Asrail

2 Capítulo 2 - Mudanças


Notas iniciais
Esse capítulo demorou um pouco mais por toda a dificuldade de criar um novo alfabeto, mas ficou interessante! Divirta-se!

“Mudar seu estilo, nunca será fácil. Cabe a você decidir se valerá a pena. ”

Uma última observada. Asrail admirou sua vila, que antes era viva e hoje, destruída. Aquela visão doía seu peito, mas como não conseguia mais chorar, apenas olhava. Seu cabelo se descamava com o vento gélido, talvez fosse por causa das chamas, mas agora tinha passado de preto para prateado. Cada passo deixava uma pegada, uma pegada densa na neve. Cada pegada deixava uma marca, uma marca de tristeza e insatisfação.

Os fios brancos se camuflavam nos flocos que caíam do céu.

A jornada saía dos montes gélidos para as planícies infernais. O intuito era ensinar o pupilo como sobreviver em qualquer lugar. A primeira parada era o deserto do Zhyra. Localizado no centro do continente de Pyras à quase quatro mil quilômetros de distância de Chernokya. Era uma caminhada longa, árdua e cansativa, mas que precisava ser feita.

—Nós vamos para um lugar longe. Lá eu lutei com alguns companheiros para tentar conquistar um condado. Posso lhe garantir que a caminhada será muito tortuosa, mas teremos ajuda de um antigo amigo meu.

O caminho deles seguia o curso do rio. Parecia impossível a caminhada, mas eles tinham foco. Eram quase mil quilômetros por mês, porém a disposição dos dois em completar aquele objetivo para apenas começar o treinamento, era assustadora. A sobrevivência dos dois dependia de Yuri, enquanto ele caçava, plantava e procurava água, Asrail acompanhava seu mestre e observava todos os passos dados.

—Se você amassar a Phody, você pode melhorar a mente e o corpo. Aconselho guardar ela para casos de extrema necessidade.

Enquanto a conversa fluía, seres enormes observavam os dois, escondidos na mata, preparados para atacar a qualquer momento. Um deles se arriscou a atacar e, ao se mexer, pisou em um pequeno galho de pinheiro. Os ouvidos atentos de Yuri captaram aquela informação e parou. Ficou estático, concentrando para saber onde seus inimigos estava. Seu modo de batalha foi ativado, o mesmo modo que destruiu um condado quase que completamente.

—Mestre, quando você...
-Fica quieto- Sussurrou

Asrail congelou, já estava esperando pelo pior, mas ele confiava em seu mestre. Yuri lentamente colocou as mãos na espada longa que ele tinha, não ousou sacar as lâminas gêmeas de Asrail. Fechou os olhos, concentrou todo seu cérebro em seus ouvidos. Qualquer movimento que aqueles monstros fariam, ele iria contra-atacar. Eram quatro bestas verdes camufladas no mato contra um senhor e uma criança, parecia injusto, mas elas não sabiam que aquele senhor ganhou várias batalhas sozinho.

Do mato, pulou um orc ferozmente com seu pedaço de tronco e rosnando. Em um movimento rápido, a espada longa atravessou o peito do monstro que logo em seguida caiu. Os outros três pularam junto e Yuri, com os olhos ainda fechados, girou sua espada rapidamente, cortando os três acima da barriga. Alguns centímetros para baixo, Yuri cortaria a cabeça de seu pupilo. O contra-ataque foi preciso. Quatro orcs caído no chão. Asrail estava impressionado, inspirado e assustado. Um senhor de quase oitenta anos derrubou monstruosidades de quase dois metros de altura.

Yuri colocou a mão no peito e respirou fundo. Sentiu uma dor forte na perna esquerda. Sem perceber, ele havia sido ferido por um dos orcs que já estava no chão se debatendo de dor com uma pequena presa que usava de faca.

—Mestre! Sua perna!
-Temos que tomar cuidado daqui pra frente. Estamos em território de Orcs, esses monstros verdes e esses são os mais fracos de toda a raça. Não esperava que já estaríamos na área deles.

