Asgard Dirty Secrets

40 I just don’t want to miss you tonight


Notas iniciais
* I just don’t want to miss you tonight = Eu só não quero ficar sem você esta noite. -- Trecho da música Iris do Goo Goo Dolls. PERDÃO! Eu sei que demorei demais! Mil desculpas, mas esse mês foi complicado... u_u Para compensar... Eu trouxe um capítulo ENORME! Gente... Alcançamos as 500 páginas e sinceramente nem imagino ainda como vai terminar essa fic... Obrigada pelos comentários, mas vocês viram que nem tive tempo de responder ainda... Sabendo do clamor de vocês, preferi postar logo esse capítulo antes de responder os comentários do anterior... Sobre o capítulo... Está pingando treta... Olha... Não consigo me conter... CONFESSO! SOU VICIADA EM TRETA! Então que Loki nos ajude... Boa leitura...

Fenrir sorriu e empertigou-se na cadeira.

— Terra? — ele levou a mão ao queixo. — Midgard…

— Ah... Sim… Midgard… — Merida anuiu com a voz rouca.

— Mas como você veio parar aqui? — interrompeu-a. — Vocês não possuem livre acesso aos demais reinos.

— Eu… Eu realmente não sei… — piscou surpresa. — Tudo que lembro é que eu estava estudando alguns artefatos que foram encontrados em uma fábrica abandonada e de ter pegado no sono. Só.

Ela fez uma nova careta ao engolir a própria saliva. Sua garganta ainda latejava.

— Artefatos? — ele franziu o cenho.

— Sim… Sou arqueóloga. Encontraram uns artefatos com escritos rúnicos. Uma tigela e uma garrafa — deu de ombros. — Nunca tinha visto nada igual. Ainda mais em uma fábrica desativada em pleno Estados Unidos — meneou a cabeça.

O príncipe a olhou pensativo. Ignorando o comentário dela, ele apenas pensava em como aquela mulher havia chegado ali.

— Ainda acho que estou sonhando… — ela disse de repente. — Devo ter assistido filmes demais… — enrugou a testa. — Nem lembro de ter bebido… Por que estou alucinando?

— E por que você acha que está alucinando? — ele riu.

— E você ainda pergunta? — encarou-o chocada. — Desde que acordei aqui tenho vivido situações absurdas. Acusações de ser espiã, banhos frios, fome… — enumerava. — Desde quando Asgard existe? E em que universo da Marvel Loki seria rei de Asgard, teria um filho chamado Fenrir e que não é um lobo gigante? Isso não faz sentindo nem com os quadrinhos ou com a mitologia — gesticulou nervosamente. — Só pode ser um pesadelo inspirado por assistir filmes demais.

— Você disse Marvel? — o jovem arregalou os olhos.

Fenrir já ouvira falar naquele nome. Lembrava vagamente de ter lido histórias em quadrinhos da empresa que seu falecido tio William colecionava e levara para aquela realidade. Também recordava de alguns outros detalhes referentes à Marvel...

— Sim… — ela afirmou. — Ah… Claro… Você provavelmente nunca ouviu falar nela e nem em histórias em quadrinhos em Asgard.

— Na verdade, já ouvi falar sim… — balançou a cabeça. — E li várias por sinal… Mas produzida pela tal Marvel, só algumas… O único problema é que esta empresa não existe na Terra.

Merida o encarou em dúvida.

— Ela não existe na Terra desta realidade — ele revelou. — Logo, isso me leva a crer que você pertença a outra Midgard.

— Como? — espantou-se.

— Você certamente veio da Terra de outra realidade — concluiu.

— Outra realidade?

A expressão dele ficou séria e ele a olhou atentamente, ponderando sobre várias possibilidades. A jovem poderia ser apenas uma mulher inocente, mas talvez realmente fosse uma espiã enviada pelos estúdios e pela empresa que fora praticamente dizimada por seu pai. Fenrir sabia bem desse passado de guerra de sua família.

— Você fique aqui… — ele disse repentinamente. — Ficará aqui até se recuperar totalmente. Depois falaremos mais. Ainda existem coisas que precisam ser esclarecidas.

Merida apertou o cobertor contra o peito e um temor tomou conta de si. A forma como o príncipe a olhara não deveria significar algo bom e não estava disposta a saber exatamente o que seria.

— Então você está aqui… — Ullr estava escorado na entrada da sala de cura. — Parece bem melhor — ironizou.

Ela o encarou com os olhos faiscando de fúria.

— Filho da puta! Torturador! — acusou e teve um acesso de tosse.

— Guarde seu fôlego para Narfi — ele riu. — Ele irá interrogá-la.

— Narfi? — tossiu novamente.

— Sim… O príncipe implacável — disse de forma solene. — Ele sempre é muito efetivo em arrancar a verdade de nossos prisioneiros.

Algo revirou no estômago dela e o sangue se esvaiu de seu rosto.

— Narfi não é como Fenrir… — Ullr sorriu. — Aquele com quem você conversava. Fenrir é mais mole, mas pela expressão que tinha no rosto quando cruzei com ele no corredor, ele não parece ter acreditado em sua historinha — desencostou-se da porta. — Esse interrogatório, faço questão de assistir — gargalhou e deixou o local.

Ela já tinha sofrido demais naquele lugar estranho. Precisava voltar para casa. Contudo, antes de qualquer coisa, precisava sair dali.

Sem pensar muito no que fazia, ela esperou duas servas que estavam ali se afastarem e se levantou. Sentiu o corpo estremecer e a vista turvar. Sua febre ainda não tinha passado e estava muito fraca, mas estava determinada. Merida suspendeu a barra do longo vestido que tinham colocado nela e saiu correndo do local. Ao chegar ao corredor, olhou aflita para os lados, escolheu um e seguiu aos tropeços.

Perdida, não conseguia achar uma saída. Havia descido e subido escadas, sempre agindo de forma furtiva, mas continuava com a sensação de rodar em círculos. Parecia um labirinto. Em um dado momento ela virou uma esquina e quase trombou com um grupo de guardas. Ela arfou e saiu correndo na direção contrária. Estranhando a reação da jovem, os guardas a seguiram.

— Ei! Espere! — ordenou o guarda.

Desesperada, Merida se jogou contra uma porta e invadiu uma sala. No local havia uma sacada aberta. Ela correu até lá e deu um murro contra o parapeito ao perceber que estava no terceiro andar. Não conseguiria simplesmente pular sem quebrar um ou dois ossos. Olhou para o lado e viu uma trepadeira, que se estendia por quase toda a parede. Ela passou uma das pernas pela murada e se agarrou sem muito jeito à trepadeira.

— Mulher, pare! — disse o guarda adentrando no local acompanhado por mais dois outros.

