Assassin's Creed: Aftermath
18 O Bem-Aventurado
Notas iniciais
Eu me sentia feliz, por ter a oportunidade de viver um momento que me foi renegado, por tantos motivos que até acho difícil classifica-los. Houve alguma chance de meus pais permanecerem juntos, de aquele breve romance ter tido futuro? Sempre achei pouco provável, mas ter passado aquela noite ao lado deles, vivendo uma vida que poderia ter sido minha, me fez pensar que era quase impossível. Quase. Me fez pensar, também, no que poderia ter sido. Talvez, se minha mãe tivesse sido um pouco mais compreensiva quando soube sobre o General Braddock. Talvez, se meu pai a escolhesse, ao invés dos Templários. Possibilidades praticamente impossíveis, mas que graças a Maçã, estavam acontecendo bem diante de meus olhos. Muito embora eu ainda desconhecesse os motivos que levaram meu pai a aparecer na Aldeia, nas vésperas do Incêndio, para dizer que iria abandonar os Templários.
Mas quando o dia me trazia alegrias de uma vida que eu não conhecia, a noite trazia os sonhos ingratos, da realidade que abandonei. O enterro de cada um dos Assassinos da Ordem. Minha luta com o Templário, as noites de febre que tive, por causa do ferimento em meu ombro... A perspectiva de que eu carregaria esta dor para sempre em minha vida, de que jamais seria o mesmo...
Então, senti algo em meu ombro, mas não era dor desta vez.
–Connor, acorde, por favor...
Havia certa impaciência e preocupação no tom de voz de Tessa. Quando abri meus olhos, logo tive minha visão incomodado pelas chamas da vela que ela segurava em uma das mãos. Ela vestia ainda uma camisola, por baixo de um robe.
–O que foi? – perguntou, sonolento.
–Nossa mãe está dando a luz, Connor!
A afirmação de minha irmã me fizera dar um salto da cama, tamanho foi o meu nervosismo. Vi Tessa ressaltada, e logo tratei de calçar meus sapatos.
–O quê?! Mas como assim?!
–Parece que o bebê só estava esperando nosso pai chegar. – ela disse, com uma felicidade que chegava a me contagiar, mas não a acalmar meus nervos.
–E onde ele está?
–Foi buscar o Dr. White.
–E nossa mãe?
–Deitada na cama. Está entrando em trabalho de parto. Céus, Connor... Ela parece estar sentindo muita dor. Eu queria tanto fazer alguma coisa para ajuda-la, mas...
Tentei consolá-la. – Não há o que ser feito para amenizar isto, Tessa. E não é a primeira vez que nossa mãe passa por isso. Ela já passou por outros dois partos, lembra?
A menina parecia mais tranquila, ao se lembrar da experiência de Ista.
–Connor, você se lembra do dia em que nasci?
Aquela pergunta me deixou sem palavras. Claro que eu não me lembrava. Não que o fato fosse insignificante. Simplesmente não me lembrava porque não tinha vivido isto. Por algum motivo, a Apple me fez passar alguns anos de minha existência, deixando-me completamente ignorante do que acontecera. O motivo, para ser exato, eu não sabia. Talvez aqueles tivessem sido anos tranquilos demais, e portanto, insignificantes.
Safei-me de responder – ou de mentir, opção mais provável – graças ao som de passos pela escada.
–Dr. White, finalmente! – disse Tessa, ao avistar o médico ao lado de nosso pai.
–Como vai, criança? E como vai, Connor? – ele perguntou, com a simpatia costumeira.
Ao lado do médico, estava o meu pai, com a barba por fazer e ainda vestindo sua camisola – outra estranha visão para os meus olhos. Ele parecia muito agitado e nervoso, o que era natural. Sabíamos que partos eram sempre delicados. Não eram raras as vezes que as mulheres, ou as crianças, ou mesmo ambos não sobreviviam ao procedimento. A natureza não costumava ser tão generosa a todos.
–O que faremos, doutor? – perguntou meu pai, enquanto o médico analisava minha mãe. Foi a primeira vez que a vi, com o semblante sofrido no rosto e a testa encharcada de suor.
–Busquem panos limpos e uma bacia com água. – ele disse, sendo prontamente atendido por Tessa, que desceu as escadas como se sua vida dependesse disso. – Você está bem, Mrs. Kenway?
Minha mãe apenas concordou, enquanto respirava. Após um pigarreio do doutor, avisando que começaria o parto, meu pai simplesmente me expulsou do quarto, sem a menor gentileza. Claro, um parto não era algo adequado a crianças ou adolescentes. Ainda assim, aquilo não era o bastante para me manter longe dali, e acabei por me recostar ao corrimão da escada.