Yuri recolheu algumas ervas da região, fez uma espécie de pomada e passou no corte. Rasgou um pedaço de sua túnica e usou como torniquete. Estava seguro, por enquanto.

—Preciso procurar alguma coisa para cozinharmos, enquanto isso você pode montar a fogueira antes da noite cair.
-Sim senhor!

A noite caía e Yuri caçava. Qualquer animal que eles poderiam se alimentar naquela floresta seria alvo. Ele ficava parado de olhos fechados escutando tudo que podia, qualquer movimento, qualquer barulho ele sabia onde estava e o que fazia. Pegou um galho longo no chão, afiou na lâmina de sua espada e arremessou. A lança improvisada atravessava as árvores enquanto perdia altitude e acertou em uma pequena lebre que saltitava de volta para sua toca. O jantar estava garantido. Ao retornar para o acampamento, viu algo que chamou atenção. Seu pupilo estava deitado sobre a grama desbotada olhando e admirando o céu ao som de uivos e o estalar da fogueira. Sentia falta das luzes que iluminavam o céu noturno de Chernokya.

—A noite aqui é muito bela- Comentou Yuri
-Sim...

O garoto não tirava os olhos do céu. Escutava com clareza e devoção aos sons calmos da natureza, fazia tempo que ele não se sentia tão bem ao ponto de realmente relaxar e apreciar o ambiente em volta. Yuri preparou o jantar, despelou a lebre e colocou acima da chama. Sentou-se ao lado da criança e a afagou.

—Não devemos esquecer do porquê estamos fazendo essa viagem. Temos que aproveitar o máximo de tempo possível.

Separavam o dia em atividades. De dia, treinavam, caçavam e plantavam. Tudo para ensinar Asrail a sobreviver em qualquer lugar. De noite, Yuri esculpia na madeira enquanto ensinava o pupilo diversas palavras e frases em várias línguas diferentes. Assim foi durante tempos. Às vezes, alguns goblins tentavam parar a dupla, outras vezes pequenos Orcs. Essas batalhas serviam para Asrail aprender algumas táticas contra aqueles seres místicos e monstruosos que vivam entre as florestas.

A caminhada aumentava junto com a saudade de casa. Às vezes Asrail olhava seu reflexo na água do rio e tentava lembrar de seus pais. A memória enfraquecia, mas o sentimento perpetuava.

Aos poucos, no horizonte, surgia uma fumaça. Isso indicava duas coisas, ou uma vila ou uma queimada. Mestre e pupilo se aproximava, lentamente, com medo e as custas do corte na perna. Ao longe, notava que haviam seres humanoides. Seres estranhos com rabo, patas, bigodes e, até, escamas.

Uma vila ao sul que continha diversas raças diferentes com armas improvisadas de pedra e madeira denominados Hyvizz (Hyvis). Hyvizz são humanoides que tinham corpo parecido com tigres. Nyhywhvi (Nyhyrvi) são humanoides com escamas parecendo lagartos gigantes.

—Não me parecem amigáveis...
-E agora?
-Vamos dar a volta, não posso lutar nesse estado...

Através das folhagens, eles iam se distanciando da vila. Tentaram contornar a vila, lentamente, mas os habitantes dela haviam visão e audição aguçadas acima das torres de vigia da própria muralha.

—ALTO LÁ! QUEM ESTÁ AÍ?

Fingiram não ouvir o aviso e continuaram o caminho

—NÃO PENSE QUE NÃO SABEMOS ONDE VOCÊ ESTÁ!

Yuri sussurrou para Asrail ficar parado e escondido atrás da árvore

—Sou apenas um senhor viajando para o sul!

Um dos Hyvizz listrado, subiu em uma das torres e gritou:

—NÃO ME IMPORTA QUEM VOCÊ É OU ONDE VOCÊ VAI! NÃO PASSARÁ DAQUI POR SUA INSOLÊNCIA EM INVADIR NOSSO TERRITÓRIO!

Os guerreiros que protegiam a vila, pularam da muralha e foram atrás de Yuri. Ele virou para o pupilo e disse

—Asrail, fique escondido, não se mova de jeito nenhum!

