Asgard Dirty Secrets
27 It's tough to climb the ladder when you're counting scars
Notas iniciais

Sonhos... Todo homem tem sonhos... E todo homem deseja perseguir seu sonho. Isto é sua maior tortura, mas ao mesmo tempo são justamente os sonhos que dão sentido à vida. Mesmo que eles possam levar à destruição.
E para alguns, o sonho é a coisa mais sólida que poderão ter.
Homens extraordinários são sempre tentados pelas coisas mais prosaicas: levar uma vida simples, trabalhar com o que gosta, ter um lar, uma esposa e filhos. James era um deles. Tudo o que queria era ser feliz e ter uma vida confortável. Durante anos isso fora apenas um sonho. E seus sonhos foram as únicas coisas sólidas que tinha.
James despertou subitamente daquele sonho. Seus olhos azuis esverdeados fitaram por um tempo as folhas das árvores que faziam sombra e depois pousaram sobre o rosto de Aredhel que dormia tranquila. Ele se levantou do colo da amiga e sentou-se ao seu lado. Passou ambas as mãos pelo rosto e exalou o ar lentamente.
Com uma expressão triste, ele olhou para Aredhel e a acomodou na grama de forma que ficasse mais confortável. A amiga murmurou palavras inteligíveis e aconchegou-se na nova posição. Ele levou a mão ao ventre dela e fez um ligeiro afago.
— Eu não quero ser amigo de novo... — ele murmurou encarando o ressonar da rainha de Asgard.
Ignorando a possibilidade premonitória do sonho, por mais vívido que fosse, Jim tinha a certeza de que fora resultado daquele dia deprimente que tivera. Analisando seu próprio sonho, ele concluíra que Hela era a mulher com quem sonhara e Aredhel seu obstáculo. Seu coração não tinha dúvidas sobre como se sentia em relação a princesa. Ela nunca fora para ele um prêmio de consolação. Hela era a mulher que ele amava, com quem desejava construir uma nova vida, ter mais filhos e deixar a solidão que o aplacava durante todos aqueles anos.
Solidão e sonhos foram tudo o que ele pudera se agarrar por tanto tempo.
No passado, ainda que tivesse plena consciência da impossibilidade de ser correspondido, James, em seu íntimo e quase inconscientemente, tivera esperanças de um dia tomar Aredhel para si. Mesmo tendo outros motivos relevantes para deixar sua realidade, a principal razão para permanecer em Asgard foi ficar ao lado da mulher que amava em segredo e zelar por ela. E, ao escolher isso, ele inadvertidamente assinou sua sentença de uma vida eremítica. Excetuando os anos nos quais fora feliz com Greta, os demais foram vividos ora desejando algo que nunca teria, ora solitário. Sonhos febris de um futuro no qual se via casado com Aredhel, permearam muitas de suas noites e, por anos, deram sentido à sua vida. E esses devaneios eram a realidade mais sólida que ele podia palpar.
A culpa de ter amado Aredhel o consumia novamente. Diferente do passado, no qual o remorso era alimentado por outras circunstâncias (como sua amizade com Loki e o namoro com Greta), esse sentimento agora assombrava a sua felicidade com outra mulher. Sentia raiva de si mesmo por não poder negar com veemência que parte do que Hela afirmara era mentira. James, sim, amara Aredhel, mas isso em nada influía no que nutria pela jovem princesa na atualidade. E, novamente, a mulher que amou por tanto tempo era, indiretamente, mais uma vez, responsável por sua solidão futura.
Mas dessa vez tinha que ser diferente. Se não teria o amor de Hela, não queria sua amizade. Não cometeria o mesmo erro do passado: viver à sombra de um sentimento que não seria correspondido. Não deixaria que aquele sonho regrasse e destruísse sua vida. Ele queria algo mais sólido que apenas os sonhos de uma vida comum ao lado de Hela. Jim desejava algo mais real.
— Hela... — ele sussurrou melancólico.
Amargurado, James se levantou e tomou o caminho de volta ao Valhala. Mesmo não sendo do tipo antissocial, buscaria na penumbra de seu quarto asilo para seu desconsolo.
Mais tarde, ainda naquele dia, Loki estava em seu escritório na companhia de Igor e Narfi.
— Terminaram? — Loki olhou surpreso para o moreno.
