Asgard Dirty Secrets
42 Não sei porquê, meu Deus, sozinho eu vivo a penar
Notas iniciais

Muitos anos atrás…
— Por que você me trouxe aqui Váli? — a jovem ruiva olhou o jardim ao redor. — Ainda não terminamos a lição e você ainda tem o treino mais tarde com o seu pai. Ele vai ralhar como você de novo — encarou-o entristecida.
— Sig… Eu preciso conversar com você — o príncipe engoliu em seco e sentiu seu rosto esquentar.
Ele estava nervoso. No auge de seus dezesseis anos já havia enfrentado vários inimigos e perigos, mas nenhum desses desafios parecia tão torturante quanto o que estava para enfrentar. Sigrid percebeu pela expressão no rosto dele que algo estava errado. Conhecia-o desde que se lembrava e nunca o tinha visto tão pálido e angustiado.
— Aconteceu alguma coisa? — ela arregalou os olhos. — Algo com seus irmãos? Com sua mãe? — afligiu-se.
— Não… — ele meneou a cabeça. — Eles estão bem… Sig… — pegou as mãos dela entre as suas. — Eu preciso lhe confessar uma coisa… Algo que não consigo mais esconder… Porém temo que isso faça eu perder o que temos hoje… Que me faça perder a sua amizade.
Sigrid franziu o cenho e o encarou em silêncio por alguns instantes, mas para Váli pareceu uma eternidade. Ela estendeu a mão e fez um afago em seu braço.
— Aconteça o que acontecer ou o que for que você tenha feito, estarei sempre ao seu lado… — deu um sorriso encorajador.
Por Odin… Como ele amava aquela garota.
— Eu te amo… — as palavras escaparam dos lábios do príncipe.
Os lábios da jovem se entreabriram em surpresa.
— Eu me apaixonei por você… — ele confessou.
Foi como se alguém tivesse aberto uma janela e a luz que entrou por ela, iluminou uma paisagem inteira, até então encoberta pelas sombras. Como se um botão tivesse se acionado dentro dela e repentinamente tudo parecia ter encontrado o seu lugar. O sentimento estava ali o tempo inteiro, mas nem ela mesma havia percebido.
O silêncio se instaurou e ficou tão denso, que seria possível cortá-lo com uma faca.
— Por favor, Sig… Diga alguma coisa… — Váli pediu aflito ao vê-la ali estática, sem piscar.
Ela piscou longamente e seu olhos arderam com as lágrimas que se represaram.
— Eu também te amo… — saiu em um sussurro.
Um suspiro misturado com uma risada engasgada reverberou no peito do rapaz. Ele a havia levado até ali para se declarar, todo temeroso de perder a amizade dela, mas fora surpreendido. Váli tinha se preparado para ser rejeitado, para ouvi-la pedir um tempo para pensar ou até vê-la rir de sua declaração, mas não se preparara para o melhor: ouvir que era plenamente correspondido. Movido pela emoção e desejo, o príncipe não hesitou mais, inclinou-se na direção de Sigrid e colou seus lábios nos dela.
O rapaz jamais havia beijado e sabia que sua amiga também não. Contudo, parecia que os dois jovens sabiam exatamente como fazê-lo. Ou, pelo menos, seus corpos sabiam…
Sem a menor inibição a língua dele brincou no beiço da ruiva, convidando-a a se abrir para ele. A resposta foi imediata e Sigrid desabrochou para a torrente de êxtase que aquilo transbordou. De repente o jardim pareceu ficar muito quente, incendiado com o calor das mãos dele que percorriam seu corpo sem pudor ou cerimônia. O que começara em sua cintura, logo subiu por suas costas, até alcançar sua nuca, colando-a junto ao corpo de Váli. Embora jovem e magro, ele já tinha adquirido porte de um homem adulto, com seus músculos fortes tensionando sobre o pequeno e frágil corpo dela. Apertando-a contra si, Vali poderia jurar que sentia os bicos entumescidos dos seios dela através de suas roupas, roçando contra seu peito. Um grunhido fugiu de seus lábios quando sentiu o desejo aumentar e sua ereção se tornar dolorosa dentro de suas calças, enquanto se esfregava levemente naquela garota que habitara tanto seus sonhos febris. O fogo da juventude parecia prestes a consumir aqueles dois.
Quando finalmente conseguiu abandonar aquela boca e deixá-la respirar, o príncipe se afastou dela, encurvado e trêmulo. O rubor ainda cobria as faces e principalmente os lábios de Sigrid, que arfava de excitação e lutava para se recompor.
— Você… — ele tomou fôlego e puxou desajeitadamente o casaco para baixo, tentando esconder o que estava óbvio. — Você aceita ser minha namorada?
Ela levou a mão aos lábios e sorriu, exalando o ar com dificuldade.
— Aceito…
≈≈
— Aredhel… — o nome dela saiu estrangulado, como um lamento.
James passou a mão pelo rosto com olheiras profundas e a barba por fazer. Tinha perdido a mulher que amava e agora sua melhor amiga. Sabia que fizera o certo em contar a verdade à rainha de Asgard, mas aquilo não lhe trouxera alívio algum. Só aumentara seu sofrimento. Ele ainda era um monstro e sua amiga o odiava. “Poderia ser pior?” Sua alma estava em frangalhos.
Juntando os cacos que restara de si, resolveu abandonar o palácio. Aguardaria a decisão de sua ex-amiga sobre o que houve, bem como a sua execução. Não era ingênuo de imaginar que escaparia da morte assim que Loki soubesse do ocorrido. Pensou que ali, em uma casa afastada da vila, pelo menos, pouparia os filhos de testemunharem seu miserável fim. Seria melhor que eles não soubessem o crime hediondo que seu pai cometera. Acreditava que Aredhel, por amar Kat e Wagner como se seus filhos fossem e até mesmo Loki, os protegeriam da crua verdade. Os dois já eram especialistas em ocultar duros fatos dos filhos, então essa seria apenas a nova mentira a ser contada.
— Katarina… Wagner… — passou os dedos por uma foto que tinha dos filhos. — Perdoem-me… — murmurou com os olhos lacrimejantes.
Jim só esperava que a morte fosse rápida e que não o deixasse continuar remoendo tanta culpa.
Uma batida à sua porta o retirou daquele momento de autocomiseração. Estranhou que tivesse visita. Ainda que tivesse avisado em carta que voltaria para a vila, não tinha relatado onde se abrigaria. Por questões óbvias evitou retornar para a casa onde já havia morado anteriormente com seus filhos.
Ele se levantou do sofá puído que havia ali e espanou a poeira de sua calça, encaminhando-se até a porta.
— Wagner? — espantou-se ao ver o filho. — Eisa, Becca? — olhou na direção das duas jovens que estavam à sombra de uma árvore, um pouco distante da entrada da casa. — O que está fazendo aqui? Por que as trouxe? — foi meio ríspido com o filho.
— Sou eu quem deveria perguntar… — retorquiu. — O senhor simplesmente deixa uma carta dizendo que veio embora para a vila e pede para não o procurarmos.
— E qual parte do recado vocês não entenderam? — redarguiu.
— Pai… O que houve? — franziu o cenho, preocupado.
