Asrail

1 Capítulo 1 - Perdas


Notas iniciais
Demorou pra sair, mas saiu! Finalmente consegui colocar essa história nos eixos e espero que curtam. Foram horas e horas para concluir quase oito mil palavras! Melhor história que eu já criei Obrigado pela atenção e boa leitura!

“Às vezes você tem que perder algumas coisas para realmente dar valor a elas”

Os raios de sol que brilhavam sobre a vila de Chernokya, iluminavam duas pessoas que de repente se encontraram, ao acaso, um soldado estrategista que dominava a arte da guerra e era responsável pela proteção do pequeno vilarejo encontrado nas montanhas e uma donzela inocente que trabalhava humildemente em umas das duas fazendas que existiam. Os feixes reluziam a vontade de ambos. Os dois se olhavam, encaravam dos pés à cabeça, mas nenhum dos dois se atrevia a fazer o primeiro movimento.

Ele trajava uma roupa pesada de pele de urso pardo abaixo da armadura de ferro fosco, forjada pelo melhor ferreiro da vila

Ela trajava um vestido rosado com um laço branco na altura do umbigo bordado a mão sobre as peles e lã que a mantinha aquecida.

Ficaram ali durante alguns minutos até o sino do templo de Lyan, a deusa da criação, soar. Cada um tomou seu rumo para a própria casa porque aquele sino representava o fim do dia. As lamparinas de gordura de cabra, eram acesas nesse momento. De um sol que chegava a cegar, para um momento de pouca intensidade.

Gustav, o soldado, não gostava de ir dormir. Gostava de admirar as estrelas antes de voltar a sua casa, mesmo com seu olhar ríspido para as pessoas, Gustav tinha um lado muito amoroso e carinhoso, apenas não gostava de demonstrá-lo porque achava que representava fraqueza. Herdeiro direto da família Abvuck, uma família voltada para a defesa da vila, era a mais conhecida dentre os habitantes e a mais admirada. Os membros dela não apresentavam quaisquer emoções. Mas naquele dia, uma delas apareceu, e foi a mais forte. O Amor. Seus olhos escuros não desgrudavam dela, sua mente não esquecia mais como era seu cheiro, suas cores, sua face. Com seus cabelos escuros apoiado no antebraço, pensava se a encontraria novamente e com esse sonho em mente, adormeceu.

Sasha, a fazendeira, era um verdadeiro anjo, enviada pelos céus. Seu cabelo castanho, seus olhos azuis eram desejados por muitos. Era gentil, amorosa e amigável com todos. Não existia um na vila que não conhecia aquela mulher, menos ele. Sasha Okhotnik era de uma família de fazendeiros experientes que alimentavam a vila inteira com suas hortaliças que eram regadas pelo rio Lenyk e ainda esquentadas pelas lanternas de ferro e banha e pelos gêiseres subterrâneos que não deixavam as plantas morrerem, sequer, congelar. Foi criada no meio de sua família e tutores. Aprendeu a bordar, plantar, cozinhar e até mesmo cuidar dos animais. Após aquele momento, quando estava na porta de sua casa, parou por um momento e pensou no que teria acontecido. Era a primeira vez que ela achava alguém lindo o suficiente para deixá-la vermelha, com o coração palpitando e o corpo tão quente que a neve que caía em seu rosto, chegava a derreter instantaneamente. Naquela noite, mal conseguia dormir, pensava e repensava no que havia acontecido e cada vez que projetava o rosto dele em sua mente, o coração ia a boca, mas em uma última tentativa, soprou o pedaço de barbante banhado em gordura e tentou dormir. Conseguiu.

No dia seguinte, Gustav acordou com o cheiro de queimado, um cheiro horrível que alguém se não acordasse, provavelmente não estaria no mundo dos vivos. O dia passou e novamente e no mesmo lugar, lá estavam os dois, se encarando, como se pedissem e desejassem começar uma conversa, mas não conseguiam. O reencontro se repetiu diversas vezes até que no dia do aniversário de vinte anos de Gustav, durante uma conversa com dois de seus soldados. Um deles colocou a mão no ombro de Gustav e sussurrou:

—Sua Prometida está vindo, acho melhor você conversar com ela dessa vez, vê se não vacila novamente garanhão! Aproveita que é seu aniversário!

—O QUE PENSA QUE ESTÁ FALANDO? E COM QUEM PENSA QUE ESTÁ FALANDO? — Ao mesmo tempo que mostrava o rosto envergonhado, gritava bravamente para tentar abafar a fraqueza que estava demonstrando.

—Você que sabe, enfim, boa sorte e feliz aniversário novamente.

Gustav se virou e viu, reluzente, andando em sua direção, ela. Sasha chegava relutante, com as mãos nas costas, querendo se aproximar e querendo sumir ao mesmo tempo. Carregava um cordão com uma presa que ela havia confeccionado e estava prestes a entregar ao homem que mudou sua visão sobre o mundo.

Novamente, ninguém se pronunciou, ficaram se observando, um mais vermelho que o outro. Até que em uma inspiração profunda, Gustav tentou se pronunciar, mas foi cortado por Sasha:

—Boa... Boa tarde! Feliz aniversário!
-Obrigado...
-Quantos anos está fazendo?
-Vinte...
-Vinte? Sério? Parece bem mais novo do que isso!
-Sério e obrigado pelo elogio

A conversa foi pausada por alguns minutos e ele retomou com um tom fraco:

—Olha, eu gostaria de pedir uma coisa
-E o que seria?
-Gostaria de ter um tempo à sós com você

Mais uma pausa, agora ambos não sabiam o que fazer a não ser se olhar e esperar pelo melhor. O rosto de Sasha estava mais vermelho que seu próprio sangue e parecia que poderia desmaiar a qualquer momento, mas mesmo assim, tomou coragem e puxou Gustav pelo braço e o beijou. Foi uma sensação nunca antes presenciada pelos dois. Enquanto se beijavam, mesmo sem saber como. Sasha passou a mão pela nuca de Gustav e deixou lá, seu presente de aniversário, algo que ele nunca mais esqueceria e raramente tiraria do pescoço.

