Asgard Dirty Secrets
38 So the winner takes it all and the loser has to fall
Notas iniciais

— Eu não mereço um beijo de boa noite? — Narfi a fitou com um falso olhar de súplica.
Rebecca crispou os lábios e lançou-lhe um olhar condescendente.
— Vamos, Becca — insistiu. — Fiz tudo certo. Pedi ao seu pai para cortejá-la, a trouxe para casa sã e salva e não forcei nenhuma situação.
— Não fez mais que sua obrigação — fez uma careta.
— Becca... Eu mereço pelo menos isso... Somos oficialmente namorados... — quase implorou.
Ela pareceu ponderar por alguns instantes e, pondo-se nas pontas dos pés, se inclinou na direção dele e o beijou nos lábios. O beijo foi breve, apenas um leve toque, uma curta carícia. Todavia, foi dado com um carinho sincero. Embora não quisesse admitir, a jovem sempre nutriu por aquele homem algo mais que um sentimento fraternal. Rebecca apenas tinha receio de ser usada e descartada como todas as outras. Temia ter o coração partido.
Narfi sequer imaginava que era correspondido.
Quando ela se afastou, ele permaneceu parado, meio que ainda saboreando o calor dos lábios dela.
— Boa noite, Narfi... — sussurrou e fechou a porta.
— Boa noite, Becca... — respondeu baixinho para a porta fechada.
≈≈
Aredhel encarou o marido boquiaberta. A expressão no rosto de Loki era impassível.
— Não Loki, não... — a súplica saiu baixa e misturada com o choro. — Eu... E-eu...
Ele cerrou os olhos com força. Era difícil encará-la. Ver a pele de Aredhel avermelhada no colo e seus lábios inchados pelos beijos de outro homem era torturante, mas a dor e a angústia estampada no rosto dela, foi demais. Loki sabia que não o escolheria, uma vez que isso custaria a vida do outro. E mesmo sabendo que aquele era o único motivo para ser rejeitado por ela, aquilo lhe doeu na alma.
O ciúme e o amor por ela travavam uma batalha novamente dentro dele. Ele tinha que encarar os fatos. A luta pelo autocontrole nunca teria um fim. Sempre diria ou faria alguma temeridade e poria a perder o que tinha conquistado. Passaria a vida inteira lutando para se redimir de seus pecados e consertar seus erros, mas continuaria tropeçando nas mesmas pedras e na devastação causa por ele mesmo. Sua sina era criar o próprio inferno no qual viveria pela eternidade. Seria possível ir contra sua natureza ou talvez devesse desistir e assumir que nunca mudaria?
Convencido da fatalidade de seu destino, Loki riu sem humor, deu as costas a esposa e encarou um James resignado.
— Loki... Eu imploro... — ela suplicou aos soluços às costas do marido.
A voz dela fez seu coração bater mais rápido. O rei fitou o ator por alguns instantes em total silêncio, ainda com o rosto indecifrável. Jim ponderava se deveria se despedir de sua amiga e aguardar sua execução, ou se permanecer quieto, esperando por um milagre. Loki era imprevisível.
— Você conseguiu, James... — o moreno, por fim, falou e trincou os dentes. — No final tanto faz... Você ficando vivo ou morrendo, o fato é que eu perdi e você levou tudo — a mágoa transbordava de suas palavras. — Se eu lhe matar a perderei para sempre. Mas você ficando vivo... — olhou na direção dela — …terei que viver à sombra desse relacionamento estranho e único de vocês pelo resto da vida — concluiu amargurado.
O rei de Asgard sabia que se matasse James, ainda que um dia o deixasse de odiar, ela mesma jamais se perdoaria. A resiliência dela tinha seus limites. Ela nunca seria a mesma pessoa novamente. Ele a perderia. Loki suportaria o ódio dela, mas jamais gostaria de vê-la sofrendo como fora naqueles últimos meses. Ainda era vivo em sua memória todos os detalhes da depressão de sua amada e o quanto ela esteve perto de desistir da própria vida. Aquela foi de longe a pior gestação que Aredhel teve e ele se sentia miserável toda vez que lembrava que fora o principal responsável daquele tormento. Tudo o que ele não queria era decepcioná-la ou machucá-la novamente. Faria qualquer coisa para não perdê-la.
Antes que Aredhel pudesse protestar ou Jim pudesse dizer algo, a Gungnir desapareceu. A rainha escorregou lentamente pela parede até tocar seus pés no chão novamente. Loki deu as costas aos dois e se dirigiu à saída do quarto.
