Asgard Dirty Secrets
31 Don't you know I'm not your ghost anymore?
Notas iniciais

Loki franziu a testa, desconfiando que não gostaria do que ouviria. No entanto, desesperado como estava, concordaria com qualquer coisa proposta. Cortaria o próprio braço para não perder a esposa.
— O que você quiser, meu amor... — exasperou-se, ainda agarrado ao quadril dela.
Com doçura transbordando em seus gestos, Aredhel acariciou o rosto do marido e piscou lentamente.
— Loki... Eu não suporto mais sua desconfiança — crispou os lábios com o semblante sério.
Ele entreabriu os lábios, surpreso.
— Mas eu confio em você, Aredhel... Eu... — foi silenciado pelo indicador dela, que pousou delicadamente em seus lábios.
— Não confia — afirmou solenemente. — Sua insegurança não deixa — encarou-o impassível.
Loki ficou confuso com a acusação. Ela deu um suspiro e manteve a postura calma.
— Eu entendo que você tem vários motivos para crer que as pessoas sempre vão abandoná-lo ou preteri-lo em relação a outros... — ela passou os dedos pela fronte, visivelmente cansada. — Eu sei exatamente como se sente... — seu olhar se perdeu por alguns instantes. — Mas, meu amor — franziu o cenho —, eu não sou Laufey, nem Odin, nem um dos amigos de Thor ou qualquer outra pessoa que o tenha rejeitado um dia — firmou o olhar no dele. — Eu sou sua esposa — falou pausadamente e segurou o rosto dele entre as mãos. — Por Deus, Loki... Há anos você sabe que eu escolhi você. Eu me pergunto se depois de mais de trinta anos juntos, como ainda não consegui provar meu amor por você? Depois de tudo o que passamos juntos, por que acha que eu o trocaria por outra pessoa?
— Não, Aredhel... — tirou as mãos dela de seu rosto e segurou entre as suas. — Eu sei o quanto me ama e que sempre me foi fiel... Mas... — baixou os olhos envergonhado. — Eu te fiz sofrer tanto. Não sou um tolo que ignora quem realmente é. Tenho um temperamento difícil e complicado de tolerar — deu um sorriso amargo. — Sei que poderia conseguir algo melhor — fez um esforço para engolir o bolo que se formou em sua garganta. — Alguém que não a magoasse tanto e que pudesse lhe fazer feliz sem te machucar...
— Mas eu escolhi você... — ela lembrou, apertando as mãos dele.
— Eu sei... Mas pode se cansar disso tudo e...
— Loki... — interrompeu-o. — Percebe que o seu medo de me perder, seja para a morte ou para outro, só nos tem causado problemas? Primeiro seu medo de minha efemeridade e fragilidade fez com que me sufocasse. Depois seu receio de que eu o trocasse por outro homem só trouxe sofrimento para nós, nossos filhos e amigos. — meneou a cabeça. — O seu medo virou uma obsessão... E seu ciúme, um monstro... Quase despedaçou nosso amor e casamento — seus olhos marejaram. — Como falei, sua insegurança não o deixa confiar nos outros e nem em si mesmo. Estou como você pelo que é. Sei de seus defeitos e eu o amo assim. Confie em mim. Confie que é digno de ser amado por quem é. Confie em nosso amor... — pediu com lágrimas descendo pela bochecha.
— Ah... Meu amor... — ele tocou o rosto dela. — Perdoe-me... — limpou as lágrimas dela com a ponta dos dedos. — Prometo por Frigga não desconfiar de você novamente... Vou fazer de tudo para evitar ser tão inseguro e controlar meu ciúme — foi sincero. — Sei que merece um homem melhor. E mesmo que não acredite, sei que posso ser melhor... Serei um marido exemplar para você — afirmou com a voz embargada.
— Eu não quero promessas, Loki. Preciso de atos — foi firme.
Ele ficou surpreso com a forma decidida com que ela falou.
— Já estou cansada de lutar por um pouco de paz — Aredhel prosseguiu. — Não quero mais ver você tramando pelas minhas costas — encarou-o com seriedade.
— Eu não tramo por suas costas — bufou indignado. — Sou o rei. Eu administro o reino e tomo as decisões — defendeu-se.
