Asgard Dirty Secrets

43 When one act of kindness could be… Deathly...


Notas iniciais
* When one act of kindness could be… Deathly... = Quando um ato de bondade pode ser... Mortal... -- Trecho da música Deathly de Aimee Mann. Olá! Voltei! Peço desculpas pelo atraso. Tenho boas e más notícia. A má notícia é que infelizmente os capítulos desta fanfic continuarão atrasando. Estou revisando AMDMD, escrevendo a The Unlikely. A boa notícia é que, como os que me seguem nas redes sociais já sabem, estou envolvida no projeto de um livro! Peço vibrações positivas para esse projeto, assim que tudo estiver pronto e publicado, poderei ter mais tempo para as fanfics e quem sabe trazer uma nova... (já tenho os rascunhos). Sobre o capítulo... Brace yourselves... Gente... Vocês me conhecem, sabem que não consigo conter a caranguejeira que habita em meu coração. Sendo assim, acho que demorei até demais para começar as tretas de verdade... >XD Enquanto vocês leem, eu vou tomar meu chazinho com o Loki... hehehehehehe Boa leitura! PS: Na foto o Eric.

— Nossa… — Merida afastou os cachos da frente de um dos olhos. — Então você nem imaginava que era pai… — balançou a cabeça. — Er… — apertou os lábios.

— Exatamente — Fenrir murmurou entristecido.

— Pelo que você falou, o povo dela se comporta meio como os ciganos de meu mundo… — ela disse pensativa. — Eles também são nômades e muito unidos. São muito ligados às suas raízes familiares e da comunidade.

— Ciganos? — o príncipe ficou pensativo. — Acho que ouvi minha mãe falar de um povo chamado de ciganos na realidade dela… É muita coincidência… — disse baixinho.

— Ela… — a ruiva olhou para a menina e decidiu não usar o nome da mãe da criança. — Ela simplesmente sumiu e nunca chegou a terminar com você?

— Não… — confirmou muito sério.

— Eu sinto muito… — ela fez um afago no braço dele e ele a encarou.

Um tom de rosa cobriu o rosto da ruiva, mas ele manteve o olhar sobre o dela.

— Fogo… — disse uma vozinha, quebrando o clima.

Os dois olharam na direção da pequena Mintaka.

— Seu cabelo parece fogo… — sorriu a menina e estendeu a mãozinha para tocar um dos cachos.

A garotinha manuseava o cabelo da mulher, maravilhada. Merida teve vontade de beijar e apertar aquela menina em seus braços. Derreteu-se com a maneira de Mintaka falar e agir.

— E o seu cabelo parece a noite… — sorriu Merida de volta. — Que tal colocar algumas estrelas nessa noite? — esticou-se com dificuldade e apanhou uma bolsa que estava sob a mesa ao lado da cama.

Merida vasculhou a bolsa e apanhou um pequeno pote cheio de glíter. Derramou um pouco sobre a mão e delicadamente salpicou sobre a menina. Maravilhada a garotinha rodopiava sob a chuva de brilho.

— Olha que lindo! — Mintaka deu um pulinho. — É pó de estrelas? — perguntou com olhos sonhadores.

— São o que você quiser imaginar… — disse a ruiva, emocionada com a criança. — Tome… — entregou o pote. — É seu…

Mintaka agarrou o pote e o fitou admirada.

— Obrigada...

Fenrir engoliu o nó que se formou em sua garganta. Era a primeira vez que ouvia a voz de sua menina e ficou tocado com a cena que assistira.

Merida olhou demoradamente para sua bolsa e algo se acendeu em sua mente.

— Engraçado… Lembro da bolsa estar sob a mesa antes de eu adormecer e acordar nessa terra estranha… Como ela veio parar aqui? — balançou a cabeça. — Como eu vim parar aqui?

O comentário tirou Fenrir de seus devaneios.

— Você falou que havia encontrado uma garrafa.

— Sim… Uma garrafa e uma tigela com alguns inscritos rúnicos. Nela havia um líquido.

“A descrição bate com a água do lago.”

— Perdoe-me… Mas na primeira vez que você me falou sobre ela, eu a ignorei totalmente. Onde a encontrou?

— Em um galpão abandonado. Minha equipe de arqueologia e eu estávamos trabalhando na área.

Ele crispou os lábios.

— Precisamos falar com minha mãe urgente e não podemos mais adiar.

≈≈

Wagner e Eisa estavam na entrada leste do palácio, quando Aredhel e James entraram de braços dados e conversando alegremente.

“Ela conseguiu”, pensou o rapaz com certa amargura.

— Pai… Que bom que voltou! — o jovem se aproximou dos dois.

— Filho… — abraçou-o ainda emocionado com as revelações daquele dia.

— Parece que a madrinha conseguiu o que não pude… — olhou para aquela que tinha como uma segunda mãe. — Convencê-lo a voltar.

Aredhel deu um sorriso fraco e ficou sem saber o que dizer. Jamais comentaria com o afilhado os reais motivos que fizeram Jim se afastar de Valhalla. Ela olhou para a filha, com receio de que a jovem pudesse “ouvir” a verdade.

— Sua madrinha me fez ver que aqui é meu lugar, independente dos fantasmas que possam abrigar… — foi evasivo.

— Apenas fiz seu pai ver que vocês precisam dele… — Aredhel aproveitou a deixa.

— A senhora também… — Wagner falou sem emoção.

— Sim… Eu também… — ela admitiu meio confusa com aquela afirmação.

James estranhou aquele comentário e Eisa olhou para seu namorado. Todavia, antes que pudesse tentar “pescar” maiores detalhes por trás do que ele dissera, seu pai adentrou no local.