— Loki! — ela exclamou, ele parou à porta e a fitou. — Você sabe que te amo. Apenas confie em mim... Confie em meu amor por você... — pediu.
Ele franziu o cenho e exalou o ar lentamente, visivelmente cansado.
— Que alternativa eu tenho, senão confiar? É tudo o que me resta... — olhou-a entristecido. — Meu amor por você é maior que meu medo, meu orgulho, meu ciúme e... do que eu mesmo... — então ele deixou o quarto.
— Loki... — ela murmurou estupefata, levando a mão ao peito.
James olhou pasmo na direção da amiga. Mal podia acreditar no que tinha testemunhado. Nem em seus sonhos mais loucos, imaginou que um dia ouviria Loki dizer tais palavras. Na verdade, ainda estava chocado com o fato de ter sido poupado da morte certa.
Os dois se olharam em silêncio por alguns instantes, até que ambos desviaram os olhos um do outro, claramente embaraçados. Ele tentou ajeitar a roupa suja e amassada, enquanto ela levantou a alça do vestido que tinha caído.
— Aredhel, me perdoe, eu não... — ele começou terrivelmente envergonhado.
— Amanhã conversaremos, Jimmy... — interrompeu-o e baixou a cabeça, corando violentamente. — Acho melhor você descansar e estar devidamente sóbrio, antes de conversarmos sobre tudo o que aconteceu...
— Está bem... — passou a mão pela nunca, sentindo-se muito mal pelo que fez.
Aredhel se encaminhou para a porta.
— Ela se casou mesmo? — a pergunta saiu sussurrada
— Sim... — confirmou, sem se virar. — Boa noite, Jimmy... — disse assim que chegou à porta.
— Boa noite, Aredhel...
Assim que a porta se fechou, a escuridão do quarto e do arrependimento cobriram Jim.
— O que eu fui fazer? — arfou, levando as mãos à cabeça.
≈≈
Quando Aredhel entrou no quarto, Loki estava sentado na beirada da cama. Ele fitava pensativo uma poltrona que havia à sua frente e mal percebeu a presença dela, até ela se sentar ao seu lado.
— Loki... — ela o tocou no ombro.
Ele a encarou e ela o abraçou apertado. Loki apenas correspondeu ao abraço, mas se surpreendeu quando percebeu que a esposa soluçava.
— O que houve, Aredhel? — confuso, abraçou-a mais apertado. — Eu lhe machuquei? Ele está ferido? Posso jurar que não o toquei...
O choro dela se intensificou.
— Aredhel fale comigo, por favor... Está me deixando angustiado — afagou os cabelos dela. — O que eu fiz agora?
Ela finalmente o encarou e resfolegou, limpando as lágrimas do rosto.
— E-estou tão orgulhosa de v-você... — disse emocionada e beijou-lhe o rosto. — V-você não fez nada errado... — beijou-o nos lábios. — Estou tão feliz... — abraçou-o novamente. — Deus... Você confia no meu amor... — voltou a chorar contra o ombro dele.
Ao ouvir aquilo, Loki se sentiu estranhamente culpado. Parecia que ela esperara todos aqueles anos para ele confiasse nela e isso o devastou.
— Eu sempre confiei em você, Aredhel... Em seu amor... — apertou-a contra seu peito. — É só que... Parece que não sei lidar muito com o que sinto e principalmente com o que os outros sentem por você — confessou contrariado.
— Loki... — protestou contra o ombro dele.
— Proteste o quanto quiser. James pode até mesmo amar a nossa filha como afirma, mas um dia já desejou você — resmungou. — Ele pode continuar negando para o resto da vida, mas disso eu tenho certeza.
Aredhel mordeu os lábios e afastou o rosto um pouco para poder olhar o marido nos olhos.
— Digamos que você tenha razão... — ela começou e o viu fechar a cara. — É só uma suposição... — lembrou-o. — Ainda assim, ele nunca fez nada. Sempre se comportou como um irmão e amigo leal. Jamais se insinuou ou fez algo contra nosso casamento. Já estou até cansada de repetir isso para você.
— Não fez nada? Não mesmo? — arqueou uma sobrancelha, com visível descrença. — E desde quando irmãos beijam suas irmãs daquele jeito? Acho isso bastante incestuoso no relacionamento fraternal de vocês — foi sarcástico.
