Asgard Dirty Secrets
25 Um grande amor do passado se transforma em aversão
Notas iniciais
Dias depois no palácio, na suíte do rei e da rainha, alguns servos entravam no local carregando um pequeno móvel. Seguindo as instruções de Aredhel, os serviçais depositaram um berço dourado cheio de entalhes e runas ao lado da cama do casal. A rainha prontamente começou a arrumar a pequena cama, com os lençóis que ela mesma bordara.
— Acha mesmo que esta é uma boa ideia? — indagou Loki observando a cena — Nenhum de nossos filhos dormiu em nosso quarto antes. É realmente necessário?
— Loki... Será apenas nos primeiros dias — mordeu os lábios de forma nervosa. — Eu sei que eles sempre dormiram no quarto deles, mas... — escondeu uma mecha do cabelo atrás da orelha — Estou tão angustiada com essa gravidez. Algo me aflige. Sinto um aperto no peito toda vez que penso em nosso bebê. Só ficarei tranquila se a criança puder ficar aqui por alguns dias — confessou. — Por favor... — pediu.
Loki deu um suspiro e se aproximou da esposa. Ele a olhou nos olhos e a abraçou.
— Está bem... Faço qualquer coisa para você ficar bem. Qualquer coisa — afirmou.
Mais tarde naquele mesmo dia, Fenrir, Wagner, Katarina e Eisa terminavam de fazer os últimos ajustes nos cenários e figurinos da nova peça. O palco já estava armado no jardim do palácio. Os demais atores e elenco de apoio corriam de um lado para outro nas tendas reservadas aos camarins improvisados.
— Eu quero que vocês dê o melhor hoje a noite — disse Sindri, o diretor da peça, a sua equipe. — O rei e a rainha cederam esse espaço e oferecerão uma festa para a estreia, então espero que vocês não os desapontem — bateu palmas.
Em um dos camarins Hela terminava sua maquiagem, enquanto conversava com James.
— Estou tão nervosa. Será que darei conta mesmo? — largou o pincel sobre a bancada. — Rosalind não é um papel fácil — meneou a cabeça.
— Você dará conta. Tenho certeza. Tudo dará certo — Jim fez um afago no ombro dela. — Hoje é seu dia de brilhar.
Para alívio de Sindri a apresentação transcorreu de forma impecável e, como James previra, Hela brilhou. Aredhel chegara a lagrimar durante as últimas falas de Rosalind. Para a rainha de Asgard, era como ter de volta a filha que outrora estrelara tantas outras peças.
Terminada a apresentação, enquanto o público seguia para a festa oferecida no salão principal, o elenco se trocava para também participar. Eisa e Wagner foram para o palco recolher itens que foram deixados por lá. A jovem princesa se sentou na beirada do palco e olhou para o céu estrelado de Asgard.
— Lindo, não é? — inquiriu Wagner se sentando ao lado dela.
— Sim... — ela anuiu. — Noites assim me lembram de quando era menina. De todas as vezes em que eu fugia do palácio para ter um pouco de paz... Silêncio... — baixou os olhos e fitou as mãos.
— Entendo... Eu me lembro do quanto você era solitária e como seus irmãos implicavam com você. — ele deu um sorriso torto.
— Meu dom parecia uma maldição... — Eisa deu uma risada amarga. — Eu não conseguia controlar o que ouvia. Não sabia quando as pessoas estavam falando ou pensando. Sofria de dores de cabeça horríveis quando tinha muita gente — olhou ao redor. — Eu nunca conseguiria assistir e muito menos participar de uma peça de teatro se não tivesse aprendido a controlar.
— Sei que é difícil esquecer o que passou — ele entrelaçou seus dedos nos dela —, mas pense que agora isso é passado. Assim, como a Myria, hoje você aprendeu a viver com isso e tem uma vida normal — tentou animá-la.
Eisa o fitou por um tempo e abriu um sorriso tímido.