— Ah… De fato a felicidade é algo efêmero… — resmungou o rei. — Satisfação definitivamente não faz parte de meu destino.

— Loki… — Aredhel crispou os lábios.

— James — ignorando a esposa, Loki prosseguiu —, eu realmente espero que seu breve exílio voluntário tenha servido para que você refletisse sobre sua conduta — encarou o ator. — Ficar vagando feito uma alma penada ou se afundando em litros de hidromel não fará Hela retornar para você ou o casamento dela desaparecer — foi cruel. — Portanto, poupe seus filhos, a sua amiga, eu e a todos os moradores do palácio do desgosto de esbarrar com o arremedo de gente que você se tornou e seu comportamento deprimente. Poupe a você mesmo dessas cenas degradantes. Se quer continuar sofrendo, que sofra com o mínimo de dignidade — deu as costas e saiu.

Wagner e Eisa fitaram Loki atônitos.

— Tommy… Eu lamento… — Aredhel começou, envergonhada com a situação. — Loki não quis…

— Ele tem razão Aredhel… — Jim ergueu a mão. — Ultimamente não tenho sido eu mesmo. Eu mal me reconheço… Cometi erros graves, tenho sido um pai ausente com meus filhos — olhou na direção de Wagner e viu o jovem baixar os olhos —, falhei com você e com Loki também — arqueou as sobrancelhas. — Não tiro a razão dele me recriminar por hoje e por inúmeros incidentes que ele já foi testemunha. Acho que em virtude de tudo o que aconteceu, ele tem sido paciente até demais comigo. Sei que o faz por sua causa — encarou-a —, mas, ainda assim, ele tem tolerado mais do que o normal.

— Do que o senhor está falando pai? — interferiu o rapaz. — O que o padrinho testemunhou que não sabemos? — foi direto.

A cena da noite do casamento de Hela veio à mente de James. Loki entrando furioso em seu quarto, enquanto ele estava na cama debruçado sobre Aredhel, após tê-la beijado e quase passado dos limites do aceitável com ela. Eisa, bisbilhoteira, entreabriu os lábios e o seu rosto se tingiu de vermelho. A jovem instintivamente olhou na direção da mãe, sem entender o contexto do que “ouvira”. Aredhel, por sua vez, entendera as entrelinhas do amigo e ao ver a reação da filha, teve certeza ao que ele se referia. Queria que o chão se abrisse para se esconder de vergonha da própria filha.

Percebendo o clima tenso e praguejando mentalmente pela intromissão clara de Eisa, o ator pensou rápido e serviu-se da primeira desculpa que lhe veio à mente.

— Bem… — Jim levou a mão à nuca. — Eu nunca fui de beber e seu padrinho me viu caindo de bêbado mais de uma vez — desconversou. — Fora a forma como eu a tratei naquele dia — encarou Aredhel. — Quase que aquilo terminou em tragédia. Você deu à luz na floresta por minha culpa, porque estava bêbado e amargurado.

— Isso é passado… — a rainha afagou o braço do amigo. — O mal-entendido se resolveu, Jörmungand ficou bem e está crescendo saudável — sorriu.

Wagner não era idiota. Ele percebeu o constrangimento de sua madrinha e de Eisa. Sabia que havia algo mais por trás de uma simples bebedeira. Todavia, antes que o jovem pudesse elaborar uma pergunta, um servo adentrou no local.

— Majestade — dirigiu-se à Aredhel e fez uma mesura. — O príncipe Fenrir solicita sua presença na sala de cura.

— Oh, Obrigada — a rainha quase não conseguiu disfarçar o alívio. — Já estou indo.

— Acho que vou aproveitar e tomar um banho… — James aproveitou a deixa para se esquivar do assunto. — Aquela casa estava meio empoeirada — olhou na direção de Eisa e em pensamento disse que queria conversar com ela. — Tranquilize sua irmã — dirigiu-se ao filho.

— Sim… — anuiu Eisa, encarando Tom. — Vamos avisar a Kat… Ela chorou a manhã toda praticamente — puxou o namorado na direção dos jardins.

≈≈

— Nossa… — comentou Merida, enquanto fazia uma trança nos cabelos de Mintaka. — Vocês são ao todo sete irmãos… Família grande mesmo.

— Oito… Ainda tem meu primo… Meu tio e a mãe dele morreram quando ele ainda era pequeno. Meus pais o adotaram e fomos criados como irmãos.

— Oito? — riu. — E pensar que achei que era exagero a quantidade de filhos que meu bisavô teve. Engraçado, eu lembro de ter lido uma fanfic do Loki na qual ele também tinha muitos filhos… — franziu o cenho. — Acho que também eram sete… Não lembro ao certo.

— Fanfic? — foi a vez dele enrugar a testa.

— São histórias que fãs inventam com personagens, bandas ou gente famosa — balançou a mão. — Li tantas fanfics com os temas de quadrinhos, mas só nessa que vi o Loki ter tantos filhos — terminou a trança e passou mais glíter no cabelo da menina. — Pronto Mintaka… Olhe… — entregou um espelhinho de bolsa.

A menina abriu um largo sorriso, enquanto se admirava no espelho.

— Obrigada… — sorriu.

Neste momento Aredhel entrou no local. Merida a olhou e a achou familiar. Não era a primeira vez que tivera essa impressão. Quando vira Fenrir e Ullr sentira que os conhecia de outro lugar, mas não sabia de onde.

— Olhe! — Mintaka correu na direção da avó. — Meu cabelo tem pó de estrelas...