— Nada que você já não saiba… — suspirou, mas não deu passagem para que o filho entrasse. Não queria estender aquela conversa. — Eu apenas decidi não morar mais lá.
— Por que não nos avisou? Kat e eu viríamos com o senhor.
— Não — foi categórico. — Vocês já são adultos e têm a vida de vocês para seguir. Kat precisa da estufa, dos jardins, da biblioteca… E você tem Eisa… — olhou na direção da jovem, lutando para controlar seus pensamentos. — Vocês gostam de morar no palácio. Gostam da vida que construíram naquele lugar. Não posso tirar isso de vocês… Eu apenas… — crispou os lábios. — …não consigo mais viver lá.
— Isso tudo por ela? — A frustração e o pesar eram evidentes na pergunta de Wagner.
James apenas baixou a cabeça. Jamais diria a verdade. Então talvez fosse melhor o filho acreditar que Hela era o único motivo.
— O que o fez ficar depois que nossa mãe morreu? — Wagner perguntou a queima-roupa.
“Aredhel...” Sua mente nunca permitiria mentir para si mesmo.
Ele ergueu o rosto e encarou o filho surpreso. Depois de crescidos, nenhum dos dois costumava a fazer perguntas sobre a morte da mãe deles.
— Hela escolheu outro homem, mas nossa mãe morreu… — o rapaz disse com veemência. — Morreu naquele palácio. Seria lógico o senhor não querer mais viver lá.
“Ah, se você soubesse de tudo sobre aquele dia… Você odiaria a mim e seus padrinhos...”
— E tendo duas crianças tão pequenas para criar sozinho — o filho prosseguiu —, seria óbvio que buscasse a ajuda da vovó, de nossas tias… De nossa família na outra realidade — fitou o pai nos olhos. — Então algo muito forte o fez resistir e escolher ficar em Valhala… A menos que… — enrugou a testa. — A menos que o senhor não a ama…
— Eu amava sua mãe… — Jim interrompeu antes que o filho finalizasse. — Eu a amei — afirmou, mantendo o olhar fixo no dele.
Wagner baixou os olhos envergonhado de suspeitar do pai e James olhou na direção de Eisa. A princesa parecia perturbada. Ela corou e desviou o olhar. “Você estava ouvindo, não é? Garota inconveniente. Contará a ele sobre ela, sobre aquele dia?” Jim inquiriu mentalmente à Eisa. Viu-a menear a cabeça em negativo e se afastar mais. Wagner percebeu a troca de olhares entre os dois, mas Jim pôs a mão sobre seu ombro.
— Vocês não viverão o mesmo tempo que as pessoas de nossa realidade — Wagner o encarou. — Mesmo que eu não tivesse comido a maçã, vocês teriam herdado a longevidade de sua mãe — seus olhos se encheram de lágrimas. — Eram tão pequenos, mas… Felizes… Viviam correndo e brincando com os demais por aquele palácio. Desde que foram concebidos, o lugar de vocês era aqui, em Asgard. Bem antes de vocês nascerem, não havia mais um lugar para mim na outra realidade. Meu destino estava atrelado a este mundo.
O rapaz abraçou o pai e suspirou. Entendia as razões que levaram o pai a deixar o palácio, mas se preocupava com ele.
— Eu só preciso de um tempo sozinho — mentiu James. — É isso… Tudo que preciso é de tempo…
O filho meneou a cabeça e deu um tapinha no ombro do pai.
— Apenas se cuide pai… Sabe onde nos encontrar…
— Tranquilize e cuide de sua irmã por mim…
Após a breve despedida, Wagner caminhou até Eisa e Becca e juntos montaram seus cavalos e partiram.
Ao chegarem no palácio, Becca se despediu do casal e os deixou a sós.
— Você “ouviu” tudo, não é? — Wagner encarou a namorada.
Ela fitou aqueles olhos azuis e, constrangida, balançou a cabeça em afirmativo.
— Ele está sofrendo muito por causa dela?
Eisa não sabia o que dizer. Em virtude de sua presença James lutara para não pensar nos reais motivos que o levaram deixar Valhalla. Tudo que Eisa ouviu foi Jim pensando no passado dele, dividido entre Greta e Aredhel e na tragédia do dia da morte da esposa. Ela prometera a ele que jamais contaria o que já sabia, principalmente para Wagner e renovara esse voto de silêncio quando ouviu os pensamentos inquisitórios de James. A princesa tinha a consciência de que saber a verdade magoaria seu namorado. “Se ele soubesse… Talvez odiasse o próprio pai, minha mãe, meu pai e talvez...” Mordeu os lábios em aflição.
— Não precisa responder… — ele disse de repente. — Eu não tenho o direito de usar você para invadir a intimidade de meu pai. Eu só… — deu um suspiro cansado. — ...estou muito preocupado com ele. Tenho a sensação de que ele esconde algo… Na verdade… Parece que ele esconde algo a vida toda… Sempre que falo na mamãe ele é meio evasivo… Não sei… — passou a mão pelo rosto. — Agora ele está tão estranho. Meu pai sempre foi uma pessoa ativa, positiva e centrada… Eu mal o reconheço atualmente. Anda tão deprimido e recluso. Parece que perdeu o controle sobre si mesmo... Nunca foi de beber, mas nos últimos meses já ficou bêbado duas vezes. Não lembro de vê-lo tão abalado antes… Tão derrotado... Nem quando a mamãe morreu.
— Ele tinha que ser forte por vocês… — arriscou a namorada distraidamente, ainda aturdida com as últimas descobertas.
— Talvez… — crispou os lábios. — Ainda não entendo porque Hela fez isso… Ela parecia amá-lo tanto… Como ela pode acreditar que ele amou a madrinha de outra forma? — ela meneou a cabeça. — Isso é tão absurdo.
— É… Absurdo… — repetiu, mesmo sabendo que era mentira. — Eu também não entendo… Mas ele vai melhorar. Isso vai passar.
≈≈
— Sim… Já pedi que providenciassem o jantar especial — Aredhel sorriu com doçura.
— Ótimo! — disse Váli alegremente. — Será como Sig queria. Só a família e os amigos… Sem ninguém de outros reinos ou de fora… Já falou com Hela? Ela virá?
O sorriso no rosto da rainha murchou e ela tentou disfarçar.
— Ainda não… Estou tentando desde que o dia começou, mas ainda não tive um momento de paz… — desabafou.
— Papai? — ele perguntou sério.
— Não… — meneou a cabeça. — Seu pai anda um anjo ultimamente… Acredita que quando falei com lhe contei sobre seu noivado ele apenas deu de ombros? Digamos que hoje ele está alegre e meio distraído — ergueu as sobrancelhas.
— Menos mal… Quando Myria veio me chamar dizendo que o papai quer uma reunião com todos os filhos, fiquei pensando que já era algum problema.
— Bem, isso realmente depende… — ela disse baixinho.
— Como?
— Nada, meu filho… — abanou com a mão, meio pensativa.
— A senhora está triste por causa do tio Jim, não é? — pegou a mão dela entre as suas e ela o fitou. — Já soube. Encontrei Kat com os olhos inchados de tanto chorar... Não fique assim, mãe… — beijou-lhe os dedos. — Ele vai voltar, só precisa de um tempo. Pena que, pelo jeito, ele perderá o espetáculo… — sorriu satisfeito.