O pequeno exército se aproximava rapidamente. Yuri retirou uma espécie de bolsa de couro e de lá, a Rhodiola amassada que havia colhido. Colocou um pouco em sua boca e sacou sua espada. Estava pronto para o combate. Esperava atentamente a aproximação dos inimigos enquanto controlava sua respiração aguardando o efeito da erva.

“Mais um pouco.... Mais um pouco.... Só mais um pouco”—Pensava

Yuri começou a correr em direção ao pequeno exército de criaturas. Eram dezenas, mas na visão distorcida do velho, pareciam milhares.

A erva estava no seu ápice, dando energia necessária ao corpo e a mente do Mestre. Corria com sua fiel parceira de lutas, a antiga espada de ferro. Inteiramente enferrujada, mas ainda funcional nas mãos de um exímio combatente. Era um contra setenta.

Yuri atravessava aquela massa de pelos e escamas deixando um rastro de sangue e tripas. O mestre lutava bravamente cruzando espadas contra os inimigos do exército. Três feras pularam em cima do mestre. Uma com adagas vindo de cima com um golpe que acertaria o topo da cabeça de Yuri. Outro com uma espada longa fazendo um golpe transversal. O último via por trás do velho com uma espada longa dando um golpe horizontal. Yuri rapidamente respondeu os golpes com sua espada enferrujada. Defendeu os dois que vinha em sua frente enquanto puxou a bainha da espada e defendeu o intrometido que estava na surdina. Empunhou firmemente a espada e girou o corpo, dilacerando os três monstros com um golpe forte na altura do peito. Continuou avançando nos monstros atacando, um por um, sem piedade, mas o efeito da erva diminuía com o número de inimigos.

A noite chegaria e Yuri precisava terminar aquela batalha o mais rápido possível. Ainda restava metade do exército. Eles estavam assustados e receosos em enfrentar um senhor, com idade avançada, sozinho. A habilidade do Mestre surpreendia, mas eles não recuaram e, com gritos de guerra, avançaram. Cada vez mais rápidos, cada vez mais sedentos.

Yuri respirava rápido, sentia o corpo pesar lentamente e a fraqueza tomando conta de seus membros. A Rhodiola chegou ao seu fim, trazendo os efeitos colaterais. A visão turva e as mãos trêmulas dificultavam o combate e os quarenta restantes perceberam que a postura do adversário mudava. Agora era a hora ideal para forçar um ataque final. Mestre fraco, mente e raciocínio lerdos. Asrail notava que Yuri estava no limite, mas; novamente, não podia fazer nada para mudar a situação e isso o enfurecia. Via espadas cruzarem, faíscas brilharem e escutava o choque entre elas. Via corpos caindo e ferimentos abrindo. Via seu mestre sendo golpeado, mas sempre de pé mesmo com grandes ferimentos em seu corpo. Yuri derrotava um por um rezando para Waghor, o deus da guerra, dar forças para terminar aquela luta que parecia não ter fim. Pouco a pouco, a tontura piorava, seu corpo esbranquiçava. A visão escurecia. A cabeça girava. O corpo fraquejava, mas ainda lutava até que não aguentou mais e caiu.

Yuri havia caído no campo de batalha pela primeira vez em sua vida. Estava completamente exausto e apenas esperava pelo melhor até que ouviu

—RECUAR! Não sabemos se ainda há alguém próximo e esse daí está quase morto! – O líder gritava

Ele havia conseguido, derrotou um exército quase que por completo. Mais de cinquenta inimigos caídos no chão. Yuri sorria, sabia que havia completado a missão. O cansaço tomava seu corpo, os olhos não enxergavam mais nada. Os ouvidos não escutavam mais nada. A boca cuspia sangue de tempos em tempos. Ele rezava para que a dor parasse e, com esse pensamento, desmaiou.

O grande senhor da guerra havia desmaiado no campo de batalha

A visão continuava escura, nada enxergava nem ao menos falava. Yuri acreditava que já havia passado para os domínios de Lipha, a deusa do Reino dos Mortos.

—Não, meu caro, ainda não está na sua hora...

Essa voz agradável aos ouvidos recusava a vinda de Yuri e, aos poucos, era sobreposta por uma voz que aumentava a intensidade.