Sasha virou rapidamente e correu, correu envergonhada, trêmula e bastante alegre para uma garota de apenas quinze anos. Já Gustav, não sabia o que fazer e ficou lá parado, como uma estátua, queria sair dali, mas também queria ficar para sentir o fraco cheiro de sua amada. Foi quando o soldado anterior voltou e disse alegremente

—CONSEGUIU! ISSO SIM É UM ANIVERSÁRIO!
-…
-Esse já não volta mais para a terra...
-O que, o que aconteceu?
-A coisa mais bela que seu amigo poderia presenciar
-Ela é… fenomenal...
-Certamente, para conseguir retirar essas emoções de um estrategista sem coração que trata todo mundo com frieza, certamente — fez uma pequena pausa e completou – Agora, meu caro, é dormir para que amanhã possa acordar tão bem como foi dormir hoje, vê se pega no sono, eu sei que isso foi de repente, mas apenas tente. Não podemos seguir um estrategista sonâmbulo.
-Cl-Claro

Os encontros começaram a acontecer mais frequente e começaram a se abrir um com o outro, todos os dias era uma conversa diferente, deixando a vergonha de lado e realmente se aproximando. Caminhavam pela vila, conversando como amantes comuns, iam do templo de Lyan, até a muralha de pedras e madeiras que mantinha a vila protegida.

Passaram dias, meses e anos até que Gustav pediu para Sasha ir à praça central, bem abaixo da árvore sagrada, uma árvore enorme que cresceu no meio da montanha gélida pela deusa da natureza Zeta e por isso leva o mesmo nome com base nas crenças do sacerdote do templo de Lyan, se encontraram como combinado e lá, depois de cinco anos, ele pediu para morar com ela. Naquela região, pedir para morar com você, tinha o mesmo peso que um casamento para os cristãos. Sasha não soube o que dizer, apenas chorar de alegria, mas concordo com a cabeça. Gustav se animou e fez uma promessa:

—Construirei nossa casa, e se um dia tivermos um filho, deixarei de ser soldado e começarei a trabalhar como minerador.

A promessa era deveras interessante, para ambos. Gustav levou Sasha para o sacerdote dentro do templo e suplicou pela junção das famílias. O sacerdote colocou a mão na cabeça dos dois e disse:
-A partir de hoje, tu não serás mais Sasha Okhotnik! Teu nome será Sasha Abvuck em nome de vosso criador Lyan, vosso protetor Soren e vossa deusa do matrimônio Zarya. Vossas vidas serão uma só, vossos amores serão um só. Hoje, em nome de vossos criadores, reúno-vos em um único caminho, o caminho da sabedoria e esperança guiado por Letia e o caminho do amor e fertilidade criado por Zarya!

Os dois ouviram aquelas palavras emocionados que finalmente haviam se unido, agora faltava apenas orar ajoelhados e de mãos dadas na estátua de ouro de Lyan, que se localizava na entrada do templo. Chegando na entrada, foram recebidos por aplausos, assovios e gritos de felicidade. Quase todos os integrantes daquela vila estavam lá para recebe-los. Fizeram o que era para ser feito e selaram aquele contrato familiar tinham e agora só restava duas coisas, um filho e uma casa.
Gustav pediu ajuda para os soldados, mas apenas dois conseguiram ajuda-lo e esses dois ficariam eternizados no peito dele.

Durante meses, três homens construíam uma casa que seria a maior da vila, com direito a quatro cômodos, sendo dois deles no segundo andar, vigas de madeira, paredes de pedra, janelas de madeira e os telhados com três camadas. Uma de palha para reter a chuva, uma de barro seco para dar sustentação para a palha e a última de lã para aquecer o ambiente interno. Levaram meses, mas ela havia sido concluída e finalmente, existia uma família ali dentro.

Gustav havia completado uma de suas promessas, agora, faltava o filho. Foi sob aquele telhado de lã, que a noite foi bela, inesquecível e emocionante. A noite de núpcias havia chegado para o casal e em meio daquela montanha gélida, um casal se aquecia. Aquecia com o corpo do outro, em uma sensação de amor, compaixão e puro êxtase. As mãos de Sasha não largavam o pescoço de seu amado, as pernas, o prendiam. Gustav não parava de beijar o pescoço de sua amada. A visão era esplêndida, um verdadeiro amor estava se transbordando junto com o suor que eles produziam. Durou aproximadamente vinte minutos, mais do que o suficiente para garantir um filho, mas o amor deles não se baseava apenas nisso, era a necessidade de transparecer a compaixão um com o outro, nenhum sentia mais prazer, nenhum sentia mais calor, nenhum estava em maior êxtase que o outro.

O dia clareava e a primeira coisa que fizeram foi orar. Oraram para a Deusa da Fertilidade e do Amor, Zarya e desejavam mais que tudo um filho saudável, um filho que levaria a herança dos Abvuck em diante. Era difícil haver um herdeiro naquela região, o frio complicava o desenvolvimento do feto e dificultava a fertilidade, mas naquele dia, nada disso importava. Parecia que eles tinham certeza que teriam um filho, parecia que eles sentiam as vibrações da alma cercando aqueles dois. Eles acreditavam que podiam sentir o calor que a alma de seu filho gerava ao redor. Sem mais delongas eles já estavam preparando o nome do futuro combatente de Chernokya. Era uma dúvida enorme e eles sempre debatiam durante dias, às vezes, meses:

—Que tal Gustav?
-Vai colocar seu nome no nosso filho? Pare de ser tão orgulhoso assim, idiota- A ofensa era acompanhada de risadas de ambos.
-Tááá, e que tal Viktor?
-Você tem mal gosto hein? E se for uma menina? Viktar?- riu
-Pare de me ofender, só quero ser útil...
-Então vamos fazer assim, se for menino, será Asrail e, se for menina, Ania
-Ania? Asrail? Ah pode ser vai...
-Mas para falar a verdade, gostaria que fosse menino...

Para a sorte de Sasha, era um menino, um menino saudável que viria ao mundo em seis meses, a barriga começara a mudar, inchar, e estranhamente, esquentar. Ela podia sentir uma vida ali dentro, e não havia melhor sensação do que saber que o filho realmente virá ao mundo após anos de infertilidade da vila. Ela sabia que o filho dela traria felicidade, não somente aos pais, mas sim para todos os vilões.