Merida olhou para baixo e sua vista escureceu. O cansaço e a febre venciam sua determinação. Ela abraçou o tronco da árvore e tentou encontrar apoio com o pé. Os guardas correram em sua direção e um deles agarrou a sua perna que ainda estava para o lado de dentro da sacada.

— Não! — gritou e o empurrou com um chute.

O homem a soltou e ela se desequilibrou, soltando-se da trepadeira. Merida despencou e caiu sobre um caramanchão que havia lá embaixo.

≈≈

— Você deu o livro a ela? — Sigrid sorriu abertamente. — E o que ela disse? Ela gostou? — empolgou-se.

— Sim… — Týr anuiu envergonhado. — Ela pareceu surpresa, mas agradeceu e conversamos um pouco.

— Eu não disse? — juntou as mãos contra o peito. — Kat ama ler! Eu sabia que dar o livro de presente seria um sucesso! — alegrou-se. — Não é um presente muito formal ou romântico demais. Perfeito para uma aproximação lenta. Afinal, sabemos que ela é muito tímida.

— Acredita mesmo que fiz algum progresso? — perguntou esperançoso.

— Claro! — afirmou esfuziante. — Kat é uma jovem boa. Perceberá suas boas intenções e tenho quase certeza que com o tempo o corresponderá. Pode até não parecer, mas ela é muito romântica e sonhadora. Acredite em mim… — pegou as mãos dele entre as suas. — Em pouco tempo ela verá você com outros olhos… Conseguirá enxergar a sua dedicação. Além do mais… Você é um homem bonito. Tem presença — deu uma risada nervosa.

Ele sorriu sem graça e seu rosto ganhou um tom rosado.

— Ah… — ela continuou. — E não se preocupe… Não comentei nada com ninguém. Embora eu duvide que alguém fale algo para sua irmã ou que isso chegue aos ouvidos de sua mãe.

— Obrigado… Sei que parece estranho tanto segredo, mas acredito que quanto menos gente souber, melhor. Minha mãe e minha irmã são muito… determinadas — foi evasivo.

As feições dele mudaram para um ar preocupado e pensativo.

— Algo errado? — Sig perguntou curiosa.

— Adivinhe… — crispou os lábios e fez uma careta

— Nina… — ela murmurou ao se lembrar que ela era a mais nova moradora do palácio. — Eu ainda não acredito que sua mãe a enviou para lhe vigiar — meneou a cabeça. — Realmente não entendo essa mania de querem obrigar alguém a se casar com alguém que não se ama.

— Falando nisso… Algo me diz que nosso rei pensa parecido com minha mãe… — Týr mudou o foco da conversa. — Quando minha mãe disse que o rei estava inclinado a aceitar que eu cortejasse uma de suas filhas, confesso que desconfiei que ele dividisse a mesma opinião.

— Temo lhe afirmar que sim… — entristeceu-se. — Ainda que a princesa Hela não tenha se casado obrigada com o príncipe de Alfheim, a união já havia sido previamente planejada por nossa majestade.

— Verdade? — surpreendeu-se.

— Sim… E isso deu uma grande confusão… — Sigrid mordeu os lábios. — Resumindo, Hela estava comprometida em segredo com o senhor James e nosso rei fez de tudo para separá-los. Quando ele finalmente concordou com a união dos dois, a princesa nos surpreendeu anunciando o noivado com o príncipe Eric.

— Mas o senhor James não é parente de nosso rei? Não são primos?

— Er… Sim… São… Mas são primos distantes… — mentiu.

Sigrid era uma das poucas pessoas que sabia dos segredos da família real asgardiana.

— E você não tem receio de que nosso rei deseje fazer o mesmo em relação ao príncipe Váli? — franziu o cenho. — Afinal, ele é o primeiro na linha de sucessão. Imagino que ele possa ter algo ambicioso em mente para seu sucessor.

A jovem baixou os olhos e deu um suspiro.

— Tenho muito medo… — confessou. — Sou filha de uma empregada e o rei não seria o único contra a união de seu herdeiro com uma plebeia.

— Acredita que nossa rainha também seria contra?

— Não… — ela meneou a cabeça e sorriu. — Rainha Aredhel definitivamente não seria contra… Ela sempre nos apoiou e foi praticamente uma segunda mãe para mim. Inclusive, ela já até nos deu a benção para nos casarmos.

— Bom, isso, com certeza, já é uma grande vitória. Mas então quem mais poderia ser contra? Os irmãos? Será que pesaria tanto a opinião deles?

— Até onde eu sei, nenhum deles é declaradamente contra a nossa união. No caso de Narfi, até por suas próprias ambições, seria o primeiro a apoiar só para ver o pai contrariado com algum ato de Váli — mordeu os lábios. — Mas acho que o principal problema seria o reino.

Týr enrugou o cenho e Sigrid percebendo a dúvida dele, prosseguiu.

— Já percebi que Váli é o favorito do reino e do rei para sucedê-lo. Mas acredito que a ideia do futuro rei se casar com a filha de uma serviçal, não agrada boa do reino. Principalmente a nobreza — comentou entristecida.

— Entendo… — ele franziu os lábios. — A pressão seria imensa. Poderia gerar muitos conflitos. É realmente complicado administrar um reino sem o apoio dos outros reinos e demais membros da nobreza — disse pensativo. — Mas ele ser o favorito para herdar, não significa que aceite. O príncipe pode abdicar. De repente ele não deseja ser rei.

— Não… Ele quer ser rei… Eu sei…

— Então… — olhou-a penalizado. — Ele vai deixá-la?

— Não… E esse é o problema — Sig balançou a cabeça com vigor e seu olhos se encheram de lágrimas. — Sei que ele abriria mão do trono por mim e enfrentaria quem fosse para ficar comigo, mas…

— Ele poderá se arrepender disso no futuro… — Týr completou a frase.

Ela anuiu e respirou fundo, tentando conter a vontade de chorar.

— É disso que tenho mais medo… — disse em um sussurro. — Que isso no futuro mine nosso casamento. Que ele passe o resto da vida amargurado, remoendo sobre tudo o que abriu mão para ficar comigo.

Týr fez um afago nas mãos da jovem e limpou uma lágrima que escorreu pela bochecha dela.

— Você devia seguir o conselho que me deu outro dia… — ele falou por fim. — Não deveria sofrer por antecedência. Não sabemos o que acontecerá no futuro — falou com serenidade. — Nosso rei não dá sinais de cansaço e nem parece muito inclinado em abdicar de seu trono. Não há como ter certeza de quando isso acontecerá. Não sabemos se até lá o príncipe ainda vai querer ser rei, ou se as pessoas ficarão contra vocês por ele ser casado com uma plebeia, ou se realmente será necessário ele abdicar. São muitos “e se”… — sorriu. — Acho que você tem que aproveitar o momento. Ele quer casar com você agora. Vocês se amam hoje. O amanhã… Bem… Ele pertence ao futuro… — deu de ombros.

