insatisfação dos colonos, e que desencadearia na consolidação dos primeiros movimentos em direção à Independência. E se eu impedisse o Massacre? Será que isso atrapalharia os rumos da Independência dos? Estaríamos condenados ao fardo de sermos uma Colônia?
O pensamento me causava apreensão, mas quando vi, em meio ao tumulto, uma senhora carregando um bebê de colo, a consequência disto na política pouco me importava. O que eu não poderia permitir era ver aquelas pessoas sendo mortas diante de mim, mais uma vez.
Caminhei dentre elas, ignorando os apelos dramáticos dos mais exaltados da multidão. Não demorou até que eu me encontrasse na mesma posição em que estive ao lado de meu Mentor Achilles naquela noite. Dali, pude ver o comando dos Templários, a maquinar seu plano sórdido. Percebi, exatamente no mesmo lugar que meu pai estivera, Charles Lee, dando ordens a algum soldado. Eu sabia que iria tentar alguma coisa, mas que seria inútil. Decidi, então, que procuraria impedir cada Templário infiltrado na multidão, e deter qualquer um que disparasse fogo.
Antes que eu me movimentasse para meu plano secreto, notei que perto de mim, estavam Achilles e um homem estranho. Era alto e forte, e usava roupas nativas, juntamente a um arco e flecha. Uma sensação estranha me acossou naquele momento. Senti-me substituído em minha própria história. Como se fosse necessário que alguém ocupasse o lugar vago por mim.
Vi o sujeito se movimentar, com liberdade. Ele era alto e forte, mas não pude ver seu rosto. Andava de cabeça baixa, se misturando a multidão, tal como eu faria. Notei que ele estava seguindo o soldado a quem Charles Lee se dirigiu. Por seu andar, eu pude ver que ele faria exatamente a mesma coisa que eu fiz, naquele dia. O seguiria até um canto para mata-lo, e depois mataria mais um no telhado, até ser descoberto.
Mas quem era aquele sujeito?
Pouco me importava agora. Eu sabia que o plano não daria certo. Aquela ação não seria o bastante para impedir que aquela multidão fosse morta. Por isso, usei minha visão e logo localizei o Templário infiltrado na multidão. Notei que ele carregava um revólver. Com destreza e sutileza, aproximei-me dele, e logo consegui afanar seu revólver.
O que eu não contava era que ele não estava sozinho. Um sujeito ao seu lado era seu aliado, e pôde notar minha atitude. Um sentimento de fracasso passou por mim, assim que vi seus olhos alcançarem os meus.
–Ladrão! – ele gritou, fazendo todos se afastarem, temerosos. Inclusive a mim. Dando um profundo suspiro, peguei o revólver e saí correndo, usando as pessoas como barreira natural, empurrando-as pelo caminho enquanto os dois soldados me perseguiam, a todo custo.
Não demorou muito para que eu os despistasse. Fiquei escondido no meio de um matagal, próximo ao rio, e depois, caminhei para debaixo de uma ponte, onde notei que um grupo de pessoas miseráveis estava acampado. Pude ainda ouvir os passos dos soldados por cima da ponte, mas nenhum deles estaria disposto a procurar por entre mendigos. Eu sabia que seria questão de tempo, até que sua busca fosse encerrada e meu crime fosse dado por um vulgar que se aproveitou do tumulto para afanar algo de valor.
Minha espera acabou resultando em um descanso, beirando a um cochilo. O calor daquela fogueira improvisada embaixo da ponte, e o som das águas do rio, despertaram meu sono. Sabia que os soldados não me procurariam ali, então acabei rendido a uma soneca rápida. Ao acordar, consultei meu relógio. Já passava das onze da noite.
–Você deve ser o índio que estão procurando.
Meu coração gelou, assim que ouvi aquela voz feminina, de cerca de vinte e alguns anos, a praticamente me denunciar. No entanto, mantive a calma.
–Que índio? – questionei.
–Não ouvistes as notícias? Parece que alguém muito ousado roubou o revólver de um Casaca-Vermelha. Estão todos fazendo chacota disto. Virou uma grande piada por toda Boston.
Percebi que aquela moça não iria me denunciar. Aliás, havia algo em si que era familiar. Uma pena que ela estivesse sentada em um canto escuro, afastado da fogueira, pois mal dava para vê-la corretamente. Mas algo me dizia que ela era de confiança.
–Quem é você?