— Foi o que mamãe disse — Narfi deu de ombros. — Wagner e Kat notaram a ausência do tio Jim durante o almoço e, ao procurá-lo, ele apenas disse que estava sem fome e queria ficar sozinho. Eles estranharam o comportamento do dele, então mamãe nos revelou que Hela recuperara a memória e que colocara um fim no relacionamento com ele.
— Parece que Hela acredita que ele sentiu algo por nossa mãe — completou Igor.
— Espero que Hela não tenha hostilizado Aredhel — o pai pareceu preocupado.
— Não... — o loiro negou. — Mamãe disse que Hela inclusive pediu perdão mais uma vez por tudo que fez a ela. Mas quanto ao tio Jim, manteve-se irredutível.
— É... Parece que minha irmãzinha herdou a desconfiança e a teimosia típica do senhor, pai — o moreno sorriu de lado. — Segundo a mamãe Hela disse que não conseguiria viver com essa dúvida. A de que seria apenas um prêmio de consolo.
— Dúvida? — bufou Loki. — Por mais que James negue, eu tenho quase certeza disso — fez uma careta.
— Discordo... — murmurou o loiro pensativo. — Eu realmente acredito que ele ame Hela.
— Mas isso não impede de ter sido apaixonado por mamãe no passado — rebateu o outro.
— Tanto faz... — Loki ergueu as mãos. — Agora está acabado esse pesadelo. Não preciso mais fingir que aprovo esse relacionamento. Aceitei James de volta unicamente por Hela e pela mãe de vocês, mas nunca engoli o fato dele ter traído minha confiança. Sei que Hela sofrerá, mas se recuperará. Acho que foi melhor assim. Eu sinceramente não lamento — deu um sorriso.
— Nossa, pai... — Igor meneou a cabeça em desaprovo.
— Um já foi... Agora faltam dois — riu Narfi. — Sigrid e Nicolas Stark. Qual é o próximo que o senhor vai tentar se livrar?
Loki crispou os lábios e encarou Narfi em silêncio.
— Acho que sua conta está errada — interferiu Igor. — Acredito que seriam três.
— Três? O que você sabe que não estou sabendo? — o moreno lançou um olhar divertido ao loiro. — Creio que não esteja se referindo a Rebecca, não é? — ficou sério.
— Não... Não é sobre ela a que me refiro. Afinal, é da sabedoria de todos que ela o despreza — sorriu e viu Narfi fechar a cara. — Refiro-me a Wagner — delatou.
— Wagner? — Loki franziu a testa.
— E ele está atrás de quem? Eisa? Mas eles são só amigos — disse Narfi incrédulo.
— Amigos que se beijam? — Igor falou venenosamente.
— Wagner teve a audácia de beijá-la? — Loki trincou os dentes. — Mas o que é isso? Um complô da família de atores? Se já não me bastasse o pai, agora tenho que me preocupar com o filho dele também? — rosnou.
— Hei! — gargalhou Narfi. — Wagner é quietinho, mas muito esperto!
— E Eisa, nossa irmã — rebateu o loiro impaciente.
— É... — o moreno encarou o irmão. — É “nossa” irmã — enfatizou as palavras erguendo as sobrancelhas.
Os dois irmãos se encararam em silêncio por alguns instantes, enquanto Loki começou a andar pela sala.
— Não posso fazer nada no momento — começou Loki. — Não enquanto o irmão de vocês não nascer. A gravidez de Aredhel foi complicada e os sintomas só têm se agravado. Além disso, eu e a mãe de vocês estamos muito bem. Não quero me indispor. Mas assim que o perigo passar, verei o que farei a respeito — foi firme.
Narfi passou o resto do dia tentando falar com Rebecca, mas não conseguira ter sucesso. Cansada de fugir dele, a jovem se recolheu aos seus aposentos e não mais saiu de lá. Hela também passou o dia isolada em seu quarto, mas no final do dia, uma serva veio lhe avisar que tinha visita: Eric.
— O que faz aqui? — a princesa disse ao encontrá-lo no salão.
— Vim ver minha noiva — deu um sorriso cínico e entregou um buquê de flores a Hela. — Pela manhã conversamos brevemente e a visita era mais — balançou a mão no ar — para acertar os detalhes de nosso compromisso. Então, além de vir vê-la, vim me certificar de que você já começou a tomar as providências — encarou-a. — Terminou com ele?
— Sim — respondeu friamente.
— Que desculpa deu? — interrogou.
— Isso não lhe diz repeito — ela rebateu entredentes.
