Asgard Dirty Secrets
28 You won't see me fall apart ’cause I've got an elastic heart
Notas iniciais

Trinta e nove anos antes...
Aredhel andava nervosa de um lado para outro, em um dos muitos quartos de Valhala. Era final de tarde e ela passara o dia inteiro sem comer. O nervosismo fazia seu estômago revirar.
Os guardas apareceram e a algemaram, informando que finalmente veria Odin. Ela engoliu em seco. A hora de enfrentar as consequências por ter apoiado Loki havia chegado.
No caminho até o salão do trono ela rememorava sua trajetória até ali. Aredhel não se arrependia de ter escolhido Loki. Gostava dele e o compreendia. Faria tudo exatamente igual: tentaria convencê-lo a mudar de ideia e evitar aquelas mortes. Jamais deixaria a S.H.I.E.L.D. saber o que ela sabia e com isso arriscar a vida de Loki.
Ao chegar ao salão, Aredhel, apesar de temerosa, ergueu a cabeça e entrou de forma solene. Frigga e Odin a aguardavam. Ela fez uma reverência e aguardou a definição de seu destino.
— Então você é Aredhel, a vidente de “outra Midgard”? — Odin a encarou seriamente.
— Er... — Aredhel hesitou, imaginando que Thor ou Loki (ou ambos), já haviam falado sobre ela. Decidiu prosseguir com a mentira. — Sim, sou.
— E você não sabe como veio parar aqui? — perguntou com certa ironia.
— Não — foi sincera.
— Uma mulher que pode ver o futuro, mas que não conseguiu visualizar como e porque foi parar em Midgard... — ele a provocou.
— Não posso ver meu próprio futuro — esquivou-se.
Odin ponderou por alguns instantes e prosseguiu.
— Se sabia tudo o que Loki faria, por que se ofereceu para ajudá-lo?
Aredhel olhou para Frigga e depois voltou a encarar Odin.
— Porque era a única forma de tentar evitar tudo aquilo. Não tenho superpoderes. Então tudo o que eu poderia fazer era tentar persuadi-lo — explicou.
— Se queria evitar a dominação de Midgard, por que não se juntou aos outros humanos? — ele a instigou.
— Eu não poderia arriscar... Não queria que isso custasse a vida de Loki — Aredhel corou e baixou a cabeça. — Eu quero o bem dele... — disse baixinho.
Frigga franziu o cenho e olhou para Aredhel com compaixão. Alguém, além dela, se preocupava com seu filho caçula e zelara por ele. Odin, por sua vez, ficou furioso com a resposta da jovem. Como havia imaginado, a vidente tinha se utilizado de suas habilidades em prol de interesses próprios. Julgara que Aredhel se deixara envolver por seu filho e decidira poupá-lo em vez de proteger inocentes.
— Então acredita que a vida de Loki tem valor maior que a de centena de humanos? Acha que sua decisão foi justa? — rosnou.
Aredhel ficou boquiaberta. Ela jamais havia pensado dessa forma. Ao se lembrar do massacre que assistira, sentiu a culpa lhe assolar. “Eu tenho tanto sangue nas mãos, quanto Loki”, ela lamentou em pensamentos.
— Nunca confiei em videntes. Vocês sempre manipulam a situação a favor de seus interesses — Odin continuou severamente. — E agora você fez o mesmo! Escolheu Loki em detrimento do sacrifício de inocentes! Você não passa de uma manipuladora tão egoísta quanto ele! — vociferou.
Ela permaneceu cabisbaixa, sentindo vergonha de si mesma. Começou a temer ser condenada à morte.
— Devo reconhecer que buscou remediar a situação ao ajudar Thor e os demais humanos a fechar o portal — ele prosseguiu. — Entretanto, não tenho certeza se fez isso para salvar a si própria, em vez de realmente estar preocupada com a dominação de Midgard. Tem algo a dizer em sua defesa? — questionou friamente.
— Eu realmente tentei evitar mais mortes ao revelar a Thor como fechar o portal... Mas não tenho como provar minhas reais intenções... — murmurou Aredhel com tristeza.
Frigga fez menção de dizer algo, mas Odin ergueu a mão.