— Que lindo, minha menina! — Aredhel tomou-a nos braços. — Você me chamou, filho? — sorriu e depois olhou de forma curiosa para a jovem ruiva.

— Mãe… — Fenrir se levantou e beijou a mão de Aredhel. — Sim… Esta é Merida… — indicou a moça. — E Merida, esta é minha mãe… Aredhel…

— Aredhel? — o nome escapou dos lábios da jovem.

≈≈

— Você ouviu Týr? Meu pai está de volta! — sorriu Kat entusiasmada com a novidade.

— Que bom que ele voltou! — murmurou o jovem.

— A madrinha o convenceu a voltar — informou Wagner.

— Onde ele está? — a loira perguntou com os olhos cheios de lágrimas.

— Ele disse que ia tomar um banho… — revelou Eisa. — Estava em uma cabana velha, afastada da vila.

— Eu vou lá vê-lo! — Katarina disse emocionada.

— Vou com você… — sorriu o irmão.

— Eu vou avisar Becca — comentou Eisa. — Ela foi conosco até a casa de manhã e ainda não deve saber que ele voltou.

Após uma breve despedida, todos deixaram Týr sozinho no jardim. O Einherjar voltou a se sentar e exalou o ar lentamente, pensativo.

— Patético… — disse a voz feminina se revelando. — Continua fazendo o papel de amigo dedicado.

Nina saiu de trás de uma das árvores e se aproximou.

— Você já teve mais amor-próprio irmãozinho… — foi venenosa alisou o peitoril dele.

— Você também… — afastou a mão dela. — Afinal, não me lembro de você chegar ao cúmulo de se esconder atrás de árvores para ouvir minhas conversas — devolveu indiferente.

— Ela não ama você! — sibilou. — Esqueça-se dela! Ela não pode lhe oferecer o que eu posso… — insinuou-se.

— Esqueça você de mim… — afastou-se. — Eu não amo você… Não dessa maneira… Supere isso… Eu já superei! — deu-lhe as costas e saiu marchando o jardim.

— Está brincando com fogo irmãozinho… — murmurou entredentes.

≈≈

— Deixe-me ver se entendi… — Aredhel se aprumou na cadeira ao lado do leito de Merida. — Você adormeceu sob uma tigela e acordou aqui… Conhece a Marvel, mas a Terra de onde veio nunca foi invadida de verdade por Thanos e os Chitauri?

— Sim… Exatamente — anuiu a ruiva.

— Essa tigela você encontrou junto com uma garrafa e elas estavam abandonadas em um local nessa sua Terra?

Merida anuiu e Aredhel levou a mão ao queixo pensativa.

— Está claro que se trata da água do lago… — murmurou a rainha, pensando alto. — Deus… Será que ela existe em outras realidades ou alguém daqui foi para esta outra realidade? — mordeu os lábios. — Isso explicaria a baixa na lagoa...

— E agora você diz que se recorda de minha mãe de uma fanfic? — Fenrir indagou.

— Bem… Mais ou menos… — Merida tentou se sentar mais firme na cama, mas sentiu uma fisgada. — O rosto dela, assim como o seu, me são familiares. Não lembro de onde posso conhecê-los, mas o nome dela, com certeza, é igual ao da personagem da fanfiction. Nessa fanfic ela casou com Loki e… — balançou a cabeça e deu uma risada nervosa. — E teve seis filhos… Isso… Claro… E adotou o sobrinho… Como não me toquei da coincidência… — riu. — Que louco! Mas que eu me lembre Fenrir da história era o caçula dos meninos… — estalou os dedos. — Você gosta de lobos? Suas irmãs mais novas são gêmeas?

Fenrir a encarou de olhos arregalados e Aredhel engoliu em seco. A rainha agarrou o braço da jovem.

— O que mais você se lembra dessa fanfic?

A vida da morena parecia depender dessa resposta e isso alarmou a ruiva.

— Bem… — Merida fez uma careta. — Eu não li toda a história… Infelizmente eu não tinha muito tempo e ela era longa. Tinha duas fases. Só li a primeira até o fim e parte da segunda.

— Até onde você leu, o que aconteceu? — a súplica era quase palpável na voz da rainha.

— Se eu não me engano, estava uma baita confusão no palácio — franziu a testa. — Hela disse que ia se casar com o ator que interpretava o Loki no cinema… — riu de leve. — O autor da história fez um crossover misturou realidade com os filmes e os quadrinhos. A Aredhel da história era de outra realidade e… — olhou para Fenrir. — Você disse que sua mãe era de outra realidade não?

Fenrir nada disse, apenas a encarava estupefato. Ela olhou para Aredhel e viu a mesma surpresa nos olhos da mulher. A jovem deixou escapar uma risada nervosa e passou as mãos pelos cabelos.

— Não… Não… Isso é loucura — Merida meneou a cabeça.

— O que mais aconteceu? — insistiu Aredhel.

— Loki fez o inferno… — a ruiva continuou, incrédula com a situação. — Ele chegou a insinuar que um de seus filhos não era dele… Nossa… Disse um monte de besteiras.

— Exatamente como aconteceu… — murmurou Fenrir.

Aredhel ficou muito soturna.

— Isso aconteceu? — pasmou-se Merida. — Então… — crispou os lábios e encarou Aredhel. — Loki… Na noite daquele baile de Thor… Ele… — A menção do baile fez a morena ergue a cabeça e encarar a jovem muito séria. A rainha balançou a cabeça com aflição e olhou de esguelha para Fenrir. — Deus… Tudo aquilo aconteceu mesmo? — levou a mão à boca.

Fenrir olhou da mãe para a ruiva e franziu a testa.