— É… Ele gosta tanto de você e de Sig…
“Então é melhor que ele não esteja aqui.”
≈≈
Ullr caminhava a passos largos pelos corredores dos locais de treinamento, quando encontrou a jovem Fleur.
— Onde será que vai a mais bela morena de Asgard? — ele rondou a moça de pele escura e cabelos vastos e encaracolados.
— Não lhe diz respeito — retrucou rispidamente.
— Para estar aqui, você está atrás de Modi, não é? — disse em meio a um esgar.
O rosto da morena se tingiu de vermelho e ela desviou o olhar, sacudindo aqueles cachos negros e fartos.
— Até quando você vai correr atrás dele? — provocou. — Ele não a quer… Será que você ainda não percebeu que ele…
— Isso não é da sua conta — cortou.
— Na verdade é… — rebateu com um sorriso cínico. — Enquanto você perde seu precioso tempo lambendo o chão de alguém que nunca vai olhar para você, estou aqui rastejando por você… Eu e mais uma dezena de homens deste reino.
Fleur sabia disso, mas não os ignorava por mal. Desde muito jovem era apaixonada por um dos filhos gêmeos de Thor, Modi. Já havia alguns anos que ela, de fato, o seguia por todos os cantos, mas ele mal a notava. Chegava a ser irônico que uma mulher que tinha tantos admiradores fosse totalmente ignorada por outro homem.
— Pois não é o que parece… Soube que você anda muito ocupado com uma prisioneira — tentou mudar o foco da conversa.
— É a minha função — deu de ombros.
— Até visitá-las na ala de cura?
— Você parece muito bem informada — sorriu. — Eu não posso ficar esperando você pelo resto da vida. Então me divirto com o que aparece. Não faço como você, que fica se guardando para nada… — provocou.
A provocação foi ferina, mas ela não daria a Ullr o prazer de parecer ter sido afetada.
— Espero que faça um bom proveito… — ela sorriu abertamente. — Vá desfrutar da efemeridade das midgardians, enquanto eu corro atrás de meu príncipe — deu as costas para ele.
— Então acho melhor você se apressar… — não desistiu de perturbá-la. — Hoje de manhã eu o vi na companhia da irmã do novo chefe da guarda, Nina…
Fleur parou no meio do corredor e se virou.
— Parece que você ganhou uma concorrente — riu.
A mocinha bufou e seguiu marchando pelo corredor.
— Não é uma má ideia me divertir um pouco com a ruivinha midgardian… — ele murmurou em meio a um sorriso malicioso. — Não é mesmo…
≈≈
Kat não recebera bem as novidades contadas por seu irmão. Não achava uma boa ideia seu pai continuar sozinho e longe deles. Acreditava que justamente neste momento é que ele precisava estar perto dos filhos, do apoio deles. Entristecida, ela resolveu buscar consolo com seu namorado.
— Igor… — murmurou ao entrar no escritório do jovem. — Eu queria conversar com você…
— Agora não posso, minha querida… — ele disse apressado, fechando as gavetas de sua mesa. — Meu pai convocou uma reunião com meus irmãos e comigo — atalhou sem encará-la.
Aquela desculpa viera a calhar naquele momento. Ele imaginava que ela estaria ali para comentar seu estado deprimente na noite passada. Para Igor havia sido um erro ter começado aquele falso namoro com Katarina, mas fora um erro maior procurá-la daquele jeito na noite anterior.
— Entendo… Então depois nos falamos… — ela disse em um sussurro.
— Depois… — falou ao passar por ela.
Ele saiu apressado, fechando a porta atrás de si. O rapaz nem ao menos se deu o trabalho de encarar Katarina, que dirá notar a tristeza que ela estampava no rosto. E lá ela ficou, mais uma vez, como sempre, sozinha.
No corredor, o jovem loiro encontrou Fenrir que seguia para o mesmo local.
— O que será que houve? — Igor indagou ao irmão de criação.
— Não sei... — o moreno deu de ombros. — Mas deve ser algo sério, afinal disse que era urgente.
Os dois irmãos adentraram o salão principal e lá já aguardavam Váli com um ar despreocupado e um Narfi carrancudo. No alto, em seu trono, estava sentado Loki com uma expressão muito tranquila no rosto.
— Pelo cara do papai, parece ser algo bom… — Igor murmurou para Fenrir.
Loki acenou para que os filhos se aproximassem. Os jovens se entreolharam e deram alguns passos à frente, alinhando-se lado a lado. Narfi foi o único a não parecer surpreso com aquela estranha reunião. Na verdade, o jovem parecia bem contrariado, mantendo os braços cruzados e a cara emburrada.
— Hoje de manhã recebi a visita inusitada de uma pessoa que me trouxe uma novidade, a qual é fruto de um ato irresponsável de um de vocês.
Narfi bufou, Igor engoliu em seco e os outros dois enrugaram a testa confusos. “Será que ele descobriu sobre Kat e eu?”, questionou-se Igor.
— Descobri que sou avô e que um de vocês é o pai de uma linda menina — o rei disse de uma vez.
Sons de espanto, pigarros e engasgos ecoaram e abafaram o protesto de Narfi. Enquanto Igor soltava um suspiro de alívio, os demais dirigiram olhares acusadores na direção do segundo filho de Loki.
— Nem olhem para mim… — rosnou Narfi. — Ninguém aqui é virgem! Além do mais, eu nem deveria estar aqui, vez que já disse várias vezes que a menina não é minha! — encarou o pai.
— Como você pode ter tanta certeza? — Váli inquiriu em meio a um sorriso. — Afinal, apesar de nenhum de nós ser castos, você é, de longe, quem tem mais experiência — provocou.
— E quem garante que não pode ser seu? — rebateu. — Só porque você é o senhor prefeitinho e que namora a amiguinha de infância, não significa que nunca visitou a cama de outras mulheres.
— Eu nunca a traí — foi sério.
— E vocês? — Narfi olhou para os outros dois. — São do tipo “come quieto” e podem muito bem ser o pai dessa menina!
— Eu acho isso improvável, mas não nego que possa ser minha — Igor deu de ombros. — Só estranharia a mãe não ter me procurado até agora. Não haveria motivos. Sempre fui muito franco e aberto em meus relacionamentos.
“Até agora...”, sua consciência o lembrou.
— Duvido que seja minha — Fenrir meneou a cabeça e ficou muito sombrio.
— Você não teve outra depois que aquela garota sumiu? — Narfi não se conteve e levou um cutucão de Váli. — Ai! O que é?
— Basta! — Loki ergueu a mão, impaciente com aquela discussão. Acenou com a cabeça para um de seus guardas e este se aproximou. — Diga para Einmyria trazer a menina.
O Einherjar fez uma mesura e se retirou. Loki se voltou para seus filhos e deu um suspiro.
— Tirando alguns traços de nossa família e a cor dos olhos característica de todos meus filhos — ele sorriu —, a menina não se parece com nenhum de vocês. Creio que deva se parecer com a mãe ou a família dela. Sendo assim, acho mais fácil vocês a reconhecerem ou não, assim que verem a criança. Poderia ter pedido para Eir examiná-la e determinar quem de vocês é o pai, mas achei melhor que o pai assumisse sua responsabilidade e que eu não tivesse que obrigá-lo — arqueou a sobrancelha.