— Ah, Týr… — ela deu uma risada baixa misturada com um soluço e se encolheu contra o peito dele.

Ele a abraçou e a acalentou.

— O mais importante você já tem… — ele sussurrou junto aos cabelos cor de fogo dela. — O amor dele…

Recuperando-se daquele momento de emoção, Sigrid se afastou dele.

— Muito obrigada pelas palavras… — voltou a apertar uma das mãos dele. — Com tanta coisa que já aconteceu por aqui, confesso que comecei a ficar pessimista em relação a mim e Váli.

— E o casamento é para quando?

Ela deu uma risada e a conversa continuou. Um pouco distante dali, Váli ainda observava o casal de amigos. Todavia, ele não conseguira ouvir nada da conversa. Não havia como se aproximar sem ser visto e sua desconfiança o impedia de se revelar.

Até aquele momento Sigrid nunca citara o nome do chefe dos Einherjar com seu namorado. Se o jovem príncipe não estivesse testemunhando pela segunda vez uma conversa entre Sigrid e Týr, ele nem imaginaria que eles se conheciam, que dirá que fossem tão… “Íntimos… Os dois parecem íntimos demais”, acusava a mente de Váli.

Na cabeça de um homem ciumento, toques, abraços e afagos poderiam significar muito mais que um carinho fraternal. O ciúme cega e distorce até mesmo o que se vê.

A primeira vez em que vira sua namorada com aquele homem, Váli lhe concedera o benefício da dúvida. Tentou ver a intimidade deles como algo banal ou trivial a ponto dela nem mesmo comentar sobre a conversa com ele. Mas agora o monstro que habitava dentro de si não se conformaria em justificar afagos e abraços como algo puramente inocente. Daquela vez nada conteria a erupção e o incêndio que se aproximava.

Naquele instante sua raiva foi contida por um único fio: precisava dar a chance a ela de se explicar.

Contudo o destino de Sigrid praticamente fora selado com o que veio a seguir. Vali viu sua futura noiva se despedir do Einherjar com um beijo dúbio. De onde estava, ele não tinha como ver se o beijo fora no rosto ou na boca. Seu sangue ferveu em antecipação ao ódio que crescia selvagemente dentro de si.

Tentando controlar a própria respiração, Váli a observou se encaminhar para um dos corredores próximos ao jardim. Ainda que uma dor latejasse em seu peito e a dúvida e a ira corroessem aos poucos a sua racionalidade, ele respirou fundo e se aprumou. Seus passos firmes pelo gramado se tornaram calmos. Ele a visualizou entrar na sombra do pátio, ergueu a cabeça, endireitou os ombros e abriu um sorriso despreocupado. Em segundos, saindo do jardim, Váli encontrou-a face a face.

— Meu amor… — disse alegremente. — Por onde andou?

— Oh, Váli… — ela pareceu surpresa. — Eu estava na biblioteca — mentiu.

A alma dele morreu diante daquela mentira e um demônio tomou o lugar dela em seu corpo. “Ela está me traindo. Não restam mais dúvidas.” Ele sorriu de forma dolorosa, mas convincente e ofereceu o braço para a namorada.

— Claro… Sempre muito estudiosa — comentou de forma descontraída, enquanto por dentro um furacão varria o resto de humanidade que lhe restara. — Eu estava à sua procura.

— Diga…

— Tomei uma decisão sobre nosso noivado — disse com uma calma ensaiada.

— Qual? — Sig parou de caminhar e o encarou.

— Adiaremos mais uma vez — informou.

Váli poderia ter herdado o ciúme irracional de seu pai, mas não a fúria incontrolável dele. Não… O príncipe não era tão explosivo. Todavia, sabia ser frio e calculista quando precisava.

Sigrid franziu o cenho e entreabriu os lábios. Antes que ela perguntasse, ele apresentou o motivo.

— Não podemos fazer uma comemoração enquanto sua mãe estiver doente — ele tocou delicadamente o rosto dela. — Esperaremos até que ela se recupere e ai sim, marcaremos nosso jantar de noivado.

— Oh, meu amor… — ela sorriu. — Obrigada! — encolheu-se contra o braço dele.

— Não precisa agradecer — um brilho estranho perpassou pelos olhos dele. — É o mínimo que eu devo fazer...

Váli também sabia ser cruel e vingativo quando queria e era dotado de uma admirável paciência.

≈≈

Em Alfheim, Hela, perdida em seus devaneios, se encaminhava para a sala de jantar do palácio. Ao chegar lá, encontrou seu esposo já sentado à mesa, sozinho.

— Ora, ora, ora… Minha esposa resolveu comparecer ao jantar hoje — Eric mal conteve a ironia. — Pensei que ainda estaria indisposta.

— Eric… Sem ironias… Hoje não estou disposta a perder tempo com discussões bobas e indiretas — foi direta. — Eu mal dormi esta noite e aproveitei o tempo para pensar muito sobre… — ergueu os braços — ...esse casamento.

Ele se endireitou na cadeira e fechou a cara.

— Hela — começou meio ríspido —, se está pensando que poderemos anulá-lo, saiba que eu…

— Não… — levantou a mão para interrompê-lo. — Essa ilusão eu não tenho. Depois de todas os impasses que tivemos e de hoje estarmos casados, sei que não desistirá de levar isso até o fim.

— Tenha certeza disso… — ele afirmou.

Hela não se deixou abalar pela afirmação.

— O que está feito, feito está… — continuou. — E já que passaremos o resto da vida juntos, creio que podemos chegar a um acordo de boa convivência. Tenho uma proposta a lhe fazer — encarou-o calmamente.

Eric levou uma das mãos ao queixo e passou a ponta de seu indicador por seus lábios.

— Continue… — incentivou-a.

— Proponho tentarmos fazer esse casamento dar certo — viu-o estampar uma cara de surpresa. — Eu me comprometo a ceder e a me esforçar em ser uma esposa exemplar e você se compromete em fazer o mesmo. Se por ventura não der certo… Você ficar enfadado comigo ou eu simplesmente não conseguir me apaixonar por você, vamos pelo menos tentar manter um convívio pacífico e as aparências de um casamento harmonioso. O que acha?

— Eu gostei… — ele disse pensativo. — Mas por que essa mudança repentina? O que ganharia com isso?