— Sabe, Wagner... — ela apertou os dedos dele. — Você sempre esteve ao meu lado todos esses anos e me defendia de meus irmãos. Mesmo sendo cinco anos mais velho que eu, não me tratava com desdém por ser tão mais nova. Pelo contrário, era muito gentil comigo. Na verdade, você e a Myria sempre foram meus melhores amigos — seus olhos se encheram de lágrimas. — Você jamais me excluiu ou teve medo de mim. Nunca temeu que eu lesse sua mente — uma lágrima desceu pelo rosto dela. — Serei eternamente grata por tudo que fez por mim.
Wagner se inclinou e deu um beijo demorado na bochecha dela.
— Eisa... Você não precisa agradecer — Wagner começou meio constrangido. — Na realidade, acho que sou eu quem deve mais a você. Quantas vezes você me ajudou com as meninas pelas quais me apaixonei? Em algumas ocasiões fiz você até usar suas habilidades para me ajudar — Eisa riu e ele acompanhou meio envergonhado. — Você e Kat sempre foram minhas melhores amigas. Nunca temi que lesse minha mente, porque eu nunca tive segredos para você. — Eu sempre gostei de você. Talvez mais do que eu realmente imaginava... — baixou a cabeça.
— Como assim? — questionou confusa.
Ele a encarou com aquele olhos azuis esverdeados e mordeu os lábios.
— Durante anos eu a vi como uma irmã mais nova — Wagner começou. — Afinal, crescemos juntos e dividimos tudo, inclusive a mesma mãe — brincou. — Essa proximidade me deixou cego diante de alguns fatos — segurou as mãos dela entre as suas e engoliu em seco. — Eu demorei a perceber certas mudanças. E não falo somente de você, mas de mim mesmo. Você cresceu e se tornou uma mulher linda... E eu não enxerguei isso até tomar consciência das mudanças que sofri aqui — levou uma das mãos de Eisa até seu peito. — O que eu sinto por você também mudou... — murmurou todo nervoso.
— Wagner... Você... Você está dizendo que... — ela começou a gaguejar.
— O que eu estou querendo dizer, Eisa... — ele a interrompeu e ficou rubro. — É que estou apaixonado por você... Eisa, eu te amo... — confessou.
Eisa o fitou boquiaberta por alguns instantes. Não estava preparada para ouvir aquilo. Devido as suas habilidades, a jovem vivia solitária. Sempre rejeitara todos os pretendentes a namorados, justamente por poder realmente “ouvir” suas reais intenções para com ela. Eisa sempre era assombrada pelo fantasma de ser filha do rei. Todos os que se aproximaram dela, ambicionavam uma posição e não o seu afeto. Apesar da longa amizade que tinha com Wagner, jamais imaginara que isso poderia evoluir para algo do tipo. Nunca pensara nele daquela forma. Não até aquele momento.
— Eisa? — Wagner a chamou, tirando-a de seus devaneios.
A jovem princesa tentou articular algumas palavras, mas não conseguiu dizer nada. Nervosa, ela pulou do palco e saiu correndo em direção ao palácio.
— Eisa! — gritou o jovem angustiado.
Dentro do palácio, a festa já havia começado. O jantar ofertado era farto e regado a muito hidromel. Bardos cantavam modas, narrando aventuras de vários heróis, enquanto todos ria, bebiam e dançavam. A alegria estava de volta ao palácio.
Aredhel estava sentada ao lado de Einmyria que observava tudo com desanimo.
— Não fique assim, minha filha — Aredhel fez um afago em Myria. — Se está com saudades dele, por que não foi vê-lo novamente?
— Ah... — a jovem fez um muxoxo. — Eu ando muito ocupada com meus estudos. Preciso me concentrar mais, então não tive tempo — mentiu.
Myria na verdade não queria gerar mais problemas. Loki ainda estava com raiva da filha namorar o jovem Nicolas Stark e a moça temia que o pai criasse uma nova confusão. Einmyria temia pela saúde de sua mãe e pelo bebê.
— Ele poderia nos visitar — disse Aredhel despreocupadamente. — Ele veio algumas vezes quando criança. Já faz tanto tempo que não vou lá. Estou com saudades.
— Er... Sim... De repente ele pode vir vê-la depois que o bebê nascer — Myria enrolou-se.