— E eu a rainha — retorquiu impassível. — Somos parceiros. Uma dupla. Lembre-se disso.
— Mas não preciso lhe consultar sobre todas as decisões que tiver que tomar. E quem costuma fazer as coisas às escondidas e serve de alcoviteira é você — ele acusou.
— De fato — anuiu despreocupadamente. — Mas eu também não tenho que lhe informar sobre tudo o que faço — foi cínica.
Loki deu um suspiro impaciente e ela continuou.
— E por falar em alcovitagem... — voltou a ficar séria. — Também não quero mais lhe ver interferindo na felicidade de nossos filhos. Acabaram os casamentos arranjados e qualquer tipo de acordo que os envolva! Tampouco quero confusões, meias-verdades e intrigas para separá-los.
— Aredhel... Existem certas coisas que não posso aturar — Loki trincou os dentes. — Certas pessoas, traidores e...
— Eu estou falando sério, Loki — alteou o tom de voz. — Eu não vou passar pelo mesmo inferno que passei — disse entredente. — Cheguei ao fundo do poço, Hela perdeu a memória e tragédias quase ocorreram, tudo porque você não aceitava que sua filha se casasse com seu amigo — havia raiva na fala dela. — Quando fica magoado com algo, parece que sua alma congela e você sai passando por cima dos outros. Descontando sua frustração no primeiro que aparece. Não mede as suas palavras e não se importa com as cicatrizes que elas podem deixar — respirava pesadamente. — Se algo parecido acontecer novamente... — inspirou o ar lentamente. — Juro por Deus que, mesmo te amando, eu pego Jörmungand e sumo de sua vida! — tremia.
Pasmo, as palavras fugiram de Loki e ele se limitou a fitá-la sentindo o coração bater de forma descompassada diante daquela afirmação.
— Eu não vou mais ser seu fantasma... — mais lágrimas desceram pelo rosto dela. — Você não vai me ver cair novamente... Estou cansada de fracassar.
Ele meneou a cabeça aturdido. A forma com que ela falara o estava deixando mais inseguro e assustado.
— Aredhel... Por favor... Acredite... Eu vou me esforçar... — o desespero na súplica era palpável. — Sou eu quem não pode fracassar de novo. Farei qualquer coisa para não lhe perder... — a voz dele fraquejou. — Não posso viver sem você. Não conseguiria prosseguir sem meu sol principal... — a declaração saiu entrecortada.
Aredhel esboçou um sorriso tímido, limpou as lágrimas e se recompôs.
— Eu queria que também me perdoasse... — ela disse de repente.
Viu o marido franzir o cenho, então explicou.
— Nosso caçula quase morreu por minha culpa. Eu ouvi a metade de uma conversa e fui logo tirando conclusões precipitadas. Acreditei que você planejava me substituir por Sigyn — mordeu os lábios envergonhada.
— Nunca, meu amor... Jamais a substituirei... — ele sussurrou e beijou as mãos dela. — Vamos esquecer tudo isso. Nosso filho está bem. Nasceu forte e saudável apesar de todas as adversidades. E depois do que lhe fiz passar meses atrás, creio que mereci sua desconfiança — suspirou. — A única coisa que desejo agora é poder lhe fazer feliz novamente — assegurou com sinceridade.
Um novo sorriso se desenhou nos lábios dela e Loki se levantou, indo se acomodar ao seu lado na cama. Ainda segurando as mãos dela, ele as beijou demoradamente e, em seguida, acariciou seu rosto.
— Ah, Aredhel... Eu te amo tanto... — a fitou com carinho.
— Eu também te amo, Loki... — murmurou timidamente.
Ele se inclinou na direção dela e seus lábios se tocaram suavemente. Feito uma corrente elétrica, um choque percorreu o corpo dos dois. Além do amor incondicional que unia aquelas almas, existia uma sintonia magnética entre seus corpos. Precisavam desesperadamente estar próximos, unidos. Necessitava um do outro, como precisavam do ar que respiravam.
Suas bocas se abriram, dando passagem para suas línguas se acariciarem, enquanto Loki se debruçava sobre ela. Com os incômodos físicos do final da gravidez, já fazia algum tempo que ele não desfrutava da esposa. Estava deliberadamente faminto. Aredhel mal havia deitado sobre a cama, quando ele começou a morder e lamber seu pescoço de forma afoita. Ele desceu até o decote do vestido e roçou a ponta no nariz sobre a pele alva dos protuberantes seios dela. Foi neste instante que algo se acendeu em sua mente.