— Por quê a mãe não se apresenta e termina com isso? — questionou Váli.
— Porque a mãe morreu — Loki não fez rodeios. — Ela e os avós maternos da menina morreram em um acidente com o transporte deles.
— Oh… — murmurou Igor, franzindo o cenho.
Váli mordeu os lábios e Fenrir baixou os olhos. Einmyria entrou de mãos dadas com Mintaka. A menina olhou para os rapazes enfileirados e piscou longamente os olhos azuis esverdeados. Loki abriu um sorriso, se aproximou da neta e pegou sua pequena mão.
— Esta é Mintaka — apresentou.
Um sorriso tímido brotou no rosto da menina, que foi prontamente correspondido por Váli, Igor e até Narfi.
— Zafira… — Fenrir disse em um sussurro antes de cair de joelhos diante da criança. — Zafira… — repetiu com lágrimas nos olhos, estendendo a mão para tocar o rosto de Mintaka.
— Uou… — Narfi estalou a língua. — Se eu tivesse apostado, teria perdido. Podia jurar que a menina era do lobinho branco.
Assustada com a reação de Fenrir, a garotinha olhou para Loki.
— Ele é seu pai, Mintaka…
— Sim… — murmurou Fenrir com lágrimas descendo por seu rosto. — Eu sou seu pai, Mintaka… Seu pai… — beijou a fronte da menina.
— Então é oficial… Tenho uma sobrinha… — sorriu Narfi.
Myria fungou e limpou uma lágrima que insistiu em cair. Igor deu um pigarro e olhou entristecido para Fenrir. Váli se aproximou do irmão caçula e pôs a mão sobre seu ombro.
— Eu lamento muito por Zafira, Fenrir… — disse baixinho.
— Eu… — Fenrir limpou a garganta. — Eu não entendo… Por que ela fugiu? Por que não me procurou? Ainda que não me amasse ou não me quisesse, eu assumiria minha filha… Teria cuidado delas…
— Embora esta carta explique o acidente — Loki estendeu a carta —, não há maiores detalhes. Nem consta nela quem é o pai da menina.
— Talvez ela não quisesse abandonar o grupo… — sugeriu Einmyria. — Foi o que pensamos quando ela sumiu, lembra-se?
— Sua irmã tem razão, filho — atalhou Loki. — Raros são os casos de pessoas que abandonam a sua família nesse povo.
— Mas isso é injusto — Fenrir crispou os lábios. — Ela era minha filha também… Eu tinha o direito de saber que ela existia, de participar de sua criação.
— Bem… De toda forma, agora ela é sua responsabilidade — Loki foi direto. — Nós somos a sua família e tudo o que ela tem agora.
— Ah, cuidaremos muito bem dela! — animou-se Myria.
— Babás não faltarão… — riu Narfi.
— Estou ficando velho… Já tenho uma sobrinha… — Váli coçou a nuca.
— Ah, logo será a vez de Hela e em seguida você e Sigrid que nos darão mais sobrinhos — brincou Igor. — Finalmente esse noivado vai acontecer!
— Estou tão ansiosa por esse noivado! — suspirou Myria.
Loki revirou os olhos e Narfi riu baixo.
— Será inesquecível… — Váli disse em meio a um sorriso. — Eu prometo.
≈≈
Merida, contrariando as recomendações de Ada e Fenrir, resolveu sair da cama. Seu corpo clamava por movimento e deixar aquela cama. Com dificuldade ela se pôs de pé e caminhou até uma sacada que havia na sala de cura. A brisa revolveu seus cachos e ela tentou inspirar fundo, mas uma dor aguda quase a fez desmaiar. “Ah.. A costela...” Cerrou os olhos com força.
— Olha só você… — a voz masculina fez um calafrio percorrer a espinha da jovem ruiva. — Sabia que sobreviveria.
Ela se virou para encarar aquele que julgava ser o responsável por todos os seus infortúnios desde que acordara naquele local: Ullr.
— Você… — Merida deu alguns passos para trás e olhou para o outro lado do local, a procura de uma das servas que cuidavam dela. — Fenrir disse que deu ordens para você ficar longe de mim.
— “Fenrir”? — riu-se. — Vejo que a midgardian é bem esperta! Já cuidou de ficar cheia de intimidades com o príncipe. Mas não se iluda… Os filhos de Loki têm a fama de brincar com suas conquistas e esquecê-las com facilidade — foi venenoso. — Hoje mesmo um deles dispensou uma serva com quem se divertia. Logo você terá que chamá-lo de “vossa alteza”.
Merida pensou em revidar, mas não entraria no jogo dele. Afinal, ela nada tinha a ver com a vida pessoal de Fenrir e seus irmãos. Não existia “algo” entre os dois. Ele não era nada para ela e mal o conhecia. Todavia, saber daquilo a incomodou.
Ullr pareceu ler os pensamentos dela.
— Oh, a ruivinha já estava encantada pelo príncipe dos lobos… — gargalhou. — Mulheres… Sempre ambiciosas. Devia evitar ser usada e apostar em algo mais alcançável para… — olhou-a de cima a baixo e inclinou a cabeça. — ...alguém como você.
— E o que estaria ao meu alcance? — ela não resistiu à provocação.
— Eu, por exemplo… — deu de ombros.
Ela piscou rapidamente e entreabriu os lábios, pasma. “É sério isso? Esse cara está dando em cima de mim depois de tudo?” Foi a vez dela gargalhar. Ou quase… A risada alta foi cortada pela dor na costela.
— Pare… — ela riu de novo e levou a mão ao local que doía. — Não posso rir… — disse com dificuldade.
Ele deu dois passos e segurou o queixo dela com uma das mãos.
— Ria ruivinha… — desafiou, em meio a um esgar. — Eu verei você vir correndo atrás de minha ajuda… De mim…
Irritada, Merida afastou o rosto.
— Melhor procurar uma cadeira e aguardar sentado! — sibilou. — Não… Melhor! Deite em uma cama e durma esperando por isso!
— Veremos… — ele arqueou as sobrancelhas.
— Ullr está lhe incomodando Merida? — a voz de Fenrir soou alta e com um ligeiro tom de ameaça.
Os dois se viraram e viram Fenrir parado à porta do local, segurando uma menina no colo. Ullr olhou da menina para o príncipe e levantou uma de suas escuras sobrancelhas, sem entender quem era aquela criança.
— Eu só vim verificar o estado da prisioneira — Ullr foi sucinto.
— Ela não é nossa prisioneira — rebateu seriamente. — É minha convidada.
Merida teve que conter o sorriso de triunfo que ameaçou estampar em seu rosto.
— Mas seu pai… — tentou argumentar o outro.
— Com meu pai eu me entendo — cortou o príncipe.
— Como quiser… — Ullr olhou de esguelha para Merida. — Alteza… Senhorita... — fez uma leve mesura e saiu.
Assim que se certificou que Ullr deixara a sala, Fenrir se voltou para Merida.
— Ele lhe fez algo?
— Não… — teve uma vertigem e se apoiou na parede. — Acho melhor me sentar um pouco — sorriu sem graça.