— A história de uma fanfic é a história de vocês? — Merida levou as mãos aos cabelos. — Aquela história inteira é real?

A rainha se levantou de súbito e encarou com seriedade o filho e a moça.

— Não comentem essa história com ninguém — foi firme.

— Mas mãe… — Fenrir tentou argumentar.

— É uma ordem! — alteou a voz.

Os dois jovens anuíram e ela prosseguiu.

— Ninguém além de nós pode saber a verdade. Principalmente seu pai — olhou na direção de seu filho. — Na verdade, ele nem deve saber sobre ela.

— Mas ele já sabe que ela está aqui — lembrou o filho.

Aredhel deu um murro na própria mão.

— Evite comentar sobre o assunto e a mantenha longe dele — foi incisiva.

— O pai, com certeza, vai querer saber dela — Fenrir comentou. — Ullr foi quem a encontrou e… — olhou compadecido para a jovem — … a torturou… Pois aquilo para mim não é interrogatório. Inclusive, é por causa da perseguição dele que ela veio parar aqui. O pai queria mandar Narfi para interrogá-la. Se eu não tivesse me oferecido para conversar com ela… — comprimiu os lábios. — Sabe os deuses o que poderia ter acontecido.

— Eu sinto muito… — Aredhel fez um afago na mão da jovem. — É natural que um estranho seja recebido com desconfiança nesse reino. Infelizmente já travamos muitas batalhas com estrangeiros e meu marido tem ideias muito antiquadas sobre a melhor forma de lidar com isso e conseguir informações… — voltou-se para o filho. — Seu irmão é muito cruel, mas não faria mal a uma mulher indefesa. Pelo menos isso eu acho que consegui colocar naquela cabeça dura… Respeito à mulheres… — meneou a cabeça.

Fenrir fez uma careta de descrença, mas preferiu não comentar.

— Bom… — continuou Aredhel. — De qualquer forma, se seu pai ou alguém perguntar, para todos os efeitos, Merida veio da mesma realidade que a minha e que por isso é minha protegida. Nem seus irmãos podem passar por cima de uma ordem minha. Quanto ao seu pai, deixe comigo. Eu o convencerei que ela não é ameaça alguma. Mas mantenha ela longe dele — frisou. — Ele nem pode sonhar com essa história que ela leu…

— Por quê? — a curiosidade escapou por entre os lábios da ruiva.

— Se a história estiver bem detalhada — a outra a encarou com uma expressão sombria —, creio que você sabe bem o porquê.

Merida engoliu em seco e anuiu lentamente.

≈≈

Ness apertava as mãos de forma nervosa, enquanto era observada por Lenwë. Ela havia terminado de contar sobre a troca de lugar com Hela e a sua gravidez para seu amigo. Ao saber de tudo, o rapaz ficou furioso com a inconsequência da amiga ao compactuar com o plano maluco da esposa do príncipe. Contudo, não havia mais volta. Sua amiga estava com grandes problemas e ele precisava ajudá-la.

Lenwë exalou o ar lentamente e ponderou por um tempo. Embora a situação não fosse a melhor, talvez o ajudasse a dar um passo que já deveria ter dado há muito tempo.

— Ness… — ele se sentou ao lado dela na cama e pegou uma de suas mãos entre as suas. — Pelo que você disse, ele não… — apertou os lábios — … a procurou desde que se casou. Para o príncipe, você é apenas mais uma mulher que ele descartou — foi sincero. — Obviamente que ele pensará que esse filho não é dele.

— É verdade… — ela murmurou entristecida.

— Sendo assim… — Lenwë se endireitou. — Case-se comigo…

A jovem esperava ouvir muita coisa, menos aquilo. Ela ergueu a cabeça de supetão e o encarou boquiaberta.

— O quê?

— Mesmo que ele não pense na possibilidade de ser o pai — ele continuou —, muitos falarão de sua gravidez. Isso pode gerar comentários e suspeitas. Você não anda com outros homens e talvez a farsa de vocês acabe vindo à tona por conta disso — lembrou-a. — Somos amigos de infância, cuido de você desde nova e sou o único homem, além dele, que entra em seu quarto. Ninguém duvidaria…

— Mas Len… Eu… — corou, toda sem graça. — Eu não posso lhe pedir algo do tipo… Você tem sua vida aqui.

— Você sabe que isso não seria sacrifício algum para mim — fitou-a nos olhos.

— Você quer dizer… — fitou-o confusa.

— Ness, você é inteligente… Não precisa fingir... Eu sei que sabe o que sinto por você.

Ela franziu o cenho e ele deu um sorriso fraco.

— Acho que toda Alfheim sabe o que sinto por você — Len coçou a nuca. — Você nunca percebeu?

— Pelos seres de luz, Len… — Ness meneou a cabeça. — Você sempre me tratou como sua irmã mais nova… Eu jamais imaginei… — ergueu os ombros.

— Mas você não é minha irmã… — redarguiu. — Nem ao menos somos parentes.

— Eu sei… Mas… Eu pensava que nem me via como mulher — baixou o olhos.

— Sei que você se acha invisível — tocou o rosto dela —, mas eu sempre enxerguei quem você era… — fechou os olhos momentaneamente. — Eu nunca deveria ter aceitado aquela missão… Foi só eu me afastar daqui e aquele… — trincou os dentes. — Aquele crápula se aproveitou de você! E agora aquela mulher maluca dele também!

— Ele nunca me obrigou a nada, muito menos ela — rebateu com veemência. — Eu me apaixonei por ele e quanto a ela… Eu não queria abrir mão dele… Não queria vê-lo com outra mulher — baixou os olhos envergonhada. — E agora eu vejo que ele se esqueceu de mim… Ele se deitava comigo, mas só pensava nela. Nunca mais me procurou… — concluiu com os olhos marejados.

