Asgard Dirty Secrets

30 Sofro, mas eu vou te libertar


Notas iniciais
*Sofro, mas eu vou te libertar - Trecho da música "A maçã" de Raul Seixas. Olá!! Demorei, mas voltei... Obrigada pelos comentários, favoritações e recomendações... Amo responder os comentários! XD Agradecimento especial à Camila Braga que recomendou "A mulher do meu destino" e "Keep Calm and Kneel"... Cadê as recomendações minha gente? Então... Quem nunca se sentiu deslocado uma vez na vida? Como se não pertencesse a um lugar ou família? Acredito que um dos maiores desejos da humanidade é a aceitação... Sermos aceitos e amados por quem realmente somos... Eu diria que esse é o tema do capítulo... Dedico esse capítulo as minhas amigas Rob e Drii que muito aguardaram por esse momento... Boa leitura...

Em algum lugar do passado...

Aredhel e James tomavam chá em uma sala de leitura, enquanto uma tempestade fustigava do lado de fora.

— Adoro tempestades... A chuva... — ela sorriu depositando a xícara sobre o pires. — Elas renovam a vida, mudam até o cheiro que paira no ar e limpam... Trazem à tona tudo o que é verdadeiro... — fitou algum ponto no horizonte. — São ferozes e primitivas... Até mesmo... Mortais... Como o amor... — disse pensativa.

— Feito o seu amor e o de Loki... Você quer dizer... — riu o outro, deixando de lado sua xícara.

— E o que seria o amor, senão uma criatura primitiva, esperando para ser libertada? — encarou-o.

— Ou feito uma doença... — lançou-lhe um olhar condescendente. — Que apenas nos trará, senão confusão e angústia?

— Você não é feliz aqui? — Aredhel questionou com uma expressão de pesar no rosto. — Ou, pelo menos, não foi feliz enquanto Greta esteve viva?

— Claro que sou feliz, Aredhel — Jim sorriu e pegou a mão da amiga. — Ao lado de Greta fui feliz como jamais imaginei. Mesmo com todas as mudanças que tive que passar, achei que eu pertencia a um lugar. E a prova disso são meus filhos. Se eu não tivesse escolhido ficar, não os teria.

— Engraçado ouvir você falar isso... — afagou a mão dele. — Eu sempre quis encontrar um lugar ao qual pertencesse e quando casei com Loki, isso se tornou real. Eu me sinto em casa — suspirou.

— Você imagina como seria sua vida se não tivesse vindo para cá? — inquiriu ele curioso — Sabe... Viver em Midgard... Ter uma vida normal?

— Eu tento não pensar nisso... — ela meneou a cabeça. — Sou muito feliz aqui. Tenho um marido que me ama, filhos que são tudo para mim e tenho você — olhou-o nos olhos. — Deus sabe o quanto eu sou feliz de tê-lo como amigo. Nem tudo são flores... Eu sei... Tivemos muitas dores, guerras e outras desgraças. Mas, apesar de tudo isso, da culpa que carrego e das perdas que tive, sou feliz.

— Verdade... — ele deu um beijo na mão dela. — Mesmo depois de tudo o que passou, eu sou feliz aqui. Tenho uma carreira, meus filhos e sua amizade. E... Sempre teremos um ao outro — sorriu singelamente para ela. — E quando estivermos mal, podemos nos servir de uma xícara de chá e sussurrar sobre as coisas que nos maltratam. Sempre poderemos contar um com o outro.



≈≈



James estava sentado em uma poltrona e observava a amiga dormindo ao lado de seu bebê. Mordia os lábios de forma nervosa, enquanto suas lembranças o torturava.

— Espero que um dia você me perdoe, Aredhel... — murmurou lamuriento.

Loki entrou no quarto, acompanhando os servos que traziam de volta o berço dourado para o quarto.

— Ela acabou de adormecer... — Jim informou ao amigo.

— Ela disse alguma coisa? — Loki perguntou ansioso.

— Nada... — balançou a cabeça. — Só tinha olhos para o filho. Era como se eu não existisse. Terminou de amamentar Jörmungand, deitou-se ao lado dele, cantarolou uma canção de ninar para ele e adormeceu assim que o bebê sossegou.

