Asgard Dirty Secrets
26 J'veux ton amour, I don't wanna be friends
Notas iniciais
Hela encarou Eric incrédula com o que ouvira. A jovem, assim como seus irmãos, sabia de sua origem Jotun. Todos os filhos de Loki, alteravam sua aparência se entrasse em contato com os Jotuns e com a Casket, então isso logo deixou de ser motivo de espanto dentro da família. Entretanto, tanto Hela, quanto os demais, tinham o conhecimento de que isso era um segredo muito bem guardado. Asgard e nenhum outro reino aceitaria pacificamente ter um Jotun sentando no trono que um dia já foi de Odin.
Um calafrio perpassou pelo corpo de Hela ao imaginar a guerra que se instalaria se tal verdade viesse à tona. Mesmo contando com a ajuda dos filhos, Thor e sobrinhos, Loki teria poucas chances de sucesso se tivesse que travar uma guerra contra todos os reinos ao mesmo tempo. Isso sem contar que sua própria guarda de elite, os Einherjar, poderiam se voltar contra o rei. Ainda que Loki tenha sido julgado em segredo, suspeitas sobre a morte de Odin poderiam insurgir, vez que o falecimento do pai de todos foi inesperada e demorou a ser explicada.
Loki era considerado um rei legítimo por Thor ter abdicado e por todos crerem que ele era o filho caçula de Odin, mas sua supremacia pendia sobre uma linha tênue, mesmo depois de tantos anos. Primeiramente, para muitos, ainda não estava devidamente claro os detalhes da prisão e morte de Loki. Para infelicidade de Loki, muitos ficaram sabendo de seus crimes cometidos em Midgard, bem como suas duas falsas mortes. Todos esses mistérios se somariam contra Loki, se suas origens fossem reveladas e nada mais poderia salvá-lo de um conflito.
A princesa pensou rápido e, de maneira astuta, começou a argumentar sobre aquela situação com o príncipe Eric.
— Eric, isso obviamente é uma mentira tola que contaram a você — ela mentiu, assumindo um semblante de indignação. — A linhagem de meu avô é legitima e...
— Você sabe muito bem que não estou falando de Odin — ele a interrompeu. — Estou falando de seu pai. E não tente negar. Quem me informou me deu essa certeza. A pessoa chegou a afirmar que nenhum de vocês tocaria a Casket, sem que a verdade fosse revelada — sorriu de lado e se aproximou dela. — Não adianta negar, sei que seu avô, na verdade, foi Laufey — sussurrou ao seu ouvido.
Hela engoliu em seco.
— Minha querida, Hela... — Eric começou com a voz sedutora e displicente. — Meu amor por você é tão grande que, apesar de sua origem — fez uma careta — e do sangue imundo que corre em suas veias, estou disposto a desposá-la. Minha linhagem será o suficiente para purificar o sangue de nossos filhos.
A jovem trincou os dentes com raiva e teve que se controlar para não avançar sobre Eric e matá-lo ali mesmo. Mesmo com ódio, Hela teve lucidez o suficiente para refrear seus instintos de resolver aquela questão de maneira desastrosa e criar outro problema. Se matasse Eric, outra guerra certamente seria iniciada e ela não tinha certeza se o rei de Alfheim também partilhava dos conhecimentos do filho e apoiava suas ideias. Tampouco, Hela sabia quem havia revelado tal segredo a ele.
— Eric... Eu amo outro homem... — ela confessou. — Mas você pode ter a minha amizade — apelou.
— Eu não quero ser seu amigo! — vociferou. — Quero seu amor.
— Mas ele já pertence a outro. Como pode querer casar com uma mulher que não lhe ama e pensa em outro? — tentou argumentar.
— Minha querida... — ele pegou uma das mãos dela entre as suas. — Estou disposto a esperar. Sou paciente e tenho certeza que a conquistarei. Sei que já simpatiza comigo.
“Não mais... Não mesmo...”, pensou Hela irritada.
— Pense em nossa união, como deveria ter sido desde o início — continuou o príncipe. — Um acordo entre reinos. Um casamento arranjado. No começo não temos amor, isso é fato. Mas com o passar do tempo sei que a conquistarei e passará a me amar. Farei você muito feliz — tocou o rosto dela. — Nossos antepassados fizeram várias uniões do tipo e muitos foram felizes.
— Mas eu já amo um outro homem... — murmurou a jovem.