— Ada fez as magias para acelerar sua recuperação pós-parto, não fez? — questionou em um tom de quase súplica.
Aredhel deu uma risada abafada, contra os cabelos dele.
— Fez... Ah, Loki... — ria. — Se fosse na Terra, você teria que esperar um mês... — provocou.
— Midgard... Sempre tão atrasada... — ele resmungou, levando ambas as mãos aos botões do vestido dela.
Feito o calor de um raio de sol, os lábios dele aqueceram os seios dela. Loki se regozijava com os gemidos baixos que ela dava e com o perfume de jasmim que inspirava. Ele amava o cheiro que ela exalava.
Alcançando um dos entumescidos e escuros mamilos de Aredhel, ele soprou e o viu endurecer mais. Circulou com a ponta de sua língua e o tomou de forma calma, sorvendo com a doçura de uma chuva de primavera. Ela se agarrou aos cabelos dele e arfou extenuada com a profusão de sensações que ele lhe proporcionava.
— Loki... — chamou enebriada.
Ele sorriu contra seu ventre e continuou descendo. Afastou o vestido e baixou a calcinha dela sem pressa. Aredhel estremecia a cada carícia que recebia em suas coxas e ao redor de sua intimidade. De forma fugidia, Loki evitava tocá-la naquele local. Seu objetivo era provocar e prolongar aquela tortura, enquanto ele se desfazia de suas roupas com certa premência.
Despido, ele deslizou os lábios pelo pé de sua esposa, subindo por sua perna. Espalhou mordidas e lambidas por toda sua extensão, até chegar às coxas novamente. E, uma vez lá, Loki não se conteve mais. Sugava a pele e mordia com maior violência, enquanto introduzia um de seus dedos na fenda dela. Massageou morosamente a carne macia e úmida de Aredhel. Movimentava o dedo de forma perversa, até vê-la arquear na cama, perdida em um frenesi.
Loki abriu um sorriso doce e ao mesmo tempo diabólico. Cobriu-a, apoiando-se em um dos braços e a beijou com voracidade. Ela afundou os dedos nos cabelos dele e os puxou com violência, afastando-o de seus lábios. Sorriu com malícia e mordeu o queixo do marido e seu pomo de adão. Arfando de excitação, ele levou uma das mãos até o traseiro de Aredhel e apertou com força. Desceu arranhando até alcançar a parte de trás do joelho dela e puxou para cima, abrindo mais o espaço entre suas pernas.
— Está pronta para seu rei? — perguntou com a voz trêmula de desejo, resvalando a extremidade de seu membro na entrada dela.
— Por favor... — ela quase implorou, tocando seu rosto.
Os cantos da boca dele se abriram em um singelo sorriso. Loki inspirou o ar com certa dificuldade e com uma investida forte a penetrou. Ela entreabriu os lábios com a surpresa e teria gritado, se não lhe tivesse faltado o ar. “Inacreditável... Sempre tão apertada”, devaneou a mente dele. A segunda estocada foi mais fundo e ela cravou as unhas em seu ombro. Ele mordeu os lábios, lembrando a si mesmo para não gozar antes do tempo. Novas e firmes investidas vieram e Aredhel esqueceu onde estava e até quem era. O prazer que sentia era tudo o que ela reconhecia ser real.
Em um movimento ritmado e progressivo, Loki forçava-se contra ela. Aredhel, por sua vez, arqueava-se gradativamente para recebê-lo cada vez mais fundo. Era a conexão perfeita. Próxima do ápice, ela ergueu como pode o quadril, antecipando as arremetidas. E, com um grito rouco, ela anunciou a sua explosão de prazer. Mal podendo controlar o que fazia, ele relaxou e suas pupilas se dilataram, desenhando um arco azul cristalino em torno daquela escuridão. Uma lufada de ar escapou de seus lábios, então Loki se diluiu, preenchendo-a.
