Asgard Dirty Secrets

45 Te vejo errando e isso não é pecado, exceto quando faz outra pessoa sangrar


Notas iniciais
* Te vejo errando e isso não é pecado, exceto quando faz outra pessoa sangrar - Trecho da música "Na sua estante" da Pitty. Eu sei que mereço pedras pela demora, mas eu sempre volto para vocês. Infelizmente por conta de uma reforma que ainda não terminou aqui em casa, fiquei sem postar por meses. Peço mil desculpas e para compensar, trouxe um capitulo quilométrico... (os comentários eu respondo até o final do dia). Sobre o capítulo... Mais uma vez o título serve para o capítulo inteiro e não para uma situação específica. Todos nós cometemos e isso não é motivo para tanto alarde, exceto quando esse erro machuca alguém. E é sobre isso que o capítulo fala: erros que fazem outros sangrarem. Deixo aqui a reflexão: quem você já deixou sangrar por um erro seu? Boa leitura. PS: Devido ao horário que terminei de escrever (agora) e por livre e espontânea pressão, não deu para o Leo revisar antes de postar. Peço perdão pelos erros que encontrarem

O sussurro proferido por Lenwë acabou por despertar Hela. Ela abriu os olhos e encarou o jovem guarda com uma expressão confusa. Ainda estava sob o efeito do chá que tomara e tudo parecia estranho e desconexo. Seus braços doíam, mas não sabia o porquê.

— Onde estou? — a voz saiu baixa e sem força.

— No calabouço, princesa… — respondeu Len, ainda sem entender aquela cena.

— Calabouço… — ela murmurou aturdida.

— Não sabe como chegou aqui? — franziu o cenho.

Com dificuldade ela olhou ao redor e, aos poucos, sua memória dos recentes acontecimentos retornou.

— Ele descobriu tudo! — arfou. — Ness… — lembrou da amiga.

— O que tem minha noiva? — o rapaz fechou a cara.

Ela o encarou e enrugou a testa. Tentou firmar os pés no chão para aliviar a dor que sentia por estar suspensa pelos braços, mas suas pernas não lhe obedeciam.

— Você é o Lenwë? — indagou, assim que conseguiu raciocinar melhor. — Avise Ness… Eric já sabe tudo sobre nossa troca!

Aquela revelação a atingiu feito um soco. Ele sabia exatamente sobre o que ela falava. Afinal, havia proposto casamento a Ness logo depois dela lhe revelar sobre o plano maluco das duas e sua gravidez. De repente a morte misteriosa de sua amada noiva parecia mais macabra que imaginara. Len conhecia bem a fama cruel que Eric tinha, então fatalmente deduziu que não havia nenhum invasor no palácio. Eric havia matado Ness ao ter descoberto a farsa delas.

— Ele a matou… — Len murmurou com raiva.

— O quê? — a voz dela saiu trêmula.

— Eric a matou e a culpa disso é sua! — acusou.

≈≈

Freyja entrou toda austera no palácio de Alfheim. Por onde passava, sua beleza notória fazia guardas e serviçais pararem o que faziam, apenas para observá-la passar. Ela desfilou pelos corredores como se fosse moradora ou dona daquele local. Ao adentrar no salão principal, o fez de maneira também majestosa.

— Pensei que havia se esquecido de mim… — ela disse em um tom magoado, ao estender a mão a Eric.

— Eu jamais esqueceria de você… — ele se curvou e deu um beijo demorado no dorso. — Estava muito ocupado — fez sinal com a cabeça para seus guardas para que os deixassem a sós.

Assim que ouviu as portas se fecharem ele a beijou. Freyja correspondeu, mas rapidamente o empurrou de leve e o encarou séria.

— Ocupado… — repetiu a loira. — Imagino… — deu as costas para ele. — Estava se divertindo com seu novo brinquedinho. Pensei que enjoaria rápido daquela fedelha.

— Não fique enciumada… — puxou-a pelo braço. — Foi você quem rejeitou a proposta de casamento que lhe fiz. Eu precisava casar e produzir um herdeiro.

Ela bufou, soltou o braço e voltou a se afastar. Ele a olhou demoradamente e riu.

— Mas se você ainda me quiser… A proposta ainda está de pé…

— Eu já disse que não quero ser sua amante — balançou a mão.

— Não quero que seja minha amante. Quero que seja minha esposa.

— Isso é algum tipo de brincadeira? — ela o fitou impaciente.

— Não… — Eric deu um sorriso cínico.

— Mas você já é casado! Em dois reinos! — lembrou-o, exasperada.

— Mas logo serei viúvo… — o sorriso dele se alargou.

— Como? — pasmou-se.

≈≈

— Eisa sempre foi a sua “irmã” — Narfi fez aspas com os dedos — preferida. Só um idiota não perceberia você babando por ela — foi sério.

— Eu… Eu… — gaguejou Igor, nervoso.

— Você nunca teria chance… — meneou a cabeça.

O loiro trincou os dentes, mas nada disse.

— Ela sempre o viu como um irmão mais velho — lembrou o moreno.

— Mas não somos irmãos — rebateu sem pensar.

Narfi sorriu. Igor acabara de confirmar suas suspeitas.

— Vocês são meus primos… — Igor disse baixinho.

— Não faz diferença ser primo ou não, se ela nunca o enxergar como homem.

Igor passou a mão pelo rosto. Aquela conversa o estava deixando nervoso.

— Se eu entendi bem, ouvi Kat dizer que vocês estão namorando… — Narfi levou a mão ao queixo.

— Você não perde a mania de ficar ouvindo atrás das portas — rebateu Igor, entredentes.

— Não tente mudar de assunto… — balançou a mão. — Você não gosta dela, mas estão namorando em segredo. Você está com Kat porque o Wagner está namorando Eisa? — encarou o loiro. — Isso é algum tipo de vingança? — enrugou a testa.

Narfi viu o irmão engolir em seco e esse comportamento confirmou suas suspeitas. Igor não sabia o que dizer. Ele tinha a certeza de que mesmo que mentisse, Narfi perceberia. Fora encurralado, estava sem saída.

— Até onde você foi com ela? — Narfi agarrou o traje do loiro.

Sem coragem de admitir, Igor desviou o olhar. Aquilo foi o suficiente para completar os pensamentos de Narfi.

— Seu canalha! — o moreno deu um soco no irmão.

Igor cambaleou e levou a mão a boca. Estava sangrando.

— Você é um filho da puta! — esbravejou Narfi. — Como você pôde?

— Quem é você para me julgar? — retrucou limpando o sangue da boca. — Você faz pior com as servas!

Outro soco pegou Igor de surpresa e o jogou contra a parede. Novamente o loiro não se achou no direito de revidar. Sabia que merecia aquilo.

— Você merece apanhar mais! — o moreno respirou fundo. — Kat é como uma irmã para nós, seu idiota! — empurrou-o. — Quanto às servas, eu não as engano! Elas que se iludem achando que momentos de diversão vão levá-las a algum lugar! Nunca prometi nada a elas! Eu não as namoro! — deu ênfase à última palavra.

— Eu sinto muito… — saiu em um sussurro.

— Você sente uma ova! — sibilou. — Mas vai sentir… Vai sentir o peso da surra que eu vou te dar se continuar com essa farsa! Não quero estar na sua pele quando os demais descobrirem que você tem se aproveitado da inocência dela! E não me restrinjo apenas ao tio Jim e ao Wagner… Quando meu pai e meus irmãos souberem… Eles também vão querer a sua alma! — rosnou. — Papai verá que eu sempre estive certo ao seu respeito!

— Não! — Igor levantou o rosto. — Você não pode contar a ninguém! Isso acabaria com a Kat… Ela… Ela não merece passar por essa humilhação… — meneou a cabeça, envergonhado.

— Ela não merece continuar sendo usada por você! — redarguiu com raiva.

— Eu sei… Eu não a mereço…

— Não merece mesmo… E é exatamente por este motivo que você vai terminar com ela…

— Eu já pensei nisso, mas não quero magoá-la.

— Magoá-la? — forçou uma risada. — Você já a magoou! Já a maculou quando pôs as suas mãos imundas nela!