— Sabes muito bem que ele me confundiu com Hela. Já expliquei isso.
— Aham... — cruzou os braços. — E por coincidência ele a agarra justo no dia em que Hela, em um reino distante, se casou com outro. Realmente foi apenas uma pequena confusão — manteve o tom de ironia.
— Loki... Não seja injusto — fez um muxoxo. — Ele a ama, estava desconsolado, bebeu demais e, pela primeira vez, fez uma besteira. Tudo o que ele tem feito ao logo desses anos foi me defender, colocar um pouco de juízo na sua cabeça — cutucou-o na testa — e apoiá-lo. Jimmy sempre cuidou de nossa família como se fosse sua. Defendeu e até governou o reino, como se pertencesse a ele desde o início. Deus... Ele até já morreu protegendo a nossa filha!
Loki deu um suspiro exasperado. Já ouvira aquele discurso inúmeras vezes. Ele obviamente reconhecia o bem que James havia feito em sua vida, todavia jamais admitiria isso, muito menos em voz alta. Ainda se lembrava com clareza que fora o ator que lhe apoiara quando ele matara a própria esposa. Jim foi quem se encarregou de amenizar os fatos e revelar sobre a morte de Aredhel para as crianças. Também jamais esqueceria que fora James quem lhe oferecera um ombro amigo, cuidara de seus filhos e o auxiliara com o reino no segundo falecimento de Aredhel. Nunca esquecera a angústia que vira nos olhos de Jim, quando pediu a ele que o matasse. Aquele a quem considerava um ex-amigo, arriscara inúmeras vezes a própria vida ao embarcar em suas empreitadas. Por mais que não quisesse aceitar a verdade, sabia que o ator lhe fora sempre um amigo fiel.
— Jimmy não é apenas o meu melhor amigo e um irmão para mim... — Aredhel prosseguiu. — É também para você.
Ele fez uma careta e Aredhel segurou seu rosto entre suas mãos.
— E você não me perdeu e tampouco vive à sombra do meu relacionamento com ele — ela afirmou. — Você é que se coloca assim. Não importa se um dia ele me amou de outra forma ou não, pois eu não o amo dessa maneira. É você quem eu amo como homem. Loki... Você precisa entender de uma vez que não existe uma competição entre você e o Jimmy. Eu amo vocês dois, mas de maneira diferente. Você é meu marido.
Loki exalou o ar lentamente e recostou sua fronte na dela. Ele segurou a mão da esposa e massageou seus dedos, lembrando-se de algo pendente.
— Eu sei... — ele sussurrou.
Aredhel sorriu e roçou a ponta de seu nariz no dele.
— Você é mais que isso... É o meu sol, o homem do meu destino. Eu amo você — ela disse com doçura.
— Eu também te amo — ele sorriu emocionado. — Demais...
Aredhel se recostou contra o ombro dele. Repentinamente Loki conjurou a aliança que pertencera a ela e que tinha seu nome gravado em runas. Ele encarou o rosto surpreso dela e beijou-lhe a mão.
— Aredhel — olhou-a com ternura —, já está mais que na hora de voltar a usar isso... — segurou o anel e suspirou. — Você aceita ser minha esposa, de novo?
— Oh, meu amor... — ela levou a outra mão a boca.
Com os olhos cheios de lágrimas novamente, ela estendeu a mão esquerda para ele.
— É claro que aceito... — disse com a voz embargada. — Enquanto você me quiser, eu sempre serei sua esposa.
Ele delicadamente pôs a aliança no anelar dela.
— Não Aredhel... Enquanto você me amar, eu serei seu esposo... — beijou-a.
≈≈
No quarto de James, o arrependimento tinha se transformado em um pesadelo. Após um banho, o ator se deitou em sua cama, mas não conseguiu dormir. Todavia o que lhe tirara o sono não fora apenas o assédio que cometera contra a amiga, o casamento de Hela ou seu quase encontro com a morte, mas algo que considerava bem mais grave.
Jim pouco se recordava do que havia acontecido antes de acordar em seu quarto. Lembrava de ter feito amor com Hela, mas as circunstâncias nas quais acordou e do estava em sua memória, o fizeram acreditar que não tinha sido algo consensual.
Por mais que forçasse sua mente, tudo o via eram flashes. Hela vestida de noiva, ela o empurrando, ele puxando o decote do vestido dela para baixo, arrancando sua calcinha, a penetrando com violência e, por fim, ela segurando o vestido sujo e rasgado sobre o colo, com o rosto banhado de lágrimas.