Exaustos e saciados, o casal se abraçou e trocaram alguns carinhos. O rei aninhou sua amada em seus braços e beijou sua fronte repetidas vezes, enquanto ela cerrava os olhos entorpecida pelo cansaço.
— Se você não estivesse ainda se recuperando, eu não a deixaria dormir tão cedo... — disse baixinho.
Dormindo, ela murmurou o nome dele e pousou uma das mãos sobre seu peito nu, encolhendo-se. Seu semblante estava diferente dos dias anteriores. As sombras do sofrimento tinham se dissipado. A angústia fora substituída pela serenidade. Sentindo-se segura nos braços dele, Aredhel era a imagem da tranquilidade. Nem de longe lembrava a mulher que havia chegado tão perto de enlouquecer.
Ele a observou por um longo tempo, enquanto desenhava com a ponta dos dedos os traços do rosto de Aredhel. Um sorriso desabrochou no rosto dela e ele pensou como fazia tempo que não a via assim: feliz e em paz. Pesaroso, fechou os olhos com força e conteve um soluço. Como a amava e estivera tão perto de perdê-la. Logo ela... O centro de seu universo. Loki ponderou que jamais conseguiria evitar se apaixonar por ela. E depois de tanto anos, sabia que teria agido como um tolo se tivesse pensado em resistir a esse sentimento, pois seria impossível. Existia entre eles uma indissolúvel ligação invisível, mas inegável, inquestionável e incombatível.
Fascinado e emocionado, recostou sua testa nos cabelos negros dela e suspirou. Algumas coisas são destinadas a ser. Aredhel era seu destino e sua vida inteira.
— Obrigado, meu amor... Obrigado por me dar mais uma chance — pressionou os lábios contra a fronte dela. — Você é tudo para mim... É minha vida e meu único destino... — sussurrou.
≈≈
Em um dos muitos salões do palácio, estavam os herdeiros do trono reunidos ao redor de uma agradável lareira, na companhia de alguns de seus amigos. Apesar do ambiente aconchegante, não se podia dizer o mesmo sobre o clima que pairava no ar.
— Então o padrinho vai mesmo deixar a madrinha partir... — Kat murmurou incrédula.
— Foi o que papai disse... — anuiu Váli, ainda indeciso se isso era algo bom ou ruim.
— Como será que está sendo esta conversa? — Fenrir olhava pensativo para o fogo.
— Não sei... — murmurou Eisa. — Espero que esteja tudo bem...
— Vai ficar tudo bem... — Wagner afagou os cabelos da jovem.
— Bem? — Igor fez um muxoxo. — Não tem como isso acabar bem — ergueu as mãos. — Se mamãe partir, significa o fim de um casamento de mais de trinta anos! — bufou. — E nem sabemos se ela está realmente bem depois do que aconteceu. Segundo Hela e Váli, ela estava praticamente prestes a enlouquecer.
— Verdade... Papai disse que nunca vira a madrinha nesse estado — Kat concordou tristonha.
— A mamãe vai ficar bem — retrucou Eisa. — Ela já estava bem mais calma quando fui vê-la.
— Ela obviamente ficou alterada pois pensou que nosso irmão havia morrido no parto — arrematou Einmyria. — Depois de tudo o que ela passou, perder um filho realmente poderia levá-la à loucura.
Hela trocou olhares com Váli. Os dois sabiam que o descontrole da mãe ia bem mais além. Sentiam-se culpados pelas coisas que a fizeram passar.
— Você não vê nada? — Hela perguntou à irmã vidente.
— Não... — Myria meneou a cabeça. — Já faz tempo que não vejo o futuro de nossa mãe.
Apertou uma das mãos contra o peito e voltou a olhar para o irmão mais velho. A jovem temia que isso sinalizasse que a mãe poderia cometer algum desatino.
— Não sei se é uma boa ideia deixá-la partir... — o pensamento dela saiu alto.
— Talvez a demora seja justamente porque ele está tentando convencê-la a ficar — Narfi, que até então estava quieto, falou. — Nosso pai não é do tipo de desiste de algo facilmente.
— Independente do resultado — Fenrir voltou a falar —, temos que apoiar o que decidir nossa mãe. Sem confusões — olhou na direção de Váli.
— Fenrir tem razão — Einmyria anuiu. — Ela precisa de paz.