Eric deu uma gargalhada.
— Tudo bem — ergueu as mãos. — Então pode começar a fingir que aceita a minha corte — arqueou uma sobrancelha. — Você é uma excelente atriz. Sei que pode fingir que está querendo esquecer sua decepção amorosa, dando uma chance a um príncipe que lhe ama muito — sorriu.
— Parece que você pensou em tudo — Hela rebateu inexpressivamente.
— Claro, minha querida — tocou o rosto dela.
O príncipe de Alfheim avistou James chegando ao salão. Malignamente, Eric puxou Hela pela cintura e lhe deu um beijo apaixonado. Sem saber o que estava acontecendo, a jovem repetiu o ato de mais cedo, não correspondeu ao beijo, mas também não o repeliu. Sabia que era inútil rejeitá-lo, mas deixaria claro sua indiferença.
Lamentavelmente, Jim testemunhou tudo. Ele trincou os dentes e seu coração se encheu ódio. “Ela rapidamente me substituiu”, pensou ele desgostoso. O ator deixou o local a passos rápidos, passou pela adega do palácio, pegou algumas garrafas de hidromel e subiu para seu quarto.
Atormentado, o antes otimista James, agora maldizia sua sorte. Sentia-se ludibriado e ingênuo. Acreditava que passara muito tempo absorto entre poemas e dramas fictícios, perdido em meio a ilusões românticas.
— Este universo “mágico” nos faz criar expectativas extremamente irrealistas.. — murmurava enquanto seguia rumo aos seus aposentos. — O mundo não é um romance.. Nem uma peça de teatro..
E assim, mesmo não tendo o costume de beber, o hidromel e a escuridão de seu quarto foram os companheiros de sua mágoa pelo resto da noite.
No dia seguinte quase todos despertaram muito cedo em Asgard. Era o dia do aniversário de Aredhel. Filhos, amigos e marido tinham muito o que fazer. Loki deixara sua rainha dormindo e levantara ao nascer do sol. Desejava que tudo fosse perfeito naquele aniversário e o segredo dos preparativos faziam parte do evento. Todos foram instruídos a evitar que Aredhel soubesse da surpresa.
Mas nem tudo parecia estar em seu lugar. Rebecca preferiu trabalhar junto com Fenrir, mantendo distância de Narfi. Igor parecia extremamente mal-humorado na presença dos sorrisos de Eisa e Wagner. E até a metade da manhã James não havia aparecido e Hela, após a visita diária de Eric, buscou refúgio nos jardins.
A moça estava mais uma vez chorando baixinho a sua má sorte, escondida em uma parte isolada, sob a sombra de um caramanchão coberto de jasmins. Evitava parecer tão triste na frente dos demais. Desejava evitar maiores perguntas quando anunciasse o trágico noivado com Eric.
— Uma moça tão bonita não deveria estar chorando... — ela ouviu uma voz masculina dizer.
Hela ergueu os olhos e viu um homem alto, de cabelos castanhos claros a lhe fitar com compaixão. A jovem franziu o cenho confusa. Embora ele trajasse o uniforme de Einherjar, a guarda de elite de Asgard, ela podia jurar que nunca o vira antes. Era muito belo. Seus cabelos longos emolduravam seu rosto de linhas marcantes e másculas. Queixo quadrado, mas oculto por uma barba também castanha. Apesar da imponência, tinha um sorriso cativante, o qual era muito bem iluminado por aqueles olhos azuis, cristalinos, na cor de um oceano calmo.
— Está tudo bem com você? — ele franziu a testa e estendeu um lenço para ela.
— Está... — envergonhou-se e baixou os olhos. — Obrigada.. — aceitou o lenço.
— Deve ter sido apenas um cisco — ele sorriu. — Com todas essas flores e folhas acima de você, é natural que esses acidentes aconteçam — brincou.
Ela não pode deixar de sorrir da tentativa dele de animá-la.
— Ah, desculpe a minha falta de educação — o jovem se empertigou. — Eu não me apresentei. Týr Vídarr — fez uma reverência —, a seu dispor.
— Hela — se levantou do banco —, prazer em conhecê-lo.
— Princesa Hela? Oh, eu não a reconheci — ficou desconsertado e baixou a cabeça. — Sou recém-chegado a Valhala. Ainda não conheço a vossa família.
— Está tudo bem... — ela sorriu de leve.
— Se vossa majestade me permitir ser insolente — ele a fitou nos olhos —, devo dizer que a princesa fica muito mais bela sorrindo.
