Asgard Dirty Secrets
41 We believe throught their lies and the hating that love goes free
Notas iniciais

Nove anos atrás…
— Eu estou apaixonado por você — o jovem loiro de cabelos cacheados disse de supetão.
A moça morena e de pele escura, piscou longamente os olhos escuros, tentando absorver aquela declaração repentina.
— Oh, Wagner… — ela pareceu se recuperar do choque. — Você achou que você e eu... — deu uma risada baixa e meneou a cabeça. — De onde tirou essa ideia?
— Bem… Eu… — envergonhou-se o rapaz. — Nós somos amigos há algum tempo, gostamos de conversar e…
— Mas não temos nada a ver um com o outro — ela rebateu, como se fosse algo óbvio. — Não gostamos nem das mesmas coisas — deu de ombros.
— E o que isso tem a ver com se apaixonar? — retrucou. — Onde está escrito que para se gostar de alguém ou namorar as pessoas têm que gostar das mesmas coisas? — ele bufou. — Quando se tornou obrigatório — fez aspas com os dedos — “gostar das mesmas coisas”? Eu não concordo.
— Está vendo? — levou a mão à cintura. — Nem nisso concordamos — arqueou a sobrancelha.
— Huld… — o nome dela saiu em um sussurro, quase como uma súplica.
— Wagner… — ela o encarou com compaixão. — Eu acho você muito bonito, confesso. É um excelente ouvinte, companheiro e leal. Você realmente é um excelente amigo… Mas… — suspirou e afastou um cacho do rosto. — É só isso…
Algo afundou no peito do loiro. No auge de seus quinze anos havia se apaixonado pela primeira vez e seu coração escolhera alguém que apenas o via como um amigo. Não poderia ser mais trágico.
— Você gosta de alguém? — perguntou meio inconformado.
A pergunta pegou a jovem de surpresa. Ela desviou o olhar e mordeu o lábio carnudo. Ele adorava quando ela fazia isso.
— Tem — ele afirmou. — Quem é ele?
— Jarl… — disse baixinho.
— Aquele ruivo magrelo da guarda? — quase gritou.
Ela fechou a cara, inclinou a cabeça e olhou-o dos pés à cabeça. Wagner estava longe de ser robusto. Sempre fora muito esguio e alto. Seu pai dizia que ele era igual a si quando mais novo.
— Certo… — praguejou. — Mas ele é muito mais velho que você!
— Só cinco anos! — retorquiu. — E eu não vejo problema algum nisso — cruzou os braços. — Você é mais velho que eu.
— Um mês! — replicou indignado.
— De toda forma — balançou a mão —, ele e eu nos damos bem. Gostamos das mesmas coisas. Ele está me ensinando esgrima! — sorriu empolgada.
— Ele a vê como uma menina — encarou-a com seriedade.
— Mas com tempo me verá como mulher — torceu o nariz. — É uma questão de tempo — fitou o amigo. — O fato é que gosto de outro — foi firme e o viu baixar os olhos. — A gente não escolhe de quem vai gostar.
— Eu sei… — murmurou entristecido.
— Eu sinto muito, Wagner… — afagou o ombro dele. — Sei que um dia encontrará uma garota legal que o corresponda.
— Espero que sim… — disse meio contrariado.
— E eu vou me casar com Jarl! — sorriu vitoriosa e saiu saltitando pelo jardim.
Wagner observou a amiga se afastar e deu um suspiro triste.
— Você tem razão… Ele a vê como uma menina… — comentou uma vozinha às suas costas.
Ele se virou e viu uma menina de cabelos pretos e olhos azuis iguais aos seus.
— Eisa… — sorriu para a garotinha de dez anos. — Você estava ouvindo? — fez uma careta.
Ela franziu o cenho e olhou-o meio pensativa.
— De certa forma, não é? — ele disse, adivinhando o que ela diria.
— Desculpe-me… — envergonhou-se. — Ainda não consigo evitar… Eu já vou… — virou-se para ir embora.
— Não… Fique… — pediu e ela o encarou surpresa. — Eu não me importo que você saiba — deu de ombros e chutou uma folha. — É bom poder dividir os pensamentos e frustrações com um amigo.
— Você me considera sua amiga? — surpreendeu-se e arregalou os olhos.
— Claro! — ele sorriu. — Você sabe tudo o que passa em minha mente, sabe meus segredos — arqueou as sobrancelhas —, como eu me sinto e mesmo assim não me julga ou sai por aí contando o que sabe. Isso é ser amigo.