Assim que Tessa entregou a bacia com água morna e os panos limpos, meu pai também a expulsou do quarto. Pensei que minha irmã iria reclamar disto, mas notei que não. Sabe-se lá o que ela tinha visto, naquele ligeiro vislumbre.
–Ela estava gritando de dor... – disse Tessa, parecendo em choque. – É assim mesmo, Connor?
–Sim, minha irmã. É sinal de que o bebê está nascendo.
–Céus! Como será que um bebê pode sair do meio das pernas?
Fiquei ligeiramente desconfortável com o comentário de minha irmã de oito anos. Não porque era constrangedor, mas também porque eu não sabia explicar. Por mais que fosse um menino de quinze anos agora, eu era, na verdade, um homem com mais de vinte anos que quase nada sabia a respeito desse tipo de assunto. E isso me envergonhava um pouco.
Para meu alívio, minha irmã não esperou por respostas, e nós dois permanecemos em silêncio. Decidimos abandonar as proximidades da porta do quarto de nossos pais e descer para a sala de estar. Afinal, os gritos de minha mãe só conseguia nos deixar ainda mais aflitos. E assim, passamos o resto daquela madrugada sentados no sofá, contemplando o fogo, sem conversar um com o outro.
Meus olhos já estavam ficando pesados, e os primeiros raios do dia já invadiam a sala, quando o silêncio da casa foi cortado pelo som de um bebê a chorar. Tessa estava dormindo profundamente sobre o sofá, com o cabelo negro solto e espalhado em uma bagunça só, e a boca entreaberta. Decidi não acordá-la e me aventurei a subir e ver o que tinha acontecido. Tal como ela, eu também estava ansioso para saber se tudo tinha ocorrido bem.
Logo que subi as escadas, vi meu pai abrindo a porta, com um sorriso iluminado.
–É um menino! – foi tudo o que disse.
Eu também deixei escapar um sorriso bobo, e sem perguntar, prossegui adentrando em seu quarto.
A visão que vi foi um pouco aterradora. Claro, eu tinha visto partos de animais antes, e mesmo que parcialmente o parto de Prudence na Homestead, mas nada me deixaria preparado para ver minha mãe naquela situação. Sue semblante era claramente exausto. Os lençóis da cama estavam sujos de sangue. Sobre um criado mudo, estava a bacia de água, vermelho-sangue. O Dr. White, de mangas arregaçadas, tratava de esterilizar e guardar seus instrumentos médicos, enquanto meu pai se encontrava entretido com o pequeno bebê em seus braços, já enrolado em um pano.
–Dê as boas vindas ao pequeno James, Connor.
James. Por essa eu não esperava, até me lembrar de que o nome de seu melhor amigo era James Holden, melhor dizendo, Jim Holden. Mais uma homenagem de meu pai às pessoas de sua mais elevada estima.
–É alguma homenagem? – perguntei, tentando me mostrar surpreso.
–A duas pessoas, na verdade. Ao meu avô, um bom homem que não pude conhecer, mas também a um grande amigo que tive. Sua mãe concordou comigo, inclusive, que Jim merecia ser homenageado.
Olhei para meu irmão, pela primeira vez. Sem dúvida, tinha herdado a cor de meu povo, sendo até mais escuro que eu. Também nascera bastante cabeludo.
Enquanto eu assentia, minha mãe decidiu adentrar a conversa, apesar de sua exaustão.
–Seu nome será A:kweks.
Eu sorri, ao notar o significado de seu nome. “Águia”, na linguagem Mohawk. Notei certo desgosto em meu pai, que ao que tudo indicava, já sabia do significado.
–Eu sei que meu nome significa “Jovem Águia”... Mas precisa dar ao menino um nome que também significa o símbolo dos Assassinos? Como eu disse, Ziio, você parece que gosta de me provocar...
Minha mãe retrucou.
–Não finja que não gostou. Eu sei que está satisfeito com a menção. Só não vai dizer porque já se tornou praxe criticar qualquer coisa relacionada aos Assassinos.
–Não se trata meramente de criticar, Ziio. Trata-se de resguardar os nossos filhos.
Meu próprio pai decidiu não prosseguir naquele assunto, ao notar que eu estava prestando atenção. Sem dúvida, ele estava deixando todos nós completamente ignorantes da Guerra entre Assassinos e Templários que havia lá fora. Melhor dizendo, a Guerra que ele tanto participou.
Quando Tessa adentrou ao quarto, bastante curiosa para ver seu irmãozinho, o assunto se encerrou por completo naquela casa.
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