— O seu lugar não é aqui, tampouco em Midgard ou qualquer outro mundo que eu conheça — ele começou. — Ainda não descobri de onde você realmente veio e muito menos como enviá-la de volta. Tudo o que sei é que já tomei minha decisão.
A jovem de cabelos escuros respirou fundo e ergueu a cabeça. Ainda que tivesse medo, enfrentaria sua pena.
— Declaro você, Aredhel, culpada de ser cúmplice de Loki em seu plano maléfico de subjugar Midgard — revelou. — E condeno você à prisão perpétua ou a permanecer presa até que se encontre uma forma de enviá-la ao seu mundo — sentenciou. — Saiba que você só não foi condenada à morte por ter o benefício da dúvida sobre seu arrependimento.
Frigga deixou escapar um gemido de pesar. Benevolente, a rainha de Asgard, se apiedara da moça. Aredhel ficou estática e naquele instante teve a certeza de que jamais veria Phillip e sua família novamente. O que a jovem não sabia, é que começara ali algo mais longínquo que sua estada na prisão. Iniciara ali, a sua permanência perpétua ao lado de seu futuro marido. Aredhel seria eternamente refém do amor de Loki e faria tudo por ele.
≈≈
Fugitiva. Era como Aredhel se sentia naquele momento. Ela continuava caminhando nervosamente, invisível, pela ponte que lembrava um arco-íris e que cruzava quase todo o reino. Um vento gelado soprou e ela sentiu as primeiras gotas de chuva molharem seu rosto.
— Ninguém vai tirar você de mim... — murmurou determinada, segurando a grande barriga.
Ela tomou uma das saídas da via e prosseguiu se esgueirando por aquela paisagem de construções grandiosas e douradas. Embora soubesse que não poderia fugir para sempre de seu marido, ela decidiu pegar o caminho que iria para floresta, decidida a manter distância da vila e de qualquer sinal de vivalma. Esconder-se-ia dele pelo tempo que pudesse. Criaria o filho sozinha, mas não deixaria que o tirassem dela.
Detentora de uma baixa autoestima, a rainha de Asgard, imaginava que Loki mantivera toda aquela farsa para garantir ficar com o filho que ela esperava. Além disso, mesmo dispondo de uma substituta para colocar em seu lugar, Aredhel sabia que o marido não a deixaria livre. “O ego dele jamais a deixaria partir”, lembrou-se do que James dissera.
“Nós nunca vamos nos separar! Você nunca irá me abandonar! Antes prefiro ver você morta!”
Estava presa a ele. Soberano dos nove reinos, seu poder subjugava qualquer vontade, inclusive a dela, se assim quisesse. No dia em que disse sim e se tornou esposa de Loki, implicitamente, abrira mão de sua liberdade. Loki era possessivo e obstinado, não abria mão do que julgava lhe pertencer.
“Você me deixar? Seria mais fácil pedir que sua alma a deixe.. Estamos unidos em um círculo indissolúvel, nós dois...”
Durante anos Aredhel teve certeza do amor que o marido nutria por ela. Especialmente depois do que leu na mente dele no período em que podia ouvir pensamentos. Viu a pureza e a grandeza dos sentimentos que ele tinha, bem como toda a culpa e remorso que também carregava. Por muito tempo isso lhe deu segurança e também a atormentou. Sentia-se amada, mas se compadecia pelos sofrimento dele.
Entretanto, atormentada pelas agruras que passou nos últimos meses, tudo o que ela imaginava era que aquele amor havia findado. Ela conhecia bem com quem tinha se casado. Sabia que Loki era um excelente mentiroso. Ele havia mentindo tantas vezes para ela, que poderia facilmente tê-la enganado só para garantir a segurança do filho que carregava.
Uma pontada a fez arfar e ela se apoiou em uma árvore.
— Não... Agora não... — ela disse entredentes, percebendo que estava entrando em trabalho de parto.
Ela prosseguiu, tomando o caminho que margeava um rio. Enquanto as contrações vinham, as afirmações e acusações que ouvira ao longo dos anos assombravam seus pensamentos sem trégua.