— Não deveria nem ter levantado — ralhou Fenrir e pôs a menina no chão para ajudar Merida a voltar para a cama.
Após se acomodar e assistir Fenrir cobri-la como se fosse uma garotinha, os olhos dela pousaram na criança que a olhava com curiosidade.
— Quem é essa menina linda? — sorriu.
— Esta é Mintaka… — disse ele com uma felicidade radiante. — Minha filha.
— Filha? — espantou-se.
≈≈
Fleur chegou toda nervosa ao lado leste dos jardins, próximo ao grande rio e suas belas fontes de água cristalina. Aquele já fora o local mais movimentado do palácio. Nos tempos de Odin e Frigga, costumava ter membros da corte, famílias renomadas e muitos servos circulando por todos os cantos, entre os jardins e construções ao redor do palácio. Entretanto, desde a morte do pai de todos, isso foi mudando e a quantidade de transeuntes diminuindo. Com a coroação de Loki e a notória antipatia que despertava em muitos e de constantes invasões, os arredores passaram a ser um lugar mais exclusivo dos moradores do palácio e daqueles que lá trabalhavam.
Desta forma, não fora uma surpresa para a jovem morena, encontrar Nina e Modi a sós, entretidos em uma conversa animada, à beira de um pequeno canal.
— Modi! — chamou Fleur toda animada.
O jovem loiro se virou na direção da moça e esboçou um sorriso amigável. Ele a jovem Fleur se conheceram quando crianças, em uma das muitas visitas que fizera à sua família materna. Sua finada mãe e seus avós eram serviçais da renomada família de Fleur, cuja ascendência vinha de príncipes de outro reino. Desde que Fleur o viu pela primeira vez, se encantou pelo filho de Thor. E a medida que crescia, esse sentimento cresceu e se transformou em um amor platônico, vez que o rapaz apenas a vê como uma amiga, quase como uma irmã. Mas Fleur nunca desistiu. A determinação da jovem era tamanha, que ela escolheu se tornar uma guerreira, embora não tivesse a menor habilidade para batalhas. Não demorou muito tempo para ser convidada a deixar o grupo. Para justificar sua presença no palácio, trocou de função e passou a se dedicar a ilustrar os livros que contam a história, os feitos e acontecimentos do reino. Revelara-se uma excelente desenhista e com esta habilidade sempre conseguia despertar o interesse de Modi.
O rapaz se aproximou da amiga e beijou-lhe o rosto.
— Eu ainda não a tinha visto esta manhã — sorriu abertamente —, imaginei que estava ocupada.
— É… — afirmou. — Estou terminando alguns projetos para iniciar a ilustração de um livro de ervas com Kat — contou.
— Katarina? — intrometeu-se Nina.
Fleur forçou um sorriso interrogativo na direção de sua “rival”.
— Oh, que falta de educação a minha — constrangeu-se Modi. — Fleur, esta é Nina, filha da rainha de Vanaheim. Nina, esta é Fleur, minha amiga de infância e prima da falecida rainha de Alfheim.
— Prazer em conhecê-la — Fleur fez uma cortesia. — Sou prima dela, mas não cheguei a conhecê-la — ergueu os ombros. — Ela morreu meses antes de eu nascer.
— Prazer — Nina arqueou uma sobrancelha. — Então você é prima do famoso príncipe Eric.
— Sim… — anuiu e voltou-se para Modi. — Estava a sua procura. Finalizei aquela ilustração e gostaria de ter sua opinião antes de entregá-la.
— Claro, Fleur! Eu estava…
— Com vossa licença… — aproximou-se um servo e se curvou. — Senhor Modi, seu pai solicita sua presença com urgência.
— Obrigado — observou o serviçal se retirar. — Sinto que terei que deixar as damas… — beijou a mão de cada uma delas. — Assim que me desocupar, passarei no ateliê para ver seu trabalho, Fleur.
Ele se inclinou e deixou as duas jovens para trás. Nina observou a maneira como Fleur seguia os passos de Modi e levou a mão ao queixo.
— Acho que você está perdendo seu tempo — disse Nina repentinamente.
— Perdão? — Fleur encarou-a surpresa.
— Você gosta dele… Está na cara… Mas…
— Mas o quê? — rebateu impaciente com aquela intromissão.
— Você ainda não percebeu? — Nina franziu o cenho. — Por Vanaheim! Você ainda não viu que ele…
— Acho que ainda não nos conhecemos o suficiente para dividir intimidades — interrompeu-a. — E francamente, nem tenho interesse em conhecê-la… — fitou-a com frieza. — … melhor.
— Não se preocupe… Eu não sou ameaça… — riu de leve. — Na verdade… — devolveu o olhar escrutinador. — Acho que mulher alguma seja ameça aos seus objetivos.
— Bem melhor assim — Fleur ergueu o queixo e deixou o local.
— Deprimente… — Nina olhou para o alto do palácio. — Valhalla é o palácio das ilusões… Morada de sonhadores cegos e patéticos — balançou a cabeça.
≈≈
Hela finalmente se livrou de Eric, usando a desculpa de uma indisposição repentina. Enquanto o jovem percorria o palácio para espalhar a notícia de que seria pai, a princesa retornava às pressas para seu quarto. Ao chegar lá, encontrou Ness deitada em sua cama, desfrutando do que parecia ser um sono pesado.
Ela passou a mão pelo rosto e se sentou na beirada da cama.
— Ness… — sacudiu a serva. — Ness… Acorde.
A serviçal despertou e piscou algumas vezes antes de conseguir manter o foco no rosto de Hela. A sonolência parecia estranhamente implacável.
— Já voltou? — Ness esfregou um olho com o pulso. — Eu juro que acabei de fechar os olhos…
— Ness… Você está grávida! — disse de supetão.
Ness olhou para Hela como se ela tivesse ficado louca. Após alguns segundos algo se acendeu em sua cabeça e ela anuiu levemente, perdida em seus pensamentos e contagem de semanas. O ar lhe fugiu dos pulmões.
— Eu… Eu estou grávida… — encarou a princesa. — Grávida do Eric… — murmurou aturdida.
Hela escondeu o rosto entre as mãos e suspirou. A sua camareira e amiga esperava um bastardo. Aquele plano idiota estava saindo do controle. Ela se recompôs e olhou para Ness que parecia confusa.
— Para completar Eric já sabe que estou grávida — sacudiu a mão no ar. — Foi ele que praticamente me alertou sobre você… Ele percebeu que não foi privado de “minha” — fez aspas com os dedos — companhia, já faz mais de um mês.
— Mas ele desconfia de algo? — alarmou-se
— Não… — Hela negou com a cabeça. — Ele acha que é dele… Por enquanto.
— Acha que ele descobrirá? Pelos seres de luz… O que farei?
— Não se aflija… — a princesa fez um afago nas costas da amiga. — Você terá todo o meu apoio e...
— Ele não pode nem desconfiar que estou grávida… — apavorou-se.
— Por quê? Imagino que ele não assumirá o filho bastardo, mas…
— Você não tem ideia do que ele faz quando descobre que alguma amante sua fica grávida! — o desespero era evidente na voz de Ness.