— Eu adoraria a visita — sorriu Aredhel.
Do outro lado do salão, Narfi gentilmente tirou Rebecca para dançar. Após ponderar um pouco, a moça aceitou o convite.
— Obrigada pelo convite — agradeceu educadamente.
— Acho que convidá-la, se tornou algo rotineiro nas festas aqui do palácio. Uma pena que das últimas vezes você recusou — Narfi a encarou com seu olhar penetrante.
— Narfi... Nunca foi minha intenção lhe ignorar — Becca franziu o cenho. — O problema era sua real ambição por trás desses convites — crispou os lábios.
— Becca, minha intenção sempre foi desfrutar de sua companhia — deu um sorriso maroto.
— De forma libertina — ela ficou séria.
— Libertina? — ele riu. — Becca, você é uma mulher bonita e inteligente e isso realmente desperta todo o tipo de desejos. Não só em mim, como em muito homens, eu imagino. De fato eu seria hipócrita se afirmasse que nunca sonhei com você em menos peças — arqueou as sobrancelhas —, ou melhor... Com nenhuma peça — voltou a sorrir e viu a jovem enrubescer. — Mas além de desejá-la, eu realmente sou apaixonado por você — afirmou.
— Tão apaixonado que se deita com uma serva diferente todos os dias — rebateu.
— Mas eu não as amo. É apenas diversão — Narfi deu de ombros. — Não posso ficar parado apenas esperando até o dia em que você irá me corresponder. Quando você for minha, não precisarei de outras. Ter você me bastará — sorriu de lado.
— Mas isso é muito lisonjeiro — Becca foi sarcástica. — Como você quer me conquistar com tal comportamento? — irritou-se. — Isso não é diversão, é um vício. Você não é um homem, é um predador de mulheres. Homens como você não param nunca. Estaria ao meu lado, mas continuaria com seus casos. Você só pode me achar uma mulher estúpida. Como eu poderia acreditar que você deixaria de ser o que é por mim? Ninguém muda tanto assim. Nem por amor! E amor e paixão são duas coisas bem diferentes. Sua paixão passaria, no dia seguinte em que acordasse na cama ao meu lado — rosnou. — Aposto que faz a elas as mesmas promessas que faz a mim — inclinou a cabeça. — Você tem irmãs! Imagino o quanto você ficaria furioso se um homem fizesse com elas o que você faz com as servas.
— Nenhum homem teria tamanha audácia — ele retrucou entredentes.
— Lembre-se, elas sempre são irmãs ou filhas de alguém — ela disse em tom de ironia. — Coloque-se pelo menos uma vez na vida, no lugar dessas mulheres que você apenas usa.
— Eu nunca usaria você! — alteou a voz. — Eu não minto para você — disse com urgência.
— Você disse isso para quantas delas? — a jovem rebateu descrente da declaração dele. — Palavras o vento leva. Falta ação. Nada do que você tenha feito demonstra que isso seja verdade — disse com tristeza.
— Que merda! — praguejou irritado. — Será que você não entende? Com você é diferente! Eu te amo, Rebecca! — declarou-se Narfi.
Becca o encarou aturdida. Alguns casais ao lado chegaram a parar de dançar ao ouvirem a declaração. Narfi inspirou o ar, agarrou Rebecca e deu-lhe um beijo. Todos os presentes se viraram ao perceber o burburinho ao redor do casal.
O príncipe começava a aprofundar o beijo, quando Rebecca o empurrou eu lhe deu uma sonora bofetada. O silêncio se fez no salão.
— Pronto! — gritou a jovem toda trêmula, com lágrimas nos olhos. — Você conseguiu o que queria e na frente de todos! Mas será o máximo que terá de mim! — rosnou e saiu correndo do local.
Narfi fez menção de ir atrás da moça, mas foi parado por Fenrir.
— Melhor deixá-la se acalmar — Fenrir falou ao irmão. — Vem, vamos dar uma volta — puxou-o para fora do salão.
