Passei pela porta do restaurante e caminhei em direção aos fundos, sentindo o sol cegar meus olhos. As ruas estavam entupidas de pedestres e havia uma feira de legumes, frutas e queijos no final da esquina, onde senhores tentavam vender seus produtos a qualquer custo.

Sabia que Ella provavelmente ia me matar por deixá-la sozinha aguentando meus pais, mas pelo menos ela morava em outra cidade e não tinha que aturar isso todos os dias. Perdi a conta de quantas vezes já lutei contra a vontade impulsiva de arrumar uma mala e passar algumas temporadas na casa dela.

“Ei. Esí.” Uma voz meio rouca exclamou atrás de mim. Virei rapidamente e me encontrei olhando para um garoto encostado na parede da parte de trás da casa. Ele era alto e tinha cabelos escuros bagunçados, como se tivesse acabado de acordar. Seus braços estavam cruzados e um sorriso no canto da boca mostrava uma covinha minúscula, quase imperceptível, em seu queixo. Havia um cigarro em uma de suas mãos. As cinzas caiam no chão enquanto ele olhava divertido para mim com seus olhos verdes. “Você precisa de alguma coisa?”

Ele usava uma camiseta amassada com o símbolo do restaurante e o traço de seus ombros largos era aparente por causa do fino tecido. Seu tênis estava todo rasgado e uma bermuda jeans se encontrava baixa em sua cintura.

Qualquer pensamento sobre o desentendimento dos meus pais foi abruptamente interrompido pela beleza daquele garoto.

“Não.” Limpei a garganta e sorri para ele tentando arrumar meu cabelo que estava um caos por causa do vento. “Só vim dar uma andada.”

Ele levou o cigarro aos lábios e deu uma tragada ainda sem tirar os olhos de mim. Retirou o maço de cigarros do bolso e me ofereceu um, e assim que eu recusei, seu sorriso aumentou. Suas bochechas estavam rosadas por conta do calor e o suor em torno de seu pescoço me parecia muito mais interessante do que qualquer coisa que tivesse acontecendo em nossa volta.

“Dia difícil? Você parece cansada.” Ele virou a cabeça para o lado me analisando. Certamente esse não foi um dos melhores começos de viagens que já tive, depois de um vôo, uma lancha e o calor grego, eu tinha até que tentado parecer apresentável.

“Posso dizer que sim.” Mordi o lábio tentando não mexer no meu cabelo que continuava dançando na minha cabeça por conta do vento.

“Londres? Ou um pouco mais para o interior?” O garoto se aproximou lentamente com sua pose descuidada.

“Como?”

“Seu sotaque. Eu sei que é inglês, só não consigo distinguir exatamente de onde.”

“Ah.” Suas mãos estavam indecisas entre continuar fumando ou jogar o finzinho do cigarro na calçada. “Londres, mas eu nasci em Bristol.”

“A cidade dos barcos.” Bristol era conhecida por um de seus portos, onde milhares de barcos e pescadores desenhavam a paisagem da cidade. “Já passei por lá uma vez, mas foi muito rápido. Tenho uns amigos que estão na Inglaterra agora e devem estar nessa região.”

Meus pais resolveram se mudar para Londres quando eu tinha três anos e Ella seis. Papai tinha finalmente fechado um contrato com alguns sócios e aberto uma empresa de publicidade perto do Hyde Park, onde nossa casa também ficava. Agora eu só ia para Bristol nas férias, ou em algumas datas comemorativas levar presentes para os meus avós.

“Você é daqui?”

“Nascido e criado.” Ele sorriu torto e tentou limpar o suor da testa com a palma da mão. “Para uma inglesa, você parece estar agüentando bem esse calor.”

“Também temos verão na Inglaterra.”

“Não deve ser tão quente quanto aqui. Espere mais alguns dias para descobrir que você está andando no inferno e não na terra.”

“Só espero que minhas roupas de verão durem por tanto tempo.”

“Não se preocupe, nós temos aquele negócio chamado máquina de lavar.” Revirei os olhos rapidamente, tentando não achar graça no comentário. Ele levantou uma das sobrancelhas provocante e estendeu a mão. “Nikos.”

Limpei a mão um tanto suada na barra do meu vestido e apertei sua mão áspera e forte.

“Olivia. Ou Liv. Tanto faz.”

Nikos voltou a me olhar divertidamente. Sua postura largada me fazia lembrar de James Dean em um daqueles filmes dos anos 50. Se não estivesse tão quente, conseguia imaginá-lo com uma jaqueta de couro e uma garrafa de whisky entre os dedos.

“Então. Liv.” Ele disse meu apelido calmamente, demorando para terminar o som do V com sua boca. “Viagem em família? Amigos? Namorado?”

“Família.” Respondi, sem saber se isso era uma coisa boa ou ruim. Devido aos últimos acontecimentos, tudo indicava que isso definitivamente não era algo para se orgulhar.

“Hm. Já tem todo um itinerário para seguir com programas familiares?” Olhei estranhamente para ele sem entender se eu deveria levar aquilo como uma ofensa. Nikos apenas deu de ombros. “É o que geralmente acontece em viagens de família.”

“E você é um viajante nato?”

“Mas é claro!” Ele riu engraçadamente e quando abriu a boca para completar a frase, a garota de cabelos curtos que serviu nossa mesa e derrubou a bebida em meu pai, apareceu na porta dos fundos do restaurante.

“Nikos Antalopoulos, você quer fazer o favor de colocar sua bunda dentro desse restaurante agora? Tem uma fila de espera gigantesca e eu não consigo dar conta de tudo sozinha e Angeliki vai me matar se eu fizer alguma merda de novo e sua pausa para fumar já terminou faz anos e...” Ela se calou quando percebeu que ele não estava sozinho. “Ah. Olá! Você estava na mesa em que eu derrubei Ouzo, não é? Deuses, que desastre. É a segunda vez que isso acontece. Era seu pai? Peça desculpas a ele novamente, eu sou um completo desastre quando se trate de levar bebidas para os clientes.”

A garota falou tudo tão rápido que foi difícil prestar atenção. Ainda mais com Nikos observando minha reação ao monólogo ligeiro dela.

“Só trate de entrar logo, ok?” Ela se voltou para Nikos e entrou correndo de volta para a cozinha, sem me dar uma chance de falar que estava tudo bem. Papai não se importava com esse tipo de coisa.

“Minha irmã.” Nikos apontou para a porta onde a garota estava há alguns segundos atrás. “Eu deveria entrar.”

“Sim. Certo.” Sorri tímida e ele retribuiu com um aceno com a cabeça, mas antes de se virar para ir embora, parou no batente da porta e apoiou um dos ombros para ficar de frente a mim. “Se você for ficar muito tempo aqui na Ilha, amanhã vai ter uma festa legal em Karterados. Um amigo meu vai tocar e... Você deveria vir.”

Ele me entregou um flyer da festa que tinha cores vibrantes e alguns desenhos psicodélicos. Um anúncio de DJ era o centro do papel, com várias palavras irreconhecíveis finalizando o convite da festa.

“Obrigada. Acho que vou dar uma passada...” Respondi, mas quando olhei para a porta, Nikos não estava mais parado lá.

Notas finais
Esí - quer dizer "você" de uma forma informal, em grego.
Ouzo - bebida grega de anis.

YAY :) boa leitura.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.