— O quê? — a pergunta saiu trêmula.
— Ele as obriga a tirar a criança… — Ness viu Hela levar a mão à boca. — E eu… — olhou na direção de seu ventre e cruzou os braços. — Eu a quero… Quero muito...
Ainda que soubesse que Eric era um homem abominável, ficou chocada com aquela revelação.
— Mesmo que a lei de sucessão não inclua filhos bastardos e que nada nesse reino o obrigue a sustentá-los, ele disse que nunca terá filhos bastardos. Ainda mais com… — o lábio inferior de Ness estremeceu. — “Serviçais e prostitutas...” Essas foram as palavras dele — seus olhos brilharam com lágrimas contidas. — A maioria nem discute e faz o que ele manda, mas tiveram algumas que se recusaram e… Bem… Ele mandou fazer o procedimento à força… Uma delas morreu… — a lágrima desceu por seu rosto.
A princesa abraçou apertado a amiga. Quanto mais conhecia Eric, mais o odiava.
— Ele não fará nada a você e ao seu bebê… — sussurrou ao ouvido de Ness. — Eu prometo… Cuidarei de vocês… Protegerei a nós quatro daquele monstro.
≈≈
— Ela está namorando? — pasmou-se Sigrid, levando a mão à boca.
— Sim — confirmou Týr entristecido.
— Com quem? — piscou os olhos, ainda chocada com a novidade.
— Perdoe-me Sigrid — ele depositou a xícara sobre a mesa baixa —, mas é um segredo dela. Não posso dizer.
— Oh… Sim… Tem toda razão — envergonhou-se de sua indiscrição. — Então… Você vai desistir? — bebeu avidamente o conteúdo de sua xícara.
— Sim… Sei respeitar um relacionamento. Ela parece bem feliz com o rapaz, então não devo interferir.
— Entendo… — franziu a testa. — Eu realmente lamento muito, Týr… — deixou a xícara de lado e afagou o braço dele. — Você é um homem tão bom, gentil e honesto. Eu sou testemunha do quanto você gosta dela. Não sabe o quanto desejei ver vocês juntos… Ai… Lamento mesmo — foi sincera.
— Eu vou superar… Pelo menos ainda tenho a amizade dela — deu um sorriso fraco.
Sig lutou para não sentir pena do amigo. Um breve silêncio se fez.
— Então depois de amanhã é o grande dia… — Týr disse de repente, mudando de assunto. — Hoje recebi o convite.
— Sim… — um sorriso luminoso aqueceu o rosto da amiga. — Pensei que esse dia nunca chegaria. Namoramos há tantos anos… Mas acredita que eu não sabia? Váli apareceu hoje cedo me comunicando isso.
— Pelo jeito ele quis lhe fazer uma surpresa — riu de leve. — Será uma comemoração dupla, não é? Afinal, seus pais estão bem melhor. Eu os vi a caminho da feira da vila, quando estava vindo para cá.
— Graças aos deuses — ela levou a mão ao peito. — A febre desapareceu e hoje papai não se contentou em apenas se sentar no jardim. Insistiu que precisava caminhar e mamãe prontamente se ofereceu para acompanhá-lo. Nem parece que até ontem estavam de cama. Fiquei para ajeitar as últimas coisas. Eles praticamente me expulsaram daqui — deu uma risadinha. — Depois que souberam da boa nova, disseram que eu preciso voltar para o palácio para ajeitar tudo para amanhã. Váli disse que a costureira da mãe dele me aguarda para o fim da tarde. Ele disse que já tinha encomendado um vestido para ocasião.
— Se quiser posso aguardá-la e acompanhá-la até o palácio — ofereceu-se.
— Não precisa se preocupar… Váli disse que viria me buscar e eu ainda vou deixar o almoço e a janta dos meus pais pronta.
— Sendo assim… Eu vou indo… — ele se levantou. — Não ocuparei mais o seu tempo.
— Não ocupou nada… Você sempre será bem-vindo — sorriu.
— Obrigada… — fez uma mesura e beijou-lhe a mão. — Então até breve.
— Até…
Sigrid levou o Einherjar até a porta e acenou para ele, quando ele montou em seu cavalo. Ali perto, estava Váli observando a cena. Ele acabara de chegar à casa quando avistou o Einherjar sendo recebido por sua futura noiva. “Noiva...” Bufou.
O príncipe aguardou angustiadamente quase uma hora do lado de fora, remoendo em sua mente ciumenta as possibilidades que poderiam acontecer dentro daquela casa. Sabia que os pais de Sigrid estavam fora, pois os encontrara na feira da vila.
— Ele ficou tempo o suficiente para… — trincou os dentes e cerrou os punhos com raiva.
Levou um considerável tempo para que Váli recuperasse o controle sobre suas emoções. Sentia-se despedaçado por dentro e tudo o que restara fora mágoa. Ele respirou fundo, limpou as lágrimas que insistiram em escapar, passou a mão pelo cabelo e empertigou-se. Lentamente Váli caminhou até a porta da casa de sua futura noiva e bateu a porta.
Sigrid atendeu, toda descomposta e apressada. Ele a olhou de cima a baixo e notou que ela tinha acabado de sair do banho e terminava de se vestir. Seu sangue ferveu só de imaginar os motivos reais por trás de um simples ato de higiene.
— Você chegou cedo — Sigrid sorriu e alisou o vestido desalinhado.
— Cheguei em má hora? — levantou uma sobrancelha.
— Não... Não… Eu apenas o esperava mais tarde… Papai e mamãe estão fora e… — olhou ao redor confusa, repassando mentalmente a sua lista de tarefas — Acho… Acho que já terminei tudo — jogou o cabelo para trás.
A agitação dela só fez confirmar as suspeitas dele. Ela parecia distraída e desconfortável e Váli erroneamente associou isso a sua chegada inesperada. Ele deu alguns passos na direção dela, estendeu a mão e calmamente fechou os botões que ainda estavam abertos no decote. A jovem o observou tão concentrado na tarefa e estranhou seu silêncio.
— Aconteceu alguma coisa, meu amor? — ela franziu o cenho.
— Não… Nada… — ele murmurou, fechando o último botão, próximo ao pescoço dela. — Mas tenho novidades — sorriu. — Descobri que tenho uma sobrinha — revelou.
— Sobrinha? — perguntou boquiaberta.
— Sim… Filha de Fenrir — pôs uma mecha do cabelo ruivo atrás da orelha dela.
— Fenrir? Por Frigga! Eu até esperaria isso de Narfi, mas de Fenrir… É surpreendente!
— Sim… Parece que essa semana estamos cheios de surpresas.
— Boas surpresas! — disse com alegria.
“Não para todos, minha querida… Não para todos...”
≈≈
Aredhel finalmente tivera um momento de paz para se concentrar na tarefa de contatar Hela. Seu coração martelava sonoramente contra suas costelas, quando viu a imagem da filha se formar diante de si.
— Hela… — chamou a jovem cabisbaixa, sentada em uma cama.
— Mãe? — espantou-se a filha. — Que bom lhe ver! — sorriu.
— Minha menininha… — a voz saiu embargada. — Quanta saudade... Como você está? — limpou uma lágrima no canto do olho.