Aredhel cansada e agitada com o pequeno alvoroço criado pelo filho, resolveu que era hora de se recolher. Estando no final da gravidez, nenhuma posição era confortável para ela, muito menos sentada por tanto tempo. Havia dançando duas músicas com o marido, mas foi tudo que conseguiu aguentar. Parecia que aquela gravidez a esgotava muito mais que as anteriores.
— Tem certeza que não quer que eu a acompanhe? — perguntou Loki preocupado.
— Tenho, meu amor... — Aredhel fez um afago na mão do esposo. — Você precisa ficar e nos representar. Lembre-se de que temos convidados de outros reinos. Eu estou só um pouco cansada, mas bem — deu um beijo casto nos lábios dele.
Loki a ajudou a se levantar e ela seguiu se retirou.
Caminhando vagarosamente pelos corredores, Aredhel seguia para seus aposentos, quando viu a porta do quarto de Eisa entreaberta. Ela olhou e viu a moça sentada na cama, toda cabisbaixa.
— Filha? — Aredhel a chamou ao entrar no quarto. — O que houve? Por que está aqui e não na festa?
— Ah, mãe... Estou tão confusa — Eisa deu um longo suspiro.
— Conte-me o que houve — pediu Aredhel se sentando ao lado da filha.
Eisa narrou sobre a conversa que tivera com Wagner e de sua repentina declaração. Aredhel ouviu todo o relato quieta.
— Fiquei tão confusa com o que ele disse. Eu nunca pensei nele dessa forma — fungou Eisa. — Ele é meu melhor amigo. Sempre foi.
Aredhel pôs a mão sobre a da filha e exalou o ar lentamente.
— Eisa, me parece que os melhores relacionamentos, aqueles que realmente duram, são frequentemente aqueles que nascem de uma amizade — Aredhel inclinou a cabeça. — Um dia você acorda, olha para a pessoa e vê algo a mais do que viu no dia anterior. É como se alguém apertasse um botão em algum lugar. E a pessoa que era apenas uma amiga é, de repente, a única pessoa com quem você consegue se imaginar.
Eisa articulou a boca algumas vezes, até que, por fim, apenas meneou a cabeça afirmativamente.
— Levou um ano para que seu pai me visse com outros olhos — continuou a mãe. — Mesmo que ele não admitisse na época — deu uma risada —, nós éramos amigos. Compartilhávamos segredos e nossas dores. Segundo ele próprio me revelou, só percebeu que me amava quando descobriu que eu tinha um noivo.
— Foi quando “apertaram o botão”... — completou a filha.
— Infelizmente, as vezes só percebemos que alguém é importante para nós, quando corremos o risco de perdê-lo — Aredhel franziu o cenho.
— Eu não quero perdê-lo... — interrompeu Eisa com uma expressão aflita. — Eu gosto tanto dele. Wagner é tão importante para mim e... — olhou para a mãe com uma expressão de perplexidade no rosto. — Eu.. Eu o amo... — murmurou.
— Parece que eu apertei algum botão... — brincou a mãe.
— Eu preciso falar com ele! — afobou-se Eisa, se levantando em um átimo.
— Vá, minha filha... Vá... — sorriu.
A jovem princesa saiu correndo e chegou ao salão principal arfando. Aguçou os olhos e prescrutou o local à procura de Wagner. Eisa encontrou seu amado amigo sentado e desolado em um canto escuro. Ela rapidamente atravessou o salão e parou diante dele. Wagner, ao vê-la, ficou surpreso.
— Eisa? — murmurou o jovem.
— Wagner... — ela começou tentando recuperar o fôlego. — Eu também te amo — disse de supetão.
O rapaz de cabelos loiros mal pode crer no que ouvira. Ele abriu um largo sorriso e levantou-se com rapidez. Tendo o rosto tingido de vermelho pelo embaraço, Wagner se aproximou lentamente da amiga e tocou-lhe o rosto.
— Ah, Eisa... Você pode ler a minha mente e verá o quanto eu te amo — ele afirmou.
Eisa o encarou demoradamente e sorriu.
— Sim — ela riu. — Aceito ser sua namorada — respondeu a pergunta que ele fizeram mentalmente.