— Mas ela… Ela disse que me ama…

Narfi respirou fundo para não voltar a socar o irmão.

— Pois a faça odiá-lo! — berrou. — Porque é isso que você merece! Ser odiado! — cuspiu as palavras sobre ele. — Você vai terminar com ela ou, além da surra que eu vou te dar, revelarei tudo a ela e a meu pai!

Narfi deixou o local, bufando. Igor massageou o queixo dolorido e suspirou. O momento que vinha adiando tinha chegado: tinha que terminar com Katarina. Angustiado e sentindo dor no rosto, pensou em ir para seu quarto, mas uma serva apareceu à porta de seu escritório.

— Alteza… — a jovem ruiva fez uma mesura e olhou de soslaio para o final do corredor, onde Narfi desaparecia.

Igor deu um suspiro impaciente e indicou a cadeira à sua frente.

— O que houve?

— Mandaram eu vir aqui — disse contrariada e se sentou.

— Você é a Liv? — ele a viu anuir e fitou o documento que havia em sua mesa.

— Pediram sua transferência? — franziu o cenho. — Quem solicitou?

— Príncipe Narfi — respondeu sem humor.

Lentamente o loiro levantou os olhos verdes do papel e encarou a jovem.

— Por que motivo?

— Tanto faz… Vocês não acreditariam numa serva… — deu de ombros.

— Eu gostaria muito de ouvir a sua versão.

— Quer mesmo? — arregalou os olhos.

— Por favor… — incentivou-a.

No corredor, Týr, assim que vira a serva entrar, saiu de trás de uma pilastra. Passava pela frente do escritório quando ouviu o nome de Kat e resolveu ficar próximo à porta aberta, ouvindo a conversa.

O jovem Einherjar passou ambas as mão pelo rosto tentando controlar a vontade de espancar Igor até cansar. Se o loiro não fosse o filho adotivo do casal real e portanto, príncipe, o teria desafiado para uma luta. Contudo, o rapaz sabia seu lugar em Valhalla e que não podia vingar a honra e o coração partido da mulher que amava.

— Mas isso não vai ficar assim… Ela vai saber a verdade… Merece isso… — as palavras saíram baixas e carregadas de raiva.

≈≈

Siegfried ajeitou sua capa e fez um afago em seu cavalo.

— O que será que houve? — indagou Broomhilda.

— Não faço ideia — meneou a cabeça. — O bilhete só dizia que eles não viriam para a festa de noivado e que era para eu ir vê-los com urgência.

— Será que aconteceu algum acidente ou tiveram uma recaída?

— Acho improvável a recaída — o ruivo enrugou a testa. — Eles estavam muito bem ontem, não podem ter piorado tão repentinamente.

— Vá com cuidado — a jovem disse baixinho, vendo-o montar no animal.

— Eu vou… — deu um sorriso fraco. — E nada de comentar com a Sig. É um pedido deles e meu também. Ela esperou muito tempo por esse dia e não queremos que nada estrague a felicidade dela. Diga que meus pais vão se atrasar. Apenas isso.

— Está bem… — afirmou. — Eu cuidarei dela. Sou eu quem a ajudará a se vestir.

— Vai dar tudo certo — sorriu. — E daqui a um mês teremos um casamento duplo! O dela com Váli e o nosso.

Hilda corou e deu um sorriso tímido.

— Até, meu amor… — ele ergueu a mão e sacudiu as rédeas.

— Até… — acenou.

≈≈

— Achou alguma coisa, Nate? — indagou Nicolas, enquanto vasculhava o closet de Myria.

— No banheiro, nada… — murmurou se recostando à porta do closet.

— Então procure em outro lugar! — sibilou, impaciente. — Precisamos encontrar, sem isso não podemos sair daqui sem passar pela Bifrost. Dizem que aquele grandão lá vê tudo. Não temos como passar com a Myria.

— Mas que pressa… — resmungou.

— Temos que ser rápidos, Nate! Ela pode acordar ou alguém aparecer! Por que você demorou tanto?

— Eu estava entregando a encomenda do Narfi e me perdi na volta… Já viu o tamanho dese lugar? — bufou. — Tem certeza de que está aqui? — revirou os olhos.

— Tenho! Ela disse que tinha guardado essa tal “água do lago”. Falou que foi a mãe que deu.

— Aredhel? — o outro arqueou a sobrancelha.

— Sim… Mas que intimidade é essa com minha sogra? — o moreno crispou os lábios. — Nem eu a chamo assim. Olhe daquele lado — apontou.

— Queria que eu chamasse ela como? Vossa majestade? Eu nem sou desse reino. Além do mais, foi ela mesma quem disse para chamá-la pelo nome — Nate deu de ombros e foi revirar o outro lado.

Nick olhou da namorada desmaiada para o amigo e ponderou por alguns instantes.

— Eu jurava que você não me acompanharia até aqui naquela primeira vez.

— Por que não viria? — o loiro olhou-o de soslaio.

— Bem… Você sabe… Por causa dela… — ergueu os ombros.

Nate franziu o cenho.

— A Natasha… — esclareceu Nicolas.

— Ah… — disse sem muita emoção e voltou a procurar a garrafa. — Isso é uma rixa dela com eles. Eu não tenho nada a ver com isso.

— Bem, eu sei. Mas ele era seu pai e seus irmãos e a Natasha culpam eles pela morte dele, pela depressão de sua mãe e por ela ter se…

— Eu era apenas um bebê — o interrompeu, ainda de costas. — Eu praticamente não o conheci e também não sei muito sobre o que realmente aconteceu. Apenas sei a versão que a tia Nat conta. O que levou a minha mãe a fazer… — respirou fundo — … aquilo, foi o egoísmo dela! Ela não pensou em nós. E como eu já disse, é assunto da tia Nat com eles.

— Entendo… — murmurou o moreno.

— Eu até gostei de sua sogra — brincou. — Ela é simpática e até bonitinha. Nem parece ter idade para ser mãe da Myria — riu.

— Não deixe meu sogro te ouvir falando desse jeito… Meu pai diz que ele é doente de ciúmes.

— Olha quem fala… — o loiro crispou os lábios. — Vocês dois são parecidos. Ciumentos e esquentadinhos. E por falar em esquentadinho... Cara… Isso vai dar merda — afastou alguns vestidos. — Einmyria vai ficar furiosa com você.

— Eu me resolvo com ela… — retirou algumas caixas e encontrou uma garrafa. — Deve ser essa!

— Droga… Eu queria ficar para o jantar… — reclamou o outro.

— Pois então fique… — Nick bufou impaciente. — Hum… — ponderou momentaneamente. — Talvez seja até melhor que fique. Se todos sumirmos logo perceberão o sequestro e tudo que não quero é ver aquele meu sogro perturbado indo atrás de mim.

— Você se esqueceu de seus cunhados — alertou.

— Váli e Fenrir entenderão e Narfi não se meteria no assunto — disse despreocupado.

— Se você diz… Eu não aceitaria que minha irmã fosse levada contra sua vontade… Mesmo que fosse por meu amigo.

Nicolas fez uma careta.

— Você fica para o noivado — afirmou, por fim. — Se perguntarem por nós, diga que estamos no jardim ou qualquer outro lugar. Enquanto isso, com a ajuda desta água, Myria e eu já estaremos ocupados fazendo as pazes — sorriu.

— Você é muito teimoso... Boa sorte — riu Nate.

≈≈

Eisa se encaminhava para o salão, quando alguém a puxou pelo braço.

— Você contou a meu filho o que leu em minha mente? — indagou Jim, muito sério.

— Não, tio Jim…

— Ele perguntou, não foi? Conheço meu filho, vi que ficou intrigado com a conversa.

— Sim, perguntou, mas neguei que soubesse de algo.

James deu um longo suspiro e encarou a jovem.

— Não acho correto que vocês tenham segredos entre si, mas não se trata de um segredo seu… Entende? — viu-a anuir. — Afinal, não é algo que eu tenha lhe contado por livre e espontânea vontade — Eisa entendeu a indireta e baixou os olhos.