–Só digo se você se apresentar primeiro.
–Connor. – disse, após alguma hesitação.
–Deborah.
Meus olhos se arregalaram. Aquela seria Deborah Dobby Carter? Possivelmente. Mas então, o que ela fazia em Boston, se sempre residiu em Nova York?
–Que bela confusão, esta que arranjara. Mas foi bom. Sinto que seu pequeno ato de ladroagem impediu que uma tragédia acontecesse.
Um sorriso tímido e aliviado passou por meus lábios. Então, eu consegui impedir o Massacre de Boston! No final, acabei por afugentar e destruir qualquer possibilidade de os Templários acenderem o pavio daquele colossal barril de pólvora.
–Você parece contente... De todo modo, isso não importa. Há cartazes seus espalhados pela cidade. Se deseja passar despercebido, é melhor destruir alguns deles. E é bom que tenha algum dinheiro também, para subornar algum jornalista e impedir que a notícia vá para as páginas dos jornais.
Fiquei surpreso. Parecia que estava diante de Sam Adams.
–Você parece ter algum conhecimento disto...
–Quando se vive nas ruas, aprende-se alguma coisa. Venha, vou te ajudar a destruir os cartazes.
Aquilo me surpreendeu, outra vez. Não hesitei em questioná-la.
–E por que você se arriscaria em prol de um estranho?
Ela pareceu surpresa com minha pergunta. No entanto, deu um sorriso divertido.
–Porque eu gostei de você.
Minhas bochechas ficaram momentaneamente vermelhas, mas procurei esquecer o fato e me concentrar nesta tarefa. Com cuidado, atentos a qualquer movimento vindo das esquinas, continuamos a caminhar, arrancando os cartazes colados às paredes, ou mesmo pregados nos muros e cercas.
–Tive uma idéia melhor. – ela disse, apontando para uma carroça que passava perto da gente. Fiquei a observar, enquanto ela subia na carroça discretamente, procurando por alguma coisa. Em instantes, ela voltou com um saco.
–Na rua de trás, fica a gráfica que os soldados britânicos costumam usar. Olhe só o que encontrei na carroça.
Ela abriu a sacola, e lá estavam dezenas de cartazes, recém-impressos. Todos traziam o meu rosto, coberto por um chapéu tricórnio.
–Eu nem tenho como agradecer.
–Não há de quê. – ela disse. – Disponha sempre, Connor...
–Kenway. – eu acrescentei, cumprimentando-a devidamente. – Connor Kenway.
–Bom, então pode me chamar de Deborah Carter. Ou de Dobby, simplesmente. De qualquer maneira, sinto que se destruirmos estes cartazes agora, iremos atrasar sua busca. Mas isso apenas te dará algum tempo para fugir daqui.
–Há ainda um lugar que preciso ir. – disse.
Essa possibilidade a preocupou.
–Você é louco, rapaz? Se continuar andando pela cidade, os soldados irão acabar te encontrando!
–Meu pai está aqui. Eu não posso ir embora sem ele, entende?
Dobby parecia relutante com minha atitude. Embora mal tivéssemos nos conhecido, ela parecia preocupada.
–Tudo bem. E um último conselho: use os túneis da cidade. Conseguirá passar despercebido. Há uma entrada naquela rua, atrás de um pub.
Acenei em agradecimento, e logo saí a correr até a rua, sem olhar para trás.
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Eu conhecia muito bem os túneis de Boston, tal qual a palma da minha mão. Sabia que a Taberna Red Dragon tinha uma saída, costumeiramente usada por Maçons. Deduzi que não demoraria muito para que eu chegasse ao pub, sem levantar qualquer suspeitas.
Em algum momento, entretanto, fui pego de surpresa por alguém. Acabei por deixar o lampião cair, e também o daquela pessoa. Apenas as chamas deixadas pelos destroços do lampião iluminaram aquele ambiente, enquanto eu travava uma luta para não ser dominado por aquele sujeito. Entretanto, ele era muito mais forte do que eu, e parecia, inclusive, prever meus movimentos. Evitou que eu tomasse minha faca, e segurou-me pelos punhos. Minhas pernas chutavam nada mais que o ar. Uma sensação de humilhação passou-me, quando notei o quão facilmente derrotado eu fui. Por mais que meu corpo fosse de um adolescente, eu detestava ser derrotado facilmente.