— Esse jogo estúpido de vocês duas só fez você se magoar ainda mais e colocar a vida de vocês em perigo — disse entredentes. — Se ele imagina essa tramoia de vocês… Nem toda a luz desse reino as pouparia de um destino trágico.

Ness conteve um gemido e limpou a lágrima que escorreu por seu rosto. Sabia que o amigo tinha razão. A sua vida, a de Hela e das duas crianças que ambas carregavam corriam risco.

— Ness, eu sei que você não me ama e que apenas me quer como amigo, mas não a obrigarei a nada. Prometo que serei um bom marido, mesmo que nunca venha a me amar. Criarei seu filho como se meu fosse — sorriu. — Tenho algum dinheiro guardado e podemos ir viver em uma vila longe daqui. Recomeçaremos por lá. Então… — estendeu a mão na direção dela. — Aceita ser minha esposa?

A jovem olhou para a mão de Len e depois para os olhos castanhos do amigo. Ness o amava, mas não da forma como ele esperava. Contudo, algo dentro dela dizia que esse amor fraterno poderia se transformar. Ela também faria de tudo para correspondê-lo e ser uma boa esposa.

— Aceito… — ela pôs a mão sobre a dele.

≈≈

Hela encarava o próprio reflexo no espelho de sua penteadeira. Desde a conversa que tivera com Ness, não deixara o quarto tentando pensar em alguma saída para a amiga e para si. Uma batia à porta de comunicação com o quarto de Eric a tirou de seus devaneios.

— Minha querida! — o príncipe entrou todo faceiro. — Resolvi vir mais cedo hoje… — deu um sorriso cínico e a abraçou por trás.

Impaciente, ela se desvencilhou dele e se levantou.

— Hoje não — disse muito séria. — Estou indisposta — levou a mão ao ventre.

— Ah! Já vão começar esses chiliques de grávida? — ele bufou.

— Chilique? — indignou-se.

— É… Essas frescuras de enjoos e indisposições… — balançou a mão. — Francamente pensei que poderíamos nos divertir até você engordar e ficar barriguda — fez uma careta.

— O quê? — encarou-o boquiaberta.

— Minha princesa… — sorriu de lado. — Não me leve a mal, mas eu francamente não acho nada excitante em uma mulher gorda e de barrigão — fez cara de desdém.

— Sempre desagradável e desprezível… — crispou os lábios.

— Querida… — riu. — Desde o início combinamos viver sem as falsidades triviais de um casamento, pelo menos entre nós dois. Eu posso afirmar que todo homem pensa isso, só não possui coragem de dizer — deu de ombros.

Ela fechou os punhos com raiva. Não que se ofendesse realmente pelo que ele dizia, apenas era revoltante constatar o imbecil com o qual foi obrigada a se casar. “O que Ness viu nesse idiota?”. Eric se encaminhou para a porta.

— Bem, você já sabe… — encarou-a. — Aproveite para desfrutar de mim enquanto pode. Logo quem não vai querer você, sou eu — foi cínico e saiu.

≈≈

Ness terminou seus afazeres naquele dia e recebeu os parabéns das demais servas por seu noivado. Lenwë havia contado a novidade para os amigos mais próximos e a notícia rapidamente se espalhou entre a criadagem. A jovem após mais uma visita não planejada ao banheiro (as náuseas estavam se tornando constantes), ponderava se ia ver Hela, conversar com a princesa ou se evitava o risco de encontrar com o Eric naquele dia. As duas já tinham combinado que Ness não a substituiria mais, mas não tinham discutido uma solução para Hela e ela tampouco sabia do noivado inesperado.

O destino decidiu pela jovem. Ao virar um dos corredores do andar dos servos, ela esbarrou com o príncipe.

— Ness… — Eric sorriu e passou a mão pela cintura dela. — Estava à sua procura.

Ela franziu o cenho e o empurrou de leve, se afastando dele.

— O que deseja majestade? — perguntou impassível.

— Essa frieza toda é ciúmes? — ele riu. — Você sabia que eu, como um homem casado, teria que dedicar mais atenção para minha esposa.

As palavras dele a atingiram como um soco. Ainda o amava, mas agora, mais do que nunca, ficava claro o quão canalha Eric era.

— Não é ciúme — mal conteve a ironia. — Eu apenas fiz o mesmo que você… Segui em frente — sorriu.

— Como assim? — indagou surpreso.

— Nesse período em que você se dedicava a sua esposa, eu arranjei um namorado e agora vou me casar. Estou noiva — anunciou.

Eric levou a mão à boca, mas não teve tempo de conter a sonora gargalhada que deu.

— Pelos seres de luz — ria com gosto —, quem é o idiota que você enrolou?

Ness se recusou a responder àquela provocação e cruzou os braços.

— Ora… Ficou com raiva? — Eric limpou as lágrimas de riso. — Convenhamos, tem que ser muito tolo para querer tornar esposa uma mulher como você…

— O que você quer dizer com “uma mulher como eu”? — sibilou, trincando os dentes.

— Oras… Uma mulher usada à exaustão — apontou.

O sangue subiu à cabeça de Ness e ela esqueceu sua posição naquela sociedade cruel. Ela ergue a mão, mas Eric aparou a bofetada que levaria, no ar.