— Lamento… — murmurou a garota.

Jim a abraçou e afagou seus cabelos. Ela se encolheu, tentando acompanhar os pensamentos dele.

— As coisas são muito mais complicadas do que realmente aparentam. Aquele foi um dia terrível… — ele disse pensativo. — Infelizmente as mortes seriam inevitáveis… Se não tivesse sido Greta e Jane… Poderia ter sido sua mãe, Hela ou seus irmãos.

Eisa o fitou longamente, absorvendo toda angústia dele em reviver aquele dia.

— Não foi sua culpa… — ela murmurou. — Essa escolha não cabia ao senhor e nem a ninguém.

— Eu realmente não sei… — ele exalou o ar lentamente. — Se eu soubesse para onde ele iria… Se eu tivesse chegado a tempo — mordeu os lábios.

— Isso pode soar meio passional, mas não acho que teria sido melhor que o senhor tivesse morrido no lugar de Greta. Eu sei que não a conheci, mas acredito que todos sentiriam demais a sua falta. Até meu pai lamentaria, mesmo jamais admitindo — deu um sorriso enviesado.

Ele a olhou nos olhos, pensativo.

— Sabendo o que sei — a jovem prosseguiu —, creio que minha mãe não teria vivido muito mais tempo sem o senhor por aqui. Ela praticamente não vive sem o senhor.

Jim deu um sorriso fraco.

— Nem eu sem ela… — admitiu.

— Não se sinta culpado por ter ficado aliviado ao ver que mamãe e meus irmãos estavam bem. Isso não significa que o senhor amava Greta menos.

Ele arfou e seus olhos marejaram. Ainda depois de tanto tempo, sentia como se tivesse traído a própria esposa ao se sentir feliz por Aredhel e os demais estarem bem e por ter se apaixonado por Hela.

— Ela morreu tentando evitar que levassem a Hela… — revelou com a voz embargada.

— Foi por isso que evitou por tanto tempo os avanços dela?

— Também… — confessou. — Além dela ser filha de meus melhores amigos, eu sentia como se estivesse traindo Greta… A memória dela. É tão complicado… — bufou.

Eisa afagou o braço dele.

— Bem… Agora tanto faz… — ele deu uma risada amarga. — Hela acabou escolhendo outro. Acho que não era para ser mesmo. Você entende porque os gêmeos nunca podem saber os detalhes daquele dia? Deus… — suspirou. — Eles odiariam o Loki, Aredhel, Hela e eu…

— Entendo… — anuiu, cabisbaixa.

Jim pôs a mão sobre o ombro dela e sorriu.

— Greta teria adorado conhecer você… E tenho certeza de que apoiaria o namoro de vocês.

A jovem sorriu e voltou a abraçá-lo.

≈≈

Sigrid se curvou mais uma vez e vomitou novamente. O dia não tinha começado muito bem e parecia que não ia melhorar. Os enjoos matinais que vinha sentindo há mais de uma semana, pareceram se intensificar naquela manhã.

— Sig? — Hilda chamou ao entrar no quarto.

— No banheiro… — bufou a ruiva, se recostando contra a parede e escorregou até o chão.

— Oh! Pelo pai de todos! O que você tem? — espantou-se a outra, ajoelhando ao seu lado.

— Acordei muito nauseada… — confessou, cerrando os olhos com força.

— Ai, Sig… — apanhou um lenço e passou pela fronte suada da amiga. — Será que você pegou a mesma doença que seus pais? — levantou-se para apanhar um copo com água.

— Acho que não… — aceitou o copo oferecido e deu um pequeno gole. —Eu não estou com febre e, ao contrário do caso deles, meus enjoos são só matinais. Passam com o passar as horas.

— Enjoos matinais? — Hilda arqueou as sobrancelhas. — Há quanto tempo vem sentindo eles?

— Um pouco mais de uma semana… — fez uma careta e se ergueu do chão com dificuldade.

Broomhilda apertou os lábios e encarou a amiga.

— Sig… Quando foi que veio suas últimas regras?

— Regras? — olhou-a confusa por alguns instantes. — Ah! Minha menstruação…

— Isso… Seja lá como você chama… — abanou com a mão.

— Foi a rainha Aredhel que me ensinou a chamar assim. Elas estão... — parou no meio a frase e levou a mão à boca. — Eu esqueci…

— Esqueceu o quê?

— De tomar o chá de ervas como deveria… Não tomei no dia do casamento de Hela e estou atrasada — arregalou os olhos.

As duas se olharam em silêncio por alguns instantes. Sigrid levou ambas as mãos à boca e Hilda abriu um largo sorriso.

— Sig… Pelos deuses… — deu uma risada nervosa. — Você está grávida! — arfou.

≈≈

— Espere… Deixe-me ver se entendi… — Lenwë balançou a cabeça, enquanto andava de um lado para o outro, à frente da cela de Hela. — Você diz que possui uma espécie de… — girou a mão direita no ar — …poder psíquico, com o qual pode trazer Ness de volta à vida?

— Isso…

Len riu sem humor.

— Você levou uma pancada na cabeça para delirar nesse nível? — o rapaz inquiriu, visivelmente incrédulo.

— Eu não bati a cabeça — a princesa bufou impaciente. — Estou falando sério. Posso trazer Ness de volta a vida, desde que o faça antes de completar vinte e quatro horas desde sua morte.

— Digamos que eu acredite em sua história maluca… E o bebê?

Hela baixou os olhos.

— O bebê provavelmente não posso trazer… — murmurou entristecida. — Meu poder tem limites. Eu não consigo trazer mais de uma pessoa de volta à vida em um mesmo dia.

O jovem guerreiro a encarou por um longo minuto. Ele desejava desesperadamente acreditar nela.

Hela por outro lado sofria com o remorso. Ainda que Ness tivesse participado daquele plano maluco por livre e espontânea vontade, a princesa não deixava de se culpar pelo fim trágico que a amiga teve. Havia subestimado Eric e seu erro tinha custado a vida de duas pessoas. Como lhe pesava no peito o fato de não ter protegido sua amiga e o filho que esperava. Falhara em sua promessa.

— Você precisa acreditar em mim — ela implorou com os olhos cheios de lágrimas. — Eu posso salvá-la. Estamos perdendo tempo. Tire-me daqui e me leve até ela…

— Eu não posso tirá-la daqui… — foi sincero. — Esta estas correntes as quais está presa, são especiais. Está vendo a cor esverdeada? São feitas do metal mais resistente de Alfheim e este símbolo nas algemas — apontou —, é o selo do príncipe. Significa que foram encomendadas por ele e portanto, só ele que possui o segredo para abri-las.

A princesa deu um suspiro exasperado.

— O príncipe Eric é conhecido por mandar produzir todo seu arsenal de forma personalizada — Len baixou os olhos. — Dizem que ele possui uma sala com todo tipo de instrumentos de batalha e tortura.

Hela engoliu em seco. Sabia se defender, mas estando presa, as coisas ficariam complicadas. Para piorar, logo percebeu que não conseguia se comunicar com ninguém através de projeções ou criar ilusões. Olhou ao redor e ponderou que talvez também estivesse em algum tipo de cela especial.

Ela respirou fundo tentando manter a calma. Eric viria buscar sua vingança e chegaria perto dela o suficiente para que pudesse tocá-lo. E neste momento… Ela teria a chance de sair dali. “Fiz de tudo para evitar uma guerra e parece que começarei uma.” Mordeu os lábios, pensativa.

Contudo, até que o príncipe viesse ao seu encontro, ela tinha um assunto mais importante para tratar.

— Lenwë… Encontre uma forma de trazer Ness até mim. Tudo que preciso fazer é tocá-la...

≈≈

Aredhel arrumou a gola do traje de Váli e sorriu.

— Você está lindo, meu filho.

— Obrigado, mãe… — ele murmurou entristecido.

— Por que essa tristeza? Está cansado? Nervoso?

— Cansaço… — mentiu. — Dormi pouco esta noite.

— A ansiedade é algo natural — a mãe sorriu e pegou as mãos do filho entre as suas. — Apesar de não ser o dia de seu casamento, é como se fosse, não?

