A viagem não começou da melhor maneira possível. Depois de passar horas dentro de uma lancha sentada em poltronas desconfortáveis, minha mãe começou com o seu monólogo sobre a falta de dedicação e atenção que meu pai tinha com ela e suas filhas. Meu pai, é claro, não ouviu metade das palavras dela, mais preocupado com os vinhos que ele começaria a degustar assim que chegássemos em Fira, capital de Santorini e um dos mais famosos pontos turísticos da Grécia.

“Esse é seu presente de formatura” e “Estamos tão orgulhosos de você” foram os discursos que meus pais usaram para arrastar eu e minha irmã para as íngremes subidas das ilhas gregas. Mas o fato de eu ter me formado no colegial com notas ótimas e ter sido aceita em uma das melhores faculdades da Inglaterra não tinham nada a ver com essa aventura européia.

Meus pais estavam se divorciando. Ou pensando nisso. Ou “discutindo nossos problemas como adultos”, como eles sempre diziam. Depois que minha irmã mais velha, Ella, foi estudar na Escócia, as brigas ficaram cada vez mais constantes.

“Você não presta atenção no que acontece com a sua família”, minha mãe gritava pela cozinha quando meu pai chegava em casa de madrugada após passar horas e horas trabalhando em sua empresa de publicidade. “Você se preocupa demais”, ele bradava de volta, jogando o terno levemente amassado no sofá.

A verdade é que a culpa não é de nenhum deles. Mas o resto de amor que uma vez existiu tinha ido embora de vez. A Grécia seria a última tentativa de fazer as coisas darem certo, mas nem mesmo eles estavam muito otimistas sobre o assunto.

Eu bem sabia que essa viagem não resolveria as coisas de um segundo para o outro, mas ao contrário da minha irmã, que estava mais preocupada com a revista Nylon que uma garota ao seu lado estava lendo, e que ainda estava chateada pelo fato de não termos ido para Mykonos checar as festas animadas do local (palavras de Rich, seu namorado ator que foi passar o verão visitando a família nos Estados Unidos), eu estava muito animada para ficar explorando as ruelas estreitas da ilha de Santorini.

Estávamos na Grécia, afinal de contas! O país onde minha poetisa preferida nasceu e onde as famosas saladas de tomate e queijo feta seriam saboreadas com muito carinho. E, além disso, eu precisava de um descanso depois de me matar de tanto estudar para passar nas minhas provas finais.

“Nós não vamos subir essas ladeiras com burros, Ethan.”, mamãe disse irritada, prendendo os cabelos escuros em um coque no meio da cabeça.

“É a forma clássica, Rebecca.” Quando eu e Ella éramos menores, meu pai costumava chamar minha mãe de Becca. Ou Becky. Agora eles se dirigem um ao outro formalmente, ou nem ao menos isso.

“Vamos de táxi e sem discussões, eu não passei sete horas dentro de um barco para chegar aqui e ainda ter que montar em um burro.” Ella olhou para mim e revirou os olhos, ambas sabíamos que nossa mãe sempre tinha a palavra final. “Olivia, tire as malas do caminho antes que alguém tropece nelas.”

Coloquei nossa bagagem um tanto mais pesada que o normal perto do táxi que parou com o sinal que minha mãe fez. Nós ficaríamos 8 semanas aqui em Fira, em uma casinha que alugamos do sócio do meu pai.

Já conseguia me imaginar me perdendo nesse labirinto de ruas que é Fira. As casas brancas pareciam de gesso e a cidade toda uma maquete de miniaturas. Milhares de lojas de artesanato estavam espalhadas pelas ruas, com vendedores anunciando suas pechinchas e atraindo turistas que compravam cartões postais do pôr do sol de Oía. Joalherias e restaurantes também completavam o cenário meio caótico do momento.

O taxista informava sobre as vinícolas para os meus pais, Ella dormia com a cabeça no meu ombro e eu tentava capturar cada pedacinho dessa ilha desconhecida para o meu diário mental.

Nossa família viaja bastante, mesmo que sempre dentro da Europa e principalmente, sempre dentro do Reino Unido. Já perdi a conta de quantas vezes fomos para Bristol passar semanas conhecendo os mesmos lugares e indo jantar no mesmo restaurante perto da casa dos meus avós. A primeira vez que meus pais me deixaram passar uma semana sozinha com a minha melhor amiga em sua casa de verão na França foi, provavelmente, um dos momentos mais felizes da minha vida. Não é que eles sejam protetores ou algo do tipo, mas sempre que viajamos juntos nunca exploramos a fundo as cidades. São sempre os mesmos programas turísticos que eu, particularmente, não vejo tanta graça.

Eu gosto do que vai além. Sair andando sem rumo e descobrir galerias de arte escondidas em ruelas ou sebos de livros perdidos em becos sem saída.

A pequena casa com flores rosas em sua porta ficava em uma ladeira que tinha uma visão ampla do vulcão. O mar era incrivelmente azul e fazia um contraste gritante com as casinhas brancas. Uma senhora que estava pendurando roupas em um varal provisório sorriu para nós e disse algo em grego.

“Ok, esse é um dos lugares mais lindos do mundo.” Ella exclamou segurando minha mão. Papai e mamãe estavam colocando as malas dentro da casa e avaliando o local. “E nós precisamos dar um jeito de escapar das vinícolas, Liv. Eu não vou aguentar papai falando sobre uvas por mais um segundo.”

“A gente inventa alguma coisa.” Olhei para a minha irmã, com seus cabelos castanhos com pequenas mechas claras e seus cílios cheios de rímel. Ela estava ficando animada com a viagem também.

“E precisamos conhecer alguns nativos bonitinhos.”

“E o Rich?” Sorri desconfiada para ela.

“Eu já te expliquei minha relação com ele. Estamos dando uma pausa para aproveitar nosso verão.” Ella piscou e saiu correndo “Eu escolho meu quarto!” Difícil acreditar que ela era a irmã mais velha e eu, sempre séria com tudo, a mais nova.

Desde pequena eu tinha certa fama de responsável. Sempre que Ella arrumava alguma encrenca com as garotas da escola, eu estava lá para separar a briga. Quando ela precisava de alguém para abrir a janela de noite para ela poder sair com algum de seus namorados em um dia de aula, eu dormia em sua cama e esperava ela chegar no dia seguinte. Eu sei que minha irmã faria o mesmo por mim se fosse ao contrário, mas eu nunca fui muito espontânea e essa proteção nunca foi necessária comigo.

Olhando para essa vista fascinante, eu não tinha que pensar nas consequências de não estudar para uma prova ou passar a noite acordada com os meus amigos sem se preocupar com as responsabilidades do dia seguinte. E eu estava livre para explorar tudo isso no clima quente da Grécia. Em apenas um verão.

Notas finais
THAT'S ALL, FOLKS!

just kidding
logo tem mais e espero que vocês gostem :)