— Está perdendo a noção do perigo? — ele indagou entredentes e apertou o pulso dela. — Não seja petulante! Olhe-se no espelho e veja quem é. Não é porque você visitou minha cama e me serviu por tanto tempo, que lhe dei algum direito de se comportar como se fosse algo mais que uma criada — sacudiu-a. — Eu devia chibatá-la por tamanha audácia! Só não farei isso porque se eu marcar você, nem esse idiota irá querê-la — largou-a. — E não se faça de ofendida. Você pode contar quantas vezes quiser aquela historinha de que era virgem quando me conheceu, mas sabem os deuses quantos você teve antes de mim! — quase cuspiu as palavras sobre ela.

Ness sentiu vontade de gritar e socá-lo, mas teve que engolir calada todas aquelas ofensas. De fato, ela era apenas uma serviçal ali e ele era o príncipe. Além do mais, jamais colocaria em risco a vida do filho que carregava. Sabia bem que ele realmente seria capaz de surrá-la pessoalmente se ousasse ameaçá-lo de novo. “Como pude me apaixonar por esse canalha?” Ela respirou fundo e baixou a cabeça.

— Bem melhor assim… — ele murmurou satisfeito. — Boa sorte com seu noivo tolo, agora se me der licença, vou procurar uma outra mulher que me sirva… — afastou-a para o lado e seguiu pelo corredor.

A jovem ficou ali parada, trêmula de ódio. Lágrimas desceram por seu rosto.

— Eu odeio você… — murmurou com a voz chorosa, assim que o viu sumir no corredor.

≈≈

Váli assistia de sua sacada o nascer daquela manhã. Era o dia da festa de seu noivado. Ele olhou na direção de sua cama e observou quieto sua namorada dormindo tranquila. O príncipe cerrou os olhos e inspirou o ar lentamente. Ainda podia sentir o perfume dela impregnado no ar, em sua roupa e pele.

Na noite anterior a convidara para dormir em seu quarto. Estava decidido a fazer amor com ela a fim de exorcizá-la de vez em seu coração, a tratando como uma qualquer… Mas não conseguiu. Váli ainda amava aquela mulher.

Naquela noite ele a amou com todas as forças que tinha. Como se clamasse em silêncio que ela apagasse todas aquelas certezas amargas que ele carregava em sua mente. Bebeu todo o amor daquele cálice, mesmo crendo ser este amor falso. Chegou a desejar que ela mentisse para ele e negasse cinicamente que se entregara a Týr. O desespero de perdê-la era tanto, que ele preferia a ilusão.

A luz fraca do sol se refletiu nas lágrimas represadas nos olhos dele. Ele caminhou em silêncio até a beirada da cama e se sentou ao lado de Sigrid. Com a ponta dos dedos afastou alguns fios do cabelo ruivo e contemplou aquele rosto que tanto amava.

— Por quê fez isso Sig? — a pergunta saiu sussurrada e trêmula.

Seria capaz de permanecer fiel a quem lhe traiu? Seu amor seria capaz de suportar tanto? Como adoraria poder perdoá-la… Mas isso era demais para ele e seu amor egoísta e ciumento. Como poderia perdoar alguém que lhe roubara a alma e dilacerara seu coração?

— Não tem perdão… — crispou os lábios.

≈≈

Hela tentava empurrar seu café da manhã. Ainda que os enjoos tivessem feito uma pausa, estava preocupada demais para ter apetite. Conseguira encontrar uma solução temporária para escapar das investidas de Eric, mas ainda não sabia o que fazer quanto ao seu futuro e de sua amiga.

— Bom dia — a voz de Vardamir reverberou no salão.

— Oh, bom dia… — sorriu a princesa.

— Está tudo bem? — puxou a cadeira e tomou a cabeceira da mesa.

— Ah, estou só um pouco cansada — mentiu. — Não dormi bem.

— Os desconfortos já começaram? — franziu a testa e a viu encará-lo meio surpresa. — Eric já espalhou a novidade. Já foi ver as curandeiras? É para quando?

— Bem, ainda não… Não sei ao certo, mas pelas minhas contas — ponderou por alguns instantes, calculando o período em que Ness passou com Eric — creio que esteja com um mês… Tem mais de um mês que casamos, então... — deu um sorriso nervoso.

— Entendo… — o rei pareceu constrangido.

— Você vai à festa de noivado de meu irmão? — Hela tentou mudar de assunto. — Daqui a pouco estamos de saída.

— Não… Vou viajar. Na verdade partirei antes de vocês. Tenho que visitar algumas vilas que estão com dificuldades, então provavelmente ficarei fora por um mês.

— Oh… Espero que consiga resolver tudo em menos tempo… — foi gentil.

— Também espero — ele sorriu de leve.

Os dois ficaram comendo em silêncio por um tempo, até que Vardamir assumiu uma expressão taciturna e voltou a falar.

— Hela… — viu-a parar o garfo no meio do caminho. — Se tiver alguma emergência… Qualquer coisa… Peço que mande me avisar. Virei correndo.

— Está bem… — sorriu, sem graça. — Obrigada.

Os dois trocaram mais algumas amenidades durante a refeição e então o rei partiu. Hela dera graças por não ver Eric até aquela hora do dia, mas se sentira um pouco desconfortável à mesa com Vardamir. Seguiu para seu quarto, a fim de se arrumar para a viagem à Asgard. Embora lhe fosse doloroso reencontrar James, estava feliz com a oportunidade de rever sua família.

Ela vasculhava os vestidos, quando Ness entrou.

— Hela, precisamos conversar… — disse a jovem de maneira tímida.

Ness contou à Hela sobre a proposta de Lenwë e seus planos de deixar o palácio.

— Você não imagina como estou feliz por você! — Hela agarrou as mãos da amiga. — Estava tão preocupada…

— Mas e você, como vai ficar?