“Eu sei que o ama e que ele ter lhe matado foi um acidente! Eu estava lá e vi tudo! Mas o que aconteceu foi por conta desse ciúme doentio dele! Ele estava decidido a matar Thor! Vi o quanto ele sofreu com sua morte, mas não sei se era apenas remorso. Loki fala de você de forma obsessiva. Como se você fosse propriedade dele. Acho que vocês confundem amor com posse! Se ele te amasse confiaria em você! Acreditaria no amor que sente e dedica a ele! E se um dia ele se cansar de você? E se você um dia quiser deixá-lo? Crê que ele aceitará? E mesmo depois do que aconteceu, continua ciumento! Se ele a deixou partir, deveria pensar nisso. Talvez essa seja sua única chance de deixá-lo. Você merece ser feliz, Aredhel. Merece alguém que lhe ame e não uma pessoa que a possua como um troféu!”
“Por amor, você está sempre coadunando com tudo o que ele faz!”
“Você sempre fez tudo por ele! Se doa por inteiro, Ared. E o que ganha com isso? Só a desconfiança dele!”
“James sempre esteve entre nós todos esses anos! Intrometendo-se em nossas vidas! E a presença dele era tão constante que não duvido que um dia eu descubra que um de nossos filhos não seja meu!”
— Pensei que seríamos um só pelo resto da vida... Por que não consigo conquistar sua confiança? Seu amor? — ela lamentou.
“Escute o que estou lhe dizendo. O maior erro de sua vida foi ter se casado com ele.”
“Você errou feio, minha irmã. Acreditou que por amor ele mudaria? Você foi tão tola! As pessoas não mudam, muito menos vilões!”
“Eu disse que esse homem arruinaria a sua vida, Aredhel!”
“Em que mundo fantasioso você vive? Achava que tinha encontrado o homem dos sonhos? Você é uma sonhadora!”
“Ele é um psicopata! Mas você é uma idiota e não percebe a verdade, mesmo que esfreguem em sua cara! Só sabe arranjar problemas e atrapalhar a vida dos outros! É uma inútil! Ainda vai arranjar problemas para esse seu amigo! Já pensou se o doente de seu marido sabe que ele lhe ajudou a fugir? Será mais uma morte para você carregar nas costas! Como se já não bastasse carregar a morte de Phillip e todas aquelas pessoas que seu marido assassinou aqui na Terra!”
“Deve ser um novo plano mirabolante que provavelmente arruinará a felicidade de alguém ou custará a vida de alguns. Mas para ele tanto faz, não é? Afinal ele não se importa! Estou certo? Se estiver, me avise, pois não estou disposto a morrer e muito menos deixá-lo sacrificar um de meus filhos. Já perdi uma esposa. Estou cansado de perder... Por que veio? Sejamos francos... Não importa o que ele faça, passado algum tempo você vai perdoá-lo. Como sempre faz! Eu estou farto de ver essa história se repetir. Você vem, se queixa dele e depois o perdoa. Ele te agride física e verbalmente e depois fica tudo bem. Você acredita que ele vai mudar, mas ele nunca o faz. Até quando você vai cair nessa? Ele não vai mudar nunca! Aredhel, você nunca enxerga nada e nem ninguém além dele!”
“Eu já estou farto de você...”
“Você não é nada além de minha esposa. Ninguém além de alguém com quem eu me deitava todas as noites!”
As lembranças amargas de sua vida também a soterravam.
“Lembro que quando criança eu sempre imaginava como minha vida seria... Eu me imaginava podendo ter todas as habilidades e qualidades que quisesse. Como se eu pudesse simplesmente pegá-las em uma estante, como faço com os livros. Mas conforme o tempo foi passando, essas qualidades e habilidades foram diminuindo. Hoje, pouquíssimas dessas qualidades restaram em mim. E todas as possibilidades que eu encarei, as pessoas que eu poderia ser, foram se reduzindo a apenas algumas. Até que finalmente reduziram para uma, para quem eu sou. E o que você ouviu na sala é quem eu sou na visão de minha família.”
“Aredhel é um erro!”
“Eu nunca soube o que meu pai esperava de mim. Passei a vida tentando ser o que ele queria que eu fosse. Mas parecia que todo passo que eu dava era outro erro para ele. Parecia que tudo o que ele achava que eu seria ia desmoronando com os anos.”