Wagner inclinou a cabeça e Eisa sorriu ao saber o que ele faria a seguir. Ambos cerraram os olhos e seus lábios se tocaram pela primeira vez. A mão do jovem deslizou entre os cabelos dela e parou em sua nuca, aprofundando o beijo. Ele a beijava com calma e sem pressa. Mal se continha de tanta felicidade. Eisa por sua vez se entregou ao momento. Tudo lhe parecia mágico e era duplamente especial. Aquele era seu primeiro beijo e não poderia ser mais perfeito. Beijava seu melhor amigo e também o homem por quem estava apaixonada.
Ali próximo, nas sombras, Igor observava a cena com os punhos cerrados. Lívido de raiva, ele deixou o salão de festas quase marchando e no corredor acabou esbarrando em Katarina, quase a derrubando.
— Perdoe-me, Kat. — ele murmurou impaciente e passou uma das mãos pelos cabelos.
— Tudo bem, eu também não o vi — sorriu a jovem meio constrangida. — Algo errado? — questionou ao ver a agitação dele.
— Não. — foi seco.
— Bem, se quiser conversar... — ela começou a falar.
Igor olhou para Kat e parou de ouvi-la. Observou a moça falando com ele, sempre com aquele jeito doce e inocente. “Tão inocente quanto Eisa”, concluiu em seu devaneio. Sua mente vagou até a cena que presenciara e um pensamento malévolo perpassou por ela.
Ele segurou os ombros da jovem e a empurrou contra a parede. Kat assustou-se e entreabriu os lábios, confusa com a reação dele. Igor encarou aqueles olhos azuis esverdeados e desceu o olhar até os lábios vermelhos e convidativos dela. Ela era muito bonita e ele percebeu que a desejava, queria beijá-la, tomá-la para si. Entretanto faria aquilo tomado pelo ciúme, como uma forma de retaliação a Wagner. Em sua mente vingativa, Wagner havia lhe tirado algo, então descontaria sua fúria na irmã do jovem.
Decidido a beijá-la, Igor se inclinou na direção de Katarina. A jovem loira levou ambas as mãos ao peito dele e franziu o cenho, sem entender o que estava acontecendo.
Ao perceber a dúvida nos olhos dela, ele parou. Percebeu que não podia fazer aquilo. Não poderia magoá-la. Jamais se perdoaria se o fizesse. Katarina sempre fora carinhosa para com ele. Na verdade, ultimamente vinha se mostrando mais dedicada a ele, estava se tornando uma boa amiga. Além disso, não era de sua natureza agir daquela forma. Sempre fora um homem respeitoso, principalmente com as mulheres. Condenava veementemente o comportamento libertino de Narfi com as moças do palácio. Nunca se imaginou agindo de maneira tão vil. “O que pensa que está fazendo?”, questionou-se em silêncio.
— Perdoe-me... — Igor murmurou embaraçado, se afastando dela. — Eu não sei o que deu em mim... — foi sincero.
— Igor... — Kat murmurou insegura. — Você está bem?
— Não... — ele passou as mãos pelo rosto. — Acho melhor eu ir descansar.
— Quer que eu lhe acompanhe? Posso lhe arranjar um chá e... — ela se preocupou.
Ele a encarou novamente e tocou carinhosamente seu rosto.
— Obrigado, Kat... É muito gentil de sua parte, mas não é necessário — pegou a mão dela e depositou um beijo demorado. — E mais uma vez... Perdoe-me. Boa noite — deu um beijo em sua fronte e se retirou.
— O que será que aconteceu? Ele ia me beijar? — pensou alto a jovem.
Pouco depois da meia-noite, Loki pediu licença e despediu-se de todos, deixando ao cargo de Váli fazer as honras até o final da comemoração. O príncipe, na companhia de Sigrid, concordou prontamente. Vinha seguindo a risca o pedido de James, para não se indispor com o pai.
A festa prosseguiu e os demais convidados se divertiam de forma descontraída, mas não havia casal mais feliz do que Hela e James. Os enamorados dançaram e beberam muito hidromel. A alegria e a paixão entre os dois estava estampada em seus rostos.