–Acalme-se, Connor... – disse, para minha abismação, a voz de meu pai. – Sou eu, seu pai.
Apenas em notar que era ele, eu relaxei. Ele soltou meus punhos, que estavam doloridos, assim como meu orgulho.
–Pai? O que você está fazendo aqui?
–Essa era a minha pergunta, rapaz.
–Eu... Eu estava tentando voltar ao Red Dragon.
Fiquei surpreso, quando constatei que havia algumas gotas de sangue nas mangas de sua casaca, além de um curativo improvisado ao redor de sua mão. Ele não tinha me dito nada a respeito do que tinha ido fazer, mas eu tinha um forte palpite de que ele tinha escutado alguma coisa, importante a ponto de me deixar sozinho no Red Dragon e seguir os Templários. Provavelmente, sobre o Massacre. Mas o que, afinal, ele tinha feito?
Seu semblante nada contente tirou-me de minhas próprias divagações.
–Deixo-te por um minuto, e o que faz? Aprontas pela cidade, a ponto de agora ser procurado por metade dos Casacas-Vermelhas de toda Boston...
–Pai...
–O que há com você, Connor?! – ele esbravejou. Seu grito ecoava assustadoramente por todo o túnel. – Será que não pode me obedecer por nenhum momento?
–Eu fiquei preocupado e fui atrás de você. – menti. Ele negativou.
–Eu sou um homem adulto, Connor. Eu sei me cuidar. Não preciso da preocupação de um adolescente.
–Bom, se ao menos você tivesse me dito para onde estava indo...
Ele riu, descrente do que estava dizendo.
–Francamente... Então, agora tenho de dar satisfações ao meu filho irresponsável...
–Não menos irresponsável que você.
Arrependi-me do que disse, assim que senti a força de sua mão atingir meu rosto, através de um tapa bem colocado. Não senti raiva, mas abismação. Não esperava que ele fosse me bater. Notei que ele estava ligeiramente desconfortável por isso. Parecia ter sido esta a primeira vez que me agredira tão diretamente.
–Você não me deu escolha... – tentava se justificar. – Por Deus Connor, eu jamais teria sido tão... Tão insolente diante de meu pai! E, no entanto, você... Você jamais me tratou com tamanho desrespeito. Jamais faça isto de novo, ou mais uma vez eu não responderei por mim.
Ele deu as costas para mim, mas apesar de eu não conseguir ver o seu rosto, eu sabia que ele também estava ferido.
–Pai, me desculpe. – disse. Embora eu não estivesse arrependido do que fiz, eu sabia que aquelas palavras eram as mais adequadas.
–Desculpas aceitas, Connor. Mas não totalmente. Quando voltarmos, você estará de castigo.
Que seja, eu pensei comigo mesmo. Aceitava qualquer castigo, sabendo que algumas pessoas estavam vivas graças à minha desobediência.
–Mas como o senhor se feriu? – perguntei, fazendo os olhos de meu pai se voltar ao curativo. Ele não parecia muito disposto a me contar.
–Ah, bom...
–Você seguiu aqueles homens, não foi? – perguntei, diretamente. Desejando que isso o encorajasse a me dizer a verdade. E foi o que ele fez.
–Sim. Eu os ouvi a maquinar uma trama terrível no pub. Senti que deveria impedi-los.
–E conseguiu?
–Sim, mas não sozinho. Sabe, se não fosse por um adolescente insolente ter tido o atrevimento de roubar a pistola de um soldado britânico no meio daquele tumulto, acho que eu não teria conseguido detê-los por mim mesmo.
Era bom saber que eu ainda tinha a minha relevância no impedimento do Massacre de Boston. No entanto, e quanto ao homem que vi, ao lado de Achilles? Ele não teve qualquer participação em impedir o Massacre? Fiquei curioso, ainda.
–Mas o que você fez para detê-los?
–Eu segui o homem a quem meu velho amigo Charles estava dando ordens. Só que, para minha surpresa, eu não fui o único a segui-lo. – ele disse, olhando para o curativo. – O problema é que ele não pareceu muito satisfeito com minha presença, e eu precisei dar um jeito nele. Mas não pense que o matei. Simplesmente o deixei inconsciente no meio de uma carroça de feno, e detive o soldado que iria atirar fogo naquele lamentável barril de pólvora.
Eu franzi o cenho.
–Por que queriam provocar os soldados? – perguntei, com cuidado.