—Mestre... MESTRE!

Os sentidos voltavam aos poucos

—Mestre! Você acordou! — Gritava a criança com os olhos lacrimejando

Yuri olhava ao redor tentando reconhecer o lugar onde estava. Ainda estava meio tonto da batalha. Olhou seu corpo todo enfaixado. Sorriu por conseguir sobreviver mais um dia.

—Ôoo meu caro amigo! Finalmente acordou...

Um homem barbado, careca, com uma túnica preta e alguns amuletos no pescoço e no braço; limpava alguns ferimentos de Yuri.

—Quem é você?
-Não se lembra de mim? Poxa vida... Éramos grandes amigos...
-Espera... Você é o Karan?
-Sim! Isso mesmo, sou eu! Quanto tempo hein?
-Muito...
-Então meu caro, o que você faz nessas redondezas? – Perguntou enquanto colocava um pouco de chá de ervas para seu amigo
-Estou a caminho do Sul
-Para que?
-Para treinar esse garoto...

Asrail observava enquanto enchia sua barriga com pães e queijos que Karan produzia.

-Mas você não tinha desistido de lutar?
-Eu? -Tomou um gole da bebida- Sim, mas após o que aconteceu, não pude deixar ele sozinho.
-Aconteceu alguma coisa com Chernokya?
-Ela foi devastada... – O olhar de Yuri se fechava
-Como? Ela não era bem protegida?
-Contra um exército era, mas contra um dragão...
-DRAGÃO?! Como assim?

Karan se surpreendeu com a notícia e quase deixou cair seu copo de barro. Era estranho alguém falar sobre dragões reais. Para muitos, era apenas uma lenda.

—Não sei, mas ele surgiu do nada e consumiu nossa vila em chamas.
-Bizarro
-Afinal, por quanto tempo eu fiquei apagado?
-Sei lá, uns três dias?
-Três dias...
-Você teve sorte meu caro, estava próximo a uma zona de gigantes.
-Quem eram eles?
-Hyvizz e Nyhywhvi, seres que vivam na ilha de Kiwhzzy (Kirsy), no oeste dos mares. Eles foram expulsos de lá pelos Médicis e agora são tribos selvagens que querem destruir a família, mas não tem muito poder sobre isso...
-Sério? Os Médicis?
-Sim.... Eles são a desgraça de Tolozy...
-E quem expulsou eles de lá?
-Pelo que eu sei foi o Lucca, braço direito de Giovanni.

Asrail escutava atentamente, mas não compreendia. Sabia que iriam para algum lugar, mas não sabia onde, nem como e nem se conseguiriam.

—Melhor tomar cuidado na viagem!
-Realmente meu caro -Tomou o último gole da bebida- Desculpe Karan, mas não posso perder tempo! Tenho que ir ao sul o mais rápido possível. Preciso alcançar o Faruk.
-Ah! O barqueiro? Então é melhor se apressar! Foi bom enquanto durou, mas boa sorte em sua viagem e para você também garotinho!

Saíram da cabana de Karan no início do dia e, com passos largos, a viagem continuava, sem muitos problemas até que a neve começava a ficar para trás dando o lugar para um belo campo limpo, verde e, ao longe, viram telhados. Chegaram a uma cidade muito povoada. Aquela cidade era estranha, havia muitas pessoas em um local alagado. Alcançaram a cidade de Tolozy. Era bela, majestosa, porém haviam muitas pessoas sem lar. Aquela cidade era sugada por uma família, apenas uma família era capaz de empobrecer milhares de pessoas.

Ao passarem perto de dois homens conversando, Asrail escutou atentamente

—Você viu? A família Médici vai mandar a princesinha para estudar na Alboni!
-Aqueles desgraçados, mandando a filha estudar na melhor escola enquanto rouba Tolozy inteira.
-Não dá para acreditar!
-Pelo menos o Lucca e a Nina foram adotados pela família, assim eles terão uma vida melhor do que nas ruas...
-Graças à Milena, se fosse pelo Giovanni, nada mudaria!