Após a saída dos servos, o rei deu um beijo na esposa que dormia, se debruçou sobre a cama e pegou nos braços seu filho. Ficou admirando o bebê e o ninou por alguns instantes. Jörmungand começou a mudar de cor e assumiu sua forma Jotun, mas logo voltou ao normal. O pai abraçou-o forte e beijou sua fronte.

— Não me admira que tenha pensado que ele estava morto ao vê-lo na forma Jotun... — Loki murmurou e olhou na direção de James. — Nenhum de meus filhos muda de forma com facilidade. Geralmente só quando tocam a Casket ou são tocados por um Jotun. Mas Jörmungand... — fez um muxoxo — … é diferente. Vive oscilando de temperatura e sempre muda rapidamente de aparência quando é tocado por mim ou por um de seus irmãos. Parece que alguém vai controlar o frio com facilidade — sorriu de leve para o bebê.

— Ele estava azul... Imóvel e não chorou... — o loiro balançou a cabeça. — Pensei o pior... Graças a Deus eu estava errado — olhou na direção da amiga.

Loki acomodou o filho no berço e tomou a poltrona que ficava do outro lado da cama, sentando-se em silêncio. Pensativo, deu um suspiro triste ao olhar para a esposa. Ele passou a mão direita pela testa, enquanto revivia em sua mente o recente drama.

— Pensei que nunca veria isso — começou Jim sem tirar os olhos da amiga. — Aredhel já enfrentou de tudo. Jamais imaginei que a veria assim... Que a veria desistir... — franziu o cenho. — Acreditar que o bebê estava morto foi demais para ela...

— Antes fosse apenas isso... — Loki levantou o olhar e fitou o ator. — Mas no discurso dela havia bem mais que culpa pela perda do bebê — foi sério. — Pensar que Jörmungand estava morto foi apenas a gota d'água para ela. Ficou bem claro que Aredhel vem acumulando sofrimento demais ao longo desses anos... Dessa vez acho que nem esclarecendo sobre Sigyn resolverá a situação. Isso se ela me ouvir... Se voltar ao normal... — entristeceu-se.

Engolindo em seco, James baixou os olhos e voltou a encarar a amiga. Os dois homens ficaram em silêncio por um longo tempo, apenas presos em seus poços particulares de remorsos.

— O que faremos agora? — perguntou Jim repentinamente.

— A única coisa que deve ser feita... — respondeu Loki se levantando e se dirigindo à porta.

— O que você vai fazer? — afligiu-se o ator.

— Algo que você sempre quis que eu fizesse... — bateu a porta.

— Oh, meu Deus... — murmurou o outro.



≈≈



Algum tempo depois, Loki estava em seu escritório, tomando as providências que sua decisão requeria. Sentado em sua poltrona tentava resignar-se, quando Váli entrou visivelmente alterado.

— Precisamos conversar, pai — disse de supetão.

— Váli... Agora não é o melhor momento... — o pai disse com calma.

— Não! Não podemos mais adiar essa conversa! — foi ríspido o jovem. — Não posso mais me calar diante do sofrimento de minha mãe! — disparou a falar. — Ficou muito claro o quanto ela se sente prisioneira nesse casamento! Esse sentimento doentio que diz sentir por ela não é amor! Isso é...

— Basta! — rosnou Loki, o interrompendo e se levantando em seguida. — Você não sabe de nada, Váli! Acha que sabe de algo de amor porque namora aquela garota por anos? O que você entende de amor e casamento? Você é apenas um moleque! — sibilou.

Váli inspirou o ar lentamente e trincou os dentes. Ele sabia que o diálogo com seu pai não seria fácil.

— Posso ser jovem e não ter amado outras mulheres, mas eu jamais machucaria ou torturaria Sigrid dessa forma...

Loki gargalhou e Váli fechou a cara.