— Esqueça James! — gritou e se afastou dela.
Hela ficou estupefata.
— Eu sei que é por ele que está apaixonada! Esse tal de “tio Jim”! — bufou. — A semelhança dele com seu pai só serviu para provar para mim a origem de seu pai! Andei investigando e soube que esse homem apareceu em Asgard há alguns anos e que desde que veio para cá vive com vocês. Com certeza deve ser irmão de seu pai! Ou seja, outro Jotun! — sibilou. — Por Odin! Se já não bastasse essa trágica origem sua, ainda se apaixona por seu tio? Isso é doentio! — enojou-se.
— Você não sabe do que está falando! — rosnou Hela. — Jimmy é...
— Não me interessa nada sobre ele — interrompeu-a. — Esqueça-se dele. Você se casará comigo ou todos saberão sobre seu pai e será o fim não só do reinado dele, como de toda a sua família. Você não tem escolha. No final, você não ficará com o “tio Jim” do mesmo jeito — se aproximou novamente de Hela. — Ele será o primeiro a morrer. Isso eu lhe garanto — sussurrou ao seu ouvido.
A princesa cerrou os punhos com raiva e sentiu os olhos arderem. Mas não choraria. Não na frente dele. Levou apenas alguns segundos para Hela pensar em todas as possibilidades e ver o rosto de sua família e amigos em sua mente. Sabia que mesmo que não perdesse a todos em uma cruzada contra Alfheim e os demais reinos, algumas vidas seriam sacrificadas e a de James seria a primeira. Lembrou de sua mãe e no irmão que ainda não tinha nascido. Ponderou que talvez, no estado em que estava, não resistisse a pressão de um conflito, ou muito menos a perda de um dos filhos, marido ou amigos.
Hela sabia que poderia perder o amor de Jim, mas concluiu que perderia muito mais se não cedesse. Não sacrificaria vidas para ficar com ele, principalmente as de quem amava. Escolheu sacrificar a própria vida por amor a todos.
— Eu me casarei com você... — ela disse baixinho.
— Eu sempre soube que era muito sensata, minha querida — Eric beijou-lhe a fronte — Casaremos amanhã mesmo.
— Não... Espere — pediu. — Por favor, peço que espere até o nascimento de meu irmão.
— Se você está pensando em algum estratagema... — ele começou.
— Não. Eu lhe dou minha palavra de que me casarei com você — afirmou. — Só quero ter certeza de que meu irmão nascerá bem. Minha mãe teve uma gestação muito complicada. Além disso, preciso de algum tempo para contar a todos sobre o casamento. Tenho que parecer convincente. Se eles souberem da chantagem, haveria uma guerra de qualquer forma — disse seriamente. — Jamais aceitariam isso.
— Está bem. Esperarei — deu um suspiro contrariado. — Mas quero que termine esse seu caso asqueroso com seu tio! Sei que estão juntos e que são amantes.
— Terminarei — ela falou friamente.
— Continuarei a lhe visitar diariamente. Você vai começar a demonstrar interesse por mim a todos. E até o final desta semana estaremos oficialmente namorando — confabulava com entusiasmo.
Ela apenas o observou em silêncio, tentando conter as lágrimas.
— Então estamos acertados, minha noiva — sorriu, a agarrou e deu um beijo em seus lábios.
Hela não reagiu ao beijo. Ficou imóvel e apenas deixou que ele fizesse o que queria. Percebendo o comportamento dela, logo, Eric a soltou.
— Quanta frieza... — riu. — Mas quando for minha, saberei como aquecê-la — sorriu de lado e fitou-a longamente. — Seremos muito felizes, minha princesa. Você me fará muito feliz. Tenho certeza.
Ele fez uma reverência e saiu todo sorridente do salão. A porta se fechou e Hela esfregou a costa das mãos nos lábios.
— Não conte com isso... — disse Hela entredentes. — Você vai se arrepender de se casar comigo. Vai se sentir em Helheim. Ou como diz a minha mãe: vai descobrir o que é inferno. Vou fazer você desistir de mim! — seguiu para seu quarto.
Algum tempo depois, Aredhel e Loki desceram para o café. Váli, Igor, Rebecca, Einmyria e Katarina já estavam à mesa. Aredhel estava taciturna, olhava para o prato sem reação. Rebecca comia em silêncio, visivelmente abatida. Igor, por sua vez, aparentava um mau humor latente.