— É… Eu esperei tanto tempo por esse dia… — seus olhos se perderam nas lembranças de quanto fora feliz ao lado de Sigrid.

— Uma vida, praticamente… — anuiu Aredhel.

— Mãe… — ele a encarou. — Eu amo Sigrid… Desesperadamente… — confessou, sentindo uma dor rasgar-lhe o peito.

— Eu sei… Dá para ver isso em seus olhos — ela suspirou. — Vocês serão muito felizes. Tenho certeza.

Váli largou as mãos da mãe e deu-lhe as costas, fingindo estar interessado em pegar algo em sua escrivaninha. “Como eu queria que isso fosse verdade”, cerrou os olhos, tentando conter as lágrimas que ameaçavam transbordar de sua alma. Não estava suportando mais a dor da traição que carregava em segredo.

— Ela é uma boa jovem… Sempre foi uma garota exemplar.

— As vezes vivemos uma vida inteira e não conhecemos uma pessoa por inteiro — ele resmungou amargurado.

— Bem… — Aredhel mordeu os lábios pensativa. — Isso é verdade, mas… Por que diz isso?

— Ora mãe… — virou-se para encará-la. — Porque disponho de uma eternidade para viver ao lado dela. Então espero que ainda tenha muitas coisas boas para descobrir — disse dissimuladamente.

— É… — concordou. — Mas lembre-se meu filho… Casamento não é um mar de rosas — mais uma vez se perdeu em pensamentos. — Sempre tem seus altos e baixos. O importante é que vocês continuem se amando e que as dificuldades sirvam para fortalecer a união de vocês.

— Como no seu casamento… — Váli não se conteve.

Ela entreabriu os lábios e desviou o olhar. Rapidamente o rapaz se arrependeu do que dissera.

— Perdoe-me, mãe… Eu não quis…

Aredhel levantou a mão.

— Meu casamento não serve de exemplo para ninguém — falou calmamente. — Eu me esforcei ao máximo para que vocês nunca soubessem de algumas coisas que aconteceram, justamente porque eu sabia que seria complicado explicar. Principalmente explicar e justificar as escolhas que fiz — fitou-o. — Tudo o que eu não queria era que vocês julgassem seu pai por algumas dessas situações. Que o vissem como o vilão de tudo… Afinal, eu estou ao lado dele até hoje por vontade própria.

Váli ergueu uma das sobrancelhas em sinal de descrença.

— Não se deixe enganar pelo pouco que sabe… — ela meneou a cabeça. — Nem tudo é tão ruim quanto parece. Seu pai me ama… De verdade… — deu um sorriso bobo. — E ele sempre me deu a chance de desistir desse casamento. Algumas vezes demorou um pouco mais para tomar tal decisão, mas, no final, ele sempre me deu a oportunidade de abandoná-lo.

— E por que você não o fez? — indagou incrédulo. — E não negue que a possessividade dele não a machuca. Eu a vi sofrendo por conta do ciúme doentio dele. Todos nós testemunhamos isso.

Ela o olhou com doçura e sorriu levemente.

— Porque eu o amo exatamente do jeito que é… Eu o amo demais… — afirmou.

— Mas que tipo que amor é esse? — pasmou-se. — Um amor que aceita ser ferido, magoado, aprisionado...

— Não sei… Talvez seja um amor insano... Só sei o que sinto… — mordeu o lábio. — Ou talvez eu seja doida… — deu de ombros.

O filho articulou os lábios, mas não conseguiu dizer nada.

— O fato é que — ela prosseguiu —, nem eu e nem seu pai servimos de exemplo de um relacionamento… — balançou a mão no ar — ...saudável. Então construa seu casamento sem os fantasmas do ciúme e da possessividade. Nem todo amor é louco o suficiente para sobreviver a isso.

Váli se manteve quieto.

— Então vou deixá-lo terminar de se arrumar… Preciso avisar seu pai da carta de Hela — sacudiu o envelope no ar. — Disse que anda indisposta e que por isso não virá à cerimônia. Hum… Será que isto significa que você pode ser titio novamente? — sorriu. — Meu Deus… Mais um neto… Até meu filho — acenou da porta.

A porta se fechou e o jovem não desviou o olhar de lá. Váli ignorou a parte final da conversa, ainda preso a uma frase: “nem todo amor é louco o suficiente para sobreviver a isso.”

— E o amor é louco o suficiente para sobreviver ao fantasma da traição? — perguntou para o vazio.

≈≈

Katarina pôs o vestido rosa contra seu corpo e olhou-se no espelho.

— Será que seria melhor o verde? — pensou alto. — Ah… Tanto faz… — riu e rodopiou com o vestido. — Ele vai dançar comigo! — jogou-se na cama.

A jovem ainda ria, feliz, quando ouviu uma batida à sua porta. Ela se sentou na cama e perguntou quem era.

— Sou eu… Týr…

— Pode entrar! — disse alto.

— Oi Kat… — ele sorriu timidamente ao cruzar a porta. — Sei que não é adequado um homem visitar o quarto de uma jovem solteira — olhou para porta, indeciso em deixar aberta ou fechá-la —, mas eu precisava lhe falar e…

Kat deu uma risada baixa.

— Não é “adequado”? — franziu o rosto. — Isso não é meio antiquado?

— Se proteger a sua reputação for algo antiquado, talvez eu seja um homem antiquado — rebateu muito sério.

— Nossa! Você leva isso mesmo a sério… — viu-o permanecer impassível. — Desculpe-me… É que fui criada com uma visão mais… — deu um sorriso torto — ...moderna.

Ele deu um pigarro e pareceu desconfortável.

— Entendo… — foi sucinto.

De repente ela percebeu que ele poderia interpretá-la mal.

— Oh… Bem… Não tão moderna… — ficou rubra. — N-não quero que você p-pense mal de mim, mas é que não vejo motivos para t-tanta formalidade. A-afinal s-somos amigos — gaguejou. — Não vejo nenhuma maldade em receber meus amigos em meu quarto.

— Eu jamais pensaria mal de você — ele disse rapidamente. — Você é a mulher mais pura que já conheci.

Kat articulou os lábios, mas ficou sem palavras diante daquela afirmação.

— Eu não sou digna de tal elogio — falou por fim, balançando a cabeça e com o rosto corado.

— É sim… — rebateu. — E isso não diz respeito a castidade ou algo do tipo, mas sim algo mais espiritual — ele se aproximou. — Você é uma pessoa muito boa e tem um coração puro — tocou o rosto dela.

Por alguns instantes os olhos azuis dela se perderam nos dele. Havia tanta sinceridade naquele olhar, que ela não conseguiu retrucar o que ele dissera.

Týr, por sua vez, também ficou hipnotizado, mas rapidamente recobrou o juízo, ao se lembrar do motivo que o levara até ali. Infelizmente, estava ali para partir o coração da mulher que amava com uma triste revelação. Katarina pareceu ler isso nos olhos dele, em sua mudança repentina de expressão.

— Aconteceu alguma coisa? — ela indagou e o viu afirmar em silêncio.

Ele não sabia por onde começar ou como fazer aquilo da forma o mais indolor o possível. Resolveu evitar rodeios e ir direto ao ponto.

— O príncipe Igor a está enganando — falou de supetão.

— Perdão? — ela pestanejou aqueles longos cílios.

— Ele ama outra mulher… — prosseguiu. — O namoro em segredo de vocês é uma farsa.

Katarina permaneceu em silêncio por alguns instantes, tentando assimilar o que ele dizia. Nada daquilo parecia fazer sentido. Týr aguardou que ela absorvesse tudo e esperou que ela falasse algo.

— Isso não é verdade… — ela disse baixinho.

— Kat… Eu entendo que tudo parece irreal, mas eu mesmo ouvi a conversa entre ele e o príncipe Narfi — recomeçou, pacientemente. — O irmão mais velho o acusou de ser apaixonado pela princesa Eisa e ele não negou… Na verdade protestou lembrando o outro que eles eram primos…

— Eisa… — murmurou, distante.