— Váli... — ele o encarou com um sorriso cínico. — Eu sempre fui certo do que queria da vida para mim. Superei de tudo. Não havia mistérios profundos e ou problema complexo demais que eu não pudesse desvendar. Tudo sempre sucumbia diante de mim. Busquei alcançar todas as minhas ambições e usei o ódio e a amargura como fonte de motivação. Minha característica era uma raiva quase maníaca. Meu sangue fervia em antecipação a cada passo que dava. Até o dia em que sua mãe cruzou meu caminho... — ergueu as mãos. — No amor sempre somos todos novatos! Não existe saída, arma ou feitiço que nos proteja. Por mais preparados que pensemos estar, é uma batalha perdida! E se corremos o risco de perder esse amor... Oh... — balançou o dedo para o filho. — Você não tem ideia do que somos capazes de fazer!

O rapaz fez menção de dizer algo, mas o pai prosseguiu.

— Confesso que mesmo a amando com todas as minhas forças, jamais deixei de lado meus objetivos — começou a caminhar pela sala. — Sua mãe sempre soube quem eu era e eu nunca mostrei ser mais do que isso. Mas por ela eu tentei me controlar. Fiz muitas concessões. Entretanto... Conforme eu cedia e meu amor por ela aumentava, outro sentimento crescia em igual proporção. O medo. — suspirou — Pelos deuses... Eu sempre temi perdê-la... Que fosse tirada de mim... Ou que ela me abandonasse... O amor e o medo roubam nossa dignidade e inteligência. Meu instinto foi às favas! Por conta desse medo, várias vezes eu fui cruel com sua mãe... Por querer protegê-la, eu a sufocava... E isso virou uma obsessão! — deu um murro na mesa. — Recentemente eu fiz de tudo para consertar meus erros e fazê-la feliz, mas, pelo jeito, foi tarde demais... — deu uma risada sem graça e encarou o filho. — Acha que será diferente com Sigrid? Olhe-se no espelho Váli. Você não parece comigo apenas na aparência. Você também herdou o meu gênio. Espere até que algo ameace tirar Sigrid de você e saberá como me sinto. Aí você conhecerá a si mesmo e sua real natureza. Não se sabe quem realmente se é de verdade até se ver acuado. Você tem um monstro dormindo dentro de si — apontou para o peito dele — e sabe que não estou falando do lobo. Sei que ama a sua mãe e, no entanto, também já a machucou com palavras e atos. Não se pode evitar ser quem se é.

Váli desviou o olhar e Loki se afastou, indo em direção à saída.

— Quanto ao que aconteceu mais cedo... — o pai olhou para o filho. — Não se preocupe. Por mais que eu ame insanamente sua mãe, sei reconhecer meu fracasso. Não vou negar o quão difícil foi tomar essa decisão e nem que sofrerei com isso... Mas vou libertá-la... Sua mãe é livre para partir...

— Mamãe não vai embora sem Jörmungand... — lembrou o jovem.

— Ela poderá levá-lo... — disse Loki fitando o chão e saiu.

Váli se deixou afundar em um sofá que havia ali e passou as mãos pelo rosto. Além de tentar absorver as palavras duras de seu pai, ponderava sobre a novidade que ouvira. Entrara no local decidido a exigir a liberdade da própria mãe e ficou surpreso com a revelação feita pelo pai. Deveria estar satisfeito com a nova decisão, mas não conseguia encontrar alento. Aquilo significava o fim do casamento de seus pais.

— Aconteceu alguma coisa? — indagou Eisa entrando na sala. — Você e papai discutiram de novo? Já não basta o que houve com mamãe hoje de manhã? — fez uma careta.

— Eisa... — ele a fitou com um misto de pesar e surpresa. — Nosso pai vai deixar ela ir embora...



≈≈



James vagava pensativo pelos corredores do palácio. Sua vida parecia ter virado um pesadelo novamente. Estava dividido entre a dor da perda do amor da mulher de sua vida e o remorso pelo que dissera à sua melhor amiga. Ele chegou até uma sacada e, recostando-se nela, deixou o ar escapar lentamente.

— Como você pôde ter coragem de dizer que minha mãe era uma maldição? — acusou a voz de Hela às suas costas.

O ator se virou lentamente e a encarou com um semblante cansado.

— Ela atrapalha a sua felicidade ou seria você que atrapalha a dela? — insistiu a jovem.

— Você também deveria se perguntar o mesmo... — devolveu impassível.

— Como disse? — questionou meio indignada.