Lucca era um jovem garoto, uns dois anos mais velho que Asrail. Vagava por Tolozy furtando comida e as vezes ouro. Não tinha lar, nem família exceto sua irmã gêmea Nina. Ambos tinham cabelo levemente azul, com olhos escuros. Aos seis anos eles já eram considerados perigo máximo para a família Médici. Até o dia que Milena encontra-los num beco da cidade onde descansavam. Ela acolheu os dois e deu uma missão para Nina: quando o filho dela nascer, ela iria protege-lo como sua empregada pessoal enquanto Lucca serviria as tropas de Giovanni. Lucca era um habilidoso espadachim enquanto Nina era especialista com facas.

—Giovanni é um desgraçado que só pensa em dinheiro!
-Pois é...

Asrail saía da cidade pensando o que seria aquele lugar enquanto distanciava dos homens.

—Mestre, o que é a Alboni?
-Acho que você já sabe o que é estudar, certo?
-Sim...
-Então, a Alboni é uma escola de Tolozy que abriga e ensina alunos de famílias muito ricas
-E quem é a tal princesa que estavam falando?
-É a filha do chefe da família Médici
-Qual o nome dela?
-Não lembro ao certo, mas acho que era Luna...

Enquanto atravessavam a cidade, a princesa passeava pelos becos e estradas com sua fiel empregada. Com um vestido vermelho, cabelos longos flamejantes e seus olhos de esmeralda. Luna conversava com os pobres desabrigados da cidade e, cada vez mais, se enfurecia com as decisões gananciosas de seu pai.

—Papai fez isso?
-Sim... Com todos nós de Tolozy. Parece que não passamos de cabeças no seu pasto alagado
-Não acredito!

O linguajar enriquecido de uma garota tão jovem surpreendia qualquer um. Ela adorava ler e ver apresentações que rodeava a cidade trazendo alegria e distrações ao povo que lutava para sobreviver cada dia mais naquela cidade sombria regrada pelo dinheiro.

—Acalme-se mia signora! Espere até o dia que tomar a posse da família!
-Esse é o meu objetivo

O amor entre pai e filha era inexistente. Ela, que não conheceu sua mãe, desejava a queda de seu único parente que sempre parecia estressado, irritado e inquieto. Os sentimentos eram consequência de sete anos atrás, quando sua amada esposa deu à luz e perdeu a vida. Milena Médici faleceu no nascimento de sua filha e, desde então, ele acredita que fora amaldiçoado, por ter uma filha e sua finada esposa. Sabia que Luna herdaria a posse da família e também sabia que seu governo onipotente iria ruir perante os ideais e objetivos de sua filha. O ouro e prata sumiriam de seus baús.

Infelizmente, para Giovanni Médici, Luna lembrava sua esposa tornando incapaz de caçar ou abandonar sua própria filha nas ruas de Tolozy graças ao seu coração fraco. Ele hesitava com qualquer ideia que tinha sobre colocar suas mãos em sua filha. Seja para abraçar ou estrangular. Sua mente era doentia e ficou pior após a morte de Milena.

—Devemos voltar para a mansão mia signora. O treinamento do mestre Pazello vai começar
-Vá na frente. Já já te alcanço.
-Mas Luna...
-Eu vou passear um pouco e já vou, Nina!
-Como desejar

Nina, a empregada fiel, desapareceu com o vento enquanto Luna caminhava enfurecida pelos becos escuros de Tolozy quando um senhor encapuzado se aproximou e sussurrou:

—Quer ficar forte? Garotinha.
-Hã? Como assim?
-Posso te garantir poder para fazer o que quiser!

Luna virou as costas, mas a proposta era tentadora e sua inocência transmitia seu interesse ao encapuzado.

—Você apenas precisa fazer um contrato pequenina
-Um contrato?
-É, um contrato! Apenas faça o que ele quiser que você ficará forte. Agora venha!
-Mas eu não concordei!

O velho levou a garota pelo braço para uma sala secreta no beco. Nina estava muito longe para escutar. A sala era escura com estantes cheias de livros empoeirados, teias de aranha por toda parte e velas acesas. Era assustador. No chão, marcas vermelhas em uma língua estranha sobre um carpete roxo. As madeiras das estantes estalavam enquanto o senhor fechava a porta.