— Mãe, a senhora não vai comer nada? — indagou Einmyria preocupada.
— Estou meio sem fome... — Aredhel murmurou distraída.
— Aredhel, esqueça-se desses pesadelos. Vai ficar tudo bem — afirmou Loki afagando a mão da esposa.
— Pesadelos? — Myria franziu a testa.
Aredhel olhou para Loki e depois encarou a filha, mas não teve coragem de falar sobre o assunto.
— Ela vem sonhando com o parto do bebê e... — Loki deu um suspiro. — Sempre sonha que o bebê nasce morto ou morre no parto.
— Você me contaria se tivesse alguma premonição, não é minha filha? — afligiu-se a rainha.
— Claro que sim, mamãe. Provavelmente é apenas um pesadelo recorrente. Pois eu não vi nada sobre o nascimento do bebê — Einmyria meneou a cabeça.
— Está vendo? Não tem com o que se preocupar. Tudo vai ficar bem — sorriu Loki.
— Mãe, a senhora teve uma gravidez difícil — Váli se intrometeu. — Natural que esteja tão preocupada e que isso acabe por influenciar em seus pesadelos. Afinal, a senhora passou por muitos desgostos — olhou de viés para o pai.
Loki fechou a cara, mas não rebateu a indireta do filho. Estava evitando ao máximo discutir na frente de Aredhel. Não queria deixá-la agitada ou chateada. Ele, apesar de confiante que eram apenas pesadelos, também temia pela saúde dela e de seu filho.
— Bom dia! — cumprimentou Wagner todo sorridente ao entrar no salão.
O jovem deu um beijo em sua madrinha, fez uma reverência ao seu padrinho e serviu-se enquanto cantarolava uma canção. Estava radiante.
— Nossa, você parece bem animado, irmãozinho — comentou Katarina.
— E quando ele e o seu pai não estão? — resmungou Loki. — Estão sempre sorrindo. Sempre felizes — revirou os olhos.
— Eu sinto muito, padrinho — Wagner corou, todo sem graça. — Bom... De fato, hoje estou bem mais animado — deu uma garfada em suas panquecas.
— Agora fiquei curiosa. O que aconteceu para você estar tão animado? — riu Katarina.
— Bem... — ele deu um pigarro, pensando no que diria, quando Eisa entrou no salão.
— Bom dia a todos! — Eisa cumprimentou com entusiasmo.
Loki ergueu uma sobrancelha e bufou.
— Parece que a alegria contagiante de James e sua família, voltou a esse palácio. — ironizou o rei.
— Mas qual é o problema em ser alegre, padrinho? — questionou Katarina.
— Problema nenhum, minha querida. Seu padrinho é assim mesmo, resmungão — sorriu Aredhel.
Eisa se sentou ao lado de Wagner e os dois começaram a conversar. Igor, irritado, afastou o prato, jogou o guardanapo sobre a mesa e se retirou.
— Parece que nem todos estão muito felizes — comentou Váli, observando Igor se afastar a passos largos.
— Ele anda tão estranho — Myria murmurou.
No mesmo instante Narfi entrou no salão e a expressão de Rebecca também se alterou. De tristeza para raiva, ela mudou em segundos. A jovem se levantou rapidamente e deixou o salão.
— Corrigindo. Parece que o mau humor, assim como a alegria, são contagiantes em Valhala — Váli ergueu as sobrancelhas.
— Becca! — chamou Narfi ao vê-la se retirando.
— Não perca seu tempo — alertou Váli. — Você errou feio ontem. Ela vai demorar para lhe perdoar, tanto quanto todos vão demorar para esquecer o espetáculo que você deu ontem a noite — fez uma careta. — Devia ter pensado em outra estratégia para seduzi-la. Rebecca, tímida e certinha como é, não ia gostar mesmo de ser protagonista de tamanho exibicionismo.
— Eu não fiz isso para aparecer e tão pouco para seduzi-la. Eu realmente a amo — rebateu Narfi irritado.
— Fico feliz de ouvir isso, meu filho — comentou Aredhel. — Estou cansada de ver servas chorando pelos cantos por sua causa. E não sabe o quanto eu ficaria decepcionada com você se estivesse apenas querendo se aproveitar de Becca — foi séria. — Vocês foram criados juntos. Durante alguns anos eu ajudei Thor a criá-la. Ela é como uma filha para mim também.