— Eu vou ficar bem… — deu um tapinha na mão da jovem. — Ontem mesmo percebi que é só inventar uma indisposição que o Eric desiste fácil. Imagino que assim que deixou meu quarto foi correndo procurar outra.

— Sim… Ele foi atrás de mim… — Ness fez uma careta.

— E como foi? Você cedeu? — olhou-a em dúvida.

— Não… Contei que estava noiva e ele riu… — fechou a cara. — Disse na minha cara que eu era usada demais para alguém querer casar.

— Homem desprezível — a princesa rilhou os dentes. — Ele também foi bem rude comigo. Deixou claro que deixaria de “me procurar” assim que barriga estivesse grande e eu engordasse. Disse que mulheres assim não são excitantes — revirou os olhos.

— Como pude ser cega? — entristeceu-se.

— Ness… O importante é que finalmente você está começando a ver quem ele é de verdade, sem fantasias — afagou o ombro da outra. — Sei que ainda não ama o Lenwë, mas pelo que me contou ele sim a ama de verdade. Acredito de verdade que, com o tempo, você vai aprender a amá-lo.

— Eu também acredito… — deu um sorriso tímido. — Já o amo como amigo… Sei que posso mudar a forma de amar…

Hela se sentou na poltrona que havia no seu quarto de vestir e suspirou.

— O que houve? — Ness se ajoelhou ao lado da amiga.

— Estou sem roupas para vestir… — fitou as próprias mãos e mordeu os lábios. — Quase todos os vestidos são acinturados e a barriga já está parecendo. Não sei o que fazer.

— Deixe-me ver… — a serva puxou-a.

A princesa abriu o robe que usava e Ness viu o ventre levemente protuberante.

— Ai Hela — a criada levou a mão à testa. — Mas agora que você tem um pouco mais de um mês de casada. Mesmo considerando que você tenha engravidado na primeira noite em que… — ergueu os ombros — … passou com Eric, ainda não teria uma barriga desse tamanho. Na verdade, ainda não teria barriga alguma.

— Eu sei… — escondeu o rosto entre as mãos. — Acho que calculei mal. Pensei que estava grávida no máximo de dois meses, mas pelo jeito engravidei na minha primeira vez — levantou a cabeça e encarou Ness. — Pelos deuses… Quem engravida na primeira relação?

Ness mordeu os lábios em aflição.

— E quanto tempo faz que isso aconteceu?

— Três meses! Estou grávida de três meses! — fechou o robe, angustiada.

— E você nem pode usar um espartilho — meneou a cabeça. — Isso faz mal ao bebê.

— Exatamente — Hela voltou a se sentar. — Para completar, hoje o Vardamir perguntou se fui ver as curandeiras. Logo o Eric vai questionar a mesma coisa. Se eu for até elas, a verdade pode vir à tona.

— Já sei! — Ness sorriu. — Você diz a ele que só confia nas curandeiras de Asgard. Hoje você diz que aproveitará a ocasião para vê-las. Então você aproveita e as vê de fato, assim pode ver como está o bebê e de quanto tempo realmente está grávida.

— Certo — anuiu. — Quanto ao tamanho da barriga… — murmurou pensativa.

— Diga que a criança é grande… — deu de ombros.

Hela encarou a outra e lembrou de sua origem Jotun. Como Eric sabia desse fato, esse seria um bom argumento.

— Sim… Boa ideia — a princesa concordou. — O que seria de mim sem você, Ness… — abraçou a amiga. — Sem sua ajuda, sabem os deuses o que Eric faria quando descobrisse que eu estava grávida de outro. Serei eternamente grata por ter assumido meu lugar todas essas noites… Mesmo que isso tenha trazido consequências para você. Quanto a isso, eu sinto muito… — voltou a encará-la.

— Está tudo bem… — sorriu. — Estou realmente feliz com essa gravidez e quero muito essa criança. Ela, de certa forma, me fez ver as coisas por outro ângulo e enxergar quem realmente me ama.

— Que bom… Eu sentirei sua falta… — disse emocionada. — Ah… — tentava conter as lágrimas. — Quero que seja feliz… Muito feliz… E me escreva sempre! — abraçou-a novamente.

— Também sentirei a sua falta… — a voz saiu embargada. — Escreverei sim… — fungou e se separou da outra. — Agora vamos encontrar um vestido para ir a essa festa.

Ness apanhou três vestidos e jogou sobre uma poltrona, arrancando um sorriso fraco de Hela.

— Tudo uma farsa… — murmurou Eric do outro lado da porta de comunicação. — Vocês duas estão perdidas… — prometeu com uma expressão sombria.

≈≈

Narfi, Fenrir e Eisa tomavam café e conversavam animadamente sobre o evento daquele dia, quando ouviram um burburinho vindo de um dos corredores.

— Eu não quero saber se ela ainda não acordou! — a voz masculina se fez ouvir ao longe.

— Oh, não… Ele veio… — murmurou Eisa, largando sua colher.

— Hoje o dia promete… — riu Narfi, afastando seu prato.

— Eisa! — gritou Nicolas Stark, adentrando no salão seguido por Nathaniel. — Onde está Myria?

— Bom dia… — sorriu Narfi. — Ela ainda não desceu. Que tal tomar um suco e comer algo para se acalmar, enquanto Eisa vai chamá-la? — indicou os lugares vagos à mesa.

— Não há nada de bom neste dia… — rebateu Nick impaciente. — Guarde sua falsa cortesia para os outros. Você nunca foi assim.

Nathaniel ignorou o amigo, puxou uma cadeira e começou a se servir prontamente.