O carinho mútuo regado a muita bebida os fazia rir sem nem mais saber o real motivo. E, aos tropeços, se achegaram mais uma vez à mesa para se servirem do néctar dos deuses. Desajeitada, Hela derrubou sobre o namorado sua bebida. James riu e disse que subiria rapidamente para se trocar. A princesa, toda faceira, insistiu em acompanhá-lo.
Em meio a risos descontrolados, o casal adentrou nos aposentos do ator.
— Aguarde só um pouco. Vou me trocar rápido e já voltaremos para o salão — ele disse se afastando, mas Hela o segurou pelo braço.
— Espere, Jimmy... — deu um sorriso travesso. — Eu lhe ajudo... — deslizou os dedos pelos botões do traje dele e aproximou o rosto até sentir o calor de sua respiração. — Como sua namorada, creio que posso fazer isso — deu um beijo singelo em seus lábios.
Não era preciso estar sóbrio para perceber que Hela o estava seduzindo. Por alguns instantes aquele comportamento o fez se lembrar de sua antiga princesa. Aquela que se insinuara tantas vezes para ele. Mesmo sofrendo de amnésia, ainda era a mesma Hela que ele conhecera. Uma mulher segura e decidida. James a amava, não sabia como tinha acontecido, mas tinha certeza do que sentia por ela.
Era sem dúvida algo além do desejo. Ela o fazia feliz e tudo o que ele queria era fazê-la feliz também. Mesmo com toda diferença de tempo entre os dois, eles se completavam. Durante muito tempo tudo o que desfrutaram foi a amizade e companheirismo um do outro. Hela o fazia feliz apenas com a sua presença. Não precisava tocá-la, ouvi-la ou sentir seu calor. Saber que ela estava ao seu lado lhe bastava.
Hela era tudo o que Jim sonhara para si durante todos aqueles anos de solidão. Porém, naquele momento, apenas estar com ela não lhe satisfazia. O autocontrole que tinha sobre seus instintos estava enevoado pelos efeitos da bebida.
Ela entreabriu os lábios e ele sentiu o hálito doce e quente dela. James percebeu que precisava beijá-la. Na verdade precisava bem mais do que isso. Ele tinha a necessidade dela ao redor dele. Precisava senti-la, tê-la ao seu lado, em cima e embaixo dele. Hela tinha que fazer parte de si. Necessitava respirá-la, como se fosse seu ar. Precisava dela imediatamente. O desejo se transformou em necessidade. James queria o calor de Hela por todo o seu corpo. Queria sua vitalidade. E que Deus o perdoasse, pois ele queria muito mais que isso. Ele queria fazê-la sua. E, assim, sua razão se desfez feito fumaça no ar.
— Hela... — o nome de sua amada foi tudo o que ele conseguiu dizer, antes de selar seus lábios nos dela novamente.
James tocou com uma das mãos o rosto de Hela e aprofundou o beijo. A língua da jovem dançava na boca dele, enquanto ela tirava os botões de suas casas um a um, de maneira lenta e sensual. Um fogo se acendeu dentro dele ao sentir o toque dos dedos de Hela na pele de seu peito. Ele intensificou o beijo, tornando-o feroz. Levou uma das mãos até a cintura dela e desceu até o bumbum, apertando vigorosamente contra si.
Rapidamente, Hela sentiu a rigidez dele e sorriu entre seus lábios. Apesar de inexperiente, era isso que ela queria. Desejava se entregar a ele, de corpo e alma. Ela inclinou o quadril contra o de James e remexeu-se. Roçou seu corpo contra o dele, fazendo-o sentir sua quentura, mesmo através da roupa. Ele prontamente entendeu a mensagem e seguiu com as carícias. Afastou os lábios dos dela e a viu inclinar a cabeça para trás, convidando-o a percorrer seu pescoço. Hela sentiu sua pele parecer queimar cada vez que os lábios dele a tocavam. Ela estava no paraíso.
— Jimmy... — Hela gemeu quando ele chegou ao seu decote. — Jimmy... — repetiu quase em uma súplica.