Todo os dias, senhoras e senhores cumprimentavam a família e oravam pela vinda da criança. Após dois meses ela sentiu, sentiu uma sensação de dor na barriga, o que as pessoas chamam de chute. Ali ela podia ter certeza, ele iria nascer e iria nascer com saúde. O coração dela estava ansioso, ansioso para a vinda daquela criança, era uma felicidade tremenda que mal deixava ela dormir e foi assim durante mais quatro meses até a vinda.

Uma dor enorme passou pelos ossos e músculos de Sasha. Um líquido estranho descia em sua perna, ela sabia que que ele havia chegado. O líquido representava o nascimento da criança de acordo com as parideiras que moravam nas casas vizinhas.

Ela gritou, um grito de agonia e dor que atravessou as paredes da casa e foi tão alto que os próprios monges, no gume da montanha escutaram. As parideiras correram para a casa de Sasha, uma atendeu as necessidades do parto, as outras duas cercaram a porta para que ninguém além do pai veria o rosto recém-nascido da criança. Ela gritava. Respirava. Forçava. Gritava. Respirava. Forçava. Esse trabalho foi se repetindo inúmeras vezes até que eles escutaram.

Um choro, um choro, ele estava vivo. Uma criança havia nascido naquelas condições e melhor ainda, saudável. Asrail havia nascido e os gritos de dor deram lugar a choros de felicidade, tanto dos pais, quanto das parideiras. Todos ali estavam comovidos com o nascimento do pequenino. Uma das parideiras pegou a criança, banhou em água morna, enrolou em pele de cabra e entregou para a mãe.

Sasha chorava tanto que mal podia falar. Soluçava muito, e com razão.

O próximo foi Gustav. O pai segurou a criança, secou as lágrimas e olhou para o teto da casa, agradecendo aos deuses que tornaram outra de suas promessas realidade. Devolveu a mãe que havia desmaiado devido a força excessiva exercida. Correu a porta e abriu com violência seguido de um grito:

—ELE NASCEU, NASCEU E É UM MENINO, É MEU FILHO, MEU AGUARDADO FILHO, FINALMENTE POSSO SEGURA-LO!

As pessoas que aguardavam do lado de fora com a mão no peito apreensivas, deram lugar de suas angústias para a felicidade mútua. Os homens abraçaram Gustav, enquanto as mulheres choravam entre si. O parto havia sido um sucesso e todos ali estavam aliviados, não apenas pelo nascimento, mas pela prosperidade. Mais uma geração nasceu e ela traria alegria, felicidade e calmaria aos adultos.

No dia seguinte, Sasha não conseguia sair da cama, e, preocupado, Gustav também. A sintonia entre os dois impressionava os habitantes. Um dos moradores, suplicou pela presença do sacerdote na casa da família Abvuck. E lá foi ele, com sua túnica amarela e desgastada. Cruzou toda a Chernokya para chegar à casa dos três. Lá, pediu para que ficasse à sós com Sasha para que pudesse examinar o que havia de errado em seu corpo.

O maldito exame durou trinta minutos, trinta minutos de impaciência de Gustav, trinta minutos de apreensão. Mas após os trinta minutos ele chegou ao lado do pai e disse solenemente:
-Não há nada de errado com tua esposa, meu jovem. Fique tranquilo que o susto passou.

A incerteza e impaciência deram lugar a tranquilidade. Agora, se perguntava como aquela criança que estava em seu colo, cresceria e como ela seria. Não havia aberto os olhos desde o momento do parto, mas sabia que seriam belos.

Voltou ao cômodo onde Sasha se encontrava e lá passou o dia, fez questão de tentar cozinhar o almoço e a janta, mas era falho como cozinheiro. Por sorte, uma senhora amiga da família ia lá para cozinhar, a pedido de Gustav, claro.

Demorou alguns dias para Sasha retornar a ativa. Trabalhava em sua casa arrumando tudo o que era necessário enquanto cuidava do pequeno Asrail. Gustav ficou ajudando sua amada, mas quando percebeu que ela já estava saudável o suficiente para voltar o que era antes, decidiu ir até o templo e conversar com o sacerdote:

—O senhor poderia me contar o que é essa mina que todos estão aderindo?
-Claro jovem. As minas estão sendo proporcionadas por vosso templo. Graças a ela, conseguimos construir a estátua que passaste para chegar até aqui e até o ferro usado para confeccionar as armaduras dos soldados que protegem Chernokya
-Então, há alguma maneira de eu trabalhar ali? Eu havia prometido a Sasha que deixaria de ser soldado para cuidar de nosso filho
-Felizmente, qualquer devoto pode adentrar as minas, mas deve te atentar, é um lugar perigoso que pode trazer riqueza. Desejas realmente trabalhar nas minas?
-Sim, com certeza, se for o melhor para minha família
-Tu és um orgulho para a vila, jovem. Lyan ficaria orgulhosa de tua bravura!

O sacerdote tratava todos como um, a vila era única e, para ele, todos eram jovens e tinham muita energia para ser utilizada durante a vida. O sacerdote apoiava quaisquer ações que levariam o bem da vila, ele as julgava com base em seu conhecimento e dos Monges. Os Monges são cinco senhores acima de setenta anos que viveram o que muitos apenas teriam como pesadelos. O mais sábio de todos era Yuri Gagarin, criador da vila e que já passou por várias guerras quando jovem. Ninguém sabe onde ele nasceu, mas sabem como ele cresceu. No meio do sangue. Gagarin era, aos doze anos, um soldado dos reinos europeus e foi reconhecido como o melhor nos seus quinze anos de vida. Lutou pelo Sacro Império Romano Germânico, pelo Condado Portucalense e aos poucos foi sendo invejado pelas conquistas que adquiria. Mas dentro de si, ele alucinava. Durante a guerra, ele não era o mesmo, era sanguinário, sádico e desumano. Cada corpo que atravessava sua lâmina, deixava uma ferida no seu coração e mente até chegar ao ponto que não aguentava mais, a insanidade de suas batalhas refletiram em sua própria vida levando o pobre rapaz a loucura, tristeza e uma crise psicológica. Pensou em suicídio várias vezes, mas não teve coragem. A única solução era buscar exílio dos corpos pútridos que restavam em sua mente. Foi quando ele andou pela Europa, andou, andou, andou e seus pensamentos humanitários atingiram as pessoas, e mais pessoas, até que chegou em um lugar que ele poderia descansar. Chegou a uma montanha em seus cinquenta anos e lá fundou, com a ajuda de mais quatro amigos, Chernokya e ficou conhecido como o monge da Sabedoria. Os outros amigos eram conhecidos como Pavel, o monge do fogo, Nikolai, o monge da terra, Frans, o monge do ar, e Mikhail, o monge da água. Junto deles havia Ygor, o sacerdote, que pregava as vontades escritas no Edda poético, encontrado no Codex Regius, um livro de poesia que conta as trajetórias dos vikings e dos deuses nórdicos.