— Você é realmente novo por aqui — riu. — Meu pai não ficaria muito feliz ouvindo você se dirigir às filhas dele com tanto desembaraço.
— Não pude me conter — Týr inclinou a cabeça para o lado e apertou os lábios. — Duplamente. Primeiro por que o que falei é verdade e costumo ser muito franco. E segundo... — voltou a encará-la. — Acho que é um dever para mim, zelar pela felicidade de vossa majestade. Não poderia deixá-la continuar entristecida.
Hela engoliu seco com tamanha lisonja.
— E de onde você vem? — ela trocou de assunto.
Týr despreocupadamente tomou um dos bancos do local, se sentou e começou a contar sua história. No final o jovem soldado conseguiu seu propósito, distraíra Hela e conseguira fazê-la esquecer de suas dores.
No salão principal, Loki terminava sua reunião com Fandral e Volstagg. Tinha pressa, pois antes do final do dia tinha que ir a Midgard buscar um presente para Aredhel, e já passava do meio-dia.
Um guarda entrou e anunciou que o rei tinha visita. Ao questionar de quem se tratava, o soldado informou que a visita era uma mulher, mas que não se identificara. Presumindo ser quem imaginava, dispensou todos, pedindo para ficar sozinho e ordenou que a mulher entrasse.
— Pensei que iria me dispensar de novo — reclamou a mulher de cabelos dourados, assim que as portas do salão foram fechadas. — Até quando pretendia me evitar?
— Olá, Sigyn... Seja bem-vinda... — ele deu um sorriso.
Aredhel havia acabado de almoçar sozinha. Uma serva ofereceu a sobremesa, mas ela recusou. Sentia-se solitária e ignorada. Fizera todas as refeições a sós. Ela não havia se lembrado que era seu aniversário, mas notara o alijamento que vinha sofrendo. Já havia alguns dias que vinha tentando conversar com seus filhos, mas eles nunca tinham tempo para ela e isso parecia mais evidente naquele dia. Alguns chegaram a ser meio rudes, dizendo que a rainha estava atrapalhando. Até seus afilhados foram descorteses.
Entristecida, Aredhel resolveu procurar por seu marido. Não o havia visto o dia todo. Após questionar um guarda, fora informada que o rei estava no salão com uma visita. Despreocupada, ela entrou por uma das entradas laterais do salão e viu uma mulher de cabelos dourados e de curvas exuberantes. Aredhel não conseguia ver Loki, mas antes que se fizesse notar pelos dois, a conversa chamou a atenção dela.
— Sigyn, peço que tenha paciência — dizia Loki. — Eu sei que lhe dei minha palavra mas... — suspirou. — Agora não é o melhor momento. Não posso me indispor com Aredhel. Não até que meu filho nasça.
— Loki, você está me enrolando — bufou a mulher. — Você já conseguiu de mim o que queria, agora cumpra sua palavra! Não posso esperar mais! Você sabe que eu...
— Eu sei... Eu sei... — ele a interrompeu. — Só precisa aguardar mais uma semana ou duas. Assim que meu herdeiro nascer, resolverei essa e outras situações pendentes — disse impaciente. — Espero que tenha ficado feliz com a compensação que lhe ofereci.
— Claro que fiquei — Sigyn sorriu. — Mas sabe que é pouco. Prometeu-me bem mais que isso.
— Minha querida, Sigyn... — Loki desceu as escadas de seu trono. — Eu sempre cumpro minhas promessas — ficou bem próximo à mulher e sorriu de lado.
Aredhel começou a dar passos para trás, afastando-se daquela visão. Ela não queria ver como poderia terminar aquela proximidade dos dois. Atordoada, a rainha de Asgard deixou o salão e seguiu caminhando a esmo pelos corredores. Seu maior pesadelo parecia ter se tornado real.
Era do conhecimento de Aredhel o papel de Sigyn na mitologia nórdica e nos quadrinhos. Durante anos imaginou que havia modificado o destino de Loki quando se casara com ele, porém a notória esposa de Loki, Sigyn, finalmente tinha cruzado o caminho dele.
Ela levou as mãos aos cabelos e sentiu as primeiras lágrimas descerem pelo rosto.
— Ele vai me substituir por ela... — concluiu em um sussurro. — Está apenas esperando o bebê nascer para se livrar de mim...
