Asleep on a Sunbeam
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Vesti um dos vários vestidos que eu tinha jogado sem cerimônia dentro da mala gigantesca que minha mãe havia separado para eu trazer. Rebecca Mills tem algo que eu gosto chamar de “Complexo do Exagero.” Ela conseguia transformar os menores problemas em questões colossais. Tenho quase certeza de que se você procurar hipérbole no dicionário, vai encontrar a foto da minha mãe na definição.
Havíamos planejado almoçar em um restaurante no centro de Fira chamado Skala para experimentar o famigerado peixe com ervas finas que meu pai tanto comentou sobre. E claro, degustar um pouco de vinho.
O humor de mamãe parecia ter melhorado quando chegamos ao pequeno restaurante que ficava a algumas ruas da nossa casa. Tinha um ar caseiro, enfeitado com algumas luminárias coloridas na entrada e mesinhas redondas abarrotadas de famílias.
Sentamos em uma das poucas mesas livres e comecei a analisar a variedade de comidas. As letras gregas embaralhavam minha mente e eu só conseguia pensar em quantas provas de física compartilhei meu conhecimento com alfas, betas e gamas.
“Matthew me falou que aqui tem uma das melhores seleções de vinhos gregos”, papai exclamou passando os olhos rápido pelas letras incompreensíveis e tentando encontrar a parte de bebidas no cardápio.
“Me parece interessante”, mamãe sorriu para mim. Ela sabia o quanto seu mau humor desnecessário me afetava e estava tentando fazer as pazes implicitamente.
“Becca, depois temos que planejar nossa ida ao vulcão.”
“Certamente.”
Era engraçado pensar em como a transição da relação dos meus pais mudou tão rapidamente. Essa troca de informações formais, quase profissionais, foi um bocado estranha no começo. Agora já estou acostumada e nem me dou muito ao trabalho de me chatear com essas pequenas coisas.
“Liv, vamos fazer o de sempre?” Ella largou o celular, onde provavelmente estava conversando com Rich, e segurou o cardápio para olharmos juntas.
Esse era um pequeno costume nosso. Chegar em países desconhecidos e com línguas estranhas, e apontar aleatoriamente para uma das comidas exóticas e pedir sem nem saber o que é. Não sei de onde surgiu essa brincadeira, mas me lembro de uma vez que estávamos na República Tcheca e eu comi algum tipo de salsicha de origem desconhecida e com cores estranhas.
“Certo, feche os olhos.” Ella fechou os olhos e deixou seu dedo deslizar pela página com uma vasta lista de comidas típicas.
“Skordalia.” Ela tentou pronunciar o nome peculiar. “Espero que isso seja algum tipo de macarrão com queijo a lá grecque.”
“Acho que não temos tanta sorte assim.” Ri e fechei os olhos, movendo o dedo pela página e parando em um dos nomes mais bizarros, com várias consoantes perdidas no meio da palavra. Isso não podia ser nada bom.
Uma garota baixinha e de cabelos curtos aproximou-se da mesa segurando um bloquinho de notas e tentando ajustar o avental que estava preso na parte de trás de seu shorts.
“Ya!” Ela exclamou alegre. “Já estão prontos para pedir?”
“O que são esse Tiropites?” Mamãe perguntou para a moça, tentando falar a palavra corretamente para disfarçar o fato de que ela não sabia o que continha naquele prato.
“São massas folhadas recheadas com queijo!” A garçonete não tirava o sorriso do rosto e respondia todas as perguntas que minha mãe fazia sobre as comidas rapidamente, sem nem ter tempo para respirar.
Enquanto meus pais faziam nossos pedidos, continuei reparando no ar simples do restaurante. Sempre que íamos almoçar, costumávamos ir a lugares bem chiques e classificados como cinco estrelas nos guias sobre viagem que meu pai tinha em sua biblioteca pessoal.
Papai tinha uma seleção de livros absurdamente enorme em casa. Era meu lugar preferido. Sempre que eu ficava triste quando ouvia meus pais gritando um com o outro na sala ou ficava ansiosa e nervosa por qualquer motivo aparente, eu me escondia entre as amplas prateleiras lotadas de livros. Velhos, novos, recém lançados ou tão antigos que não dava nem para ler as letrinhas direito.