“Você é burra! Burra!”
“Você está sempre fazendo tudo errado!”
“Pois o que aconteceu aqui hoje, tudo foi culpa sua!”
“Eu não devo ser uma boa mãe... Pois... Pois, meu filho parece não gostar de mim... Ele virou lobo e me mordeu. Depois mandou aranhas me atacarem...”
“Narfi queimou seu vestido só porque você o obrigou a vestir uma roupa que não queria?”
“Ninguém sabe como é ser sempre a má da história. Ser a triste, a rejeitada, sentir-se derrotada e solitária.”
“Sieg, eu odeio me parecer com ela! Gostaria de ser diferente de minha mãe...”
“Cale-se, sua vagabunda!”
“Eu não consigo esquecer o que você já foi capaz de fazer! É irremissível! E se a mãe o perdoou, então ela é mais tola do que um dia eu imaginei que fosse!”
“Mamãe é apenas uma humana! Sou muito mais útil que ela! Mamãe seria um peso para o senhor!”
“Mãe, agora não! Estou ocupado!”
“Estou cansada de viver sem esperanças e perdida. Eu queria encontrar meu lugar. Um lugar ao qual eu me encaixe, ao qual eu pertença.”
“A senhora está atrapalhando! Estamos ensaiando uma cena secreta da peça de teatro. Não pode ficar aqui!”
“Acho melhor nos afastarmos por um tempo. Nossa amizade e proximidade só nos trouxe problemas ultimamente.”
“Deus, como eu queria que vocês duas fossem fisicamente diferentes!”
“Só pode ser uma maldição! Um castigo! Maldito o dia em que conheci...”
Aredhel passara a vida mendigando o amor, o carinho e a atenção de homens que a rejeitaram de alguma forma. Primeiro o desprezo de Wilson e William. Agora revivia isso com Loki, James e os filhos.
— Só posso ter algo errado... É tudo culpa minha... Eu sou um erro... Uma maldição... Só atrapalho... — ela disse em um fio de voz — Seria melhor se eu não... — meneou a cabeça tentando afastar as ponderações sombrias que lhe vinham à mente.
Quase quarenta anos depois, Aredhel ainda lutava por um pouco de paz, pela chance de mostrar sua utilidade e de provar que não era um erro. Aquilo parecia não ter fim. Mas não se deixaria abater, nem tão pouco sucumbiria diante das dores e cicatrizes que carregava em seu coração. Ela se esquivaria de toda e qualquer lembrança afiada que ameaçasse abrir velhas feridas. Mesmo sozinha, batalharia até o fim pelo filho que esperava. Não aceitaria aquela derrota tão facilmente.
— Eu sei que posso sobreviver a isso. Já passei por tanta coisa. Tantas provações... Vou fazer tudo o que puder — foi firme. — Não posso fracassar sempre...
O pássaro havia conseguido fugir da gaiola e agora precisava garantir que continuaria livre.
≈≈
No palácio, Loki andava apressadamente em direção à saída do palácio. Estava com pressa e precisava chegar à Bifrost. No entanto, ao virar a esquina, esbarrou com Hela e um guarda que a acompanhava.
— Papai, que susto! — a jovem levou a mão ao peito. — Estava lhe procurando. Este é Týr, ele estava a sua procura — apresentou.
— Týr Vídarr, filho de Völund — o rapaz fez uma reverência. — Eu vim com minha mãe, mas me perdi dela e...
— Sei, sei... Eu já falei com ela — Loki balançou a mão impaciente. — Então você é o filho de Völund — olhou longamente para o jovem. — Venha comigo. Estou com pressa. Conversaremos no caminho.
— Como o senhor quiser, majestade — anuiu. — Princesa — sorriu e curvou-se.
Hela observou os dois seguirem em direção à Bifrost.
≈≈
Na sala de cura, James abriu os olhos e fitou o teto do local. Confuso, olhou na direção das janelas e percebeu que anoitecia. Sentiu uma pontada em sua testa e tateou um curativo nela. Demorou algum tempo para recordar o que tinha acontecido e porque fora parar lá.
— Aredhel! — sentou-se de supetão na cama.