—Me solta!
-Estamos prontos. Sente-se nessa almofada e feche os olhos

Assustada com o que poderia acontecer, Luna obedeceu às ordens e o velho começou a proferir algumas palavras bizarras em um ritmo estranho.

“Ve kueo ozzvy om moai bo biazz melbizz! Ybhywhozzy! I, ozzbhawhavi kueo vwhylzzkilbo olvwho izz bhnylizz yzzvwhyazz. Bhwhokamizz bo zzey yiÿeby! Oe zzie e ozzbhawhaveynazzvy o kiltiki zzey ybhywhakyi bhywhy whoynazywh em kilvwhyvi, zzowh ovowhoi!” (Tu que está entre dois mundos! Apareça! Ó, espírito que transcende entre os planos astrais. Precisamos de sua ajuda! Eu sou o espiritualista e convoco sua aparição para realizar um contrato, ser etéreo!)

As marcas começaram a brilhar em volta da sala e delas saíram uma aura azul ofuscante, iluminando o lugar e cegando a curiosa garota. A luz condensava em um único ponto acima dos dois tomando forma. Asas, bico, garras e olhos assustadores. A energia que emanava daquele ser plumado causava desconforto. Tudo isso formava uma ave vinda de outro mundo. Os olhos sedentos observaram em volta de onde fora evocada e, com uma voz distorcida questionou:

—Quem foi que me chamou?
-Eu senhora...
-Então você é o Espiritualista desta região?
-Sim senhora, vim aqui apenas para unir vocês dois.
-Então ela seria a contratante?
-Sim senhora
-PARE DE ME CHAMAR DE SENHORA! EU TENHO APENAS 341 ANOS!

A idade desses seres era estranha e completamente diferente do que eles conheciam. Para os espíritos, 300 anos representava apenas números numa eternidade. Idade era algo que seres atemporais não conseguiam definir.

—Sim senh... senhorita

Luna suava frio, estava desesperada apenas observando a cena querendo sair daquele lugar o quanto antes, mas não sabia como.

—Então garotinha, como vai?
-B-Bem... e você?
-Eu vou ótima, mas você não me parece nada bem... Sabe ao menos onde está?
-Não...
-Caramba, velho, você pegou uma criança para fazer um contrato espiritual e com todo essa decoração? Até eu estaria com medo... Enfim criança, estou aqui para te ajudar! Esse senhor é estranho, mas não perigoso
-Me ajudar, mas o que é você?
-Eu sou um espírito, que um dia foi vivo igual a você, mas a morte chega para todos não é mesmo? Enfim, foi graças a nós que várias cidades ganharam seus nomes, além do mais não é todo dia que você conhece uma “Tolozy”...
-É verdade!

Ambas riram, e esses risos serviram para descontrair e relaxar Luna, mas Lia era determinada

—Faremos uma troca ok? Me dê seu Soma que te darei poder!
-Soma?
-Soma é a energia vital dos seres. Eu apenas extraio ele para me manter nesse mundo e nessa forma...
-Mas assim eu vou morrer!
-Não, criança, não vai. O soma regenera durante a noite. Enquanto você descansa, eu extraio ele. O único problema é que você não conseguirá acordar e ficará exausta depois do pôr-do-sol

Os olhos de Luna chamavam a atenção da coruja. Conseguia ver e sentir as emoções que passavam pelo brilho verde dos olhos da criança. Sentia raiva, comoção, amor e; acima de tudo, medo. Saia dos ideias e objetivos da criança apenas lendo sua alma. Apenas em uma troca de olhares

—Eu adoraria fazer um pacto contigo!
-Porque?
-Você me parece uma pessoa determinada... Me lembra de quando eu ainda era viva... Enfim, quer?
-Não, não quero! O que pode acontecer comigo?
-Já disse, criança, aquele é o único problema
-Tem certeza?
-Certeza! Eu sei que é difícil acreditar em uma coruja falante, mas posso te garantir que ficará tudo bem!
-Mas, mas...
-Calma, calma. Vai dar tudo certo só fique paradinha aí.