Meu pai pareceu hesitante.
–Filho... Não sei se detém bom conhecimento a respeito de como tudo se organiza por aqui. Enfim, somos governados pela Inglaterra, um pais do outro lado do oceano. No entanto, alguns colonos não estão satisfeitos com isto, e verdade seja dita, têm sua quota de razão. A Inglaterra tem governado esta Colônia com punhos de ferro, e desnecessariamente.
–Pensei que você fosse a favor da Inglaterra. – cruzei os braços. – Afinal, você é inglês.
Ele sorriu brevemente, antes de continuar.
–Por muito tempo, sim. Mas basta estar em Boston, ou em Nova York, para ver que os ingleses perderam o controle. Duvido que qualquer colono daqui se sinta inglês. Portanto, qual o sentido de estarem submissos ao Rei Britânico? Mas deixemos de conversa, rapaz. Já está tarde, e é hora de irmos embora.
Ele virou seu olhar para as chamas sobre o chão. Aquele acidente tinha acabado com os dois lampiões que possuíamos. Se déssemos mais alguns passos, estaríamos em total escuridão.
–Bem, parece que nosso “amistoso encontro” acabou com nossos lampiões. Teremos de prosseguir no escuro.
Dei de ombros. Pouco me importava. Afianl, nós dois possuíamos nosso dom, ou como ele titulava o dele, “visão de águia”.
–Seu pai também tinha?
Enquanto caminhávamos tranquilamente pela escuridão, guiados por nossos sentidos aguçados, senti que era hora de conversar. Ele assentiu.
–Sim. Uma vez, ele contou-me, mas pareceu um tanto reticente no início. Só se tornou mais aberto a conversar sobre isso quando eu contei a ele que via... Coisas estranhas. Então, ele me explicou o que era. Mas o dom dele tinha algumas... Limitações.
–Limitações? Como assim?
–Ele contou-me que não conseguia usá-lo quando correndo, por exemplo. No início, eu também fui assim, mas acabei aprimorando e...
De repente, ele tocou em meu braço, impedindo que eu continuasse.
–O que foi? – perguntei, em um sussurro. Ele parecia cauteloso.
–Alguém passou por aqui.
Antes que eu pudesse questioná-lo, ele continuou a prosseguir, e de repente, só o que pude ouvir foi o som de sua Hidden Blade sendo ejetada, precedido pelo familiar som da carne perfurada pela lâmina afiada. Sem dúvida, alguém estava morto.
Aproximei-me, e vi que era um Casaca-Vermelha. Como ele sabia que havia alguém ali, eu não sabia.
–Aconteceu o que eu temia. – alertou meu pai. – Eles estão investigando os túneis também. Parece, Connor, que você conseguiu amigos e tanto.
–Você também conseguiu. – disse. – Fizeste alguma coisa, assim como eu.
–Mas eles estão mais furiosos com você.
Fomos interrompidos por passos, que ecoavam pelo túnel. Esperamos, e prosseguimos. Por sorte, não houve mais combate. Para precavermos qualquer detecção, meu pai apagava todos os vestígios de fogo. Guiados por nossa visão, finalmente conseguimos alcançar o Red Dragon, que estava cheio de bêbados e cuja cantoria irritava qualquer lúcido.
Fomos até os nossos aposentos. Meu pai verificou todo o lugar, antes de permitir minha entrada. Apenas adentrei com um sinal de sua parte de que estava tudo bem.
–Durma. Amanhã cedo iremos partir.
–Mas... E quanto aos seus negócios?
–Fica para a minha próxima ida a Boston. Ou acha que ainda tenciono alongar minha estadia aqui, sabendo de sua recente exposição?
Suspirei, após alguns momentos em silêncio. Ele estava certo. Ainda havia cartazes meus na rua, e soldados desejosos de encontrar o “selvagem audacioso” que atrapalhou os planos Templários daquela noite. Após despir parcialmente de minhas roupas, deitei em minha cama, e meu pai fez o mesmo, antes de apagar a vela do quarto.
Na escuridão do lugar, fechei os meus olhos e me deixei levar pelo cansaço. Tinha tido uma noite surpreendente, em muitos sentidos, e parecia que eu ainda não tinha absorvido o grau de importância disso. Eu impedi o Massacre de Boston, pensei. Impedi o Massacre de Boston.
Tolo de mim, por não ter pensado nas consequências disto.
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