—Quando posso começar?
-Primeiro, terás que conversar com o ferreiro, ele te apresentara as ferramentas que terás de usar.
-Certo

O emprego de minerador havia começado enquanto em sua casa, Sasha cuidava de tudo, porém Asrail ainda não havia aberto os olhos, tinha fome, sede, mas não abria os olhos para nada. Parecia que a própria preguiça tomou forma de uma criança. Até que um dia, Sasha estava passeando pela vila com seu filho e foi se sentar num dos melhores lugares de Chernokya. A árvore de Zeta. Os soldados que faziam ronda, perceberam que Sasha estava sozinha e resolveram chamar Gustav para passar um tempo com ela em vez de ir minerar.

Gustav não demorou muito até aparecer ao lado de sua amada. Enquanto os dois conversavam, Asrail dormia durante o pôr do sol. O brilho do sol dava lugar ao aconchego das lanternas. Eles se lembraram como foi o primeiro dia do casal e caíram na gargalhada. Devido a isso, Asrail acordou, mas não chorou nem nada, apenas, abriu os olhos e se encantou com as estrelas que via entre os galhos e folhas da árvore sagrada. Se apaixonou. Os pais ficaram surpresos ao ver o menino de olhos abertos. A mãe orgulhosa e o pai enfurecido, era a primeira vez que ele mostrava suas belas pupilas azuis herdadas de Sasha e ficava ali, deitado em seu colo, olhando para o céu.

—Viu só, como até o nosso filho tem bom gosto? Ele tem os meus olhos
-Ah que saco, pelo menos ele deve crescer igual a mim
-Não, de jeito algum, já basta um carrasco em nossa família- riu
-Não sou carrasco não, sou apenas frio mentalmente
-Que seja, ele deve seguir os meus passos
-Pelo menos ele ainda não cresceu cabelo, deve ser igual o meu

Ambos estavam se divertindo naquele momento, como se o mundo ao lado não existisse mais, era apenas os três em meio as brisas de inverno que coloriam os narizes de vermelho.

Os anos se passavam rápido para aquele garotinho e em poucos meses, ele já sabia andar. Ficava caminhando por Chernokya. Saía de casa por conta própria, ia até as minas no norte da vila apenas para ficar com seu pai. Lá ele ajudava na iluminação do ambiente e as vezes ajudava a carregar algumas pedrinhas que caiam das batidas da picareta.

—Filho, um dia você estará em meu lugar, então se acostume com o trabalho que te ofereço porque quando você crescer, será pior

As palavras faziam sentido, não para ele naquele momento, mas para o futuro. Aos seis anos, a criança tem um ritual de passagem para começar a servir a vila. Se for homem, terá que virar soldado. Se for mulher, terá que virar uma fazendeira. Esse ritual era rápido e direto. O garoto teria que subir as escadarias que levavam da árvore sagrada ao topo da montanha, ao lado da nascente do rio Lenyk. Lá estaria os cinco Monges aguardando a chegada de um novo integrante aos guerreiros que batalhariam para a segurança da vila. Eles eram capazes de canalizar as forças de espíritos e a energia emanada dos seres vivos e concentrá-la em Yuri que era capaz de ter visões de como seria o futuro. Podiam ser comparados como Oráculos, mas eles não se chamavam assim. Preferiam ser chamados de Guiadores. Ele não previa o futuro, e sim, o adivinhava, mas quase sempre as adivinhações de Yuri eram realizadas. Faltavam três anos para o pequenino passar por esse ritual.

Enquanto as mulheres teriam um treinamento intensivo com tutores e tutoras que a ajudariam a se especializar em todo o necessário da vila. Elas podiam escolher, mas o trabalho fixo era a agropecuária. Os outros variavam de costureira até dona de casa. Aquela senhora que fazia as refeições enquanto Sasha estava fraca, era uma de suas tutoras.
A vida repetia esses episódios com o garoto andando pela cidade, ajudando os pais e ajudando os senhores e senhoras daquela vila. Assim, os dias passaram, os meses passaram e até mesmo os anos passaram.

Asrail estava com cinco anos, brincando e pulando no chão de neve. Sua mãe o chamava para entrar em casa pois o sol estava se pondo. O garoto obedeceu, mas antes de entrar, esperou o sol se pôr e observou o céu estrelado. Aquilo o admirava, era fascinado pelas estrelas, cometas, planetas e tudo que cercava aquele céu azul escuro. O que mais encantava, era a Lua. Para ele, a lua parecia uma janela que levava a outro mundo pois estava sempre clara e aberta. O maior desejo dele era alcançar aquela janela e descobrir o mundo que havia do outro lado.

—Vamos garoto, até quando vai ficar aí fora? Pode pegar um resfriado! -Sasha dizia

Asrail voltou para si e percebeu a luz que vinha de sua casa, era aconchegante, calmo e era aquilo que o traz conforto. Ele entrava na casa e já inspirava o ar com os olhos fechados, como se quisesse sentir o espaço em volta e a aura que emanava, mesmo sem saber o que aquilo era.

Gustav observou o rosto daquele menino, aqueles cabelos escuros molhados e cobertos de neve, aqueles olhos azuis que pareciam refletir a luz da casa. Respirava aliviado, aquele garoto realmente levaria o legado da família Abvuck, mesmo estando um pouco entristecido pela criança apenas puxar feições de sua mãe. Era divertido como ele demonstrava a insatisfação, era com ele, mas ele aceitava e gostava de seu filho. Apenas gostaria que se parecesse mais com ele.