— Como uma mãe pode ser feliz quando a filha odeia se parecer com ela? — lembrou.

A moça olhou para o outro lado.

— Hela... — ele se aproximou. — Aredhel sacrificou muita coisa ao lutar por nossa causa. Fez tudo para que ficássemos juntos, para consertar os mal-entendidos. Ela tinha um casamento feliz com Loki, até resolver comprar nossa briga...

— Sua briga... — rebateu fingindo frieza.

— Ah... Verdade... Esqueci que seu amor por mim acabou... — Jim disse inexpressivamente. — De fato... Desde o início eu venho travando essa guerra sozinho, apenas apoiado por Aredhel. Diante do que já discutimos... De que seu amor por mim não sobreviveria às dúvidas que carrega... Creio que não ter me dado a chance de me defender tem até lógica... Mas você em nenhum momento deu o benefício da dúvida à sua própria mãe. Tomou por verdade o que seu pai disse e se voltou contra ela.

Hela teve que conter as lágrimas. Tinha a plena consciência de que as acusações feitas por James eram verídicas. Afinal, ela o tinha feito crer que não o amava mais. E, arrependida, acreditava que jamais se perdoaria pelo que fizera à mãe.

— Mas quem sou eu para falar de você? — ele a olhou com amargura. — Sei o quanto fui injusto com Aredhel quando, bêbado, eu falei aquelas besteiras — prosseguiu fitando o horizonte. — Loki tem razão. Aredhel sofreu demais. E reconheço que eu tenho minha parcela de culpa nisso. Agora só Deus sabe as consequências desse desastre todo. Talvez as coisas mudem drasticamente...

— O que quer dizer com isso? Acha que ela não se recuperará? — afligiu-se.

— Eu rezo para que sim... Mas... — mordeu os lábios. — Hela... Creio que seu pai decidiu deixar sua mãe partir — revelou.

A princesa levou uma das mãos à boca, visivelmente surpresa.

— Não... Isso foi um mal-entendido! Jörmungand está vivo e papai não tem outra mulher! Pelos deuses! Eles se amam! Não podem acabar assim — a moça meneou a cabeça. — Fale com ela! Vocês são amigos! Mamãe vai te ouvir! — desesperou-se.

— Hela... Eu não sei... Aredhel está visivelmente chateada comigo e...

— Você precisa tentar resolver isso! — ela agarrou a roupa dele.

O desespero era palpável na voz de Hela. Já carregava a culpa de ter maltratado a própria mãe e não conseguiria viver com remorso de ter contribuído para o fim do casamento dos pais.

— Fomos nós que arruinamos o relacionamento dos dois! — prosseguiu o fitando com seriedade. — Temos que consertar isso!

— Nós? — indignou-se. — Seu pai que inventou disparates e foi você que não acreditou em mim e nem em Aredhel! — acusou.

— E você está feliz que termine desse jeito! — ela disse sem pensar. — Assim ela estará livre para você, não é? — provocou entredentes.

Jim fechou a cara. Ao ver a expressão no rosto dele, Hela se arrependeu da acusação. Ele levou as mãos até as dela e soltou de seu traje.

— Primeiro eu vou implorar o perdão de Aredhel. Depois vou conversar com ela sobre a situação. Como eu sempre fiz — falou friamente. — Ainda que não acredite, eu tenho a sua mãe como uma irmã e seu pai como um amigo. Quero o melhor para o dois. E por mais que questione a sanidade desse amor deles, sei o quanto se amam. Jamais interferiria na felicidade dos dois, mesmo que eu amasse sua mãe de outra forma — foi firme.

O ator deixou a sacada e saiu marchando pelo corredor, deixando para trás uma Hela entristecida.

— Ah, Jimmy... — lamentou baixinho.



≈≈



No quarto, Aredhel tinha um sono inquieto. Apesar de aliviada a respeito do filho, outras agruras permeavam seus sonhos.

“Eu o amo... Ele e meus filhos são a minha vida...”

“— Quantas pessoas terão que morrer até o final da vida de vocês? Centenas? Milhares? Uma raça? Ou a humanidade inteira? — questionava William. — E tudo isso para alcançar mais uma Gem ou novo objetivo! — ergueu os braços. — A ambição de Loki não tem limites, Ared!”