— Mãe, eu lhe afirmo que minhas intenções com Becca são as mais sinceras — afirmou Narfi.
Váli deu uma gargalhada.
— Então você deveria mudar de comportamento — interferiu Loki. — Cortejar a sua prima, enquanto continua se... — fez uma pausa e o encarou — … servindo da criadagem, não parece demonstrar a veracidade de suas intenções. Se realmente quer conquistá-la, tem que demonstrar que mudou ou que, pelo menos, está disposto a mudar.
Váli deu uma nova risada.
— O senhor falando em mudar e dando conselhos sobre como conquistar uma mulher? De fato, meu pai é um exemplo a ser seguido no trato com mulheres — Váli foi sarcástico e riu em seguida.
Loki trincou os dentes e se inclinou para responder ao filho, mas ao ver Aredhel baixar os olhos toda constrangida, se conteve.
— Váli! — sibilou Eisa.
— Ah, hoje os dois estão muito comediantes. Será que é o dia da mentira? — levou um dedo até o queixo e fingiu pensar. — Não... Essa data só existe em Midgard. Bem, eu já vou indo. Senão vocês vão me matar de tanto rir — levantou-se e saiu rindo.
James despertou e viu que estava sozinho na cama, entretanto não estranhou. Afinal ali era seu quarto e não o de Hela. Imaginou que sua namorada, teria acordado mais cedo e retornado aos seus aposentos. Sentindo-se abençoado, como não vinha se sentindo há alguns anos, ele se levantou e seguiu para o banheiro. Tomou um longo banho, enquanto sonhava com os detalhes da noite anterior.
Concluiu que a última vez que se sentira assim, plenamente feliz, fora quando seus filhos nasceram.
Após se arrumar, partiu de seu quarto decidido a ter a tão esperada conversa com Hela. Tateou em seu bolso e alisou, mais uma vez, a caixinha que continha a aliança que daria a ela.
— Dessa vez nada nos impedirá de sermos felizes... — ele pensou alto enquanto caminhava pelos corredores do palácio.
— Pai! — Wagner o chamou. — Preciso conversar com o senhor.
— Não pode esperar um pouco? — Jim tentou escapar.
— Não... É urgente... — afirmou o jovem.
Pai e filho foram para o quarto de Wagner e lá, o jovem começou a narrar os acontecimentos da noite anterior. James ouviu tudo quieto e um tanto surpreso. Ele não sabia dos sentimentos que o filho nutria por Eisa. Ao final do relato, Jim olhou para o filho e coçou a nuca.
— Você sabe que não será fácil... — começou o pai. — Você escolheu o pior sogro — brincou.
— Eu sei. O padrinho vai querer me comer vivo — Wagner deu um sorriso amarelo.
— Talvez nem tanto... — disse Jim pensativo. — Ele finalmente aceitou meu relacionamento com Hela. Talvez esteja mais inclinado a aceitar o seu. Loki não tem escolha. As filhas deles teriam namorados um dia, ele querendo ou não — deu de ombros.
— É pai.. Mas ele aceitou o seu por conta da situação de Hela e por tudo o que deu errado — o filho parecia inseguro. — Myria disse que o padrinho não fala com ela, desde que soube sobre o namoro dela com o Nicolas Stark.
— Bom... Por via das dúvidas, peço que vocês mantenham isso em segredo até o nascimento do filho de Aredhel. É o que Myria também está aguardando para resolver a questão dela com Nicolas. Se Loki fizer mais alguma coisa, temo que os pesadelos de Aredhel acabem por se realizar — Jim disse sombrio.
— Sim... Sim... — Wagner anuiu. — Ontem ao final da festa, conversamos sobre isso. Eisa e eu concordamos em manter nosso namoro em segredo até o nascimento do bebê. Ela comentou que Myria não consegue ver o futuro do bebê e nem da madrinha.
— Isso também anda me preocupando muito. Myria comentou que isso acontece geralmente quando o futuro depende de decisões a serem tomadas ou atos impensados — revelou James. — Isso me lembra que ela também não conseguia ver o futuro de Hela... Mas a partir de hoje, ela verá — deu um sorriso bobo.
— Vai fazer o pedido? — empolgou-se o jovem.
— Sim! Em breve Hela será a sua madrasta — disse todo confiante. — Agora tenho que ir. Vou atrás dela para fazer o pedido — se levantou e arrumou a roupa, verificando mais uma vez a localização da caixinha.