— Pelo que entendi, ele está com você porque seu irmão está namorando a princesa Eisa. Ouvi claramente o príncipe Narfi perguntar se isso era um tipo de vingança.

A jovem sentiu uma dor aguda invadir seu peito e arfou. Lágrimas se represaram naqueles olhos azuis.

— Kat… Eu sinto muito… — foi sincero. — Mas ele terminará o namoro com você.

— Não… — ela disse em um fio de voz, meneando a cabeça e desejando não ouvir mais nada.

— O príncipe Narfi exigiu que ele terminasse com você ou ele desmascararia essa farsa, revelando tudo ao rei — completou.

— É mentira! — Kat explodiu, repentinamente. — É mentira sua! — gritou, se levantando.

— Kat… — ele sussurrou, quase como uma súplica.

— Você inventou tudo isso por quê? — encarou-o, cheia de dor.

— Eu jamais mentiria para você… — murmurou. — Eu… Eu… — desejou profundamente se declarar, mas aquilo só pioraria tudo. — Eu sou seu amigo.

— Sei que a mulher que você ama não o quer, mas será que você não poderia ficar feliz por mim? — esbravejou, tentando conter às lágrimas que ameaçavam transbordar.

Ele não se ofendeu com a insinuação de um possível inveja. Týr apenas meneou a cabeça, encarando-a com pesar. Mesmo afundando em um mar de dúvidas e dor, ela percebeu a sua leviandade.

— Perdoe-me… — o pedido dela saiu em meio a um soluço engasgado. — Mas… Eu.. Eu não acredito… Você ouviu errado… Foi isso — afirmou e respirou fundo. — Ele vai dançar comigo hoje a noite. Disse que esperaria o noivado passar para não ofuscar a revelação de nosso namoro — dizia em meio a um sorriso forçado. — Igor me disse isso — balançou a cabeça com veemência.

Então, Katarina enxergou na expressão do amigo, algo que a fez perder o ar. Viu o pesar nos olhos dele e algo bem pior que isso: pena. Ela perdeu a cabeça.

— Saia daqui! — berrou. — Saia do meu quarto seu mentiroso! Saia! — apontou para a porta.

O jovem Einherjar obedeceu Kat e deixou o quarto em silêncio, lançando apenas um último olhar angustiado na direção dela, antes de fechar a porta.

≈≈

Lenwë mal acreditou na sorte que teve durante todo aquele caminho que fez, com o corpo de Ness enrolado em um tapete e acomodado em seu ombro. Acreditou menos ainda quando o guarda ouviu a sua desculpa e o deixou entrar novamente naquela área restrita do calabouço. Jamais imaginou que alegar a troca de um tapete a mando do príncipe, seria uma mentira aceitável. Contudo, ao se lembrar dos pedidos incomuns de Eric, convenceu-se de que todo palácio já estava acostumado com ordens sem nexo ou excêntricas, quando se tratava do príncipe. Ponderou também que talvez o guarda tivesse a certeza de que nada do que ele pudesse esconder em um inocente tapete, teria o poder de tirar nenhum prisioneiro daquela área e muito menos das correntes especiais que Hela usava. No que dizia respeito à princesa, ele nada podia fazer em seu favor.

Quando ele adentrou na cela onde estava Hela a jovem já conseguia se por de pé, mas seus movimentos continuavam limitados pela corrente.

— Traga-a até mim… — Hela estendeu o braço na direção dele.

Ele se aproximou e pôs o tapete no chão, desenrolando-o lentamente. Um soluço ameaçou escapar de sua garganta, quando viu sua noiva pálida surgir.

— Oh, Ness… — arfou a princesa, levando a mão à boca.

Len se ajoelhou, tomou o corpo sem vida de Ness em seus braços e o ergueu, aproximando-se mais de Hela.

— Faça sua mágica princesa… Conserte o seu erro de tê-la envolvido nessa história toda.

Hela nem tentou rebater. Apenas olhou entristecida para a amiga.

— Lenwë… Tentarei trazer o bebê junto, mas não posso lhe garantir nada — olhou para o rosto machucado da jovem. — Com o esforço, é muito provável que eu desmaie, mas não se espante. Apenas a leve para longe daqui. E não deixe que Eric descubra nunca que ela está viva.

— Pode deixar… Ela continuará morta para todos daqui — ele afirmou decidido. — Já informei que partirei para longe e levarei o corpo dela para ser enterrado em uma cidade que ela tinha parentes. Foi a desculpa que consegui inventar para justificar a suspensão do funeral dela.

A jovem estendeu a mão para tocar o rosto de sua amiga.

— E quanto a vossa alteza? — ele perguntou, repentinamente.

— Eu encontrarei uma forma de fugir daqui.

Ele a fitou com descrença.

— E se não conseguir?

Hela o encarou e ponderou. Estava certa de que conseguiria, mas e se falhasse? Ela levou a mão ao ventre levemente protuberante e um vinco se formou em sua testa. Antes não se importaria de se sacrificar pela segurança da família, mas não podia sacrificar o próprio filho. Sabia que Vardamir passaria um mês fora e talvez graças a esse tempo, ela tivesse alguma chance de que a guerra não trouxesse maiores perdas para sua família.

Ela comprimiu os lábios em uma linha.

— Sei que não estou em posição de lhe pedir nada, mas gostaria de lhe implorar um favor — ela o olhou com súplica.

Len olhou de Ness para a princesa e concordou com um aceno.

— Assim que vocês estiverem em segurança, peço que procurem uma forma de informar a minha família de minha situação. Se tiver tido sucesso em minha fuga, eu mesma receberei o recado, caso contrário, minha família saberá o que fazer.

— Se trouxer Ness de volta à vida, tem minha palavra de que farei o que pede — foi duro. A mágoa ainda latejava nas veias daquele homem.

Hela meneou a cabeça e então tocou o rosto de Ness, cerrando os olhos em seguida. Estarrecido, Len testemunhou claramente Ness resfolegar e pode ouvir o som da respiração dificultosa que veio a seguir. Incrédulo, ele inclinou a cabeça e o que ouviu o fez prender a respiração: o coração de sua amada batia novamente. Um gemido escapou dos lábios da princesa e o rapaz a viu empalidecer e desabar em direção ao chão, inconsciente. Hela só não atingiu o solo, porque foi amparada pelas correntes que estalaram sob o peso dela.

— Princesa? — chamou preocupado, ajoelhando-se de forma desajeitada, ainda com Ness em seus braços.

O jovem levou os dedos até o pescoço de Hela e sentiu sua pulsação. Estava apenas desmaiada. Ele a olhou apenado e em seguida seus olhos pousara sob Ness, que recuperava sua cor natural. Estava viva.

— Ness… — ele abraçou-a apertado. — Cuidarei de você — olhou na direção de Hela. — E de vossa alteza também. Cumprirei minha palavra. Avisarei sua família e eles a tirarão daqui.

Receoso de ser descoberto, Len enrolou Ness de volta no tapete, de forma apressada e deixou a cela. Olhou uma última vez para a princesa desacordada e prometeu novamente em silêncio fazer o que pudesse por ela, antes de desaparecer pelos corredores daquele calabouço.

≈≈

A noite tinha recém-caído, quando Igor chegou à porta do quarto de Katarina. O rapaz respirou fundo e então bateu três vezes. Ele ouviu Kat perguntar quem era.

— Sou eu… Igor…

— Entre…

Ao entrar, encontrou Kat já arrumada. Ela estava com um vestido rosa e os cabelos loiros e cacheados, arrumados em um coque que descia feito uma cascata. A visão dela o fez sentir algo se aquecer dentro de si.

— Você está linda… — disse tão baixo que ela não chegou a ouvir.

Ela brilhava de tão deslumbrante, mas Igor estava ali para dilacerar seu coração. Ao se lembrar disso, ele sentiu algo apertar seu peito, lhe tirando o fôlego. Não sabia identificar bem o que sentia, apenas que parecia estar prestes a cometer um grande erro.

— Ainda não está vestido para o jantar? — a voz dela transpareceu certo nervosismo. — O que é isso em seu rosto? — apontou para a mancha escura que ele tinha no queixo.

— Nada grave… — ele balançou a mão. — Precisamos conversar, Katarina.