— Nossa… — Narfi riu mais. — Alguém realmente não está de bom humor. O que houve? Nosso pai que proibiu o namoro de vocês ou Myria aprontou algo?

— Você bem que ficaria feliz se seu pai proibisse — Nicolas sibilou.

— Eu? — levou a mão ao peito. — Não seja injusto. Dos pretendentes a cunhados, você é o mais normal — deu de ombros. — Embora isso irrite meu pai, vocês têm meu apoio.

— Ei, Nick… — Fenrir se levantou e se aproximou do moreno. — Tente se acalmar…

— Eu preciso falar com ela, cara — disse Stark, nervoso.

— Nick… — Eisa se aproximou. — Eu levo você até lá…

Assim que Eisa e Nicolas se retiraram, Fenrir retornou ao seu lugar. Narfi e Fenrir ficaram observando Nathaniel comendo tranquilo e aparentemente alheio ao alarido que acontecera.

— O que você quis dizer em “mais normal” em relação aos nossos “cunhados”? — Fenrir perguntou baixinho.

— Oras… — Narfi bufou. — Vai me dizer que você acha normal Hela ter namorado o tio Jim e a Eisa namorar o Wagner? Os dois são praticamente a versão loira do papai. Não acha isso tudo incestuoso? — viu o irmão anuir. — Eu não gosto de Eric, não me inspira segurança. Era meio obsessivo com a Hela, a vivia cercando. Quanto ao Nick, o único defeito dele é ser um reles humano… Então, sim… Ele é o mais normal.

≈≈

Ness terminava de arrumar suas coisas, quando bateram à porta de seu quarto. Pensando se tratar de Lenwë, mandou entrar.

— Eric? — surpreendeu-se. — O que está fazendo...

Ela nem teve tempo de ver o movimento do braço dele. O soco a lançou ao chão.

— Sua vagabunda! — ele gritou. — Você e a outra vadia vêm me enganando todo esse tempo!

Ness sentiu algo quente descer por seu rosto e o gosto de sangue na boca. Ao levar a mão à cabeça, descobriu que além da boca, tinha um corte só supercílio.

— Se passando por minha mulher todas as noites! — Eric a ergueu do chão. — Eu devia ter dado ouvido aos alertas que Freyja me deu sobre Hela! Confesso que jamais imaginei que ela usaria magia para colocar outra vagabunda no lugar dela!

— Eric… Por favor…

— Por favor? — a sacudiu com raiva. — Você não está em posição de pedir favores depois do que fez! — rosnou e deu uma bofetada em Ness.

Ele a largou e ela cambaleou para trás. Irado e decidido, o príncipe puxou sua espada e avançou sobre Ness.

— Não! — berrou. — Por favor, não! Eu estou grávida!

— O problema é seu! — ele disse entredentes, fincando a espada no ventre da jovem.

Eric puxou a espada de volta e o corpo de Ness caiu no chão, sem vida. Sem o menor remorso, ele empurrou com o pé o corpo, para se certificar que estava morta.

— Uma já foi… — murmurou antes de deixar o quarto.

≈≈

Hela se olhou no espelho e puxou mais um pouco o franzido do vestido. A barriga estava bem disfarçada, mas seus olhos ainda estavam vendo algo protuberante ali.

— Que os deuses me ajudem… — murmurou e apanhou a echarpe.

— Minha querida… — disse Eric entrando pela porta de comunicação, acompanhado por uma serva idosa. — Está tão bonita… Como sempre… — sorriu abertamente. — Então… — passou uma mão pela outra. — Já está pronta para partirmos?

— Sim — sorriu Hela. — Estou ansiosa para reencontrar minha família.

— Imagino… — ele inclinou a cabeça, todo sorridente. — Ah… Prevendo que você possa ficar indisposta durante a viagem, pedi que lhe preparassem um chá com ervas próprias para náuseas — indicou a bandeja que a serva depositou sobre uma mesinha.

— Oh… — a princesa se animou e correu para se servir. — Vou precisar mesmo. Geralmente já enjoo em viagens, imagine grávida — encheu sua xícara com o líquido fumegante.

Enquanto Hela se sentava em uma poltrona, Eric indicou com a cabeça para que a serva se retirasse e tomou uma cadeira que havia ali. A princesa deu um longo gole na bebida e sorriu.

— Engraçado… Eu não reconheci o cheiro e nem o sabor dessa erva… — comentou e bebericou novamente. — Sabia que estudei muito ervas de cura? Minha mãe é praticamente uma especialista…

— É? Que bom… — falou com indiferença. — Termine logo isso… Precisamos partir, senão nos atrasaremos — arqueou a sobrancelha.

— Claro… — ela bebeu o resto e depositou a xícara na bandeja.

Muito tranquilo, Eric assistiu Hela se levantar, apanhar sua echarpe e, repentinamente, se apoiar na mesa.

— Está bem, minha querida? — perguntou despreocupadamente.

— Estou tonta… — tentou fazer foco no rosto dele.

— É mesmo? — ele riu de leve.

Finalmente a verdade atingiu Hela feito um raio. Ela olhou da xícara para Eric e franziu o cenho, entrando em pânico.

— V-você m-me d-drogou… — ela gaguejou com a voz arrastada.

— Sempre tão esperta! — ele sorriu e deu um tapinha nas próprias coxas. — Você vai me pagar caro por ter me engando… — disse muito sério.

— Não… — murmurou Hela, antes de desabar no chão duro de seu quarto de vestir.

Notas finais
Ah... Essa treta vai ser milenar.... 8D Gostaram? Odiaram? Comentem.