O ator levou ambas as mãos aos cabelos e se desesperou ao se lembrar da forma como tratara a amiga. Ele percebeu o quanto fora leviano ao dizer todas aquelas coisas a ela.
Jim tinha a consciência de que Aredhel nunca pedira para ele ser seu confidente e muito menos para permanecer em Asgard. A vida de “friendzone” que ele vivera por anos, fora escolha dele. Ele que decidira viver esperando por um amor que nunca seria correspondido.
Ainda recordava de tê-la encontrado chorando no jardim, sentindo-se culpada pelas mortes que Loki causara nas empresas envolvidas nas produções dos filmes. Insistira muito para que ela finalmente se abrisse com ele. E quando Loki o fora buscar para interceder por ele sobre a morte de Phillip, Jim não imaginava que ali começava uma amizade que se intensificaria tanto nos anos seguintes.
Mesmo não querendo interferir no relacionamento do casal, James não estava disposto a abrir mão do pouco que conquistara. Lutara contra o ciúme de Loki pela amizade que tinha com Aredhel e impunha sua presença. Defendera com unhas e dentes a mulher que amava do ciúme do próprio marido. Sentimento esse que ele mesmo despertava e alimentava, ainda que sem querer.
Existia uma troca afetiva entre ele e a amiga. Ela tinha nele o irmão que sempre sonhou e ele recebia o carinho e o amor dela. Não era exatamente o tipo de amor que ele desejava no início, mas durante anos recolheu e se alimentou com gosto daquelas migalhas. E quando o que nutria por ela virou apenas um sentimento fraterno e puro, um encontrou no outro o apoio e a única ligação que restara com suas vidas pregressas. E mais do que nunca, passaram a viver como se fossem irmãos de fato.
Loki é quem sempre fora um grande problema para Jim e não Aredhel. Além de ser seu invencível adversário na disputa pelo coração dela, o “deus” da trapaça usava o ator toda vez que lhe convinha. Ele fora responsável por boa parte das perdas de James, inclusive a morte de sua esposa, mas sempre o convencia a embarcar em suas tramoias. Loki detestava a presença ameaçadora que Jim representava a seu casamento, mas manipulava facilmente o ator tanto quanto todos ao seu redor.
Não havia injustos e nem injustiçados naquele estranho relacionamento a três.
James sabia que se a amizade dele com Aredhel atrapalhava a vida alguém, com certeza era a dela que pagara o maior preço. Ainda que não fosse responsável pelos atos de Loki ou tampouco tivesse pedido tamanho sacrifício, se sentia culpado pela vez em que Aredhel quase fora agredida e violentada pelo marido. Tudo porque ela arriscara a própria vida para lhe dar a longevidade e vê-lo feliz ao lado de Greta.
Sentia que devia muito a ela. Aredhel lhe doara bem mais que o amor fraterno, a nova vida em Asgard que lhe oferecera e os filhos que ela o ajudara a criar. Ela sacrificara seu casamento, sua paz e saúde mental, apenas para lutar uma batalha que não era sua: reconciliar ele e Hela. A rainha travara uma verdadeira cruzada ao longo daqueles anos o defendendo e se esforçando para que ele se adaptasse naquele reino. Agradecia através de atos a amizade que Jim lhe concedia. Fazia qualquer coisa por ele. Chegara a se oferecer em sacrifício para o marido, que acreditava não mais a amar, em troca da segurança do amigo e para ver o que esperava filho crescer.
Aredhel descera ao inferno por James e ele rejeitara a sua amizade, amaldiçoando o dia que a conhecera. O remorso o sufocou. Sempre criticara Loki por sua mania de descontar suas frustrações na esposa e no final ele acabara fazendo o mesmo. “O que me faz diferente de Loki?”, condenava-se em pensamento.
— Meu Deus... Fui tão ingrato e injusto com ela... — Jim murmurou arrependido, enquanto se levantava da cama e seguia para fora do lugar.
Cheio de culpa, o ator vagou pelo palácio procurando pela amiga em todos os cantos. Foi até a Bifrost e como Heimdall não conseguiu ver onde ela estava, concluiu que Aredhel estava se escondendo. Angustiado, mas ainda mantendo as esperanças de que a amiga poderia estar no palácio, James adentrou o salão principal. Encontrou Narfi, Igor, Váli, Siegfried, Sigrid e Einmyria ainda arrumando o local.