—Esse menino ficou lindo, não acha? — Perguntou Sasha
-É, mas ele é uma cópia de você...
-Não fique triste, ele puxou a pessoa certa
-Verdade, comparado a você, eu não sou tão belo assim...
-Você é, sempre será, porque eu te amo e para mim apenas existe você.

Aquelas palavras faziam Gustav sentir orgulho e amor de ser o que era, independente do que os outros diziam, e se diziam algo.

A vida dos três só tinha a melhorar, independente dos dias, eles eram elogiados.

Certa vez, Gustav correu para fora da mina e foi em direção a sua casa, ninguém estava entendendo o porquê. Quando chegou lá, entrou rapidamente com um sorriso de orelha a orelha e retirou dos bolsos duas pedras arredondadas, uma vermelho-sangue e outra verde claro.

—Amor, olha o que eu encontrei hoje na mina! Não são belas?
-Belas não, maravilhosas!
-O sacerdote disse que eu poderia ficar com elas e que para ele não seria muito útil

Naquela região, Rubis, Safiras e Esmeraldas não passavam de decoração, se tornaram preciosas com a Nobreza europeia.

—O que acha que podemos fazer com elas?
-Hmm, não sei ao certo, mas que tal deixa-las em cima da lareira?
-Não, podem sujar
-Bom, então vamos deixar perto de nossa cama, um dia decidimos isso

As luzes que coloriam o céu à noite, indicavam a vinda de uma nova estação. Junto a ela, se aproximava uma das festas que iria movimentar a vila inteira. O aniversário de Asrail. Sasha acordou cansada, exausta e desnorteada, não sabia o porquê havia acordado daquele jeito, mas levantou e começou sua sina. Gustav percebeu a fraqueza de sua amante e ajudou-a com uma parte de suas tarefas antes de ir as minas coletar recursos para a vila. A condição de Sasha piorava, a cada dia piorava. Sua fadiga aumentava. Gustav não sabia ao certo o que fazer para ver sua companheira sorrir novamente. Ele esperava pelo pior e com esse pensamento, foi atrás do sacerdote mais uma vez

—Ela vai sobreviver?
-Não posso te fazer falsas promessas, no entanto, espero e rezo fortemente para que ela melhore. -Inspirou fundo com um rosto de piedade sobre o jovem casal e continuou- Devemos esperar um tempo para ver se a saúde dela melhore, talvez os deuses estejam apenas testando sua fé ou hoje seja apenas uma consequência daquele dia anos atrás

O coração de Gustav parou de bater durante alguns segundos, aquela notícia fez com que sua vida estilhaçasse pois ele esperava pelo pior. Olhava para Asrail e pensava do que seria aquele garoto sem sua própria mãe, o que ele poderia fazer se sua heroína passaria a ser coadjuvante. Gustav não aceitava a possibilidade de nunca mais ver aquele rosto angelical que agora parecia realmente um anjo pela palidez de sua pele.

—O que eu posso fazer? Não posso perde-la, não posso, simplesmente... NÃO POSSO!
-Acalme-se, devemos primeiramente arrumar um jeito de curá-la de sua fraqueza, não podemos nos afundar em desespero.
-Mas e se ela não acordar mais?
-Ela vai acordar, eu garanto...

As palavras proferidas não ajudavam a melhorar a situação de Gustav, ele queria confiar no sacerdote, mas não sabia como. Não sabia se ela realmente acordaria, nem se rezar para Lya, a deusa da saúde e cura, faria efeito, ela estava pálida, fraca, mal abria os olhos e as vezes gemia de dor, uma dor que ele podia sentir em sua própria pele. Pegou na mão de Sasha firmemente, como se quisesse mandar sua energia e saúde. Chamava todos os deuses, mas parecia que eles não ouviam. Olhou novamente no rosto, deu um beijo na testa e virou-se para falar com Asrail, que não estava entendendo apenas sabia que a situação não estava nada boa

—Filho, preciso te dar algo

Tirou de seu pescoço, o que nunca havia retirado desde o dia que recebeu, o colar de presa que Sasha havia confeccionado.

—Esse é um importante presente que ganhei de sua mãe e nunca gostaria de tirá-lo, mas seu aniversário está chegando e isso é uma lembrança minha e de sua mãe.

Atravessou o cordão pela cabeça do garoto e prendeu firmemente em sua nuca.

—Lembre-se, sua mãe que fez isso

A família agora esperava a festa da vila, que não seria muito feliz assim, mas significaria o crescimento da família Abvuck e o orgulho de um Estrategista. Faltava apenas vinte e quatro horas até o garoto começar seu árduo treinamento para conseguir defender a vila com seu pai. Gustav entrou no quarto e estremeceu. Sasha havia aberto os olhos, estava lúcida e sã. Com sua mão frágil, fez um movimento como se chamasse Gustav para mais perto. Gustav apoiou sua cabeça ao lado da boca de sua amada e cochichando com sua voz baixa em seu ouvido disse:

—Amanhã é o grande dia né?
-Sim... Amanhã e você levantará né? Para comemorar com ele? – Gustav não sabia se chorava ou falava, era uma decisão difícil até mesmo para um estrategista de alto nível
-Não precisa chorar, eu estarei sempre aqui para você. Está parecendo um bebê, nem o nosso filho chegou a chorar tanto – riu
-Até mesmo agora você faz piadinhas comigo né?
-Faço essas piadas porque não sei se amanhã poderei fazê-las
-Por favor... não fale isso

As lágrimas dele chegaram a molhar a lã que cobria a palha de sua cama. Ela, fraca, levantou lentamente a mão, apoiou em seu rosto e, com o polegar, secou as lágrimas de seu companheiro

—Chame ele para mim, por favor

Gustav não hesitou e desceu a casa à procura de seu filho que brincava com a neve.

—Filho, sua mãe quer te ver

Asrail apertou o passo e se dirigiu ao segundo andar da casa, o mais rápido possível. Quando atravessou aquela porta, viu sua mãe, viu aqueles olhos azuis mais uma vez, viu aquele sorriso branco e viu aqueles cabelos castanhos que pensava nunca mais poder ver. Asrail chorou enquanto ia em direção a Sasha

—Filho, não precisa chorar, a mamãe está aqui
-Mãe!
-Isso, isso, mamãe está aqui e nunca irá te deixar, não importa o que aconteça.