— O que eu fiz? — arfou ao se lembrar dela estendendo a mão para desacordá-lo. — Jesus... E-eu... Eu não posso ter feito isso... Jamais faria isso... — sentiu o estômago embrulhar, correu para o banheiro e vomitou.
James não costumava beber muito, mas sabia que mesmo bêbado não faria mal a ninguém. Jamais machucaria uma mulher e muito menos violentaria uma. Possuía a certeza da atração que existia entre ele e Hela, mas se perguntava se dera a ela alguma chance de lhe dizer não. Naquele instante começava a duvidar que Hela realmente o quisesse, vez que, no final, se casou com outro. “Será que eu a forcei mesmo?”, torturava-se. Quanto mais pensava e tentava encaixar as peças daquele quebra-cabeças doentio, mais se convencia de que talvez tivesse forçado a mulher que amava a ter relações com ele. A constatação disso o deixou destruído e o fez sentir nojo de si mesmo.
Eu sou um monstro... — ele se encolheu no chão do banheiro.
A situação que passara com Aredhel só o fazia ter mais certeza de seu ato vil. “E se eu não tivesse percebido, teria feito o mesmo com Aredhel? Até onde teria ido com ela?”, perguntava-se perturbado.
Concluiu que talvez nunca soubesse a verdade. Não sabia se um dia voltaria a falar com ela, tampouco se teria coragem de perguntar sobre o assunto. Afinal, não era o tipo de assunto que se fala com uma mulher casada. Hela também era orgulhosa e uma excelente atriz, então se estivesse sofrendo pelo que ele fizera, ninguém perceberia a menos que ela assim o desejasse.
Sem consolo ou solução para as dúvidas que o corroíam, ele passou a noite em claro, remoendo o crime hediondo que poderia ter cometido.
≈≈
De manhã, logo pelas primeiras horas do dia, Igor tentava recuperar o fôlego, enquanto encarava o teto de seu quarto. Katarina gemeu baixinho, aninhando-se em seus braços. Ele não havia resistido e fizera amor com ela novamente, assim que os primeiros raios de sol surgiram.
O calor, o cheiro e a maciez do corpo dela o fizeram enrijecer assim que abriu os olhos e se deparou com ela dormindo encolhida contra seu peito. Foi sob os toques ousados dele que Kat acordou aquela manhã.
O que para ele fora um novo erro, para ela foi a confirmação de que tudo não fora apenas um sonho. Sentiu-se desejada e amada quando ele a conduziu a um novo orgasmo naquela manhã. Mal sabia que tudo o que ele queria era se redimir por seus erros.
Algum tempo depois, Igor abriu a porta de seu quarto e olhou para os dois lados do corredor.
— O caminho está livre... — sussurrou.
— Certo — disse a voz feminina atrás dele.
Ele se virou e a viu radiante, ajeitando o vestido e passando uma das mãos pelos cabelos.
— Você é tão linda... — a afirmação sincera lhe escapou.
Ela riu toda sem graça, ficando carmim.
— Então nos veremos no café da manhã? — Kat indagou assim que passou pela porta.
— É claro, meu coração — deu-lhe um beijo breve.
Kat sorriu e, com os sapatos em mãos, saiu correndo. Assim, que chegou ao seu quarto, fechou a porta e soltou um gritinho de felicidade. Ela estava nas nuvens. Estava amando e tinha a certeza de que era correspondida.
≈≈
Durante o café da manhã, o clima era tão amistoso e bem-humorado que mal notaram a ausência de James. Exceptuando-se Einmyria, que já andava cabisbaixa a alguns dias, todos pareciam muito felizes e satisfeitos com a noite anterior e conversavam descontraidamente. Mas a situação mudou rapidamente quando Wagner comentou a falta de seu pai.
— Espero que ele desapareça. Que volte para a Midgard dele — sibilou Loki, levantando-se da mesa.
Ainda que sua noite tivesse sido muito proveitosa nos braços de sua esposa, Loki não se esquecera da cena que presenciara. Aredhel lhe lançou um olhar enviesado e ele revirou os olhos.
— Eu me lembro de uma sombra... — ele resmungou, olhando na direção dela.
Ela fez uma careta e se virou para os afilhados.
— Não se preocupem — comentou assim que o marido se retirou —, o pai de vocês logo ficará bem. Ele não é uma pessoa que se deixa abater por muito tempo.