— Primeiramente, paz — foi sincera. — Segundo, eu desejo ser mãe. Quero ter meus próprios filhos e francamente não me importa se você seria um pai participativo ou não. Eu os criaria sozinha se fosse preciso. Terceiro, não quero que minha família desconfie de que sou infeliz. Com o tempo, no pé de guerra em que vivemos, seria difícil fingir que estaria feliz ao seu lado. Sem contar a ausência de filhos. E vivendo sob o mesmo teto que seu pai, ele seria o primeiro a desconfiar que nosso “amor” era uma farsa, algo que ameaçaria a segurança do segredo que me fez casar com você — lembrou-o.

Ele ficou em silêncio por um tempo, apenas a encarando.

— Proposta aceita… — falou finalmente. — Embora eu acredite que era uma questão de tempo até lhe dobrar — levantou-se e caminhou na direção dela —, melhor ainda se não enfrentar resistência — acariciou o rosto da esposa.

A princesa teve que conter a vontade de se afastar daquela carícia.

— Também quero herdeiros e a última coisa que desejo é que meu pai desconfie que casei com você por uma chantagem.

Ela franziu a testa e ele lhe sorriu.

— Acho que podemos começar hoje mesmo… — ele sussurrou se inclinando na direção dela.

Hela sabia que não podia recuar ou mostrar qualquer sinal de que aquilo seria uma farsa.

Eric a beijou de leve e, pela primeira vez, Hela o correspondeu. Ele deu mais alguns beijos esparsos e com a ponta da língua massageou os lábios dela para que o recebesse. Ela cedeu e com um júbilo contido, o príncipe aprofundou o beijo. Quando se satisfez, afastou-se dela com um sorriso.

— Eu sabia que beijava bem… — riu. — Quando quer, você sabe ser uma mulher apaixonada — não tirava os olhos dos dela. — Você vai ver… Vamos nos dar muito bem debaixo dos lençóis.

Ela teve vontade de vomitar, mas conteve-se. Usando sua habilidade dramatúrgica, sorriu meio sem graça para ele.

— Você não é virgem, é?

— Não… — achou melhor ser sincera nisso.

— Imaginei… Teve pelo menos aquele idiota... — ele revirou os olhos. — Melhor assim. Não tenho paciência para ensinar o básico. Nunca fui muito atraído por donzelas. Prefiro as experientes.

— Também prefiro homens experientes… — provocou.

Ele deu uma gargalhada sonora.

— Acho que temos tudo para nos dar bem minha querida Hela! — apertou-a mais contra si.

— Já que seremos francos… — ela disse de repente, tencionando mudar de assunto para fugir do assédio dele e investigar mais. — Por quê você disse que é importante que seu pai não saiba que nosso casamento é uma fraude? Pensei que eram próximos — jogou a isca.

— Próximos? — riu sem humor e a olhou demoradamente. — Duvido que aqui no palácio isso seja um segredo, então melhor que saiba logo. Eu e meu pai não nos damos bem — confessou.

— Por quê? — a curiosidade dela se aguçou.

— Porque ele matou a minha mãe… — revelou.

Sem palavras Hela apenas o fitou boquiaberta.

— Ele diz que ela morreu em um acidente de carruagem — o príncipe começou a contar. — Eu era apenas um menino e mal lembro dela, mas sei que ele está mentindo. Ela estava tentando fugir dele. Lembro perfeitamente da voz dela se despedindo de mim — dizia com um olhar distante. — Dizendo que um dia voltaria para me buscar. Lembro-me de correr atrás dela, de tocar seu vestido… Mas caí na escada e desmaiei. Daí em diante só me recordo do funeral. Com toda certeza ele tentou impedi-la e a matou. Mas ninguém aqui fala no assunto — disse entredentes. — Virou uma espécie de assunto proibido. Obviamente que todos temem meu pai.

A jovem ensaiava dizer algo quando seu sogro adentrou no salão.

— Boa noite — Vardamir cumprimentou enquanto se dirigia ao seu lugar à mesa. — Que bom vê-la conosco, Hela — sorriu.

≈≈

Em Asgard também já era hora do jantar. Igor terminava de se trocar, quando ouviu uma batida à sua porta. Pediu que entrasse e mordeu os lábios ao ver Katarina em seu quarto.

— Kat…

— Igor… Eu vim falar com você sobre… — ela corou — …nós.

O coração dele falseou. Ele pensou que ela de alguma forma poderia ter descoberto a verdade.

— Acho melhor mantermos isso em segredo — ela se aproximou.

— Acha? — a pergunta escapou diante da surpresa dele.

— Sim… — baixou os olho, meio entristecida. — Descobri que aconteceu algum desentendimento entre o padrinho e papai. Aconteceu alguma coisa durante o casamento de Hela e que obrigou a madrinha a perder a cerimônia e o padrinho sair às pressas de Alfheim. Papai está estranho… Ausente… E o padrinho não quer nem ouvir o nome dele.

— Oh… — murmurou devaneando sobre o que ela dissera. — Faz sentido… O que acha que aconteceu?

— Não sei, mas acredito que seja melhor esperarmos… Não quero novas brigas entre meu pai e o padrinho — meneou a cabeça com os olhos marejados. — Papai já está sofrendo muito com o casamento de Hela e tudo o que tem acontecido. A madrinha também já se sacrificou demais por interceder nos assuntos dos filhos. Não quero que nosso namoro venha causar novos problemas e brigas. Valhalla precisa de um pouco de paz.

Igor se sentiu miseravelmente cafajeste. Ele a enganava e a usava, enquanto ela se preocupava com o bem-estar de todos. Katarina era boa demais para ele e Igor sabia que não a merecia.

— Eu entendo e concordo com você — foi tudo o que sua covardia permitiu dizer.

— O importante é que estamos juntos… — ela sorriu e o abraçou.

— É… Isso é o que importa… — disse sem convicção.

≈≈

O jantar foi servido no palácio Valhalla, mas poucos participaram do jantar. Sigrid partiu para a vila assim que uma mensagem chegou informando que sua mãe piorara. Myria continuava taciturna e, portanto, não deixou seu quarto. James, conforme o imaginado, também não compareceu. Váli mandou avisar que estava ocupado e não desceu.

Ao final da refeição, Narfi se ofereceu educadamente para acompanhar Becca em um passeio noturno. Fenrir recebeu um bilhete e saiu meio apressado. Os últimos a se retirarem foram Eisa e Wagner, deixando Aredhel e Loki a sós à mesa.

— Diga-me que eles não estão namorando… — sibilou Loki observando a caçula se afastar de mãos dadas com Wagner.

— Ah, meu amor… Você odeia quando eu minto — Aredhel não conteve o sarcasmo.

Loki a encarou e revirou os olhos. Ela deu de ombros e bebericou seu vinho.

— Você não perde essa mania de alcovitar — ele bufou. — Primeiro foi o pai correndo atrás de Hela e agora terei que assistir o filho agarrando minha caçulinha sob meu teto? — deu um murro na mesa.