“— Ele faria qualquer coisa para mantê-la ao seu lado ou trazê-la de volta por pura vaidade. Loki não te ama, só se acha dono de você. Ele é o pai das mentiras, está óbvio que finge te amar. Enganar e persuadir são coisas triviais para ele. Como pode amar um homem que não tem nada para lhe oferecer a não ser palavras de posse?”

“— O que foi sua vida senão uma sucessão de erros? — rosnou Wilson. — Mentiras, fracassos e sonhos infantis! E agora megalomania e assassinato? Há sangue em suas mãos!”

“Não vou me mortificar escutando suas acusações. Eu sabia quais eram os riscos que corria quando escolhi ficar ao lado de Loki e encarei isso. Não me arrependo.”

“Por que você tem que ser tão esquisita? Será pedir muito ter uma filha normal? — resmungou Wilson.”

“Não é isso que move as pessoas? Ser normal? — William deu de ombros.”

“Você sempre sonhou com isso... — disse Jim serenamente. — Sempre quis se encaixar. Você sabe. Estar livre das dores de ser excluída. Ser amada por quem você é. Não foi o que conseguiu?”

“Você será quem você é.”

Aredhel despertou e olhou ao redor. Com alívio viu que seu filho caçula dormia tranquilo no berço. Ela passou as mãos pelos cabelos tentando compreender tudo o que tinha se passado. Ela ainda concatenava seus pensamentos, quando alguém bateu à porta. Era Eisa.

— Mãe... Podemos conversar? — a filha inquiriu timidamente.

— Claro... — anuiu Aredhel indicando um lugar na cama.

Eisa se sentou na beirada da cama e encarou a mãe.

— Mãe, eu soube o que aconteceu logo mais cedo... — começou a jovem e Aredhel baixou os olhos com uma expressão de desalento. — Einmyria e eu sempre nos esforçamos para evitar deixar que nossas habilidades interferissem no destino das pessoas, principalmente de nossa família... Mas... — inspirou o ar lentamente. — Diante de tudo o que aconteceu e de algumas coisas que sei que acontecerão — viu a mãe franzir o cenho em dúvida —, não posso me abster de revelar fatos fundamentais para que a senhora tire as próprias conclusões. Jamais me perdoaria se deixasse que tomasse qualquer decisão sem saber disso. Acho que demorei tempo demais para falar sobre o assunto.

Aredhel permaneceu em silêncio, esperando que a filha prosseguisse. Eisa se empertigou e pegou uma das mãos da mãe entre as suas.

— O que ele contou sobre a serva, a Astrid, é verdade — falou de supetão. — Aquela vagabunda o beijou quando a viu no corredor — trincou os dentes. — Quanto à Sigyn... Bem... Tio Jim me explicou sobre as lendas da mitologia em Midgard e entendi o que a senhora pensou quando soube dela — Aredhel ficou surpresa. — Ah.. A senhora ouviu os dois conversando — leu na mente da mãe e fez um muxoxo. — Ela e o papai não têm nada a não ser um acordo político. Sigyn é a atual esposa do rei de Vanaheim — esclareceu. — Como a senhora sabe, ele estava há alguns anos viúvo e meses atrás se casou novamente com a também viúva, Sigyn. Fomos convidados para a cerimônia, mas em virtude de tudo o que aconteceu e de seu estado, somente o tio Thor e Váli foram à cerimônia. Pelo que percebi a senhora nem ficou sabendo disso — crispou os lábios. — Enfim... — sacudiu a mão. — O que a senhora ouviu foi a Sigyn cobrando sua parte no acordo que tem com o papai. Ele lhe explicará melhor.

A rainha levou uma das mãos à testa, tentando absorver o que ouvia.

— Mãe... Papai ainda lhe ama... Loucamente... — continuou Eisa. — Na verdade nunca deixou de amá-la. Vi na mente dele como ele se sente. A senhora é tudo para ele. É o centro de seu universo — disse com veemência. — Eu mal consigo encontrar palavras para definir o que li em seus pensamentos. É algo tão grande e puro, mas cercado de medo. Ele é muito inseguro. O medo de lhe perder é tão grande que acaba por bagunçar tudo — bufou.