Ele puxou o vestido para baixo, fazendo os seios dela pularem por sobre o decote. Um sorriso enviesado e malicioso se desenhou nos lábios de Jim. Hela tinha seios deliciosamente fartos. Ele passou a língua entre os lábios antes de tomar um dos mamilos dela de forma voraz. A moça arfou e puxou os cabelos da nuca dele, em resposta aos calafrios que percorreram sua espinha. Ela mal tinha se recuperado do susto, quando sentiu o toque delicado dos dedos dele em seu outro seio. Apesar de envolvido pelo torpor de desejo, estava sendo calmo e gentil. James ainda tinha consciência suficiente para lembrar que aquela era a primeira vez da jovem.
Jim voltou a beijá-la e com uma das mãos tateou os botões do vestido que ela usava. Desabotoou alguns e aproximou os lábios do ouvido dela.
— Vire-se, meu amor... — pediu com a voz rouca.
Hela obedeceu e ele continuou a desabotoar o vestido. Mesmo estando trêmulo de desejo, queria saborear o momento. Queria amá-la sem pressa. Não resistindo a tamanha tentação, James beijava cada pedaço de pele macia que era revelada a media que a despia. Podia senti-la claramente estremecer, enquanto gemia seu nome. Em poucos instantes ele estava de joelhos agarrado ao quadril dela. Desabotoou o último botão na base da coluna de Hela e provou a salinidade de sua pele. Naquele momento Jim percebeu que a princesa seria sua e ele rezou para que fosse para sempre.
O vestido deslizou e caiu, revelando todas as curvas que James apenas imaginava que Hela possuía. E como ele sonhara com ela. Para sua felicidade, a realidade era muito melhor do que ele havia sonhado. Ainda de joelhos, ele a virou de frente para si e a contemplou por alguns segundos. Hela ficou rubra e tentou cobrir os seios.
— Não... — ele segurou as mãos dela. — Deixe-me admirá-la. Você é tão linda... — disse com os olhos brilhando, visivelmente emocionado.
Ela anuiu e sorriu envergonhada. Ele aproximou o rosto do ventre de Hela e deu um beijo demorado. De forma delicada, James resvalou os dedos pela lateral do quadril dela e desceu lentamente a última peça que ela vestia. Jim se levantou, a conduziu até a sua cama e a debruçou sobre a mesma. Enquanto ela lhe lançava um olhar languido e cheio de luxúria, ele se desfazia de seu traje com pressa. Vê-la olhando para si daquele jeito, só aumentava a vontade dele devorá-la. Ao vê-lo nu diante de si, Hela não pôde esconder o espanto e embaraço. Engoliu em seco ao ver o tamanho da animação dele para com ela.
James se debruçou sobre a jovem, cobrindo-a com seu corpo. Trocava alguns beijos com Hela e roçava seu corpo contra o dela. Ele estava a ponto de se desfazer, de explodir, tamanha era a excitação que sentia, mas teria calma. Aquela noite seria especial. Seria inesquecível para os dois.
Ele serpenteou pelo corpo de Hela com a boca. Sorveu sua pele em alguns pontos e continuou descendo. Deslizou as mãos pelas coxas dela, até chegar a parte de trás dos joelhos. Abriu as pernas delas e levou sua boca ávida a intimidade de Hela. Ela deu um gemido sonoro ao sentir a língua dele lhe invadir. Jamais imaginou que algo assim seria tão bom. James beijou, sugou e lambeu o ponto de prazer dela. Hela, por sua vez, se contorcia e chamava do nome dele, perdida naquela confusão de sensações.
Hela agarrou os lençóis com força, a ponto de deixar as juntas de seus dedos pálidas e arqueou o corpo, deixando escapar um gemido longo. Extasiada, mal percebeu quando Jim se posicionou entre suas pernas, cobrindo-a novamente com seu corpo. O descontrole dele estava no limite. Sentia que se não estivesse logo dentro dela, enlouqueceria.
— Eu vou com calma. Diga-me se doer... — ele pediu com a voz trêmula.