— Oh, mãe… — Hela sorriu. — Sempre chorona… Estou bem… E a senhora, papai? Meus irmãos? E… — mordeu os lábios. — E Jimmy?
— Estamos todos bem… Eu deveria lhe falar sobre algumas boas novas, mas tenho urgência de lhe falar justamente sobre Jimmy… — resolveu não fazer rodeios.
— Jimmy? O que houve com ele? — afligiu-se.
— Hela, minha filha… Eu não costumo fazer perguntas sobre a vida pessoal de nenhum de vocês e sempre evitei invadir a sua privacidade, mas… Preciso que seja sincera quanto ao que vou lhe perguntar… É primordial que não minta para mim…
— A senhora está me assustando… — murmurou a outra.
— O que aconteceu na noite de seu casamento? O que ocorreu naquele quarto quando Jimmy entrou? — perguntou de supetão.
Hela sentiu algo quente lhe subir a face. Seu rosto ficou vermelho vivo. Articulou por alguns instantes dizer algo, gaguejou, mas nada saiu. Jamais imaginou que sua mãe lhe faria uma pergunta tão íntima.
Observando a reação constrangida da filha, Aredhel entendeu o pior. Escondeu o rosto entre as mãos e soluçou.
— Mãe? — a filha olhou confusa para o pranto inesperado da mãe.
— E-ele a m-machucou m-muito? — Aredhel lutava para se controlar. Estava ali para apoiar a filha e não para sucumbir. — P-por quê não me c-contou? Por quê n-nunca me disse nada? Eu teria lhe apoiado… Teríamos feito algo… Deus… — levou a mão ao peito. — Eu sempre confiei nele… Jimmy… Por quê? — chorava copiosamente.
— Mas do que a senhora está falando? — a pergunta saiu alta demais.
— Q-que Jimmy… Q-que e-ele a forçou… — soluçou.
A princesa piscou algumas vezes tentando assimilar o que a mãe dizia, até que finalmente compreendeu.
— Não! — quase gritou. — Ele não me forçou a nada! Nunca! Jimmy nunca faria isso mãe! Ele jamais me machucaria ou obrigaria a algo. Eu… — olhou na direção da porta, certificando-se de que estava fechada. — Eu fiz amor com ele naquele dia por livre e espontânea vontade… E... Que os deuses me ajudem… Gostei muito! — abanou o rosto carmim.
Aredhel encarava, estática, o rosto da filha. Não sabia se estava feliz por ouvir aquilo ou se constrangida por ouvir o trecho final. De toda forma, ficou sem reação.
— Acredite em mim, mãe… — Hela insistiu, acreditando que a mãe ainda duvidava da verdade. — O que aconteceu naquela noite… Eu quis que acontecesse… E muito… — corou violentamente.
— Oh… Graças a Deus… — Aredhel voltou a cobrir o rosto com as mãos, agora num rompante de choro de alívio.
— Mãe… De onde a senhora tirou essa ideia absurda? — indagou Hela, ainda inconformada com aquela estranha situação.
— Jimmy andava estranho… — a mãe limpou as lágrimas. — Tão deprimido… E ontem… Quando fui levar o jantar dele… — balançou a cabeça e novas lágrimas se acumularam em seus olhos. — Ele confessou que algo o perturbava… Filha… — fitou a jovem. — Jimmy não lembra muita coisa do que aconteceu… Contou que lembrava de tê-la agarrado, de ter rasgado seu vestido, de beijá-la e você tê-lo empurrado…
— Meu pai… — sussurrou a moça. — Jimmy acredita que me violentou? — completou o que a mãe tentava explicar.
Aredhel meneou a cabeça em afirmativo e Hela teve vontade de gritar. Como o conhecia bem, sabia exatamente o quanto ele deveria estar destruído e sofrendo. “Jimmy… Meu amor...” Engoliu em seco para conter a vontade de chorar.
— Mãe — começou afobada —, converse com ele e conte que falou comigo. Acabe com essa agonia dele! — pediu com urgência. — Diga a ele que eu me lembro de tudo… Que eu quis que acontecesse… Que eu precisava estar com ele mais uma vez…
— Você ainda o ama, filha… — foi uma afirmação.
— Amo… Mas não do mesmo jeito… — rebateu a outra. — Hoje sou feliz com meu marido — disse com um sorriso convicto e bastante convincente.
— Hela… Você é uma excelente atriz… — Aredhel balançou a cabeça. — Mas eu a conheço… Sei que ainda o ama… Dá pra ler em seu rosto… Como se fosse um texto impresso na sua cara, na sua alma… — olhou-a nos olhos. — É tão ruim assim que um dia ele tenha se interessado por mim de outra forma?
A dor nos olhos de sua mãe, se espalhou pela alma de Hela.
— Não mãe… Na verdade eu o entendo… Eu posso afirmar que seria impossível para qualquer homem que a conhecesse tão bem e que convivesse tanto com a senhora, não amá-la… — foi sincera. — Eu apenas… — Juntou todas as suas forças para parecer firme no que ia dizer. — Amo mais o Eric do que amo o Jimmy — Uma mão invisível se fechou sobre seu coração, estrangulando-o. — A senhora já amou dois homens e percebeu que amava mais um em relação ao outro… Não foi assim com seu finado noivo e meu pai? Então deve entender como me sinto.
A mãe baixou os olhos, entristecida, e Hela se sentiu o pior ser vivo dos nove reinos. Foi baixo usar o passado de sua mãe para justificar e ratificar a sua farsa, mas era a única forma de convencer Aredhel de que ela dizia a verdade. Por mais que o amasse, James era passado, uma página virada naquele livro de drama que sua vida se transformara. Era melhor que todos esquecessem o que houve entre ela e ele e acreditassem em seu casamento pseudo-feliz. “É o melhor para todos...”
≈≈
Katarina estava no jardim, sozinha e triste. Em sua imaginação inocente e romântica, sonhava que quando encontrasse o amor ela jamais teria como companhia aquele notório sentimento: solidão.
A pobre garota tinha o costume, desde de sua infância, de não externar seus anseios e angústias, bem como a mania de carregar em seus ombros os problemas daqueles que lhe eram caros. Em suma, não era apenas a falta de postura que a mantinha sentada e encurvada naquele caramanchão, mas também o peso do mundo de problemas que sustentava em suas costas.
— Por que minha loirinha preferida está tão triste hoje? — A voz familiar e o carinho contido na pergunta, quase abraçaram Kat, tamanho era o conforto que elas traziam.
— Týr! — ela abriu um sorriso tímido.
Ele se sentou ao lado da jovem e, pegando aquela pequena mão, entre as suas, brincou com as pontas dos dedos dela.
— Então… O que houve, minha loirinha?
Ela suspirou, mas não quis dizer a princípio. Não achava que deveria estorvar o amigo com seus infortúnios e de sua família. Recentemente não tivera coragem de revelar seu namoro para o irmão por se achar pequena e a questão insignificante demais para ser comentada. “Týr não merece que eu comece a derramar sobre ele um monte de besteiras...”
— Ei… — ele guiou o queixo dela para que o encarasse. — Para você estar pensando tanto foi algo grave… O que aconteceu? — ficou sério e a viu se constranger ainda mais. — Kat… Somos amigos… Sabe que pode contar comigo...