Eisa ergueu os olhos e viu que lágrimas silenciosas desciam pelo rosto de Aredhel. A jovem se inclinou e abraçou a mãe. As duas ficaram em silêncio, enquanto Eisa ouvia o desabafo da mãe, em forma de pensamentos. As duas costumavam conversar dessa forma ocasionalmente.

— Eu te amo mãe... Sempre poderá contar comigo... — sussurrou no ouvido da mãe.

— Obrigada, minha menina... Eu também te amo... Demais... — a rainha apertou a filha em seus braços e beijou-lhe a fronte.



≈≈



Algum tempo depois, Aredhel ninava Jörmungand após amamentá-lo, quando Loki entrou no quarto. Ele se aproximou lentamente e tomou a poltrona que havia ao lado da cama.

— Como está se sentindo? — Loki perguntou olhando para o filho que ela acalentava.

— Aliviada... — ela sorriu levemente, enquanto passava os dedos pelo rosto do bebê. — Ele é lindo e se parece muito com você...

— Sim, mas tem seu nariz e o seu sorriso... Queria que se parecesse mais com você... — foi sincero.

— Eu só acho estranho essa temperatura dele... Meio frio... — franziu o cenho.

— Creio que isso explica seus sintomas peculiares nesta gravidez.

Ela balançou a cabeça e cheirou demoradamente a cria, antes de colocá-lo no bercinho. Inquieto, Loki se ajeitou na poltrona e deu um pigarro.

— Aredhel... Precisamos conversar... — disse de repente.

A esposa se sentou na cama, de frente para Loki e aguardou.

— Antes de mais nada... — ele engoliu em seco. — Gostaria de esclarecer um evidente mal-entendido. Eu não sei como soube sobre a visita da Sigyn, mas... Quero deixar claro que não ela não é e jamais será sua substituta — meneou a cabeça negativamente. — James me explicou sobre os quadrinhos e as lendas de Midgard, então pelo que entendi ela seria supostamente minha esposa nessas histórias. Entretanto, devo lembrá-la de que é você a minha esposa — encarou-a. — Você que é mãe de meus filhos. Se a mitologia ou aqueles quadrinhos malditos da Terra dizem o contrário e eram proféticos, coloque de uma vez em sua cabeça que você mudou meu destino. Não existe outra mulher em minha vida além de você — disse com sinceridade.

Aredhel o olhava com uma expressão indecifrável no rosto. Loki se levantou e ajoelhou-se diante dela e, apoiando-se na cama, prosseguiu.

— Pensei que ao longo desses últimos meses eu havia conseguido recuperar sua confiança e seu amor... Eu fiz de tudo para conseguir me redimir de meus erros... Tentei provar incansavelmente que te amo... No entanto, percebi que talvez tenha sido tarde demais para consertar as coisas — deu um suspiro cansado. — Eu tinha a fé cega de que a reconquistaria e fracassei. Também acreditei que, mesmo que me odiasse, eu conseguiria mantê-la a força ao meu lado. Não poderia estar mais errado — deu um sorriso amargo. — Talvez eu conseguisse suportar vê-la me odiar, mas não posso aguentar ver você desistir de viver — murmurou com a voz embargada.

Ainda de joelhos e emocionado, ele pegou as mãos de Aredhel e beijou-as demoradamente.

— Você sabe o quanto eu fui solitário por anos. Ainda que eu não acreditasse que amaria alguém dessa forma, creio que, durante todos esses anos, eu estive esperando por você — olhou-a nos olhos. — Alguém que fez meu mundo virar de ponta-cabeça. Uma mulher que não quis me mudar e que sempre me apoiou em tudo. Que me levou ao paraíso e com quem eu alcancei tantos sonhos — deu uma risada misturada com um soluço emocionado. — Meu bem... Você é tudo o que eu quero. O que eu sempre quis e preciso. É a mulher que eu amo e de meu destino. Aredhel... Eu amo você com todas as minhas forças... — lágrimas desceram pelo rosto dele. — E eu faria qualquer coisa por você... Morreria por você... Jamais imaginei que diria isso... Mas... Em nome desse amor que sinto é que digo... Você é livre para me deixar... — deixou escapar um novo soluço.