— Eu não tenho amigos… — mostrou-se incrédula. — Ninguém gosta que eu saiba de seus pensamentos.
— Eu não me importo — foi franco. — E você tem sim um amigo. Você tem a mim — apontou para o próprio peito.
A menininha abriu um largo sorriso.
— Amigos não têm segredos, não é? — ela perguntou pensativa.
— Não… — ele disse meio em dúvida. — Eu acredito que não…
— Contam tudo o que sabem?
— Sim… Acho que sim… — falou, incerto.
— Ela gosta dele. Muito mesmo.
— Ela? — franziu a testa.
— Huld… E planeja se casar com ele quando ela fizer dezoito anos — revelou.
— Oh… — pasmou-se.
E isso de fato aconteceu, mas Huld se casou com Jarl aos dezenove anos.
≈≈
O coração de Eisa batia tão forte, que ela podia jurar que dava para Wagner ouvi-lo. Ali de olhos fechados, lutando para não ler o que seu namorado pensava, ela aguardava a ordem dele para abri-los e finalmente ver o que ele preparara.
— Abra os olhos… — ele disse e ela se arrepiou com o calor do hálito dele tão próximo ao seu ouvido.
Ela obedeceu e entreabriu os lábios pasma com o que viu. O local estava rodeado de velas em arandelas douradas. Na mesa logo à sua frente havia um vaso de tulipas de cores variadas e a cesta que o casal carregou para o local. No fundo da pequena cabana tinha uma cama devidamente aprumada e coberta com mais tulipas coloridas espalhadas por cima.
— É tão lindo… — murmurou maravilhada. — Você fez isso sozinho?
— Kat me ajudou com as flores — ele deu um sorriso tímido. — O resto fiz sozinho — coçou a nuca.
— Ficou lindo… — encarou-o e sorriu. — Muito obrigada.
Ele ficou mais rubro ainda e meneou a cabeça.
— Bem… Vamos cear? — indicou a mesa.
O casal comeu em meio a uma conversa descontraída. Por nervosismo mútuo, evitaram a todo custo a tocar no tema que os levara até ali. Terminada a refeição e o assunto trivial, os dois trocaram olhares tímidos e riram corados.
Wagner percebeu que Eisa alisava compulsivamente o guardanapo, como se quisesse deixá-lo mais liso do que já estava.
— Eisa… — ele deslizou a mão sobre a mesa e pôs sobre a dela. — Eu fiquei muito feliz que tenha aceitado me acompanhar nesse jantar, mas você não é obrigada a ficar.
— Não… — balançou a cabeça com veemência. — Eu quero isso. Quero muito. Só estou… — mordeu o lábio. — Nervosa.
— Também estou — confessou com um sorriso enviesado.
— Está? Mesmo? — olhou-o surpresa.
— Claro… Por que não estaria? — franziu o cenho.
— Bem… Você já tem experiência… — deu de ombros e então congelou. — Está nervoso porque sou virgem?
— Er… Bem… — foi pego de surpresa pela pergunta direta. — Também por isso, mas não é só… De onde você tirou que tenho experiência?
Eisa piscou lentamente, encarando-o com uma expressão confusa.
— Como assim eu saberia? — ela indagou ao ler os pensamentos dele.
— Ah… Er… — corou violentamente. — Eu obviamente não te contaria os detalhes, é claro, mas creio que teria lhe dito se eu não fosse virgem…
— Você é virgem? — sua voz subiu uma oitava. — Como?
— Você sabe muito bem a sorte que eu tenho com as mulheres pelas quais eu já me apaixonei — lançou-lhe um olhar condescendente. — Que Deus me ajude, mas rezo todos os dias para que você não conheça um ruivo descomprometido.
A princesa crispou os lábios e bufou. Wagner percebeu o quanto fora indelicado o seu comentário.
— Perdoe-me, meu amor… — pegou as mãos dela entre as suas. — Não é que eu realmente acredite que me trairia ou algo do tipo, mas você entende que eu tenho todos os motivos para ter esse tipo de trauma. Todas as garotas que já gostei preferiam um ruivo ou me trocaram por um.
— Fato… — anuiu pensativa. — Então você e a Helga...
— Nada… — negou com a cabeça. — Mal começamos a sair juntos e ela me trocou pelo Gunnar — fez uma careta.
— Eu sinto muito — afagou o braço dele.
— Sente? — ele levantou uma das sobrancelhas. — Eu não… Acho que tudo o que aconteceu, por mais deprimente que pareça, foi para o melhor. Serviu para que eu esperasse por você — sorriu.