— Loki, as vezes esse seu jeito antiquado e machista me surpreende — a rainha meneou a cabeça. — Nossos filhos cresceram, incluindo nossas menininhas — enxugou os lábios e afastou a sua cadeira. — Supere isso… — levantou-se.

Ele trincou os dentes e assistiu a esposa se encaminhar para fora do local.

— Ah… — ela parou próximo à saída e se virou na direção dele. — Quando você se conformar… Estarei à sua espera — piscou.

O rei exalou o ar de forma exasperada e também se levantou.

— O que não faço para não me indispor com essa mulher… — resmungou e abriu um sorriso cínico. — Acho que por hoje já me conformei… — apressou-se em segui-la.

≈≈

Fenrir chegou meio afobado à sala de cura e foi prontamente recebido por Ada.

— Majestade… — a serva fez uma mesura. — Que bom que o encontraram. Já faz algum tempo que estou tentando lhe falar.

— Infelizmente meu pai me manteve ocupado o resto da tarde — ele começou a se explicar. — Queria falar com minha mãe sobre a prisioneira antes de comentar o caso com ele, mas não tive oportunidade e…

O príncipe se interrompeu ao ver a cara de aflição da serva.

— O que foi que houve? Aconteceu alguma coisa com a jovem? — preocupou-se.

— Peço-lhe perdão por nosso descuido — Ada baixou os olhos —, mas assim que vossa majestade se retirou a jovem fugiu. Ela foi encontrada rapidamente por três guardas nossos. Entretanto, na confusão da fuga, ela acabou caindo de uma das sacadas do palácio.

— Pelos deuses… — Fenrir levou uma das mãos ao rosto. — Ela está viva?

— Está, mas muito machucada. Venha vê-la… — indicou o caminho para os fundos do local.

Merida estava deitada em uma das camas, com a cabeça envolta por bandagens e tinha vários arranhões pelos braços, pernas e rosto.

— Segundo contaram — Eir assumiu o relato —, ela caiu em cima de um caramanchão. A forja de almas mostrou que ela, além das várias escoriações, quebrou uma costela e possui um grande inchaço na cabeça — crispou os lábios. — Lamento dizer majestade, mas a jovem se encontra em sono profundo.

Fenrir se sentou na cadeira ao lado da cama e pegou a mão de Merida entre as suas.

— Merida… — ele lamentou. — Por quê fugiu? Estava segura aqui.

— Provavelmente fugiu por causa do que Ullr disse… — comentou Nanna, outra serva. — Assim que vossa majestade saiu daqui ele apareceu e fez ameaças indiretas à jovem. Disse que a ela que seria interrogada pelo príncipe Narfi e deixara bem claro… Er… Bem... A fama dele em extrair informações de prisioneiros — acusou.

— Bem típico dele… — bufou Fenrir. — Pois bem… Eu proíbo que ele se aproxime dela novamente. E quero que me avisem de toda e qualquer pessoa que venha vê-la.

— Como quiser majestade — as três servas disseram em uníssono.

— Cuidem dela e façam o possível para que se recupere — ele voltou a olhar para a jovem. — Procurarei uma forma de lhe ajudar… Deve ter algo que eu possa fazer para ajudá-la.

≈≈

Em Alfheim, o jantar também terminara e o bom humor de Eric só aumentara.

— Deixe aberta a porta de acesso ao seu quarto — ele sorriu de lado e tocou o rosto de Hela. — Hoje provarei a você que não errou em ter me feito aquela proposta.

— Deixarei… — forçou um sorriso. — Veremos… — provocou-o novamente.

— Cada vez mais eu gosto dessa nova Hela… — deu uma risada rouca e roubou um beijo dela, se afastando.

Assim que ele desapareceu no corredor, ela se encostou na parede e suspirou. Estava dando o seu melhor naquela atuação, mas aquilo estava sendo torturante demais.

— Você está bem, Hela? — indagou uma voz familiar.

Ela se virou e viu Vardamir a observando com a testa enrugada.

— Estou… Só estou um pouco cansada — sorriu de leve. — Dormi pouco esta noite.

— Oh... — ele desviou o olhar, meio desconfiado.

Hela rapidamente percebeu o que seu comentário deu a entender. Seu rosto se tingiu de rubro, o que só serviu para confirmar o que ele pensava. “Ah, agora já foi...”

— Meu filho a tem tratado bem? — Vardamir perguntou de forma repentina.

— Sim… — estranhou a pergunta.

— Bem… Ele… Em algum momento... Foi rude com você? — insistiu, visivelmente desconfortável.

— Não… — murmurou confusa.

O rei de Alfheim deu alguns passos e se aproximou da nora.

— Hela… — olhou-a demoradamente e tomou uma de suas mãos. — Se precisar de algo… Qualquer coisa... Saiba que pode me procurar. Eu realmente estou muito contente em tê-la aqui e farei o possível e o impossível para vê-la bem e feliz.

— Obrigada… — foi tudo o que ela conseguiu dizer diante daquela estranha declaração.

Ele tocou o rosto dela e Hela estremeceu.

— Vocês são tão… — a expressão dele se alterou e ele se afastou. — Boa noite, minha querida… — fez uma mesura e se retirou.

— Mas… — sussurrou a jovem aturdida.

Momentos depois Hela estava em seu quarto enrolando um cobertor e colocando um travesseiro debaixo do braços.

— Vai mesmo fazer isso? — indagou ao fitar Ness vestida com uma camisola rendada e bastante transparente.

— Vou — foi firme. — Ontem ele foi me ver. Então dá quase no mesmo — deu de ombros.

— Sabe que não é bem assim — bufou. — Ele dormirá com você pensando que sou eu.

— Eu sei… — Ness crispou os lábios. — Mas ainda assim o quero.

— Eu não concordo, mas entendo…

— Confesso que sentiria ciúmes se você tivesse que se deitar com ele — viu a outra fazer cara de nojo. — Sabemos que você seria obrigada a fazer isso pelo menos algumas vezes para ele acreditar que o filho é dele. Mas acredite estou fazendo isso mais por mim do que por você.

A princesa a abraçou e se encaminhou para o quarto de vestir. Lá as duas jovens arrumaram um espaço dentro do armário, no qual Hela dormiria.

— Vai ficar complicado você dormir aí quando a sua barriga tiver maior — Ness mordeu os lábios ao ver o espaço minúsculo e desconfortável.

— Então espero que ele perca o encanto por mim rápido e… — olhou para Ness. — Bem… Não… Ah! Sei lá! — bufou. — É só você não ser tão… — corou — ...boa de cama quando estiver se passando por mim — ergueu os braços.

Ness riu baixo e ficou carmim.