Ao ouvir o próprio nome, dito de maneira tão formal, o coração de Kat bateu de forma descompassada. Até o presente momento ela lutara para se convencer de que Týr havia mentido ou ouvido mal a conversa. Negava veementemente tudo o que ouvira. Estava tão certa do mal-entendido que se arrumou com todo capricho para a noite que imaginava ser gloriosa. Ainda que Igor não fosse assumir o namoro dos dois, ela poderia dançar com ele imaginando que eles já eram namorados diante de todos. Não importava que os outros não soubessem, desde que eles estivessem juntos. Essa era a certeza que a mantinha esperançosa. Entretanto, quando não o ouviu chamá-la de “coração”, a certeza começou a se desfazer feito um castelo de areia levado pela maré.

Sem conseguir emitir uma única palavra, ela se deixou ser conduzida por ele até a uma poltrona, onde ele a fez se sentar.

— Katarina… Eu não posso ficar com você — falou de uma vez.

— O quê? — as palavras praticamente escaparam dos lábios dela.

Sem coragem alguma de fazer aquilo, ele deu as costas a ela. Estava à beira de um abismo e a única opção era pular.

— Nesse tempo em que estivemos juntos — ele continuou —, eu realmente pensei que estava apaixonado… — engoliu em seco e sentiu como se estivesse prestes a fazê-la sangrar. — Mas eu me enganei — encarou-a e a viu olhando-o com uma expressão indecifrável. — Acredito que fui levado pela empolgação. Foi isso... Mas não é que algo esteja errado com você… — balançou a cabeça com veemência. — Sou eu e…

Katarina se levantou de repente e deu-lhe uma bofetada.

— Mentiroso! — acusou, enraivecida. — Pelo menos seja homem e tenha coragem de me dizer a verdade!

Ele levou a mão ao rosto, estupefato. Igor esperava que Kat chorasse ou implorasse, menos reagir daquela forma. Na verdade, desejava que ela pedisse para não deixá-la.

— Então é verdade… — ela se exasperou. — Você é apaixonado pela Eisa e só me usou o tempo todo! — gritou. — Usou-me para se vingar do meu irmão! — a ira flamejava nos olhos dela.

Kat sabia a verdade e isso o desarmou.

— Como… — encarou-a boquiaberto. — Quem lhe contou?

— E você nem tenta negar! — socou o peito dele. — Seu cafajeste! — socou uma segunda vez. — Você me usou!

Assistir a fúria dela, o devastou. Tudo o que ele não queria era que ela um dia soubesse a verdade. Acreditara estar preparado para ser odiado por ela, mas percebeu, tardiamente, que não poderia estar mais errado. Por algum motivo o ódio que via nos olhos dela, doía mais que qualquer rejeição que passara em sua vida até aquele momento. Igor descobriu que magoar Katarina estava sendo mais doloroso que ver Eisa nos braços de Wagner.

— Coração… — o murmúrio soou como súplica. — E-eu s-sinto muito… Eu…

— Não me chame de coração! — berrou. — Para você, a partir de hoje sou apenas Katarina! A mulher que sempre foi invisível para você e todos aqui nesse palácio! — tremia de raiva. — Quando cruzar comigo — fechou o punho e as lágrimas desceram pelo rosto dela —, não me dirija a palavra! Finja que não me viu! Como sempre fez! — dizia a plenos pulmões.

— Kat… — murmurou desolado.

— É Katarina! — sibilou e o empurrou. — Suma daqui! Suma da minha vida! Desapareça! — empurrava-o continuamente na direção da porta. — Eu odeio você! Odeio!

— Não… — implorou. — Não, Katarina… Por favor… — pediu.

— Eu te odeio! — ela disse pausadamente, antes de empurrá-lo para fora do quarto e bater a porta em seguida.

Igor se desequilibrou e deu dois passos para trás.

— Eu a perdi… — sussurrou para as paredes, enquanto as lágrimas se acumulavam em seus olhos.

≈≈

Siegfried caiu de joelhos no chão da casa de seus pais. Ele já não ouvia o que o casal de curandeiros dizia. Em sua mente apenas ecoava a palavra mais dura que já ouvira até aquele dia: mortos. Seus pais estavam mortos.

— Como? — a pergunta escapou baixa e estrangulada.

— Entendemos o seu choque — disse a mulher idosa. — É a “melhora da morte”. Infelizmente é uma característica de uma febre antiga e que fazia anos que não víamos em nosso reino. A febre da boa morte.

— Boa morte? — repetiu Sieg em um tom descrente. — Que morte seria boa?

— Ela tem esse nome porque as pessoas apresentam essa melhora e dormem dormindo — explicou o velho curandeiro.

— Como vocês não reconheceram essa tal febre? — o rapaz se levantou, revoltado. — Eles podiam ter sido salvos! — lágrimas desceram por seu rosto.

— Na verdade não, meu jovem… — a senhora o encarou apenada. — Ela não tem cura. Uma vez que se pega e os primeiros sintomas começam, seu destino está selado.

Siegfried passou a mão pelo rosto e algo se acendeu em sua mente.

— Ela é contagiosa? — sua voz subiu uma oitava.

— Bem… — a senhora desviou os olhos. — É… Antigamente quando chegava a uma casa, só a deixava depois que levasse toda a família.

— Sigrid… — ele arfou, sentindo o desespero se abater sob si. — Minha irmã ficou cuidando deles durante todo esse período!

— Lamentamos muito… — murmurou o velho entristecido. — Infelizmente não há nada que possa fazer a não ser esperar e pedir aos deuses que nas próximas semanas ela não manifeste nenhum dos sintomas.

≈≈

— Como ela está? — indagou Aredhel ao filho, observando Merida brincando com sua neta, Mintaka.

— Está bem melhor hoje — sorriu Fenrir. — Acho que o perigo já passou.

— Nada... O perigo ainda nem se aproximou dela… — murmurou a mãe, sombria.

— Afinal, o que a senhora teme? — inquiriu, impaciente. — O que papai fez no passado?

Aredhel olhou nos olhos do filho e pensou por alguns segundos lhe revelar a verdade, mas achou que aquele não era o melhor momento.

— Amanhã eu lhe explico com calma depois que eu conversar com seu pai e dizer a ele que Merida veio de minha realidade — passou a mão pela testa, visivelmente preocupada. — Apenas façam o que pedi. Mantenham sigilo sobre a real origem dela.

— Ainda acho essa história toda fantástica demais… — Fenrir passou a mão pela nuca. — Uma fanfic que conta nossa história…

— Shhh… — Aredhel olhou para os lados. — Não repita isso — disse baixo. — Nem pense nesse assunto — arqueou as sobrancelhas. — Ninguém mais deve saber — foi incisiva.

— Desculpe-me, mãe.

— Você tem a minha permissão para se ausentar do noivado de seu irmão.

— Obrigado, mãe… Eu realmente gostaria de participar — olhou na direção das outras duas que riam distraídas —, mas vou ver o que mais consigo descobrir.

— Certo... Fique aqui e faça companhia para ela, mas seja discreto. Tenha cuidado para não serem ouvidos.

— Está bem — afirmou o filho.

— Não esqueça o horário de Mintaka dormir. Agora você é pai e tem responsabilidades — sorriu.

— Pode deixar… — ele sorriu de volta.

Aredhel entrou no local, despediu-se de Merida e deu um beijo em sua neta e em seu filho, deixando-os a sós.

≈≈

Igor caminhava a esmo pelos corredores, perturbado pela discussão que tivera com Katarina. Uma dor lhe consumia a alma e não sabia como aplacá-la. Estava perdido. E como tudo sempre pode ficar pior, descobrir-se apaixonado de verdade por Kat. Errara miseravelmente e isso lhe custara o amor daquela mulher.

Ao virar o corredor, trombou com um Einherjar.

— Desculpe-me… — murmurou o príncipe, distraidamente.

— Eu não o desculpo — rebateu Týr entredentes.

— Perdão? — Igor franziu o cenho.

— Eu não o perdoo pelo que fez com Kat — falou com extrema frieza.