— Nossa mãe terá meu total apoio — Váli disse cabisbaixo. — Se quiser ficar... Nada direi, mas vigiarei nosso pai de perto. Se decidir ir viver em outro lugar... Eu e Sig iremos com ela.
— Sigrid aceitou morar com a sogra? — riu Narfi.
— Sig gosta dela como se fosse sua segunda mãe — Váli rebateu.
— Não está mais aqui quem falou — Narfi deu de ombros.
— A madrinha poderia viver conosco — Kat intrometeu-se. — Eu cuidaria de Jörmungand com todo prazer!
— Vocês vão deixar o palácio? — Igor mal conteve um sorriso.
— Bem, ainda não sabemos... — Wagner coçou a nuca meio sem graça.
— Mas por que vocês iriam embora? — Fenrir ficou surpreso. — Sei que o tio Jim e Hela terminaram, mas não é motivo para nos deixarem. E duvido que mamãe e o tio Jim não façam as pazes. Os dois são muito unidos.
— Creio que o clima vai ficar mais incômodo para o tio Jim, mas por outros motivos — Narfi falou baixinho e olhou de soslaio para Hela.
— Como assim? — Eisa questionou.
— Ah! É verdade! — exclamou Narfi. — Com toda confusão creio que Hela não pode contar a novidade! — foi irônico. — Então, irmãzinha... Aproveite a ocasião e conte a boa nova a todos! — provocou.
Kat e Wagner baixaram os olhos, enquanto os demais se viraram na direção da princesa mais velha. Hela engoliu em seco e fechou a cara.
— Como você ficou sabendo? — ela sibilou.
— Foi seu noivinho quem me contou — Narfi sorriu cinicamente de volta.
— Noivo? — Váli quase gritou.
— Sim! Nossa irmã mais velha vai se casar com Eric, o príncipe de Alfheim! — anunciou Narfi.
— Hela? — pasmou-se Fenrir.
A moça trincou os dentes com raiva. Percebeu que Eisa olhava em sua direção e resolveu controlar seus pensamentos, antes que ela descobrisse algo.
— É verdade — ela confirmou. — Eric e eu nos casaremos em breve. Assim que essa situação de nossos pais se resolver.
— Casar com Eric? — a voz de Aredhel ressoou no local.
Todos se viraram para se surpreenderem com a visão da rainha entrando acompanhada de seu rei. Aredhel estava banhada e arrumada, porém com um semblante carregado. Loki, por sua vez, parecia calmo e exibia um sorriso bobo no rosto.
— Mamãe? — disseram em uníssono.
Váli olhou de sua mãe para seu pai e logo compreendeu. “Ela o perdoou”, concluiu. Ele crispou os lábios e ergueu as mãos.
— Eu sabia... — disse quase inaudível e cruzou os braços.
Aredhel soltou o braço do marido, percorreu os olhos rapidamente pelos filhos e fixou o olhar na filha mais velha.
— Hela... — a voz saiu serena. — Você me acompanhe. Temos que conversar.
— Mamãe... Eu já tomei minha decisão e... — a moça começou.
— Eu não perguntei nada — a mãe disse com frieza. — Mandei vir comigo.
Todos ficaram chocados e Narfi deixou escapar um assovio.
— Meu amor... — Loki deu um pigarro. — Talvez fosse melhor respeitar a vontade de nossa filha e...
Aredhel olhou para ele e lançou-lhe um olhar gélido. No mesmo instante ele se calou, fez uma careta e levantou as mãos.
— Hela, vamos. Agora! — a rainha foi firme, deu as costas a todos e saiu.
Boquiaberta, a jovem olhou para os lados, tentando entender o que fora aquilo.
— Acho melhor você obedecer a sua mãe... — Loki passou os dedos pela testa e crispou os lábios em uma linha.
Hela se levantou e saiu atrás de sua mãe a passos rápidos. Loki se virou para os demais que o fitavam paralisados e empertigou-se.
— Bem... — deu um sorriso fraco. — A mãe de vocês resolveu ficar — anunciou.
No mesmo instante, James entrou no local.
— Boa tarde... E... — percebeu o clima estranho. — Er... Eu perdi alguma coisa? — franziu o cenho.