— Vocês viram Aredhel? — inquiriu em voz alta a todos os presentes.
— Não, tio Jim... — disse Sieg franzindo a testa.
— O combinado era o senhor ficar com ela — Igor parecia confuso.
— Ainda não está na hora... O pai ainda não chegou. Foi buscar a tal surpresa na Terra — informou Váli. — O senhor se machucou? — indicou o curativo na cabeça de Jim.
— Se ela não está com o senhor... Onde ela está? — Einmyria levantou a dúvida.
Os jovens trocaram olhares e voltaram a encarar Jim.
— Aredhel sumiu... — ele revelou. — Eu a procurei por toda parte e não a encontrei.
— Como assim, sumiu? — indagou Narfi surpreso.
— Meu Deus! Será que aconteceu alguma coisa? — Sigrid levou as mãos ao rosto.
— Para onde ela iria? — preocupou-se Váli.
— Para onde iria quem? — a voz de Loki ecoou no local.
O rei de Asgard entrou acompanhado de Týr, o qual carregava algumas caixas de uma famosa loja de doces alemãs de Midgard. Antes que alguém respondesse a pergunta dele, Hela, Eisa, Rebecca, Fenrir, Wagner e Kat entraram acompanhados pela equipe de teatro. Logo atrás vieram Thor, Sif, Magni, Modi, Ullr, Fandral e Volstagg.
— Então, está tudo pronto para a surpresa da pequena? Onde está a anfitriã? — sorriu Thor.
Imediatamente todos olharam na direção de James.
— Ela desapareceu... — ele murmurou sentindo um nó se formar em sua garganta. — E Heimdall não conseguiu localizá-la.
— O quê? — Loki quase gritou.
Um burburinho tomou conta do salão e rapidamente Loki exigiu explicações.
— Era para ela estar com você! Onde você estava?
— Eu passei quase a manhã toda no meu quarto. Antes do almoço ela me procurou para falar de você... — Jim indicou Loki — Estava nervosa e chorava...
— O que foi que o senhor fez a ela agora? — rosnou Váli para o pai — Por isso Heimdall não a vê. Ela fugiu e está se escondendo do senhor!
— Eu? — indignou-se Loki — Não fiz nada! Eu não a vi o dia inteiro!
— Não comecem vocês dois! — rosnou Einmyria. — Era só o que faltava! Mamãe desaparecida e vocês brigando!
— O que a mãe disse, tio Jim? Ela e o pai discutiram? — Narfi insistiu.
— Bem... Eu... Eu estava bêbado... — James meneou a cabeça envergonhado. — Falei algumas besteiras e acabei não a deixando explicar o que queria. Quando dei por mim, ela já tinha ido embora... — foi evasivo. — Fui atrás dela, mas tropecei e acabei caindo na escada. Acordei a pouco tempo na sala de cura.
Hela deixou escapar um gemido, mas logo se recompôs. Kat fez um afago no braço do pai.
— O que você disse a ela? — Loki agarrou o ator pela roupa. — Aposto que a envenenou contra mim!
— Basta! — Thor interveio, separando os dois. — Não adianta ficarmos aqui discutindo o que houve ou o que foi dito! Achar culpados não ajudará a encontrá-la. Temos que ir atrás da pequena!
— Tio Thor tem razão, pai — Fenrir afastou o pai de James.
— Acredito que deveríamos nos dividir e organizar uma busca, meu rei — sugeriu Týr.
Todos anuíram, dividiram-se em duplas e se espalharam pelas redondezas. Týr, tendo sido nomeado o novo chefe da guarda de elite, liderou os soldados na busca.
Loki chegou até o estábulo e montou em Sleipnir. James montou seu cavalo e o acompanhou.
— Depois que a encontrarmos, teremos uma conversa — o rei o encarou seriamente e partiu.
≈≈
A chuva se intensificara. Encharcada, os dentes de Aredhel batiam descontroladamente por conta do frio. Ela sabia que parte daquela sensação se devia ao bebê e por este motivo continuava em movimento. Se parasse, poderia morrer de hipotermia. Entretanto, estava cada vez mais difícil prosseguir. O tempo entre as contrações estava diminuindo e a intensidade da dor só aumentava.