Hela se acomodou dentro do armário e Ness fechou a porta e apagou as luzes, indo se acomodar na cama, à espera de Eric. Havia passado quase uma hora, quando Hela ouviu o barulho da porta de comunicação entre os quartos se abrir. Uma nesga de luz iluminou o piso do quarto de vestir e ela conseguiu ver pelas frestas dos entalhes florais da porta do armário, Eric adentrar, trajando um longo robe cinza escuro. Por instinto, ela se encolheu mais e cerrou os olhos, concentrando-se em criar a ilusão que modificaria a aparência de Ness.

Eric abriu a porta do quarto e entrou, fechando o quarto de vestir atrás de si. Nos minutos seguintes, tudo o que Hela fez foi se manter concentrada em manter a ilusão. Todavia, passado algum tempo, gemidos altos a fizeram abrir os olhos e quase a fizeram perder o foco.

— Pelos deuses… — murmurou ao ouvir um gemido entrecortado. — A noite vai ser longa… — fez uma careta e voltou a fechar os olhos.

≈≈

Os dias se passaram, mas o estado de Merida permaneceu igual. Sem saber exatamente o que o movia e porque se preocupava tanto com aquela desconhecida, Fenrir dividia seu tempo entre velar o sono profundo de Merida e buscando algo que pudesse ajudá-la nos livros de cura da biblioteca.

Outro ser que vivia recluso era Váli. Passou a evitar o convívio com sua família e passava boa parte de seu tempo livre remoendo a dor da traição que não aconteceu e alimentando o ódio por sua namorada. Desde aquele dia o casal não se via e apenas trocavam recados. O estado da mãe de Sigrid não apresentara melhora e agora seu pai também adoecera do mesmo mal. A jovem mal tinha cabeça para perceber algo estranho nas respostas que seu namorado enviava para suas cartas. Doente de ciúmes, ele nem tentou falar com ela por projeções. Limitava-se a apenas prestar palavras de apoio e melhoras aos sogros.

Einmyria também sofria em antecipação por algo que previra. A data do retorno de Nicolas se aproximava e ela sabia bem o que aconteceria neste encontro.

— Ele vai terminar comigo… — dizia a jovem às lágrimas para sua irmã.

— Myria… — Eisa passou o braço em volta da outra e a abraçou. — Você sabe que tudo o que vê pode ser modificado. Nada é definitivo.

— Eu sei… — fungou. — Mas ele não quer esperar mais e de certa forma eu não o culpo. Nick tem razão… Não pode me esperar para sempre… Ele é humano… Toda vez que penso que o terei por tão pouco tempo… Eu… — soluçou. — Sinto que vou sufocar…

Eisa não sabia como consolá-la quanto a isso, então tentou voltar ao ponto principal da conversa.

— Myria, não sabemos quase nada dessas mortes que você viu em suas visões — meneou a cabeça. — Pode ser que aconteça logo ou leve décadas para acontecer… Ou quem sabe nem aconteça mais… Afinal, você não teve mais visões ligadas a elas. Talvez você possa ir para a Terra, viver lá e…

— Não posso arriscar… — interrompeu-a. — Eu vi claramente a minha chegada… Eu cheguei tarde demais… Eles estavam mortos — dizia com veemência.

— Permanecer aqui não significa que pode mudar algo do que viu e sabe disso — Eisa alertou-a.

— Eu sei… Mas… — levou as mãos aos cabelos e respirou fundo, tentando se conter.

Sem ter mais argumentos, a caçula se limitou a observar a irmã lutando para se recompor.

— É hoje, não é? — Myria disse de repente, esboçando um sorriso fraco.

Eisa ficou rubra e balançou a cabeça em afirmativo.

— Daqui a mais alguns minutos eu vou para o local marcado — murmurou toda sem graça.

— Ah… Você amará a surpresa… — Myria deu uma risadinha. — Ele decorou a cabana com tulipas de todas as cores… Está tão lindo e romântico.

— Acho que isso deveria ser uma surpresa — cruzou os braços.

— Oh… Desculpe-me… — cobriu a boca. — Mania de vidente — deu de ombros.

— Você viu mais alguma coisa? — olhou-a de esguelha.

— Só sua expressão diante da surpresa… Não vi mais nada. E cá entre nós dispenso saber dos detalhes — revirou os olhos. — Graças aos deuses esse tipo de coisa nunca apareceu nas minhas visões.

— Ainda bem… — suspirou Eisa. — Como nossa ligação é muito forte, temi que pudesse ver até o que não devia.

— Agora vá… Wagner está lhe esperando… — sorriu. — Amanhã você se sentirá uma outra mulher.

— Ai… Pare de dizer essas coisas… — corou. — Parece a mamãe falando.

Einmyria riu com gosto.

— Ah! — a mais velha ergueu a mão. — Não se esqueçam de trancar a porta e fechar as cortinas de lá. Eu não vi nada, mas vai que aparece alguém por aquelas bandas dos jardins.

— Certo… Certo… Bem lembrado.

≈≈

Mas nem tudo parecia estagnado, alguns conseguiam avançar ou obter algum sucesso. Em Alfheim o plano de Hela e Ness parecia dar certo. Eric andava nas nuvens acreditando que finalmente a princesa estava se apaixonando por ele, enquanto ela passava suas noites trancada em um armário.

Em Asgard, Narfi continuava se comportando como um legítimo cavalheiro e se mantendo firme à sua promessa de fidelidade e paciência. Mas tal mudança de comportamento não agradava a todos.

— Ele nunca mais me procurou — resmungou uma serva ruiva ao ver Narfi e Becca se retirando do salão de jantar. — O canalha me enganou...

— Liv… Mais trabalho e menos lamúrias… — sibilou a outra serviçal que a auxiliava na limpeza. — Você foi idiota em achar que ele iria querer algo mais sério com uma serva. Príncipes não namoram e muito menos se casam com a plebe.

— Ah… Mas isso não vai ficar assim… — disse entredentes. — Anote o que digo Kaira.

≈≈

Nesse meio tempo, Týr também conseguira fazer alguns avanços. Aos poucos conquistara a amizade de Katarina. Além de dividirem sua paixão por livros e plantas, os dois viraram confidentes. Diante de alguém que a ouvia e não a ignorava, seria quase impossível não se tornarem amigos. Pela primeira vez na vida, Kat tinha a atenção total de alguém que não era seu parente. Nem mesmo Igor lhe prestava tanta dedicação. Definitivamente não...

Àquela altura, Kat já sabia da pressão que Týr sofria de sua mãe para cortejar uma das herdeiras de Asgard e parcialmente da verdade sobre a mudança de Nina para Valhalla.

Naquela noite, Kat contava sobre o calvário de seu pai ao jovem Einherjar.