Os gêmeos anuíram em silêncio.
Terminada a refeição, Aredhel pedia que preparassem uma bandeja de café para James, quando Wagner a abordou.
— Madrinha, eu gostaria de lhe falar. É um assunto muito importante.
— Certo, meu filho — ela sorriu. — Creio que sei sobre o que se trata — deu uma piscadela. — Vou ver Jörmungand rapidamente e depois levarei o café para seu pai, a fim de conversar com ele com calma. Assim que eu retornar eu lhe procuro, está bem?
— Claro, Madrinha.
Aredhel levou a bandeja até o quarto do amigo, descansou-a em um aparador que havia ali no corredor e bateu à porta. O som de algo caindo e coisas quebrando a fez abrir a porta sem aviso.
— Jimmy... — espantou-se ao ver o amigo caído de joelhos ao lado de um vaso quebrado. — Você está bem? — ajudou-o a se levantar.
Quando o encarou, notou a palidez, as olheiras profundas e o estado nervoso dele.
— Santo Deus... — suspirou. — Você não dormiu nada pelo jeito — levou-o até a mesa de seu quarto e o acomodou em uma das cadeiras. — Bem que imaginei — foi buscar a bandeja. — Em vez de café ou chá-preto, eu lhe trouxe uma mistura de ervas que lhe ajudará a descansar um pouco.
Ela serviu uma xícara ao amigo e pôs um prato cheio de pãezinhos e bolinhos à frente dele.
— Obrigado... — ele disse em um sussurro.
— O chá tem lavanda e camomila... — comentou servindo um pouco para si. — Ótimo para acalmar os nervos.
Ele se limitou a fitar a xícara e os quitutes oferecidos pela amiga. Não tinha a menor vontade de comer.
— Jimmy... — chamou-o e pôs a mão sobre a dele. — Você precisa comer... Acabou... Não há mais nada a ser feito. Você usou todas as suas cartas, mas infelizmente ela se casou com ele.
— Ah, Aredhel... — suspirou e passou uma das mãos pelos cabelos.
Jim estava no inferno. A tristeza por perder a mulher que amava para outro tinha se concatenado com dúvidas sobre o que havia feito na noite anterior. Na verdade, naquele momento, a tortura da incerteza sobrepujava a dor da perda. Já era demasiado doloroso saber que Hela estava casada com Eric, mas pior ainda era imaginar que a teria machucado e forçado a fazer algo que não queria.
Angustiado, ele escondeu o rosto entre as mãos e respirou fundo, tentando controlar as próprias emoções. Aredhel se compadeceu do evidente sofrimento dele. Ela se levantou, ajoelhou-se ao seu lado e o abraçou, acarinhando seus cabelos. Aquilo foi demais para ele. James sucumbiu.
— Vai ficar tudo bem... — Aredhel tentava consolá-lo. — Uma hora essa dor vai passar...
Ele não se envergonhava de chorar na frente de Aredhel. Já há muitos anos não existiam formalidades ou pudores entre eles. Eram amigos para qualquer situação e não havia tabus sobre o que dividiam. Naquela situação, James desejava com todas as forças poder falar abertamente com ela, como sempre o fez, sobre suas agruras, mas não podia. Como poderia ser capaz de falar sobre as dúvidas que tinha com a mãe de Hela? Se fosse sobre qualquer outra mulher, sabia que ela o ouviria sem julgá-lo e tentaria ajudá-lo a solucionar aquele enigma, mas se tratava da filha dela. Sentia-se, pela primeira vez, perdido e desamparado. Resolveu desabafar como podia e deixá-la acreditar que se tratava apenas do luto de seu coração. Jim teria que se conformar em carregar aquele fardo sozinho. Mais um entre tantos.
Jim pressionou a boca contra o ombro dela tentando conter seus soluços e se agarrou em seu vestido em desespero.
— Oh, Jimmy... — ela o apertou mais e alisou suas costas. — Meu Deus... Eu sinto muito... Muito mesmo... — chorou junto com ele.
Como dois amigos inseparáveis que eram, eles sofreram e choraram juntos uma dor que até desconheciam ou não compreendiam, mas sentiam profundamente.
≈≈
Katarina estava sentada no jardim suspirando feliz e fazendo anotações em seu caderno sobre as plantas que observava aquela manhã. Ela se ajoelhou diante de uma folhagem rasteira, arrancou uma das folhas e a colocou contra o sol para melhor observá-la, quando uma sombra se fez sobre si.