Ela sorriu e o vermelho tingiu seu rosto.
— No final, tinha que ser com você… — ele se inclinou sobre a mesa e a beijou.
Envolvidos naquele beijo apaixonado, eles nem perceberam quando se levantaram e deixaram para trás aquela mesa que os mantinha separados. Wagner a envolveu em seus braços, puxando-a para mais perto de si, colando-a ao seu corpo. Eisa levou as mãos até rosto dele e deslisou-as até afundá-las naqueles cachos dourados. Ela passou a língua pelo lábio inferior dele e deu uma leve mordida. A princesa mal conseguia acreditar no quão ousada estava. Parecia que quando estava com aquele homem, ela não precisava se esconder e nem temer nada. Para ela, ele era apenas Wagner, seu melhor amigo e agora seu namorado e amante também.
Mantendo-a ainda presa em seus braços, ele deixou os lábios dela e desceu a boca por seu pescoço. Ali, Wagner beijou e sorveu a pele, até ouvi-la suspirar e se curvar. Quando a ouviu e a sentiu fazer isso, ele não suportou mais. Afastou-se dela e a viu manter os braços erguidos e franzir a testa, como se estivesse desamparada, necessitando de seu calor. Ela articulava o nome dele, quando repentinamente ele a carregou em seus braços. Eisa deu um gritinho de surpresa e riu, enquanto ele a levava na direção da cama.
Ele a depositou com cuidado sobre as flores e deu um beijo rápido antes de se sentar ao seu lado.
— Eisa… Meu conhecimento sobre isso — corou violentamente — é unicamente teórico, mas prometo dar o meu melhor e me esforçar para evoluir com o tempo. E… — passou o polegar sobre os lábios dela. — Vou precisar que me guie também… Eu quero e preciso que seja bom para você também.
O rapaz não poderia ter sido mais sincero. De fato tudo o que Wagner sabia sobre relações se resumiam às aulas que sua madrinha e outro tutor deram a ele e o que vira nas ilustrações animadas de certos livros da grande biblioteca do palácio. Seria eternamente grato a Narfi por descobrir essa seção da biblioteca. Chegara a assistir vídeos quando visitara os primos de seu pai na outra realidade, mas eles não eram tão explícitos. As vezes invejava os primos por terem a famosa Internet, aquele magnífico grande oráculo que poderia responder todas as suas dúvidas, mas não tinha nada parecido ali em Asgard. Teria que contar com o pouco que sabia e com seus próprios instintos, mas faria de tudo para fazê-la feliz.
— Oh, Wawa… — ela sorriu e beijou seu rosto. — Eu também só conheço isso em teoria… Aprenderemos juntos — riu.
— Eu te amo tanto, minha princesa… — disse admirado.
— Também te amo, Wawa… — tomou seus lábios.
Em pouco tempo aquele beijo ganhou a intensidade de uma fogueira bem feita. Era isso o que aqueles dois eram juntos, fogo puro, um incêndio fora de controle. Não havia vergonha para os refrear. Nenhum dos dois se intimidou quando começaram a ser despidos um pelo outro. Ainda que estivessem perdidos naquele beijo feroz e apaixonado, parecia que suas mãos tinha adquirido vida própria e sabia exatamente o que deveriam fazer. Parecia tão fácil e natural agirem sem pudores, como se já tivessem feito aquilo várias vezes. Afinal, se conheciam a vida toda, praticamente não havia segredos que eles não compartilhassem. Para ele, ela era apenas a pequena Eisa, a melhor amiga dele. E para ela, ele era Wagner, seu amigo e o único que não a rejeitara por conta de seus dons.
As mãos grandes dele desceram as alças do vestido diáfano. Ele desceu as mãos, fazendo uma trilha quente e enebriante pela pele dela, até alcançarem os pequenos seios. Eisa suspirou alto quando ele pressionou delicadamente as palmas das mãos sobre seus mamilos entumescidos. Wagner entendeu que estava no caminho certo. Deixou a boca dela e a olhou por inteiro.
— Pelos céus… Você é linda… — a emoção transbordava de suas palavras.
Ela sorriu envergonhada e ele voltou sua atenção aos seios dela novamente. Levou a boca até aqueles bicos que pareciam ansiar por seu beijo. Roçou os lábios em um deles, deixando-o mais túrgido, quase dolorido. A jovem fechou a mão sobre os cachos dele e arfou, mas não o afastou de si, deixando claro que gostara da carícia. Então ele tomou aquele pequeno botão rosado entre seus lábios e o sugou lentamente, deslizando suavemente os dentes nele. Eisa entoava o nome dele feito um hino, delirando com o prazer que sentia.