Ella costumava ler para mim enquanto deitávamos na grama fofa do jardim e tentávamos assustar as libélulas que ficavam incomodando nossa leitura. Quando eu aprendi a ler, ela já não tinha mais tanto interesse nos livros. Minha irmã já passou por várias fases diferentes, quando estava na quinta série ela resolveu que queria aprender a tocar bateria e entrar para a banda do garoto que gostava na época. No primeiro ano, ela resolveu cortar uma franja e ia ao cinema ver filmes iranianos toda semana. Ela sempre foi a mesma Ella, mas acredito que hoje ela se encontrou e agora tem certeza de quem ela realmente é.
Ao contrário de mim, que às vezes fico tão confusa sobre o que eu quero e porque eu quero tais coisas. Esses últimos anos eu comecei a entender que estava procurando por algo, mas até hoje não sei exatamente o quê. No próximo semestre, minhas aulas na faculdade começam e eu ainda estou indecisa sobre o que estudar. A maioria das minhas aulas giram em torno de literatura e escrita, mas eu fico me perguntando se é realmente isso que eu quero. Sinto que ainda existem tantas opções e eu nunca vou ter tempo de fazer tudo.
“Eu e Liv estávamos pensando em ir a algum bar hoje, não é, Liv?” Ella me acordou do pequeno devaneio com um cutucão no ombro. Nós não tínhamos discutido nada do que fazer hoje à noite, mas qualquer coisa é mais agradável do que aguentar meus pais juntos pirando por uvas gregas.
“Mas nós tínhamos combinado de encontrar o Kostas e sua mulher.” Papai respondeu, tentando limpar o suor da testa com um guardanapo e recebendo um olhar reprovador de mamãe.
“Ah, pai, por favor. É nosso primeiro dia aqui e não queremos ficar entediadas ouvindo sobre política.”
“A gente sabe que vocês vão ficar até de madrugada discutindo sobre a crise econômica.” Respondi, sabendo que era exatamente isso que ia acontecer. Sempre que encontrávamos Kostas, um amigo do nosso pai, os assuntos nunca mudavam.
“O que você acha, Becky?” Meu pai perguntou para a minha mãe, que estava mais preocupada com uma criança rechonchuda que estava sentada na mesa ao lado.
“Deixe as garotas irem se divertir, Ethan.”
Quando meus pais chegaram em um acordo e aceitaram o nosso destino noturno, a moça risonha estava de volta com os pratos e as bebidas. Parece que a sorte estava realmente do nosso lado, pois meu prato era uma mistura de churrasco grego com batatas fritas cobertas de alho e alecrim.
A garçonete estava colocando uma bebida com cheiro de aniz no copo do meu pai, quando ele se virou bruscamente para falar algo para mamãe e atrapalhou a garota, que derrubou todo o conteúdo esbranquiçado na blusa dele.
“Skata!” Ela gritou, pegando vários guardanapos e tentando enxugar o tecido. “Mil desculpas, eu sou tão desastrada! Foi sem querer! Por favor, me desculpe...”
“Não se preocupe,” papai respondeu ajudando a garota “acontece nas melhores famílias.” Ele riu e ela continuava um tanto desesperada exclamando desculpas e algumas palavras em grego que, provavelmente, eram palavrões.
Minha mãe já estava com seu olhar reprovador. Ela odiava desastres, ou qualquer coisa que ia contra a maré de paz e normalidade que ela tanto prezava. Meu pai era bem mais calmo e relaxado com tudo, sempre assegurando que “tudo vai dar certo”, “tudo acontece por alguma razão” e seu extenso dicionário de frases otimistas que nunca ajudavam em muita coisa.
Pela cara de mamãe, eu sabia que uma briga ia começar assim que a garçonete recolheu todos os papéis usados para secar o líquido e saiu para dentro da cozinha, sussurrando alguns palavrões.
“Eu sabia que não devíamos ter vindo comer aqui.” Mamãe disse, dando a largada para a discussão que vinha pela frente. Eles nem precisavam de muitos motivos concretos para soltar insultos. Era visível que só o fato de estarem sentados lado ao lado em uma mesa já irritava a ambos.
Suspirei pesadamente. Mesmo acostumada, eu não queria isso agora. Eu queria devorar essas batatas e apreciar a vista. Ouvir os nativos falando grego. A música estranha que tocava baixinho e ressoava pelo restaurante. E eu não ia deixar esses desentendimentos estragarem minhas férias de verão.
“Já volto, vou tomar um ar.”
Notas finais
Ya = pronúncia de γεια que quer dizer "oi"
Skata = pronúncia de σκατά que quer dizer "merda"
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