Asrail chegava a soluçar

—Gustav, deixe ele no quarto e volte aqui, quero conversar com você

Asrail havia dormido no colo de sua mãe e, gentilmente, Gustav levou o pequenino para o quarto e rapidamente voltou.

-Eu tive uma visão enquanto estava adormecida
-E como foi?
-Estava tudo escuro, mal dava para enxergar, mas nosso filho estava lá, lutando bravamente contra algo que parecia pessoas encapuzadas com mantos pretos e pareciam evocar espíritos maléficos. Cada uma tinha seu próprio espírito ou demônio, não sei ao certo. Ele tinha crescido bastante e estava com duas espadas que pareciam bem fortes! Fiquei orgulhosa de vê-lo derrotar todos aqueles malfeitores!
-Que visão hein?
-E ele não estava sozinho! Tinha uma garota que falava com um coelho, um homem com asas de corvo e até um lobo que uivava para ele! Foi incrível ver a quantidade de amigos que ele adquiriu!

A tristeza parecia haver se dissipado pelo ar

—E o que aconteceu?
-Ele lutava bravamente, mas não suportou e veio a falecer. Não me parece que ele estava feliz em todos esses anos, parecia que a vida dele não passava de um fardo que ele tinha que carregar e não sabia como
-Impressionante
-Não, não foi! Eu estava tão submersa nesse sonho que podia sentir a angústia e tristeza em seu coração, eu sentia vontade de pular e agarrá-lo com todas as minhas forças, mas não alcançava, foi horrível!
-Relaxa, isso foi apenas um pesadelo
-É, pode ser, mas que foi horrível, foi
-Deve ter sido, mas agora tente dormir novamente, amanhã é o grande dia

A noite caia e o dia mais aguardado chegava, lentamente. Os habitantes haviam preparado a festa, no silêncio matutino. Retiravam as hortaliças, degolavam os bisões e cabras e tiravam os vinhos, cervejas e suco do armazém.

Abriu os olhos, não sabia o que dizer nem reagir, mas aquele dia era o de maior importância. Levantou sem saber o que fazer e foi em direção do quarto dos pais. Aqueles olhos azuis foi a primeira coisa que ele quis ver. Sua mãe o aguardava com os braços abertos e um sorriso no rosto. Pela primeira vez ela estava sentada na cama, esperando seu amado filho com a ajuda de Gustav. Asrail pulou em seus braços, sentou em seu colo e apoiou a cabeça no seio da mãe. Naquele momento, o calor que ele sentia era suficiente para aquecer seu coração. Ambos estavam alegres de poder ver um ao outro sem qualquer notícia ruim

—Filho, vá para fora de casa, caminhe novamente na vila, aposto que todos estarão te esperando! Mas antes, tome isso

Sasha pegou a pedra que ficava ao lado de sua cama e deu ao seu filho

—Cuide disso, será muito bom você ter essa pedra linda contigo! Lembre-se não ficarei ao seu lado para sempre, terá que se cuidar, mas sempre é necessário levar um pedaço de mim com você. Não precisa de muitos amigos, apenas os confiáveis. Saiba que eu estarei sempre contigo, não importa onde esteja. Coma bastante hoje, beba bastante, seja feliz porque esse dia é seu e somente seu!

Aquelas palavras pareciam mais uma despedida do que uma comemoração pelo seu sexto ano

—Parabéns garoto, divirta-se muito hoje-Dizia Gustav

Asrail saiu de casa e logo foi se encontrar com os habitantes. Os vilões esperavam sua chegada para a chuva de palavras carinhosas e amigáveis que iria receber. Enquanto isso, em sua casa. Sasha tentava sair da cama com ajuda de Gustav, mas foi necessário apenas três passos para cair de joelhos no chão. Sua força havia se esgotado. Resolveu voltar para a cama e descansar mais uma vez com seu amado, conversando, trocando carícias e beijos.

O pequenino se divertiu mesmo escondendo a tristeza que residia em seu peito, comeu e bebeu como nunca tivera feito em sua vida. Aqueles seriam os últimos momentos de festa que teria em sua vida, daqui para a frente, seria treinamento contínuo e incessante. Para alcançar o orgulho que seria servir como um soldado para defender as pessoas ali presente, teria que subir as escadas que cercavam o gume da montanha. O caminho era árduo, mas as palavras de suporte dos seus conhecidos traziam força em suas pernas para poder subir cada degrau, naquele frio infernal. No meio do caminho ele parou, refletiu o que aconteceu na sua vida nesses últimos dias e o que o fim daquela escalada traria para sua família. Pensou em desistir, mas lembrou, olhando para o céu, os olhos de sua mãe e como ela ficaria orgulhosa em seus momentos finais de ver o orgulho que seu filho se tornou. Continuou, inseguro, mas subiu os degraus congelados e escorregadios.

Um estrondo, um barulho enorme provindo do horizonte, parecia um rugido de mil leões, mas era de apenas uma fera. O som foi capaz de assustar todos os animais que viviam nas montanhas e aterrorizar as pessoas, exceto ele. Asrail escutou aquele som e se apaixonou, parecia trazer uma nova vida para seu coração parado. Virou-se e voltou a subir as escadas. O vento congelante fazia sua espinha estremecer.

Chegou ao topo e a primeira coisa que viu, foram os monges iluminados pela aurora. Quatro monges sentados com suas túnicas formando um pentagrama. Cada ponta significava uma essência para a vida, na esquerda ficava Pavel, o monge do fogo, e Nikolai, o monge da terra. Na direita ficava Frans, o monge do ar, e Mikhail, o monge da água. No centro encontrava-se o criador da vila e o mais sábio dentre eles, Yuri, o monge da sabedoria. Ele era capaz de adivinhar o futuro daquela criança que os encarava sem saber o que dizer ou fazer.