Ela o encarou boquiaberta e sem reação, enquanto ele se desfazia em lágrimas.

— Sei que não me deixará se não puder levar Jörmungand... Então... Eu a autorizo a levá-lo — Loki enxugou as lágrimas com a costa de sua mão direita. — Você pode permanecer em Valhala se assim quiser. Terá seu próprio quarto. E caso não queira morar aqui no palácio, providenciarei uma casa na vila. Nada faltará a vocês dois, eu prometo. Ou você pode voltar para sua Midgard. Poderá começar uma nova vida. Ser feliz de novo... — desviou o olhar. — Tudo que peço é que me deixe ver o menino ocasionalmente — apertou as mãos dela entre as suas. — Eu sempre estarei aqui. Continuarei te apoiando nos bons e maus momentos... E se um dia quiser voltar... — sua voz quase sumiu — … para mim... Saiba que eu estarei aqui te aguardando... Esperei você por mil anos e esperaria você por milhares mais... Eu vou te amar pelo resto de minha vida — cerrou os olhos e recostou sua fronte no colo dela.

Aredhel, comovida, se inclinou sobre o marido e deu um beijo demorado em seu topo. Loki abraçou o quadril dela e rompeu em soluços.

— Loki... — ela o chamou em um sussurro, afagando os cabelos dele. — Não posso negar o quanto me sinto grata por saber que tenho finalmente a chance de escolher... Estou muito feliz de saber que recuperei a minha liberdade — seguiu com a voz embargada e ele resfolegou, afundando mais o rosto contra as coxas dela. — Entretanto... Você está me oferecendo uma vida comum... Por que acha que é isso o que eu quero? — indagou.

Loki ergueu o rosto estupefato e franziu a testa em evidente confusão.

— Quando aceitei me casar com você sabia quem você era de verdade. Conhecia seus defeitos e virtudes. E o amei exatamente desse jeito, assim como você me amou pelo que sou — sorriu timidamente. — Apoiamos um ao outro e juntos vivemos momentos felizes e trágicos — fitou-o com tristeza. — Meu pai tinha razão. Não sou uma mulher normal e nunca me encaixei em uma vida trivial. Você estava certo — acariciou o rosto do esposo. — Nada do que eu fazia enquanto vivi na Terra funcionava ou mostrava sucesso, porque lá não era meu lugar. Mas parece que aqui também não fiz muitos progressos. Pelo menos ultimamente... — ficou pensativa. — Estava envolta em sombras... Quase perdi a lucidez tentando me adaptar. Esforçando-me para lidar com tantos fracassos, perdas e rejeições. Mas tudo tem limites, não é? Não há mal que dure para sempre... E um dia o alívio chega para aqueles que sofrem — segurou o rosto dele com um olhar penetrante. — Finalmente acordei. Abri os olhos e percebi o que estava errado. Eu sei quem sou e o que quero — declarou com altivez.

— E o que você quer? — perguntou temeroso.

— Eu quero ficar — disse com convicção. — Aqui é meu lugar, Loki. Passei tempo demais tentando ser o que os outros queriam que eu fosse e lutando para me perdoar por meus erros e defeitos. Mendigando o carinho de quem me desprezava. Vivendo meia viva. Esqueci de quem eu era... Deixei de ser a Aredhel real, aquela que você conheceu e com quem se casou — sustentou o olhar no dele. — Esqueci que ao seu lado sempre pude ser eu mesma... Foi isso que nos uniu, não foi? — inclinou a cabeça. — Nossas semelhanças... A mágoa, a solidão, a rejeição, a ambição, as mentiras e a insanidade. Eu com certeza sou louca porque... — meneou a cabeça e exalou o ar ruidosamente. — Deus sabe o quanto eu o amo e sei que não conseguiria viver longe de você. Eu quero você, Loki... Meu lugar é ao seu lado... Sempre foi...

— Então não vai me abandonar? — sorriu esperançoso.

— Não, Loki... Mas algumas coisas vão ter que mudar... — murmurou seriamente, erguendo as sobrancelhas.

Notas finais
São as experiências que vivemos que fazem ser quem somos... Gostaram, Odiaram? Comentem.