Os pesadelos nos quais sempre via Loki exigindo friamente a aceleração de seu parto voltaram à sua mente. De repente aqueles sonhos recorrentes pareceram fazer sentido. Feito um grande quebra-cabeça, as peças se uniam e finalmente formavam um quadro nítido da situação. “Quando Loki fora atrás de mim, ele já sabia que eu estava grávida... Devia desconfiar que o filho podia ser dele...”, a lembrança se unia a muitas outras, exibindo a imagem de um plano ardilosamente cruel.
— Ele... Ele planejou tudo... — levou as mãos à boca e conteve um soluço.
Feito um castelo de cartas, o excesso de carinho e as promessas de amor eterno ruíram e desabaram, soterrando e sufocando o coração de Aredhel.
“Você não é nada e nem ninguém aqui! Eu sou o rei de Asgard e soberano nesse palácio! Você não é nada além de minha esposa. Ninguém além de alguém com quem eu me deitava todas as noites.”
Seus dedos se entrelaçaram por seus cabelos e seus olhos fitavam algum lugar até daquele corredor.
— Não sou nada para ele... — murmurou.
A dor era tanta, que parecia física. Ela levou a mão ao peito e deixou escapar um gemido. As cicatrizes do sofrimento que passara nos últimos meses eclodiram em novas feridas lancinantes.
O sentimento pungente fora rapidamente substituído por outro: medo. Lembrou-se que o filho seria arrancado de seus braços.
— Eu... Eu preciso fazer... Fazer algo... — gaguejava aturdida.
Um lampejo veio à sua mente e ela acelerou o passo. Aredhel virou em um corredor, próximo às escadas e esbarrou em Fenrir. O rapaz carregava uma grande caixa e quase a deixou cair com o encontrão.
— Desculpe-me, mãe... Com licença — ele disse apressando, sem notar o estado dela.
Ela se escorou no corrimão da escadaria e ficou vendo o filho se afastar. Percebeu que não podia contar com os filhos. Eles nem a notavam.
“Eu não devo ser uma boa mãe.. Pois.. Pois, meu filho parece não gostar de mim.. Ele virou um lobo e me mordeu. Depois mandou aranhas me atacarem..”, sua memória a castigava sem dó.
Visivelmente perturbada, ela subiu as escadas e caminhou até o quarto de James. Ele era sua única chance de fuga. Por primeiro, precisava garantir que não seria separada de seu filho. Depois teria tempo suficiente para se deixar esvair em lágrimas e afundar em um lago de autopiedade. Naquele instante tinha que agir.
— Ele prometeu me ajudar... Ele prometeu me ajudar... — ela repetia como se rezasse, ao chegar à porta dos aposentos do amigo.
Deu três batidas à porta e aguardou.
— Vá embora! — gritou Jim lá de dentro.
Angustiada, ela ignorou a ordem dele e insistiu.
— Sou eu, Jimmy, Aredhel... — disse com a voz trêmula.
Em alguns instantes a porta se abriu e um James meio trôpego surgiu. Ébrio e sensível à claridade, ele mal conseguia fixar foco no rosto dela. Meneou a cabeça e tentou firmá-la, apesar de ter a sensação de que ela iria tombar para o lado e cair de seu pescoço.
— Ah, você... — foi meio ríspido.
— Jimmy... Preciso falar com você — ela começou toda nervosa. — Eu preciso de sua ajuda, o Loki...
— Ah! O Loki! — interrompeu-a. — Sempre ele... — bufou. — O que foi que ele fez agora? — olhou-a dos pés a cabeça — Pelo que vejo ele não a agrediu dessa vez... Não ainda — foi ácido. — Ele gritou com você? Ameaçou de me mandar embora daqui? Porque se for isso, ele estaria me fazendo um favor!
Aredhel o fitou pasma, nunca tinha visto o amigo bêbado.
— Jim.. — murmurou.
— Não... — ele voltou a ignorá-la e levou uma das mãos ao queixo, fingindo pensar sobre o assunto. — Deve ser um novo plano mirabolante que provavelmente arruinará a felicidade de alguém ou custará a vida de alguns. Mas para ele tanto faz, não é? Afinal ele não se importa! — gritou. — Estou certo? Se estiver, me avise, pois não estou disposto a morrer e muito menos deixá-lo sacrificar um de meus filhos. Já perdi uma esposa. Estou cansado de perder — disse com amargura.