A coruja bateu asas e, levando consigo a energia que emanava, foi em direção da garota que; assustada, tampo os ouvidos, fechou os olhos e gritou chorando com força enquanto tentava se proteger com as pernas. A coruja pressionou o corpo de Luna com aquela imensa energia e se transformou em um belo colar de ouro branco com uma linda safira pendurada. Luna conseguia sentir o corpo ficar leve e um calor aconchegante subir à cabeça. Ela, depois de muito tempo, sentia felicidade.

“Um colar hã? Interessante... Quem diria que você gostaria de guardar sua mãe assim. Posso ver sua alma, mesmo não sabendo como ela é, você quer sentir algo que te possa te lembrar dela”—Pensou- Pode abrir os olhos querida!

—Cadê você?
-Aqui embaixo!
-Você virou...
-Um colar? Sim!
-Mas como?
-Porque o contratante toma forma de um objeto que seu coração deseja. Esse colar é a prova que estamos conectados.... Um colar no pescoço e uma marca em um lugar secreto! – Riu — Prazer, amiguinha! Me chamo Nay, ou Lia em sua língua!
-O meu é Luna...
-Com licença senhoritas. Acho que já podem ir, o contrato está concluído- Interrompeu o senhor
-Mas que falta de educação hein? Estamos conversando!
-Desculpem-me, mas tenho outros compromissos e não posso deixá-los esperando
-Deixar quem?
-Não posso falar, agora se apressem!

Luna parecia assustada, mas por dentro estava animada por conseguir uma nova amiga. Estava realmente feliz e, querendo contar para sua família, saiu correndo daquele lugar tenebroso em direção da mansão Médici, que ficava ao norte de onde se encontrava. Sua alegria estava estampada em seu rosto, um sorriso de orelha a orelha enquanto apertava o cordão em seu peito, mas algo chamou sua atenção. Um garoto de cabelos prateados com roupas pesadas, olhando para seus próprios pés enquanto descia a estrada de Tolozy. Ela observou o brilho que refletia na cabeça dele. Continuou andando e o inevitável aconteceu. Duas crianças trocaram olhares, parecia que eles já se conheciam, mas não sabiam onde, muito menos quando. Parecia que eles eram amigos, mas amigos de uma época distante.

—Oi!

Asrail encarava entortando a cabeça na esperança de conseguir entender qualquer gesto

—Haha, parece um cachorrinho! Meu nome é Luna, qual é o seu?

Yuri notou a situação e sussurrou para Asrail

—Ela está perguntando seu nome...
-Asrail! – Gritou o pequenino
-Asrail? Que nome dife...

A conversa foi interrompida pelo trote de diversos soldados e camponeses seguindo um ser flutuando sobre a multidão. Um capuz branco cobria seu rosto enquanto a túnica cobria seu corpo.

—Irmãos! Devemos caçar aquela criatura nefasta que atormenta nossa cidade! Agora é o momento da vingança! Precisamos...

A voz doce, porém, selvagem, que vinha daquele ser parecia hipnotizar os camponeses. Uma voz feminina apimentada por fúria chamou a atenção de Yuri que rapidamente segurou o braço de Asrail e correu para algum lugar seguro. Luna fez o mesmo. Decidiu ir sozinha de volta para sua mansão, mas ficara com aquele nome na cabeça. Não queria esquecer. Não podia esquecer. Ambos se olhavam entre a multidão que passava e desapareciam, pouco a pouco, naquele mar de carne e metal.

—Vamos, garoto, não podemos ser pegos em uma guerra desnecessária agora!

“Droga, eles estão indo para o Sul... Justo aonde fica Faruk, acho melhor passar a noite em algum lugar por Tolozy...” Pensou Yuri enquanto procurava alguma estalagem para ambos dormirem. Ainda tinham jóias de Chernokya para usar como moeda.

—Bem-vindo senhor a Cado, uma das melhores estalagens de Tolozy! Deseja um quarto?

O atendente e dono de Cado era um homem com bigode e uma pequena boina em sua cabeça. Era parcialmente calvo e demonstrava grande humor. Um pouco acima do peso, mas mesmo assim energizado a cada novo hóspede que entrava naquela porta.