— Boa sorte, pai! — deu um tapinha no ombro e o acompanhou até a porta.
— Obrigado, filho, mas não será preciso. Ela disse que me ama! — falou alto do corredor.
Hela estava em seu quarto enxugando seus longos cabelos. Olhou-se no espelho e viu que seus olhos ainda estavam inchados. Desde que retornara ao quarto, a jovem havia chorado sem parar, pensando no seu triste destino. Durante o banho ficou imaginando o que diria a Jim para convencê-lo de que não o amava mais. Sabia que se ele soubesse a verdade, não aceitaria que ela se casasse por conta de uma chantagem e provavelmente seria morto por Eric.
Após muito ponderar ela viu que se casar não seria uma má ideia. Poderia se vingar da audácia dele. Acreditava que em pouco tempo, através de um comportamento exagerado e inconveniente, convenceria Eric que se casar com ela tinha sido um erro. Faria ele se arrepender de tê-la obrigado. Estava decidida a fazer da vida dele um inferno, até que ele pedisse a anulação do casamento. Mostraria a ele que seus gênios não combinavam e que ela não passava de uma jovem mimada. “Ele vai desistir... Eu sei...”, tentava se convencer.
Por outro lado, seu coração sangrava só de imaginar o que diria a James. Sabia que tinha que ser convincente e que para isso ela teria que magoá-lo. Já tinha decidido o que diria.
— Pelos deuses... Isso é cruel demais... — ela sentiu seus olhos arderem novamente.
Uma batida à porta a fez acordar de seus devaneios. Ela pediu que entrasse e permaneceu de costas para a porta.
— Hela, meu amor... — disse James entrando no quarto. — Acordei e logo senti sua falta — ele a abraçou por trás e deu um beijo em seu pescoço.
O cheiro dele e seu beijo quente a fez estremecer. “Que Odin me dê forças..”, ela pensou sentindo suas pernas fraquejarem.
— Meu amor, sei que as coisas estão indo rápido demais, mas você sempre soube de minhas intenções — continuou Jim, enquanto vasculhava seu bolso a procura da caixinha. — Hela... — ele a virou de frente para ele e se ajoelhou — Você aceita casar comigo? — estendeu a caixinha e a abriu.
Hela o encarou com a expressão mais fria que conseguia fazer. James percebeu os olhos vermelhos dela e o semblante carregado.
— O que houve meu amor? — ele indagou franzindo o cenho.
Ela olhou para o anel e para a expressão dele de dúvida e quis morrer. Hela era consciente de que seria a segunda vez que recusaria o pedido de James. Sabia que o destruiria por dentro, como também ficaria arrasada com isso.
— James, eu não posso aceitar — ela disse impassível.
— Como? — pasmou-se.
A surpresa e o temor invadiram James de assalto. Sem palavras, ele se limitou a encará-la boquiaberto.
— Você ouviu. Não posso aceitar — a jovem repetiu.
— Por quê? — perguntou aturdido. — Acha que é cedo? Podemos esperar e... — começou a falar apressadamente.
— Não, James — ela o interrompeu. — Eu não aceitarei nem agora e nem depois.
Um calafrio percorreu a espinha de James. Perguntava-se o que teria feito a jovem agir assim. Inúmeras coisas passaram por sua mente, inclusive dúvidas sobre seu “desempenho” na noite anterior. “Será que fiz algo errado ontem?”, questionou-se em pensamentos. Ficou mais uma vez sem reação.
— Eu lembrei de tudo — a moça revelou.
— Você lembrou de seu passado? De mim? — deu um leve sorriso. — Então sabe o quanto nos amamos.
— Sei? — a princesa questionou inexpressivamente. — A única coisa que concluí depois de lembrar de tudo e juntar as peças é que você me quer como prêmio de consolo. A verdade é que você sempre desejou a minha mãe e como não pôde tê-la, escolheu aceitar meus sentimentos e se conformar com o que podia ter.
Por alguns instantes James pensou que estava tendo um pesadelo no qual ele revivia os últimos meses. Não acreditava que, depois de tudo o que passou e fez, Hela pudesse imaginar que ele não a amava.
— Hela, pelo amor de Deus... — ele disse se levantando e a segurando pelos braços — Eu e sua mãe já lhe explicamos tudo. Você sabe que ela e eu fomos obrigados a nos beijar. Nunca fomos amantes. Seu pai confessou a você que ele falou aquelas meias verdades apenas para nos separar. Você sabe de toda a verdade.