≈≈
Alguns andares acima, mãe e filha entraram no quarto desta. Aredhel esperou a filha fechar a porta e a observou se aproximar temerária.
— Mãe? Está tudo bem? — inquiriu.
— Estou, mas poderia estar melhor se não tivesse que me preocupar com certas coisas — respondeu com certa rispidez.
Hela ficou sem palavras e nervosa. Nunca tinha visto a mãe agir daquela forma. A rainha deu um suspiro impaciente, tomou uma poltrona e indicou outra para a filha se sentar.
— Você perdeu o juízo? — questionou a mãe.
— Nossa, mãe... A senhora nunca falou assim comigo... — lamuriou-se.
— Talvez porque nunca foi necessário — cortou. — Mas já faz alguns meses que deveria ter falado desse jeito. Teria evitado uma série de problemas — foi dura.
A jovem, que não era nada boba, sabia que a mãe tinha razão. Baixou a cabeça e fitou as mãos.
— Antes de mais nada... — começou Aredhel. — Existem certas coisas que você precisa aceitar. Você se parece comigo e nada vai mudar isso — afirmou sem emoção.
Hela a encarou estupefata.
— E mesmo que fossemos diferentes — prosseguiu inexpressiva —, nada que o Jim alegasse lhe daria a segurança sobre seus sentimentos. No amor não há garantias. Nunca se tem certeza de nada. Quando se ama, aprendemos a confiar na palavra do outro. É tudo no que podemos nos agarrar. E os atos dele nos confirmam se isto é verdade ou não.
— Eu sei, mãe... Já lhe pedi perdão pelos impropérios que lhe dirigi — afirmou com veemência e agarrou a mão da outra. — Não tenho problemas em parecer com a senhora... Na verdade sempre me orgulhei disso. Sei que errei e fui muito injusta... — envergonhou-se.
— Se parecer comigo não é um problema, então por que terminou com ele? — insistiu a rainha.
— É como a senhora disse... Mesmo que fosse diferente... A dúvida persistiria... Não sai da minha mente que ele foi apaixonado pela senhora — enrolou.
— Duvido que isso tenha acontecido — Aredhel revirou os olhos —, mas isso é passado. Se o ama, tem que acreditar no que ele diz. Ele te ama.
— Esse é o problema. O amor que eu sinto por ele não é grande o suficiente para esmagar essa dúvida — mentiu. — Passaria o resto da vida me perguntando se sou apenas um prêmio de consolação.
A mais velha passou as mãos pelo rosto e bufou cansada.
— E por isso escolheu fugir se casando com outro? — perguntou irritada. — Você tem ideia do que está fazendo da sua vida? — continuou. — Acha que casamento é uma brincadeira? Um dia diz que ama um homem, no outro anuncia que vai se casar com Eric. Você mal o conhece! — rosnou.
— Eu o conheço e muito bem — havia um imperceptível tom de ironia na frase. — Durante todo esse tempo, Eric nunca deixou de me visitar. Sempre foi gentil comigo, é muito carinhoso e já disse que me ama. É um homem encantador — quase vomitou ao afirmar tais coisas —, sem sombras e dualidades em seu passado — completou nauseada.
Aredhel deu um suspiro triste.
— Mãe... — a jovem reuniu forças. — O que eu sentia por Jim era como uma chama ao vento... Frágil... Fruto de uma ilusão infantil. E essa chama apagou... Eu não o amo mais — uma pontada dolorosa em seu peito contradizia aquelas palavras. Hela teve vontade de chorar.
— Olhe, filha... A vida é sua... — Aredhel ergueu as mãos. — Há muito tempo que você já é capaz de decidir o que é melhor para si — balançou a cabeça. — Eu não concordo, mas não posso impedi-la. Tudo que me resta a fazer é lhe aconselhar e torcer por você. Desejo do fundo do coração que esteja certa e que seja muito feliz com esse homem. E que Deus lhe proteja.
Hela mordeu os lábios e foi se sentar no chão ao lado da poltrona da mãe. Pousou a cabeça no colo dela e se encolheu.
— Eu vou ser feliz... — disse sem a menor convicção. — Só quero que prometa que vai ficar bem — levantou a cabeça para encarar a mãe. — Eu te amo tanto...