Ela olhou ao redor e percebeu que estava perdida. Não avistava um abrigo sequer para se refugiar da chuva.
— Você não pode nascer agora... — ela trincou os dentes, contendo um gemido de dor. — Preciso continuar... — deu alguns passos e uma nova contração a fez arfar e se apoiar em uma árvore.
Sentiu um líquido quente descer por suas pernas e percebeu que sua bolsa rompera.
— Oh, Deus... Não... — gemeu.
≈≈
Longe da vila e de Valhala, Loki e James já estavam cavalgando sem sucesso a quase uma hora. A noite dificultava a visão e a chuva os encharcara até os ossos, mas eles prosseguiam. A preocupação e o desespero dominavam a mente de Loki, enquanto a culpa consumia Jim.
Margeando um rio, os dois, já com a voz rouca, chamavam por Aredhel quando ouviram o grito de uma mulher. Loki disparou na direção de onde vinha, sendo seguido por Jim.
— Aredhel! — gritou Loki ao reconhecer a esposa recostada em uma árvore.
Ambos os cavaleiros apearam de seus cavalos e correram na direção dela. Loki a tomou nos braços e ficou assustado com sua temperatura.
— Aredhel, meu amor... Ela está congelando... — abraçou-a.
Aredhel murmurava palavras confusas e parecia oscilar entre consciência e a inconsciência. Ela voltou a gritar e o marido ergueu rapidamente seu vestido e constatou que estava em trabalho de parto.
— O bebê está nascendo... Não vai dar tempo de retornarmos... O que faremos? — afligiu-se Loki.
— Eu vou aquecê-la, enquanto você faz o parto... — prontificou-se James. — Não temos alternativa.
Loki anuiu e os dois começaram a se preparar. Eles a deitaram no colo de Jim e Loki flexionou as pernas dela. Ele retirou a capa que vestia a fim de usar para acomodar o bebê assim que nascesse. James pôs uma das mãos sobre a testa de Aredhel e começou a usar a magia para aquecê-la.
— Vamos, meu amor, empurre... — pediu Loki.
— Perdoe-me, Aredhel... Perdoe-me, por favor... — sussurrou James, pegando uma das mãos dela e apertando de leve.
Novas contrações vieram e Aredhel gritou, empurrando instintivamente. Confusa, ela ouvia ao longe a voz de Loki a incentivando, mas mal conseguia compreender. Abriu os olhos por alguns instantes e viu o rosto de seu amigo.
— Jimmy... — disse quase inaudível.
Um sorriso fraco se desenhou em seus lábios. Seu amado amigo estava ao seu lado. Mas a alegria de vê-lo ali logo se desfez. Ao inclinar a cabeça, ela reconheceu Loki e se desesperou.
— Por favor... Não deixe que ele o tire de mim... — ela implorou apertando com força a mão de James. — Não... Não... — voltou a fechar os olhos. Estava muito fraca pelo esforço.
— Vai ficar tudo bem, Aredhel... Eu prometo... — Jim disse com a voz embargada. — Empurre.
O trabalho prosseguiu de forma árdua, tal qual a chuva que continuava a cair e os fustigava sem dó. No breu frio da noite, tudo o que se ouvia eram os berros de Aredhel e os gritos de incentivos dos dois homens. Exausta, Aredhel já não tinha forças para empurrar, mas daria tudo de si. Traria aquela criança ao mundo, mesmo que fosse a última coisa que fizesse em vida.
Uma longa contração, acompanhada de um suspiro entrecortado de Aredhel, anunciou o nascimento do bebê bem no momento em que chuva se abrandava. Um longo silêncio se fez e apenas as gotas de chuva se chocando contra o solo ressoavam no ar.
Loki entreabriu os lábios e deixou escapar um gemido, chocado com o que via.
— Meu Deus... Ele está morto... — James murmurou com a voz chorosa.
A mão de Aredhel afrouxou-se e soltou a de James, se chocando contra a lama do chão. Esgotada, ela cerrou os olhos, perdendo a consciência.
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