Týr fizera um esforço hercúleo para não ir atrás de Igor e socá-lo até cansar. Mas esbarrar com ele pelos corredores era a prova de que o destino queria bom lugar para assistir esse embate.

Igor piscou lentamente os olhos. Ouvira mal. Tinha quase certeza disso. Como poderia o Einherjar saber do ocorrido? E pior, como teria a audácia de se intrometer em um assunto tão pessoal?

— Quem você pensa que é para falar comigo assim? — Igor o encarou. — E que intimidade é essa com Katarina? — o ciúme começava a fervilhar em seu sangue.

— Eu sou amigo dela! — respondeu com altivez. — E você podia ser o próprio rei, mas não tinha o direito de usá-la! — aproximou o rosto do outro.

— É muita audácia! Saia da minha frente! — ordenou.

— Vai ter que me tirar de seu caminho — não se moveu. — Abusar da inocência de uma mulher pura é fácil. Quero ver se é homem o suficiente para me enfrentar.

O príncipe poderia simplesmente ter dito que o mandaria embora ou chamado os guardas. Mas ele estava de cabeça quente e nem pensou duas vezes, antes de empurrar o Einherjar. E esse ato era tudo que Týr desejava.

Týr ergueu o braço e acertou um soco no lado esquerdo do rosto de Igor. Este mal se abalou e por sua vez revidou acertando um gancho no chefe da guarda de elite. O moreno limpou o sangue que escorreu de seu lábio partido e deu um sorriso. Os dois se encararam, andando em círculo, à espera do próximo ataque. Quando ambos se precipitaram para golpearem novamente, uma voz soou no corredor.

— Mas o que está acontecendo aqui? — Loki olhou de um para o outro. — O que pensam que estão fazendo?

Os dois prontamente baixaram a guarda e desviaram os olhos diante do rei.

— Estávamos treinando, meu pai… — improvisou Igor.

— No meio do corredor? — Loki inclinou a cabeça e olhou com cinismo para os dois. — Claro… Nada de usar a sala ou a área externa do palácio, que serve unicamente para treinos.

O príncipe corou diante da ironia do pai. Týr mordeu internamente as bochechas para evitar rir. Quando atacara Igor, o Einherjar já sabia que estava jogando tudo para o alto. Quem precisava continuar mentindo não seria ele, contudo não correria o risco de desrespeitar o próprio rei.

— Igor — Loki arqueou as sobrancelhas —, se vai mentir para mim… Justamente para mim… — abriu os braços levemente. — Pelo menos tente se esforçar mais.

— Pai… — começou o loiro.

Loki ergueu a mão.

— Agora não… O jantar de noivado de seu irmão vai começar e não tenho tempo para essas picuinhas — foi severo. — Eu realmente esperava mais de você… Pelo menos um comportamento menos… — fez uma pausa proposital — ...selvagem e infantil. Quanto a você — olhou para Týr —, isso não condiz com a conduta do chefe dos Einherjar. Depois exigirei explicações.

Týr se limitou a anuir de forma passiva. Igor trincou os dentes, mas sabia que o pai estava certo.

— Sua mãe se esforçou demais para essa noite ser perfeita — voltou a atenção para o filho —, então não quero cenas na festa. Vocês dois — apontou de um para o outro — vão lavar estes rostos, colocar um traje descente e comparecer na festa. Estejam avisados. Agora vão — enxotou-os com as mãos.

Mesmo estando contrariados, os dois jovens obedeceram e cada um seguiu por um corredor.

≈≈

Com uma mesura e um sorriso largo, Loki tirou Aredhel para a primeira dança. Enquanto o casal valsava, Váli aguardava a chegada dos últimos convidados para fazer o anúncio. E também aguardava a entrada de Sigrid, que ainda não tinha aparecido.

— Onde está a minha futura cunhada? — Narfi perguntou, alisando seu traje, sem tirar os olhos de Rebecca que conversava com Fleur do outro lado do salão.

— Ela ainda não apareceu… — Váli mordia os lábios de forma nervosa.

— Ela vai aparecer… — deu um tapinha no ombro do irmão. — Se você já está nervoso hoje, imagine no dia do casamento.

— É… Casamento… — murmurou com o olhar distante.

— Onde estão os outros? — passeou os olhos pelo salão. — Einmyria e Fenrir já deveriam estar aqui, não?

— Fenrir não gosta de festas, você sabe. Deve estar na floresta como sempre, ou com a nossa sobrinha — sorriu. — A Myria deve estar com o Nick. Nate está ali bebendo — indicou com a cabeça. — Prefiro não pensar muito onde possam estar — crispou os lábios.

— Não era você que apoiava o namoro dos dois? — provocou Narfi.

— Eu aprovo, mas ela é nossa irmã.

— Fato… — deu um gole em sua bebida. — Por falar em irmã… Hela não vem?

— Não… Nossa mãe recebeu uma carta dela. Pelo que ela me contou, Hela não anda se sentindo bem… — arqueou as sobrancelhas.

Narfi entendeu o que não foi dito.

— Você acha que ela está…

— Sim… — Váli balançou a cabeça. — Nossa mãe acha que Hela está grávida.

— Hela está grávida? — a pergunta veio de trás dos jovens.

Os dois se viraram e deram de cara com James. Narfi olhou para o próprio copo e Váli enrugou a testa.

— Ainda não sabemos ao certo, tio Jim… Segundo a mamãe, ela apenas disse que não viria por estar indisposta.

— Uma hora isso ia acontecer, não é? — James riu sem humor. — Quem venha com saúde! — levantou o próprio copo e bebeu tudo de uma só vez.

Os príncipes o assistiram deixar o copo sob a mesa mais próxima e se afastar deles.

— Uma hora ele ia descobrir… — Narfi comentou, dando de ombros.

A primeira dança terminou e Nathaniel se aproximou do casal real.

— Com sua licença, majestade — fez uma mesura aos dois. — A rainha me concederia a honra de uma dança? — sorriu.

Loki fechou a cara.

— Claro que sim… — anuiu Aredhel. — Mas pare de me chamar assim.

O jovem ofereceu o braço a ela e Loki assistiu, contrariado, sua esposa se distanciar.

— É… Quem te viu e quem te vê Loki… — murmurou Jim. — Está mudado mesmo — provocou.

O rei encarou o loiro.

— Pena que talvez eu não possa dizer o mesmo de você — arqueou uma sobrancelha na direção do copo que o ator trazia em mãos. — Sem vexames hoje, por favor.

— É suco — ficou sério.

— Tanto melhor… — o moreno balançou a cabeça. — Já soube da novidade? Hela está grávida — não se conteve.

— A carta não dizia que ela estava indisposta? — tentou não transparecer o abalo.

— Indisposta é sinônimo dos mal-estares da gravidez — balançou a mão. — Aredhel disse ter quase certeza disso. Como vê, desista de vez de todas as suas esperanças.

— Loki, por que você é assim? — rebateu irritado, batendo o copo na mesa. — Não estamos mais juntos. Hela se casou e, talvez, esteja grávida. Você venceu! — levantou os braços.

— Ela está — deu ênfase à palavra — grávida — tripudiou.

— Qual o seu problema? — o loiro protestou entredentes.

— Você é meu problema! — sibilou.

— Pois então eu lhe devolvo o conselho que me deu — o ator forçou um sorriso cínico. — Desista de suas esperanças. Sua mulher gosta de mim, somos amigos e inseparáveis. Não tenho plano algum de ir embora daqui!

Loki se preparava para replicar, quando Nate trouxe Aredhel de volta.

— Muito obrigada — ela sorriu para o jovem.

— O prazer foi todo meu, Aredhel — Nathaniel sorriu de volta e se afastou.

— Então agora é minha vez! — James pegou a mão da amiga e pôs sobre seu braços. — Até mais, Loki — acenou e deixou o rei bufando.

Do outro lado do salão, encoberta pelas sombras, estava Sigrid. A jovem ruiva estendeu as mãos espalmadas para baixo e viu que tremia. O mal-estar e o nervosismo tomavam conta dela.

— Onde está o Sieg? — a pegunta pareceu mais uma choramingo.