—Olá garoto, seja bem-vindo! Você deve ser Asrail Abvuck! Ygor nos informou que você havia nascido faz quase seis anos.-Disse Mikhail enquanto Yuri nada dizia
-O-Olá...
-Esse é o garoto que trouxe prosperidade? Não me parece grande coisa.-Comentou Nikolai
-Calma meu caro, ele apenas tem seis anos!-Completou Frans
-Vamos lá pessoal, ele ainda está assustado.-Suplicou Pavel
-Acho que você já sabe o porquê veio até aqui, certo jovem?-Yuri finalmente se pronunciou
-Acho que sim...
-Você vai cruzar uma época de sua vida que dependerá apenas de você! Esse Ritual de passagem é o começo de suas vitórias ou derrotas e será o meio por onde você escolherá seus caminhos e quando irá atravessar obstáculos. Está na hora

Os monges fecharam os olhos e cada um encostou suas palmas, começaram a proferir Mantras que seriam responsáveis pela canalização dos espíritos e guiará o caminho para a visão. Os cinco repetiam as mesmas palavras, mas apenas um sentia elas, Yuri. Ele canalizava todas as energias porque era ele que faria a viagem capaz de dizer ou guiar o futuro da criança.

Yuri desmaiou, mas continuou em seu lugar, havia concluído os procedimentos para a viagem espiritual que deveria fazer. Atravessou planos etéreos que apenas ele entendia. Demorava cerca de duas horas para concluir.

—Meu jovem, seu futuro é inesperado. Em minha visão, consegui apenas sentir caos, angústia e uma tormenta em sua vida. Em tantos anos que faço isso, essa é a primeira vez que sinto algo tão tenebroso.

Asrail não sabia o que responder, apenas sentia seus membros tremerem, era uma sensação que ele já presenciou, algumas horas atrás. Tentava relaxar e compreender a situação e, para tal, se lembrou do que ouvira mais cedo. Aquele rugido reverberou em sua cabeça durante a visão de Yuri.

—Temo que isso seja um péssimo presságio, mas você deve se manter forte! No fim, eu vi uma luz que cegaria qualquer um, ela se chama Esperança! Não deve sucumbir ao medo!

As mãos do garoto tremiam e não era culpa do frio, era culpa do desespero. Aquelas palavras trouxeram discórdia nos pensamentos e causaram interruptas confusões. Ele não sabia ao certo o que fazer, como nunca soube. Uma criança de seis anos não tinha certeza de quase nada, mas ele sabia, sabia que a sua vida iria sofrer grandes perdas e já vinha a imagem de sua mãe na cabeça.

Asrail agradeceu aos monges com um gesto, virou as costas e foi, o mais rápido possível, em direção a sua casa. Quando chegou na metade da escadaria, viu a aurora boreal, um fenômeno natural tão belo que, mesmo com medo, parou para observar as ondas verdes, azuis, roxas e laranjas que se formavam no céu estrelado. Notou algo de estranho, uma sombra atravessava a aurora, tinha proporções descomunais para apenas um animal. Mesmo intrigado, voltou ao seu caminho de origem. Chegando na base da montanha, o que o esperava eram corpos desacordados de bêbados e copos e canecas de madeira espalhadas por todo o lugar. Teve que pular as canecas e os bêbados para conseguir atravessar Zeta.

Rapidamente, chegou a porta de sua casa, entrou de maneira violenta o suficiente para assustar Gustav que segurava a mão de sua amada no segundo andar da casa.

—QUEM ESTÁ AÍ?!?!
-Sou eu pai!
-Venha até aqui

O garoto subiu as escadas e encontrou sua mãe, em uma situação muito pior do que se lembrava. Estava completamente branca, sem força alguma, com dores no corpo e mal conseguia respirar. Mesmo fraca como estava, Sasha sentiu a presença de Asrail.

—Filho? Está aí?-Falou com a voz fraquejada
-Sim mamãe

De repente, aquele rugido foi escutado novamente, só que dessa vez, muito mais alto.

—O que foi isso?-Perguntou Gustav
Gustav se aproximou da janela e arregalou os olhos. Mesmo por uma fresta, ele via fogo, um fogo preto e verde que espalhava rapidamente queimando Chernokya.

-FIQUE AQUI ASRAIL! CUIDE DE SUA MÃE!

Gustav arrancou uma espada detrás da cama e violentamente saiu do quarto em direção a porta da casa. Abriu a porta e se deparou com o fogo, o fogo havia chegado em sua casa, mesmo estando mais alta e longe do que as outras. Só conseguia pensar na sua família. Não conseguia ver o causador daquele desastre, mas sabia que estava em algum lugar. Correu para fora e foi se juntar a antigos combatentes.

Cada vez que aquela fera se aproximava, expelia mais fogo de sua boca. Era uma besta descomunal, escamas verdes, boca e presas escuras. Tinha aproximadamente vinte metros de uma ponta a outra. Ela voava e hora ou outra, mergulhava dos céus para chegar o mais rápido possível em seu alvo e cuspir o máximo de fogo que podia gerar no meio tempo. Um lagarto com asas nunca antes visto por nenhum que se encontrava ali.

Gustav não sabia o que fazer, se ficava e lutava ou recuava para sua casa. A decisão era difícil, mas o tempo para escolher não existia. Mais um mergulho e, dessa vez, atingiu todos os combatentes. Com uma de suas patas, arrancou o estrategista do chão e o esmagou em pleno ar sem solta-lo. Gustav morreu tentando fazer uma decisão, mal sabia ele que entre a vida e a morte, decisões são as piores escolhas, é fazer ou fugir.

O dragão encontrou um lugar para pousar e foi na mais alta casa encontrada na região, a casa de Asrail. No pouso, ele destroçou com uma mordida o segundo andar completamente e com o bater de asas, jogou os presentes para o fundo do quarto. A pancada arrancou uma de suas presas e arremessou Sasha para longe. Asrail estava no centro do quarto enquanto via o cadáver de seu pai e sua mãe, fraca, encostada na parede, com as costas quebradas e gritando de dor aguda que sentia em todo o seu corpo. A fera encarava a cena e não parecia gostar, pelo contrário, era como se tivesse pena dos indivíduos que ousaram desafiar. O garoto observava, estava admirando a fera e ao mesmo tempo odiando-a. O dragão soprou mais uma vez um fogo devastador que queimou a palha e a lã que cobria a casa, levantou voo e soltou o cadáver que estava segurando fortemente.