—Obrigado senhor...
-Antônio!
-Ah, senhor Antônio, gostaria de um quarto para nós, não tenho dinheiro, mas trouxemos algumas joias que podem ser úteis...

Yuri derramou um punhado de joias capazes de comprar a própria estalagem. Os olhos de Antônio brilhavam mais que os rubis ou esmeraldas.

—Temos um quarto no segundo andar, pode ser útil!
-Qualquer coisa basta, apenas um lugar para dormir já será de bom grado.

A noite chegava e o cansaço vinha junto. Estavam exaustos da viagem, mas precisavam prosseguir.

—Amanhã vamos continuar a andar, temos que chegar antes da próxima exploração de Faruk. Durma bem que sairemos antes do sol amanhecer.

Yuri afagou a cabeça do garoto e apagou a única vela que iluminava o quarto. Era hora de descansar. Teriam que fazer valer cada hora de descanso para cada hora de treino. Era tudo calculado pelo mestre e devia ser assim além do mais, aquele treino era o mais difícil e árduo que qualquer um passaria, mas era obrigatório caso ele quisesse viver.

A noite passava mais rápido que o dia. Asrail acordou com o canto dos pássaros, o sol reluzia em seus olhos. Estava nas costas de seu mestre. Ainda sonolento, deitou a cabeça no ombro de Yuri e observou o ambiente. Era magnífico, essa paz, essa calmaria, essa harmonia.

—Finalmente acordou, achei que ia dormir para sempre!
-Bom dia...
-Bom dia? Já é tarde garoto.
-Tarde? Hmm...
-Resolvi deixar você dormindo, já que hoje não vai ter muita coisa. Esse caminho é bem seguro pelo que eu me lembro.
-Hmm
-Sonhou com algo?
-Nada...

Asrail parecia entediado, mas na verdade estava relaxado. Fazia meses que ele não passava um dia apenas observando a paisagem. Observando o sol se pôr.

—Que estranho, sinto cheiro de fumaça...
-É verdade! – Comentava Asrail

No fundo, surgia uma enorme nuvem escura. Parecia que o dia já havia acabado.

—Temos que ir por aqui?
-Infelizmente... Acho que é o vulcão...
-Vulcão?
-Sim, Tozze, o vulcão da região de Avyniy...
-Tozze... Avyniy...

Cada passo aumentava o cheiro de enxofre e, com ele, o temor que lembrava aquela noite fatídica

—Mestre, esse cheiro...
-Eu sei...

Os olhos de Asrail só não enchia de lágrimas, porque já estava vazio, mas a expressão de choro deformava seu rosto querendo cada vez mais se enterrar na blusa de Yuri

—MAS QUE MERDA É ESSA?! – Vociferou Yuri

A calmaria da floresta rapidamente se tornava em uma batalha. Aquela fera que devastou Chernokya estava atormentando novamente. O exército que marchava em Tolozy era o mesmo que morria em Tozze. Milhares de homens queimados pelas chamas verdes. Milhares derrotados por uma única besta. Milhares homens que não voltaram para casa. Alguns restavam, mas com dificuldade. As armaduras não aguentavam o calor que emanava das chamas. Sobrara um pequeno exército de algumas dezenas de pessoas. Essas dezenas completamente preparadas para a batalha incluindo ela. A voz feminina que guiava o exército era a mesma que mandava recuar, mas algo era diferente. Ela tinha poder e magia suficiente, mas preferiu recuar.

—Aetherea excursus, tenete istud noxia in suo locum! Deorum, expellere quod bestia quia tartarus confinium! (Correntes etéreas, prendam essa fera nefasta em seu lugar! Deuses expulsem essa besta para os confins do Tártaro!)

Novamente assistiam o caos alastrar. Novamente, não sabiam o que fazer. Novamente, falharam.

Notas finais
O que acharam? Curtiram? Se sim, mande-me uma mensagem sobre o que você achou! Ficarei grato. Perdoem o começo de cada parágrafo (principalmente do diálogo) é que quando você copia e cola do Word para o Nyah, ele buga :s
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.