— Ele foi buscar seus pais — repetiu Broomhilda. — Eles avisaram que se atrasariam. Parece que foi um problema na casa — mentiu.

Sigrid levou a mão a boca e fechou os olhos tentando conter uma nova onda de náuseas.

— Vai contar para ele hoje? — a morena a encarou.

— Vou… — sorriu. — Ele vai ficar feliz. Veio antes do planejado, mas ele é louco para ser pai.

Neste instante as duas viram Loki acenar para os músicos e chamar Váli para o centro.

— Já vão me chamar! — angustiou-se Sigrid. — Com quem entrarei?

— Comigo — disse Týr, surgindo no corredor.

— Týr! — as duas disseram em uníssono.

— Eu sei que deveria ser seu pai ou seu irmão a entrar com você, mas, no papel de seu amigo, os representarei — sorriu.

— Obrigada, Týr… — Sig murmurou e pegou o braço que ele lhe ofereceu.

Loki anunciou a entrada de Sigrid e a jovem foi conduzida pelo Einherjar até seu noivo. A primeira coisa que os olhos de Váli firmaram foco foi no rosto dela. Para ele nunca existira ou existiria mulher mais bela. Seu coração disparou e martelava tão forte em seu peito, que jurava que todos poderiam ouvir. A mulher de sua vida reluzia e flutuava em sua direção.

Por alguns instantes, o amor por ela foi maior que o ciúme e que seu orgulho. Por um momento, o seu amor foi louco o suficiente para perdoar a traição. Mas ao vê-la de braço dado com aquele homem, uma confusão de sentimentos tomou Váli. Ela estava linda, era a mulher que ele amava, mas entrara ao lado da pessoa errada. Justamente o algoz de todo o seu sofrimento desfilava com ela, coroando com cinismo o momento que ele mais esperou na vida desde que se descobrira apaixonado por ela. Adoração, espanto, dor e rancor duelavam dentro do coração do príncipe. O rancor venceu.

Váli abriu seu mais doce sorriso e estendeu a mão para recebê-la. Ela correspondeu o sorriso, enrubescendo e pôs a mão gelada sobre a dele. Loki beijou a mão da jovem em cumprimento e Týr e ele se afastaram, deixando o casal no centro do salão.

Fora do campo de visão dos dois, Siegfried chegou. O irmão da futura noiva parecia ter chegado do campo de batalha. Estava pálido, com os olhos inchados e extremamente alterado. Ele trocou sussurros com Hilda e a jovem escondeu os rosto entre as mãos.

Enquanto a pequena agitação ocorria alheia ao casal, Váli deu um pigarro e sorriu mais uma vez para sua namorada.

— Bem… — sorriu. — Todos sabem de nossa história — começou seu discurso. — Nos conhecemos ainda crianças e namoramos desdes de nossa adolescência — viu-a corar novamente. — E hoje todos se reuniram aqui para ver o anúncio de meu noivado com esta bela jovem, Sigrid — a indicou. — Contudo eu venho informá-los de que isto não vai acontecer — falou calmamente.

— Váli? — a mocinha ruiva o fitou sem entender.

Um burburinho fez se ouvir pelo salão e o príncipe ergueu a mão, pedindo silêncio com o gesto. Ele a encarou com a maior tranquilidade que sua frieza conseguia forjar.

— Eu teria o maior prazer de honrá-la e desposá-la, como se deve e conforme o prometido… — viu-a franzir o cenho e a inocência naqueles olhos parecia tão real, que quase o fez fraquejar. — Contudo, por que eu deveria pagar o preço de um casamento por algo que outro teve de graça? — foi duro.

— O quê? — a indagação saiu sussurrada dos lábios dela.

Um alarido se espalhou feito fogo entre os presentes.

— Mas que merda é essa? — Narfi pensou alto.

— Váli, o que está fazendo, meu filho? — murmurou Aredhel, estupefata.

— Mas não se preocupe, Sigrid — Váli alteou a voz, fazendo se ouvir no meio da exasperação geral. — Mesmo que sua traição a torne indigna de ser esposa de um príncipe — foi cruel —, devemos lhe dar a chance de sua honra, ou o que restar dela, ser salva! — olhou na direção do Einherjar. — Convoco Týr Vídarr, chefe da guarda de elite do rei, para vir se apresentar como candidato. Afinal, era com ele que eu vinha compartilhando a sua suposta virtude!

≈≈

Hela foi acordada por um cutucão. Seus olhos se abriram e tudo que viu inicialmente foi uma sombra. Teve que piscar algumas vezes para reconhecer quem estava diante de si.

— A princesinha acordou… — riu-se Eric. — Ou melhor… A vadia acordou…

Ela se pôs de pé com certa dificuldade e olhou para a distância que ele estava de si. Ao perceber que estava fora de seu alcance, Hela o encarou. Ele sorriu, parecendo ler os pensamentos dela.

— Acha mesmo que sou estúpido? Que me casaria com uma mulher sem antes saber tudo sobre ela? Acha que eu não sei que seu principal atributo é o “toque da morte”?

A princesa entreabriu os lábios e logo entendeu que o seu plano inicial fora inviabilizado. Engoliu em seco.

— Essa sua família de anormais! — ele bufou. — Mas o que esperar da união de uma reles midgardian com um jotun? Aqueles monstros… — disse com desdém.

Hela fez menção de avançar sobre ele, mas foi contida pelas correntes.

— Poupe seu fôlego, sua vagabunda… Mesmo com toda sua força, não há como você quebrar essas correntes. E se eu fosse você, começava a parar com essa valentia toda. Será que ainda não percebeu que está a mercê de minhas vontades?

— Para fazer qualquer coisa contra mim, terá que me tocar! — desafiou.

Ele a fitou demoradamente e riu.

— Eu não preciso tocar em você... — tirou um pequeno bastão de seu cinto, o sacudiu no ar e automaticamente ele se transformou em um bastão longo. — ...para lhe fazer sofrer — acertou a cabeça dela.

A batida fora tão forte que Hela teve que se segurar nas correntes. Ela balançou a cabeça tentando fazer foco, quando ele se aproximou, mantendo uma distância segura.

— É uma pena eu não poder tocá-la… — balançou a cabeça. — Eu nunca tive que obrigar mulher alguma a ter relações comigo, mas você… Ah… Você eu teria o prazer de fazer… Só para vê-la gritar! — acertou-a novamente na cabeça.

Hela caiu novamente e ficou suspensa pelas correntes. Ela gemeu baixinho, tentando não dar o gostinho a ele de vê-la gritar com a dor que se espalhava pela sua cabeça.

Ele se afastou um pouco e inclinou a cabeça, dando um sorriso torto.

— Mas eu posso dar sorte com sua filha… — disse de repente.

Um arrepio frio percorreu a espinha dela e ela fez um esforço para encará-lo.

— Imagine que o que você espera — apontou com a ponta do bastão para a barriga dela — seja uma menina — arqueou as sobrancelhas. — Eu a criaria para no futuro me servir. Seria minha prostituta particular — deu uma gargalhada.

— Nunca! — gritou Hela. — Antes de você tocar em meu filho, eu mato você! Mato! — sibilou furiosa, fazendo as correntes estalarem, tentando alcançá-lo.

Ele riu alto da reação dela. Hela bufava de ódio e frustração.

— É… — voltou a encará-la. — Essa coisa também pode nascer menino… Pode crescer e querer se vingar. Então nesse caso… — ele ergueu o braço e a acertou no ventre. — Prefiro não arriscar! — disse entre os dentes, devido ao esforço.

Hela se curvou com o golpe e todo seu ar lhe fugiu. A dor era tão grande que uma náusea súbita a acometeu e sua vista escureceu. Suas mãos e pés começaram a formigar e o frio se espalhou por seu corpo. Ela lutou inutilmente para não perder os sentidos. Seus olhos se fecharam e as correntes estalaram mais uma vez, enquanto as primeiras gotas de sangue começaram a escorrer por suas pernas.

Notas finais
Deixo aqui a reflexão: quem você já deixou sangrar por um erro seu? Gostaram? Odiaram? Comentem.