Kat apertou os lábios e finalmente tomou coragem para falar.
— É meu pai…
A jovem contou ao amigo sobre a partida do pai e até lhe mostrou a carta deixada por ele.
— Kat… Entenda a situação dele… — Týr começou pacientemente. — Imagino que tudo aqui deva lembrar ela… Esse lugar era a casa dela… Ele a viu crescer aqui... E ainda tem a rainha… As duas são praticamente idênticas. Acho até lógico ele querer romper com tudo o que lembra ela. Não é fácil ainda amar alguém e ter que conviver com essa lembrança cutucando essa ferida — olhou para os próprios pés. — Imagine a dor de vê-la e não poder tocá-la… Ouvi-la falar, mas chamar pelo nome de outro… Visitar os locais em que ficaram juntos… Lembrar do jeito dela, de seu sorriso… Ver o fantasma de um amor impossível se materializar em cada salão… Vagando pelos corredores… Em cada maldito cômodo deste lugar — divagou amargurado. — Isso é tortura!
Ela o observou por algum tempo em silêncio. A mocinha pôs a mão sobre o ombro dele, chamando sua atenção.
— Você já teve o coração partido também… — não era uma pergunta.
— Já… — ele confirmou.
— Pelo jeito ainda dói…
O Einherjar apenas anuiu.
— Como uma garota poderia recusar o amor de um homem tão gentil e… — o rosa tingiu seu rosto — … tão bonito?
— Eu me faço essa pergunta até hoje… — disse olhando-a nos olhos
— Ela gosta de outro, não é?
— Sim…
— Eu sinto muito…
Ele deu de ombros.
— Ela é feliz com ele? — ela apertou os lábios novamente.
— Acho que sim… — riu sem humor. — Ai dele que a faça infeliz.
Kat sorriu e apertou a mão dele.
— Um dia você encontrará uma mulher que o corresponda como merece ou… — ela riu. — Talvez essa moça que você gosta perceba que cometeu um erro e veja que ela está destinada a você.
— Tomara… — sorriu e beijou-lhe os dedos. — Tomara.
≈≈
Loki entrou no quarto e viu que a esposa terminava de vestir seu traje de montaria. Aredhel corria de um lado para o outro, tentando fechar o traje, enquanto tentava colocar uma de suas botas. Ele franziu o cenho diante da cena, mas a explicação rapidamente veio à sua mente astuta.
— Você vai atrás dele, não é? — ele deu um suspiro resignado.
— Loki… — ela parou e o fitou angustiada. — Eu…
— Eu sabia que faria isso… — interrompeu-a e balançou a cabeça. — Confesso que fiquei surpreso que tenha demorado tanto. Pensei que sairia atrás dele na hora que Katarina chegou com a carta.
— Meu amor… — ela se aproximou e segurou o rosto dele com as duas mãos. — Eu preciso…
Ele levantou a mão. Aredhel aguardou que ele falasse, mas seu marido parecia preso em uma espécie de luta interna. Loki trincou os dentes e praguejou alto.
— O que eu não faço por você? Por amor a você… — disse entredentes e recostou a sua fronte na dela . — Eu só não quero mais vê-la daquele jeito… Triste… Perturbada… Torturada... — encarou-a e deu um sorriso triste. — Vá… — revirou os olhos. — Pegue Sleipnir e vá… Traga aquele verme de volta…
Aredhel resfolegou com a notícia.
— Meu amor! — beijo-o nos lábios. — Obrigada! Muito obrigada! — beijou-o de novo. — Oh, Deus… Eu te amo tanto! — encheu-o de mais beijos.
— Acho melhor você ir, antes que eu a jogue nessa cama… — crispou os lábios. — Com todos esses beijos, eu não respondo por mim…
— Prometo recompensá-lo na volta… — deu um sorriso malicioso. — Pelo que fez agora e pela noite que fiquei lhe devendo… — piscou.
— Cobrarei com juros — ele sorriu e alisou o corpo da esposa.
O casal se beijou apaixonadamente e, com relutância, Loki a deixou partir. Depois de falar rapidamente com seu afilhado, Aredhel passou feito um furacão pelos corredores, até alcançar as baias e montar Sleipnir.
— A madrinha disse que o traria de volta… — murmurou Wagner ao vê-la de uma sacada.
— Vamos torcer que ela consiga convencê-lo… — Eisa comentou.
— Ela vai... Ele sempre ouve o que ela diz… Faz tudo por ela... — disse sombrio.
A velocidade de Aredhel não fora menor no caminho para a vila. Apesar de no passado ter medo de cavalos e montar, depois de todos esses anos, ela se tornara uma excelente amazona. Sleipnir mal tinha parado, quando ela praticamente pulou de cima dele e saiu correndo na direção da casa.
— Jimmy! — gritou — Jimmy! — praticamente esmurrou a porta.
A porta se abriu e Aredhel caiu nos braços de James. Assustado, ele a amparou e foi surpreendido pelo abraço forte que recebeu dela. “Ela veio se despedir de mim?”
— Aredhel? — ele a abraçou, aturdido. — O que houve? — indagou ao perceber que ela chorava.
Concluiu que sua hora havia chegado. Olhou para a porta, esperando que Loki entrasse por ela a qualquer momento.
— J-jimmy… — soluçou. — Perdoe-me… Por favor… Perdoe-me... Eu… Eu...
Ele cerrou os olhos e lágrimas desceram por sua bochecha. A paz finalmente seria alcançada.
— Shh… — acariciou o rosto dela. — Está tudo bem. Sabia que essa hora chegaria. Loki já está vindo?
— O quê? — ela arfou.
— Eu sei que ele virá… — continuou resignado. — Está tudo bem… Ele vingará Hela e eu terei paz…
Aredhel arregalou os olhos quando compreendeu o significado confuso das palavras dele.
— Não Jimmy! Loki não sabe de nada… — tropeçou nas palavras. — Falei abertamente com Hela e... Você não a violentou! Hela me afirmou que… — constrangeu-se — … vocês fizeram amor. Que ela quis isso… Que precisava estar com você mais uma vez… Você não fez mal algum a ela! Jamais a machucou! — afirmou com veemência.
Quando finalmente sentiu o impacto do alívio daquela revelação, James desabou.
— Jesus… — estertorou. — Eu não a machuquei… Obrigado Deus… — chorou e abraçou a amiga com força.
— Perdoe-me Jimmy… — debulhava-se em lágrimas. — Eu n-não deveria t-ter dito que o odiava… Eu… Eu não o odeio… Não… — balançou a cabeça e o fitou nos olhos. — Eu te amo…
— Ah, Aredhel… — beijou-lhe o rosto. — Eu também te amo… — deu-lhe um selinho. — Eu estou tão aliviado…
— Volte comigo para Valhalla… — ela pediu. — Lá é seu lar... Seus filhos precisam de você… Eu preciso de você… Até Loki o quer de volta… Ele me emprestou o Sleipnir para vir vê-lo.
— Ele fez isso por você… — riu de leve.
— Pode ser… — ela sorriu. — Mas ele falou: “traga aquele verme de volta”…
Jim deu uma gargalhada e beijou o topo da amiga.
— Eu vou voltar… — afirmou.
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