Foi após o sumiço da besta em meio a fumaça que gerou, que Asrail voltou a realidade, olhava para um lado, estava sua mãe caída, para frente, seu pai morto. Gritou, não conseguia aguentar tamanha dor que aquele momento gerou em sua vida. Em um movimento rápido, correu para sua mãe.

-Filho, ainda está ai? Eu sinto dor, não quero ver você sentindo também
-Mamãe... o papai, o papai está deitado, ele não se levanta, ele não fala, ele não faz nada!-Disse a criança chorando

Sasha entendeu o que o garoto quis dizer e, lentamente tentou tocá-lo.

-Asrail, saiba, nós te amamos, mas agora quero que você fuja, fuja para o topo da montanha, deve ser seguro lá em cima e não se esqueça de nós. Eu e o papai te amamos e sempre estaremos contigo, não importa o que esteja para acontecer, estaremos do seu lado!
-Mas mãe, não posso te deixar, não... De novo não!
-ESCUTE! Agora é sua vida que está em risco e não a minha! Escute o que eu tenho para falar! Fuja agora para o lugar mais seguro que encontrar

O garoto chorava, mas mesmo assim seguiu o conselho da mãe, ele se sentia inútil, não conseguiu ajudar seu pai, muito menos sua mãe. Ele corria, pulava e tropeçava no caminho que fora destruído. Alcançou o início da escadaria, com seu coração saltando e suas lágrimas congelando. Subia as escadas torcendo para não escorregar. Quando chegou ao topo, o desespero aumentou. O lugar que ele tinha esperança estava completamente devastado e sem vida. Caiu de joelhos na neve e começou a esperar sua própria morte. Foi quando conseguiu ver um dos monges se movimentar. Era Yuri. O monge estava totalmente ensanguentado e machucado. Asrail ajudou Yuri a se recompor.

-Meu jovem, você está vivo! Infelizmente, você está presenciando o que eu vi!

Ele apenas chorava e não conseguia mais se comunicar

—Calma garoto, estamos vivos. Lembre-se que no fim, ainda há esperança! Agora devemos sobreviver com o que resta na vila antes de trocarmos de região

Demorou dias até o fogo abaixar. Durante esse tempo, Yuri e Asrail sobreviveram com os restos de pães e uvas que não haviam sido completamente destruídos

—Precisamos fazer algo...-Comentou Yuri- Não podemos sobreviver aqui durante muito tempo, precisamos encontrar um local novo.
-Senhor, poderia me treinar?
-E para que?
-Eu vi a morte diante meus olhos, não pude fazer nada! Não quero que aconteça isso novamente!
-E você acha que eu lhe treinando faria alguma diferença?
-Sinceramente, não sei. Mas acredito que serei capaz de fazer algo para as pessoas próximas a mim
-Entendo.-Inspirou fundo e completou- Está decidido, vou te treinar, mas prepare-se para os piores anos de sua vida!
-Nenhum será pior do que esse...

O brilho em seus olhos sumia com o tempo. O calor de seu peito dava lugar ao frio externo. Agora ele queria apenas aprender como defender as pessoas que se importava, mas para isso ele precisava de armas.

-Devemos forjar algo para você se defender

Eles buscaram incessantemente materiais que podiam fazer armas boas para o pequenino. A mina estava soterrada. O armazém destruído. Só restava o ferreiro, mas lá tinha apenas algumas barras de ferro, o que era insuficiente para forjar uma lâmina se quer. Sem muitas esperanças, Asrail pensou em algo que poderia dar certo.

-Mestre, podemos ver minha casa?
-Claro, mas porquê?
-Acho que lá deve haver algo de interessante

Lá estava ela, a casa dos Abvuck. Destruída, queimada e sem qualquer salvação. Aquele lugar trazia calafrios para Asrail, ele sentia vontade de vomitar, não tinha vontade de entrar naqueles escombros. Apenas a lembrança do rosto de seus pais e como eles ficaram, embrulhava o estômago.

—Vamos garoto, você consegue

Asrail entrou, relutante, mas entrou.

—Boa garotão, agora, leve-me ao que deseja mostrar

Dentro da fuligem, carvão e escombros, estava ela, quase invisível. A Presa da fera que havia deixado o caos nessa pequena vila. Ela era pesada, difícil de ser carregada, mas era possível

-Vamos levar isso para o forno. Pode ser muito útil
-Espere um pouco

Asrail correu a procura das pedras de seus pais, gostaria de leva-las com ele para se lembrar dos tempos que passaram juntos. Para se lembrar do que é Amor. Levaram as peças do quebra-cabeça para serem utilizadas na confecção das melhores espadas que Chernokya havia feito. Demoraria dias para completar as duas espadas, mas Yuri era determinado. O que ele fez foi considerado magia. Nenhum outro ferreiro conseguiria criar duas lâminas idênticas em tão pouco tempo. Cada martelada na presa derretida, mudava a forma como se via, mudava seu jeito até se parecer com a arma necessária para derrotar qualquer tipo de inimigo. Foi baseada em uma de suas viagens e o formato se deu pela Dao chinesa, uma espada longa com duas bifurcações em um de seus gumes enquanto o outro era bem afiado e arredondado na ponta para ligar a uma das pontas. Cada uma carregava uma joia da família Abvuck. Ambas eram escuras, quase pretas, mas cada uma tinha sua peculiaridade, uma continha uma pedra verde, que representava Sasha, na lâmina próximo a haste. Enquanto outra carregava a pedra vermelha, que representava Gustav. As hastes eram diferentes, uma era branca enquanto a outra era preta.

—Finalmente concluí! Agora, garoto, devemos ir treinar antes de você ser capaz de usar essas espadas, antes de você ter honra e um motivo verdadeiro para querer sobreviver
-Sim Mestre!

A jornada em busca da paz interior e o treinamento para conseguir sobreviver nesse mundo injusto, começava. Mestre e discípulo estavam prontos para começar o treinamento mais árduo e difícil que qualquer um se quer imaginaria. Mas Asrail precisava daquilo, precisava se sentir vivo novamente e a jornada teria que ser iniciada. O treinamento começara.

Notas finais
Curtiram? Então podem esperar que já já sai o próximo, pode demorar (estou em um ano super complicado da minha vida) mas garanto que saí! Obrigado novamente pela atenção! Torçam por Asrail.