— Ele vai superar… — dizia Týr deitado na grama fitando as estrelas. — Você vai ver. Tudo o que seu pai precisa é de tempo para se recuperar. Ele a ama e isso não é o tipo de coisa que simplesmente deixa de existir só porque ela se casou com outro. Ficar o cercando de cuidados e perguntas só o deixará mais angustiado. Ele também precisa de espaço. Precisa viver esse luto.

— Você tem razão… — Kat anuiu e com os olhos marejados viu uma estrela cadente cruzar aquele céu colorido. — Papai anda desligado, mas percebo as suas tentativas de seguir adiante. Talvez estejamos exigindo demais dele… Pressionando demais…

— Exatamente.

Um breve silêncio se fez.

— Acho que o clima de nossa conversa hoje está muito deprimente — ele disse de repente, tentando descontrair. — Será que podemos parar de falar de casamentos arranjados e corações partidos? Se continuarmos com isso vou acabar cortando os pulsos… — brincou.

— Tem razão… — ela riu. — Chega de choro.

— Será que ninguém teve um “final feliz”? Gostaria de ouvir uma história de amor que deu certo.

Katarina se virou na grama e o encarou com um sorriso contido.

— Se eu te contasse algo… — ela mordeu os lábios com força — ...guardaria segredo?

— Claro… — afirmou se remexendo na grama para encará-la. — Tem minha palavra.

Ela começou a corar e respirou fundo para tomar coragem.

— Bem… Eu gosto de alguém… — disse sem jeito.

— Gosta? — um calafrio percorreu a espinha dele.

— Sim… — anuiu, ficando mais vermelha. — E eu sei que sou correspondida…

— É? — a pergunta saiu baixa e o coração de Týr parecia pulsar em sua garganta. — E… E quem seria essa pessoa? — quase gaguejou.

— Igor… — deu uma risada nervosa e um calor queimou seu rosto.

O tempo parou para o Einherjar.

— Igor? — repetiu em um fio de voz.

— Sim… — ela afirmou esfuziante. — Estamos namorando em segredo já a algum tempo. Com toda a confusão que tem envolvido nossas famílias, achamos melhor manter o sigilo. Não quero que isso cause mais brigas e…

Ele já não mais a ouvia. Ficou ali parado, apenas fitando os lábios de Katarina se mexerem, e, pela primeira vez, sem dar atenção ao que ela dizia. A revelação que ela fizera lhe doeu feito um corte fino feito por um punhal afiado. “Ela gosta de outro...” Týr sangrava por dentro.

— Acho que já vou indo… — ela disse, tirando-o de seus devaneios. — Está tarde e… — conteve um bocejo — ...o dia foi longo. Imagino que amanhã você levantará cedo para seu treinamento.

— Verdade — ele concordou distraído, tentando juntar os pedaços de seu coração e manter as aparências. — O dever sempre vem em primeiro lugar — levantou-se.

Týr estendeu a mão e a auxiliou a se levantar. Ela espanou as folhas e a grama de seu vestido, enquanto ele a observava desolado.

— Boa noite Týr… — sorriu. — Até amanhã.

— Boa noite… — forçou um sorriso. — Até amanhã Kat… — beijou-lhe o topo.

Ela seguiu para as escadas da ala leste do palácio e ele seguiu na direção contrária. Minutos depois, Týr estendia a mão para bater em uma porta. Indeciso, ele moveu o punho fechado dividido entre seguir adiante ou ir para seu quarto. Temia a própria fraqueza. Inspirou o ar e bateu.

— Você? — Nina o encarou surpresa.

Os lábios dele se entreabriram, mas não disse nada. Nem precisava. Sua irmã leu em seu rosto o que tinha acontecido. Ela conhecia bem demais seu irmão gêmeo.

— Ela partiu seu coração… — sibilou. — Você é um idiota mesmo.

— Nina… — suspirou. — Eu só não quero ficar sozinho esta noite…

Ela deu passagem para ele entrar. Týr entrou e fechou a porta atrás de si.

≈≈

Ainda naquela noite, mais alguém teria o coração partido. Igor estava na sacada de seu quarto, bebericando hidromel e pensando em como terminar o seu relacionamento com Katarina sem magoá-la demais. Aquela farsa já havia se estendido por tempo demais.

Sem nada em mente, pensava em ir dormir, antes que ficasse mais ébrio do que já estava. Foi neste instante que ele avistou uma luz pequena entre as árvores do jardim. Estreitou os olhos tentando decifrar o que seria, até que a luz passou por uma parte não coberta pelas árvores. Lá estavam Wagner segurando uma lanterna dourada, caminhando de mãos dadas com Eisa.

A jovem sorridente, trazia no braço livre um buquê de tulipas vermelhas. Wagner por sua vez carregava em sua outra mão uma cesta. O casal parecia se encaminhar para os fundos do jardim e Igor sabia da existência de uma cabana ali. Ele trincou os dentes ao perceber os planos do casal.

Já próximos de desaparecerem novamente, Wagner parou e encarou por alguns instantes a sua namorada. Afastou uma mexa do cabelo dela e a beijou apaixonadamente. Os dois deram uma risada baixa e, corados, prosseguiram na direção da cabana.

Igor deu as costas para o jardim e fechou a porta da sacada com um estrondo. Pegou a garrafa de hidromel e virou o resto da bebida como se água fosse. Não demorou muito tempo para o álcool subir-lhe à cabeça e turvar de vez a sua mente.

Bêbado, ele deixou o seu quarto aos tropeços e foi para o único local onde poderia buscar consolo: o quarto de Katarina. Bateu à porta da moça até que ela atendesse.

— Igor? — espantou-se.

Ele a agarrou pelos braços e a encarou com um olhar alucinado.

— Você me ama? — indagou transtornado. — Diga… Por favor… Diga que me ama — abraçou-a apertado.

— Meu Deus Igor… O que houve? — ela o abraçou de volta. — Eu te amo sim… Jesus… Você está tremendo…

— Eu prometo ser bom para você… — murmurava confusamente. — Mas não me deixe só… — beijou-a com desespero.

Sem perceber, ele a conduziu até a cama, onde eles caíram, sem interromper a fúria daquele beijo.

≈≈

Já era tarde quando Aredhel se esgueirou para dentro do quarto de James. Como vinha acontecendo desde o casamento de Hela, ele novamente não comparecera ao jantar e a amiga se encarregara de evitar que ele virasse apenas pele e ossos.

— Desculpe a demora, mas Jörmungand custou a dormir — ela comentou ao depositar a bandeja sobre a mesinha. — Como já está tarde, eu lhe trouxe uma sopa de tomate para sua ceia e…

A rainha de Asgard estacou ao ver o estado de nervos do amigo. O ator parecia perturbado e ansioso. Mordiscava de forma compulsiva os lábios e balançava uma das pernas nervosamente. Diferente da situação apresentada, nos dias anteriores ele se mostrara controlado e bem aprumado, ainda que parecesse distraído.