Ela se desvencilhou dos braços dele e se afastou. A proximidade dele poderia fazê-la sucumbir e desistir. Não acreditava em nada do que dissera e nem no que ainda afirmaria, mas precisava se manter firme e continuar com seu teatro. Hela era uma excelente atriz e sabia ser muito convincente.
— Eu sei disso tudo. Mas também tenho a consciência da semelhança entre mim e minha mãe.
— Hela, eu já lhe falei inúmeras vezes que vocês duas são bem diferentes no jeito de ser — ele murmurou e passou uma das mãos pelos cabelos. — Assim como pareço com seu pai fisicamente, mas somos contrários em personalidade.
— Exato! — ela o encarou. — Creio que ambos confundimos as coisas. Talvez uma carência tenha feito me apaixonar por você.
— Você só pode estar delirando. Loki pode ter sido tudo, menos um pai ausente. Você não acredita nisso de verdade — rebateu impaciente.
— Eu não sei exatamente o que me levou a gostar de você, mas não foi minha confusão que me levou a tomar a decisão de romper o namoro — disse decidida. — Lembrei-me perfeitamente de minha infância e juventude. De sua presença constante ao lado de minha mãe. A maneira como vocês sempre foram unidos. Talvez você tenha sido apaixonado por ela e agora tenha transferido isso para mim. Mamãe sempre foi fiel ao meu pai e jamais lhe corresponderia. Sabia que seria uma batalha perdida, então permaneceu ao seu lado, até que eu cresci e viu uma chance de, pelo menos, se conformar em ter uma mulher que lembrasse dela.
James teve vontade de gritar. Hela parecia adivinhar parte da realidade dos fatos e isso o deixava sem saída. Desejou profundamente confessar que um dia amou Aredhel, mas que isso ficou definitivamente no passado e que Hela era quem ele amava. Todavia, ele sabia que isso não seria possível fazer. Jamais poderia deixar Hela sequer sonhar com a possibilidade dele ter amado a mãe dela durante anos. Isso só alimentaria a dúvida da jovem e acabaria com todas as chances deles serem, um dia, felizes. Jim amaldiçoou o próprio coração por lhe colocar em uma situação assim: amar mãe e filha.
— Hela... Eu amo você... — ele murmurou com a voz trêmula.
— Mas um dia pode ter amado a minha mãe — ela falou de forma condescendente. — Você obviamente negaria isso a vida inteira e ainda assim eu não estaria convencida. Eu passaria anos me perguntando se isso era verdade ou não. E mesmo que fosse mentira, essa insegurança iria me consumir ao longo dos anos. Entende o que eu quero dizer? — fitou-o nos olhos. — Sou eu quem não vai conseguir viver com essa dúvida, sendo ela verdadeira ou não. Por isso não posso levar esse namoro adiante e tão pouco me casar com você. Minha mãe seria sempre uma sombra entre nós. Eu nunca conseguiria ter paz e ser feliz ao seu lado.
O desespero tomou conta de Jim. Mais uma vez o destino lhe pregava uma peça. Estava perdendo a mulher que amava pela sombra de um amor do passado. “Eu só posso ser amaldiçoado...”, ponderou. Seus olhos se embaçaram com as lágrimas que formavam neles.
— Hela... Você precisa acreditar em mim... — ele pediu.
— Eu queria que fosse simples... — ela murmurou. — Mas eu não posso me enganar... Eu não posso... — deu as costas para ele.
— Hela... — tocou o braço dela.
— James... Acabou... — voltou a encará-lo — Você seguirá seu caminho e eu o meu, mas podemos ser amigos.
— Eu não quero ser seu amigo... — desabafou.
— Então isso é um adeus — foi firme. — Já tomei minha decisão e nada que fizer fará eu mudar de ideia— encaminhou-se até a porta e a abriu. — Agora, por favor... Retire-se...
Ele ficou a olhando e uma lágrima escorreu pelo rosto dele. James respirou fundo, se recompôs e seguiu pela porta com passos firmes. Hela fechou a porta, recostou-se nela, deslizou até o chão e desabou em um pranto sofrido.
— Eu te amo, Jimmy... Eu te amo... — repetia em meio aos soluços.