Ele posicionou seu membro contra a abertura dela e forçou a entrada. Apesar de extremamente úmida, Hela era muito apertada. James adentrava lentamente, mordendo os lábios inferiores tetando se conter duplamente. Queria refrear sua vontade de possuí-la com voracidade e de gozar antes do tempo.
— Ah, Jimmy... — ela sussurrou com a voz entrecortada.
Sem conseguir mais se conter, ele avançou mais rápido. Jim a ouviu suspirar, quando sentiu que estava totalmente dentro dela. “Por Deus... Como é maravilhoso...”, ele pensou quando começou a se mover dentro de Hela.
Sem mais nada para impedi-lo de prosseguir, James se movia de forma rápida e violenta, mas Hela estava adorando. Ela assegurava isso a ele através dos gemidos que dava ao ouvido dele e pela forma como suas pernas os apertavam, puxando-o mais contra si. Hela clamava o nome dele, enquanto seus quadris se roçavam com força e urgência naquela busca por saciedade.
— Hela... Hela... — ele repetia, como se não lhe restasse mais nada a dizer, perdido naquele frenesi.
Ele levou uma das mãos ao quadril dela e a outra a uma de suas nádegas e aprofundou as estocadas. Mordia os lábios tentando se concentrar, pois desejava prolongar ao máximo o prazer que ela sentia. Hela desceu suas unhas, arranhando dolorosamente as costas dele, até chegar ao seu bumbum e o apetou com força. A boca dela se entreabriu e ela gritou o nome dele, alcançando o orgasmo. Livre da pressão de se conter por mais tempo, ele relaxou e, com um grunhido profundo, esvaziou-se dentro dela.
Os dois se olharam por um tempo, apenas sentindo a respiração falha um do outro.
— Eu te amo, Hela... — Jim se declarou.
— Eu também te amo, Jimmy... — ela respondeu.
Cansados e saciados, os dois se entregaram aos efeitos do álcool e do esforço, adormecendo rapidamente.
O sol havia nascido a pouco tempo, quando Hela despertou de súbito. A princesa se sentou na cama e, respirando rapidamente, olhou ao redor. Viu James nu dormindo tranquilamente ao seu lado. Ela franziu o cenho e de repente percebeu que lembrava o que tinha ocorrido na noite anterior. Na verdade, se lembrava de bem mais do que isso. Hela lembrou de tudo.
As lembranças de sua infância, de sua mãe, de Wagner, Katarina e James voltaram repentinamente. Presente e passado se misturaram rapidamente, deixando bem claro coisas que, antes de recobrar a memória, estavam envoltas em sombras. Lágrimas desceram pelo rosto da jovem ao perceber todo o mal que sua tenacidade havia causado. O remorso tomou conta dela ao lembrar do quanto fora injusta com James e sua mãe.
— Mamãe... — ela murmurou se levantando rapidamente da cama.
Hela se vestiu rapidamente, deu um beijo demorado no rosto de James e desceu decidida para se encontrar com sua mãe. Mais tarde teria tempo para conversar com Jim e pedir desculpas por tudo o que o fizera sofrer. Mas naquele instante ela precisava do perdão de Aredhel.
Ela chegou velozmente à sala de jantar, mas ainda não havia ninguém. Ainda era muito cedo. Hela já pensava partir quando alguém inesperado apareceu na entrada do local: Eric.
— Bom dia, minha futura esposa — sorriu o príncipe, convencidamente.
— Er... Bom dia, príncipe Eric — ela respondeu meio contrariada. — Acho que precisamos conversar — foi direta.
— Certamente. Precisamos conversar. Temos que marcar a data de nosso casamento — ele disse todo confiante.
— Como? Príncipe, eu não me lembro de ter recebido um pedido seu — tentou ser educada.
— Está certa. De fato eu não pedi. Eu afirmei — foi petulante. — Nós iremos nos casar.
— O quê? — pasmou-se.
Ele se aproximou de Hela e sorriu cinicamente.
— O que você ouviu — afirmou em meio a um esgar. — Você irá se casar comigo, Hela. Ou eu contarei aos nove reinos o maior segredo de sua família. Contarei que o rei de Asgard é um Jotun — ameaçou.
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