— O que você tem Jimmy?

— Perdi minha alma… — ele resmungou tão baixo que Aredhel não ouviu.

Ela se aproximou, puxou uma cadeira e sentou-se diante dele, fazendo um afago em sua mão. Jim olhou demoradamente para a amiga e fez um esforço herculano para se controlar. Ele não mentira ao declarar aquilo. Na noite do casamento de Hela tinha prometido a si mesmo que a levaria dali custasse o que custasse. Estava convicto de que não a deixaria se casar com Eric, nem que isso custasse sua alma. Mas naquela noite ele fracassou e perdeu as duas: Hela e sua alma.

— Hela já entrou em contato? — perguntou de supetão.

Aredhel teve que se esforçar para não sentir pena do amigo.

— Não… Bem… — começou meio sem jeito. — Ela se casou há pouco tempo, estão em lua de mel, então não acho conveniente eu ficar a procurando e… — olhou novamente para ele e percebeu a gafe cruel que estava cometendo. — Desculpe-me…

Ele apenas meneou a cabeça.

— Jimmy… — retomou envergonhada. — Eu não acho saudável para você, ficar perguntando sobre ela… Isso não faria bem algum a você e…

— Não! — ele disse com urgência. — Eu preciso saber dela!

Ela o encarou chocada. James já não conseguia disfarçar seu descontrole. Desde àquela noite ele não tinha paz. Vivia perturbado e sendo assombrado com pesadelos onde Hela era a principal vítima. Sempre começava com uma explosão de paixão incontrolável e terminava com a jovem chorando, segurando o vestido rasgado e com a mão estendida para desacordá-lo. Dia após dia aquilo o consumia e lhe devorava a alma. Ele já não vivia. Tinha virado um fantasma, uma alma atormentada pelo demônio que acreditava ser.

— Preciso saber se ela está bem… Se está feliz… — confessou sufocado. Ele já perdera a conta das vezes que se perguntou se Hela tinha conseguido ter relações com seu marido ou se ficara traumatizada. “Deus… Vou enlouquecer.”

— Jimmy… — murmurou aturdida. — O que está acontecendo? Eu entendo o seu luto, mas não consigo compreender essa angústia sua. Você parece… Torturado… Eu sou sua melhor amiga. Fale comigo.

— Deus é testemunha de que tenho tentando esquecer tudo… Principalmente aquela maldita noite — disse entredentes. — Um dia após o outro venho tentando superar, seguir em frente, mas não dá… Há algo que não posso esquecer, ignorar ou fingir que não aconteceu. Isso está me devorando vivo… E se eu continuar guardando isso por mais tempo vou explodir!

— Santo Cristo… Do que você está falando? O que aconteceu naquele dia que o perturba tanto?

— Eu quero lhe falar… Mas…

— Do jeito que está hesitando, parece até que matou alguém…

— Antes eu tivesse feito isso — disse com raiva. — Antes eu tivesse me matado, caindo daquela sacada… — balançou a cabeça. — O que fiz foi hediondo… Sei que isso custará nossa amizade…

— Você está me assustando… O que poderia ter feito que custaria o amor que tenho por você? — indagou nervosa.

— Deus… — ele resfolegou. — Eu vou te perder… — lágrimas desceram por seu rosto. — Mas é melhor que saiba logo e por mim… Que ouça isso de meus lábios…

— Jimmy… — a voz dela saiu trêmula.

— Naquela noite… Antes do casamento de Hela… Como você sabe eu fui vê-la… — viu a amiga anuir com uma expressão assustada. — Eu estava muito bêbado, mas decidido a evitar que ela se casasse… Eu… E-eu não lembro de muita coisa mas… — respirou fundo. — Lembro-me de agarrá-la… — sua voz falhava. — Dela me empurrar... De tê-la beijado… D-de r-rasgar aquele vestido… — soluçou. — Eu não tenho certeza, mas… Acredito que eu...

Aredhel ficou pálida e estática. Ele ainda não tinha terminado de dizer, mas ela amargamente adivinhou o que diria. Desejou que o chão se abrisse, que o mundo acabasse, que qualquer coisa acontecesse para impedi-la de ouvir aquilo. Preferia morrer a ter que ouvi-lo comprovar suas suspeitas.

— Aredhel… — soluçava descontroladamente. — E-eu acho que violentei Hela…

— Não! — ela gritou e com o punho fechado socou o peito dele. — Não! Não! Não! — socava continuamente.

As imagens da calcinha rasgada, da filha descomposta e com a pele avermelhada inundaram a mente de Aredhel feito um tsunami. De repente a vergonha da jovem e a voz embargada, ganharam outro significado e se encaixaram formando um cenário de horror. “Extremamente embriagado...”, ouviu a voz de Hela ecoar em sua memória.

Aredhel tinha a plena consciência do que acontecera no quarto. Não era ingênua. Mas jamais imaginara que a relação entre os dois naquela noite fora fruto de uma violência. A imagem inocente e fraternal que Aredhel tinha dele fora varrida e destruída pelo furacão implacável da dor.

— Minha menininha… — explodiu em soluços. — Não… Não… Não… Você não pode ter feito isso… Não… — bateu no peito dele novamente. — Diga que é mentira… Diga que você não é um monstro...

Debulhando-se em lágrimas, Jim não conseguia dizer nada em sua defesa. Por mais dúvidas que tivesse, acreditava ter feito o certo. Confessara à sua melhor amiga o segredo que lhe roubara a paz.

— E-eu n-não l-lembro de q-quase nada… — disse com dificuldade. — Mas o que lembro… — resfolegou — ...l-leva a crer que a forcei… — pegou a mão dela. — Perdoe-me, mas… Não posso dizer que seja mentira… Talvez… T-talvez eu seja um monstro…

Ela puxou a mão com violência.

— Tire suas mãos de mim! — berrou e deu-lhe uma bofetada. — Como pôde?

— E-eu não sei… A-acho que enlouqueci… — tentou se aproximar dela. — Jamais faria mal a ela ou a qualquer mulher… Acredite em mim…

— Não… Não… Não… — empurrou-o. — Fique longe de mim… Longe de minhas filhas… De minha família...

— Não Aredhel… — implorou.

— Jamais o perdoarei por isso… Jamais… — se afastou, indo na direção da porta.

— Aredhel… — caiu de joelhos, suplicando.

— Eu odeio você! Odeio! — ela abriu a porta e saiu correndo.

— Eu só não quero perder você também…

Notas finais
E agora? Gostaram? Odiaram? Comentem.