Aredhel descansava à sombra de uma árvore no jardim. Como de costume, estava entretida confeccionando algo para o bebê. Repentinamente, ela ouviu passos apressados e o barulho de alguns galhos se partindo. O vulto de James passou quase correndo ao seu lado, chutando tudo o que via pela frente. Assustada, ela se levantou e o seguiu. Nunca vira o amigo assim.
Ela passou por entre os galhos quebrados de uma cerca viva, que tinha uma passagem feita por Jim. Encontrou o amigo sentado no gramado, com os braços cruzados sobre os joelhos e o rosto pousado nele.
— Jimmy... — ela o chamou.
James se assustou, limpou as lágrimas e a encarou.
— Meu Deus, Jimmy... O que houve? Por que está assim? — perguntou preocupada.
Ele deu um longo suspiro e indicou a grama ao seu lado. Aredhel se sentou e Jim começou a relatar a conversa ocorrida entre ele e Hela.
— Eu acho que o fracasso me ama... — ele riu sem graça.
Aredhel, sem saber o que dizer ao amigo, limitou-se a abraçá-lo e tentar consolá-lo como podia. Ela chegou a prometer que falaria com a filha, mas James estava sem esperanças. Ele tinha certeza que nada e nem ninguém poderia tirar aqueles receios do coração de Hela, ainda mais quando ele sabia que parte do que ela afirmara era verdade.
Depois de uma longa conversa e de desfrutar do carinho da amiga, James, exausto, adormeceu no colo de Aredhel. Após algum tempo, a rainha também caiu nos braços de Morfeu, recostada na árvore do jardim.
Em pouco tempo Jim começou a sonhar, mas não era um sonho comum. Era um sonho muito real e vívido, como fora nas vezes que sonhara com seu casamento com Greta e com o nascimento de seus filhos, antes deles se realizarem exatamente conforme visualizara durante seu sono.
No sonho, James sentiu alguém em seus braços e lábios quentes tocando e roçando nos seus. Uma atmosfera mágica os envolvia. O beijo era doce e calmo, mas, ao mesmo tempo, ardente e familiar. Mais que isso, era algo muito esperado e ansiado há muito tempo. Já tinha se esquecido de como era beijá-la e tê-la em seus braço. Sentia-se grato por poder sentir aqueles lábios novamente. De olhos fechados e perdido naquela bruma de felicidade plena, tudo o que James tinha certeza era que sempre a amou.
Ainda pairando na nuvem de sensações, uma satisfação pulsava e ecoava em seu coração: ela era finalmente dele. Somente dele. A felicidade era tão vívida e real.
Ele deixou os lábios dela e ela permaneceu de olhos fechados. Ele se afastou, contemplou a grande barriga dela e sorriu. Em breve seria pai, mesmo que isso lhe soasse estranho e inesperado.
O sonho repentinamente deu um salto na sequência. O tempo havia passado. E lá estava Jim sentado em um grande jardim, em frente a uma humilde casa. O sol se punha lentamente, espalhando aquela adorável coloração laranja que se misturava aos diferentes tons da mesma cor representados pelas folhas secas que havia no chão. Aquela visão lhe trouxe lembranças do outono na Terra. Como Jim sentia saudades das estações.
Um menino de cabelos escuros se aproximou.
— Papai! Papai! Mamãe está lhe chamando! — gritava o pequeno de olhos azuis esverdeados.
James se levantou e seguiu para a parte de trás da casa. De longe viu os longos cabelos escuros dela sendo soprados pelo vento, enquanto a sua mulher recolhia roupas no varal. Ele deu um sorriso torto quando ela virou de lado e viu a grande barriga dela. Seria pai novamente. Entretanto, dessa vez, seria sem maiores surpresas ou dificuldades.
Ele se aproximou sorrateiro e a abraçou por trás, dando um beijo demorado em seu pescoço.
— Nossa Jimmy! Que susto! — ela disse sem se virar. — Venha... Preciso que me ajude com a roupa.
Ignorando-a, Jim a puxou, virando-a para si e lhe deu um beijo demorado. Ele inspirou o perfume dela e deixou seus lábios. Por Deus, como ele amava aquela mulher. Ela sorriu e piscou lentamente. James entreabriu os lábios, franziu o cenho e, enternecido, percebeu que os olhos castanhos escuros dela brilhavam por ele.
Foi nesse momento que Jim percebeu que quem estava diante dele não era Hela e sim Aredhel.
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