Ouvir aquilo desarmou Aredhel. O lábio inferior dela tremeu e ela se debruçou sobre a filha, afundando o rosto em seus cabelos.
— Eu também te amo, minha menina... — disse com a voz chorosa. — Por isso me preocupo tanto com essa sua decisão.
— Eu também... — a outra sussurrou afundando o rosto no colo da mãe.
≈≈
Jim andava de um lado para o outro nos jardins do palácio. Apesar de estar feliz por saber que a amiga estava melhor, ainda lhe preocupava a sua reação em relação a ele. Perdoar Loki era algo previsível, mas não sabia se ela seria complacente para com ele. E para completar seu infortúnio, foi informado de que Hela anunciara seu casamento com Eric.
Ele passou as mãos pelos cabelos e respirou fundo.
— O que será que Aredhel está conversando com ela? — perguntava-se, evidentemente preocupado.
Parte de si ansiava que Aredhel tivesse sucesso em fazer Hela desistir da ideia maluca de se casar com Eric. Isso lhe daria tempo para convencer a jovem de que seu amor era real. A outra parte, a do orgulho ferido, lhe apontava o dedo afirmando que era um idiota por sonhar com isso. Afinal, a princesa já havia deixado claro que não o amava mais. Ele a amava e lhe doía pensar que logo se entregaria a outro.
— Droga, Hela... — praguejou.
— Ainda por aqui? — a voz masculina soou zombeteira. — Pensei que tivesse um pouco de amor-próprio e já tivesse voltado para sua cabana na vila.
James se virou e viu Eric parado com um sorriso jocoso no rosto. Trazia nas mãos um buquê de lírios brancos.
— Eu moro aqui a convite do próprio rei — o ator cruzou os braços e sorriu de lado. — Sou da família.
— Ah... Pensei que estivesse aqui apenas cercando minha futura esposa — falou fingindo não ter sido afetado. — Tanto faz... — deu de ombros. — Logo ela não morará mais aqui. Estará segura em meus braços, em nossa cama — destilou veneno.
O outro teve vontade de avançar sobre o príncipe. A raiva foi tanta que Jim cerrou os punhos a ponto de cravar as unhas na palma de sua mão. Apesar de sua habilidade nata para disfarçar e encenar dele, Eric percebeu que o atingiu com o comentário. Um sorriso de esgar se apresentou em seu rosto.
— Aliás, você não imagina a saudade que sinto do calor dela ao meu lado... — Eric chutou uma pedra de forma despreocupada. — Entrar às escondidas no palácio e sair antes do amanhecer não é nada fácil. Mas vale a pena... Uma mulher quente e apaixonada sempre vale qualquer risco — encarou o loiro.
O som do ranger dos dentes de Jim era quase audível. Não sabia o que mais o deixava enfurecido: saber que Hela já tivera relações com Eric ou ouvi-lo falar daquele jeito dela. Não... Com toda certeza a sua ira se inflamava com a ideia de outro tocá-la. Hela era só sua.
Jim avançou na direção de Eric e agarrou seu traje. Respirava pesadamente.
— Veja como fala dela... Hela não é uma qualquer — ameaçou.
— Eu falo como quiser de minha noiva... — rebateu o outro.
— Senhor James, príncipe Eric? — Týr apareceu no jardim. — Algum problema? — arqueou uma de suas sobrancelhas.
— Não... — Eric sorriu cinicamente enquanto Jim largava sua roupa. — Estávamos apenas falando sobre técnicas de luta — mentiu descaradamente. — Se você puder me dar a licença — encarou o ator —, minha noiva me aguarda.
Acenou com a cabeça para os dois homens e entrou no palácio de forma despreocupada.
≈≈
No final da tarde, Aredhel acomodara seu bebê no berço e o acarinhava. Tinha acabado de amamentá-lo novamente e ele voltara a adormecer. Uma batida na porta se ouviu e ela mandou entrar. James entrou carregando uma bandeja arrumada para um típico chá das cinco.
— Será que podemos conversar? — franziu o cenho inseguro.
Inexpressiva, indicou a pequena mesa do quarto.
— “E quando estivermos mal, podemos nos servir de uma xícara de chá e sussurrar sobre as coisas que nos maltratam. Sempre poderemos contar um com o outro” — ela repetiu o que ele um dia dissera.
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