— Bom dia senhorita Hiddleston — Týr fez uma mesura.
— Lord Vídarr — ela sorriu e acenou com a cabeça. — Bom dia — respondeu aceitando a mão que ele ofereceu para ajudá-la a se levantar. — Obrigada.
— É um prazer servi-la senhorita — abriu um sorriso luminoso. — E pode me chamar de Týr, seu fiel escudeiro e... — fez uma pausa nervosa — …amigo.
— Certo, Týr... Então me chame de Kat. É como todos meus amigos me chamam — disse com simpatia sincera.
— Se me permite a intromissão, notei que a senhori... Digo... Que você gosta muito de ler.
— Sim, é verdade. E pelo que vejo em suas mãos — apontou para o livro que ele tinha em mãos —, também é um hábito que você cultiva.
— Sim, eu gosto muito de ler, mas — desviou o olhar para o livro que trazia — este em especial não é para mim... Na verdade eu o trouxe para você — estendeu-o para ela.
— Para mim? — surpreendeu-se e apanhou o livro.
— Sim. Como um leitor voraz, tenho a mania de prestar atenção no que os outros leem, então notei sua preferência por botânica.
— É verdade... — ela murmurou encantada passando os dedos sobre as letras douradas da capa. — Nunca o vi antes...
— Bem, esse exemplar é bem específico. É sobre as plantas mais raras existentes em meu reino e, por sinal, com ilustrações muito realistas.
— Ah, muito obrigada! Prometo ler logo e devolvê-lo rapidamente — disse toda empolgada.
— Não precisa devolver... — deu um pigarro. — É um presente.
— Oh... — encarou-o estupefata. — Muito obrigada — abraçou o livro. — É muito gentil de sua parte. Eu... Eu nem sei o que dizer...
— Não precisa dizer nada... — ele sorriu. — É apenas uma cortesia de um amante de livros para outro.
— Obrigada mesmo... — corou e voltou seu olhos para o livro, abrindo-o. — “Para aquela que desbrava outros mundos, sem que ninguém perceba” — leu. — Oh, que dedicatória linda...
— Ah! Então era aqui que você estava! — disse uma voz feminina, invadindo o local.
Os dois se viraram e viram uma jovem de cabelos curtos e castanhos.
— Nina... — ele murmurou. — Você por aqui?
— Surpreso em me ver, irmãozinho?
— Sim... Um pouco... — ele disse meio desconfortável. — Er... Kat... Esta é minha irmã Nina... Nina esta é a senhorita Katarina Hiddleston.
— Ah, a prima do rei. Prazer em conhecê-la senhorita — fez uma cortesia.
— O prazer é todo meu — respondeu o cumprimento. — Pode me chamar de Kat.
— Mas afinal... — Týr retomou o assunto. — O que faz aqui?
— Ah! Sou a nova aprendiz da mestra de cura. Vou morar aqui — deu de ombros.
≈≈
Em Alfheim, Hela mal acabara de tomar seu café da manhã e teve que correr às pressas para o banheiro. Devolveu tudo o que tinha ingerido. Os enjoos estavam implacáveis naquela manhã.
Ela terminava de lavar o rosto e a boca, quando Ness entrou no quarto com uma bandeja em mãos.
— Trouxe um chá para ajudar com a náusea — anunciou, enquanto servia o chá para a princesa.
— Pelos deuses... — bufou Hela saindo do banheiro. — Era só o que me faltava... Adoecer... — jogou-se na cadeira.
— Se você me permite dizer — Ness começou com cautela —, não creio que esteja doente.
— Não? — cheirou chá e rapidamente empurrou a xícara de volta. — Nossa! Isso só me deixou mais enjoada — fez uma careta. — O que acha que tenho? — pegou o copo d'água.
— Hela... Você já pensou na possibilidade de que esteja... — mordeu os lábios — … grávida?
A princesa cuspiu a água que bebia e levou a mão ao peito.
— G-grávida? — gaguejou.
— Pense bem... — a serva fez um muxoxo. — Quando foi a última vez em que suas regras vieram?
Hela abriu a boca para perguntar quem ainda usava um termo tão antiquado quanto “regras”, mas desistiu. Essa trivialidade não era algo tão importante, quanto calcular há quantas semanas tinha acontecido sua última menstruação. Ela passeou o polegar pela ponta de seus dedos, contando as semanas e parou de respirar quando a conta chegou no número sete.
— Eu estou grávida...
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