James a encarou por um tempo e, embriagado, não percebeu o estado dela. Cheio de rancor e mágoa, ele só enxergava o próprio sofrimento.
— Por que veio? — perguntou de repente. — Sejamos francos... Não importa o que ele faça, passado algum tempo você vai perdoá-lo. Como sempre faz! — enfatizou. — Eu estou farto de ver essa história se repetir — balançou uma das mãos. — Você vem, se queixa dele e depois o perdoa. Ele te agride física e verbalmente e depois fica tudo bem. Você acredita que ele vai mudar, mas ele nunca o faz. Até quando você vai cair nessa? — viu-a deixar escapar um soluço — Ele não vai mudar nunca! — cerrou os olhos com força. — Aredhel — ele a segurou pelos ombros —, você nunca enxerga nada e nem ninguém além dele! — sacudiu-a de leve. — Poderia estar bem hoje. Você poderia estar feliz ao lado de outro — franziu o cenho e a largou. — Teria a paz que tanto busca.
Aredhel baixou os olhos e mais lágrimas desceram por seu rosto. Não culpava o amigo por lhe dizer tais verdades.
— Se bem que tanto faz... — Jim continuou meio pensativo. — Hoje, mesmo que quisesse voltar atrás e largá-lo, não teria como. Não sem custar a vida de alguém. Você nem teria para onde ir. Ainda mais desse jeito — olhou para a barriga dela. — Onde se esconderia? Ele já foi até o inferno atrás de você. O ego dele jamais a deixaria partir e...
No final do corredor Jim avistou Hela parada a olhar para eles. Um guarda jovem de cabelos castanhos claros estava ao lado dela e tagarelava, gesticulando animadamente, mas ela parecia não dar muita atenção. James trincou os dentes com raiva e a amargura tomou conta de si o deixando cego.
— Sabe, Aredhel... — prosseguiu ainda com os olhos em Hela que seguia adiante, sumindo no corredor na companhia do soldado. — Acho melhor nos afastarmos por um tempo. Nossa amizade e proximidade só nos trouxe problemas ultimamente — passou as mãos pelos olhos. — Primeiro o ciúme doentio de Loki, depois Hela... — suspirou. — E agora que sua filha não me quer mais, creio que Loki não me dará trégua. Talvez todo esse pesadelo recomece e...
James parou e voltou os olhos para ela. Aredhel soluçava desconsoladamente. Olhou longamente para a amiga e ergueu a cabeça, fitando o teto dourado do palácio. Um nó se formou em sua garganta e toda a frustração que sentia escapou de seus lábios em forma de desabafo.
— Deus, como eu queria que vocês duas fossem fisicamente diferentes! — ele soluçou — Só pode ser uma maldição! Um castigo! Maldito o dia em que conheci...
Ele não conseguiu terminar. Jim levou ambas as mãos a boca e manteve o olhar fixo nas linhas das runas que decoravam o teto. Lágrimas desceram por seu rosto. Sabia que não acreditava naquelas palavras que proferira. Não se arrependia de ter conhecido Aredhel e muito menos Hela. Nem mesmo se ressentia de ter sido apaixonado por sua melhor amiga. Fora graças a esse amor que ficara em Asgard, casara com Greta, tivera seus filhos e conhecera o amor de sua vida: Hela. Aquele homem amargurado não era ele. James não se reconhecia. Jamais falaria essas coisas a alguém, muito menos à Aredhel. “O que o amor nos faz fazer? O amor nos torna monstros... Não sou diferente de Loki”, concluiu ele. Percebeu que estava descontando suas frustrações na amiga.
— Aredhel, me perdoe... Eu realmente não quis dizer essas coisas e... — ele baixou os olhos para encará-la, mas ela já não estava lá.
James olhou ao redor e saiu aos tropeços pelo corredor, chamando por ela. Desajeitado por conta da bebida, alcançou as escadas desequilibradamente. Ele escorregou no primeiro degrau, caiu e bateu a cabeça contra a parede, perdendo a consciência. Rápido um servo e um guarda vieram em seu socorro.
Já bem distante dali, seguia Aredhel a passos rápidos. Usando o último fio de racionalidade, ela ficou invisível e, com o rosto banhado em lágrimas, seguiu rumo à saída do palácio.
— Ele não vai tirá-lo de mim... Não vai... Eu só tenho você... Só você... — ela repetia nervosamente enquanto afagava a própria barriga e ouvia os ecos das palavras de Jim em sua cabeça.
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