Como se não bastasse aquela deliciosa tortura, ele repetiu a ação no outro seio da princesa. Exasperada, a mocinha ergueu o quadril contra o dele, esfregando-se sem o menor pudor. Wagner grunhiu com o calor produzido pelo atrito em sua masculinidade que já latejava, aprisionada naquela calça. Eisa já o tinha livrado do casaco, então ele se afastou dela para retirar a camisa. Impaciente por tocá-lo também, ela puxou com violência a camisa por cima da cabeça dele, atirando a peça quase do outro lado da cabana. Pôs-se de joelhos diante de seu namorado e distribuiu beijos afoitos pelo pescoço dele, até chegar em seu peito largo. Apesar de esguio, Wagner exibia um corpo devidamente definido por seus músculos. Embora se sentisse protegida e acolhida nos braços dele, Eisa via claramente o quanto era menor que ele.
Ele cerrou os olhos e permitiu-se, por alguns instantes, desfrutar do toque cálido de sua namorada e apenas acariciar-lhe a pele macia de suas costas. Desinibida, ela voltou a beijá-lo e levou suas pequenas mãos até os botões da calça dele. Wagner estremeceu sob o toque e apressou-se em baixar o vestido dela que ainda lhe cingia a cintura. Eisa sorriu entre os lábios dele e o ajudou com a tarefa, baixando não só o vestido como a peça íntima que restava. Ela se deitou languidamente sobre a cama, levantando o quadril e as pernas para que ele revolvesse a roupa.
— Pelos céus… — resfolegou maravilhado quando a viu inteiramente nua. — Você é mais do que linda… É… Perfeita...
Eisa balançou a cabeça e riu embaraçada. Ela o olhou de lado e abriu um sorriso cheio de malícia.
— Eu também quero ver você… — teve coragem de dizer.
Wagner se levantou e retirou por fim a calça, a qual já estava desabotoada, e sua cueca. O som de um leve arfar fugiu dos lábios da jovem. Era como estar diante de uma obra de arte, uma estátua de mármore, com exceção do tamanho da animação dele por ela. A testa dela se enrugou involuntariamente, se perguntando se aquilo poderia caber dentro dela. “Não tem como”, concluiu, engolindo seco.
— Eu não quero te machucar… Mas… Provavelmente vai doer — decidiu ser franco. — Prometo ir com calma.
— Eu confio em você… — ela lhe sorriu.
Sentindo-se mais confiante, ele voltou para cama, ansioso para retomar os lábios daquela mulher e reivindicar seu corpo para si. O rapaz deu preferência por fazer um longo caminho até aqueles lábios convidativos em formato de coração. Segurou uma das pernas dela e beijou-lhe o tornozelo, gerando uma mistura de cócegas com arrepios nela. Subiu pelas curvas torneadas de Eisa, distribuindo o calor de sua boca, enlouquecendo-a com seu toque. Quando ele chegou à coxa, lambeu e sugou a pele, até ouvi-la arfa, puxando com força o lençol da cama. Enquanto se regozijava com os gemidos que ela dava, Wagner estendeu a mão e a tocou no seu ponto de maior desejo. A princesa estremeceu ao seu toque e ele percebeu o quão úmida ela estava.
— Alguma vez você já se tocou aqui, minha princesa? — sussurrou contra a coxa dela e com o polegar fez um círculo ao redor de onde a paixão mais pulsava nela.
Eisa meneou a cabeça em afirmativo e um tom de rosa cobriu seu rosto. “Pelos deuses, de onde vem essa coragem para me revelar tanto?” Ela mordeu o lábio, tentando conter um grito, quando ele introduziu um dedo em sua fenda. Ao vê-la fazer isso, conteve a vontade de perguntar em quem ela pensava quando fazia isso.
— Em você… — arquejou, confessando que lia o que ele pensava. Ela já não conseguia se concentrar em mais nada àquela altura, que dirá evitar ouvir os pensamentos dele.
Algo no peito do jovem falseou com aquela declaração. Foi demais para ele. Antes que ela pudesse erguer a cabeça para encará-lo e ver a sua reação, sentiu o hálito quente dele em sua intimidade e o que veio a seguir lhe tirou o fôlego. Wagner beijou, sorveu e lambeu a pequena protuberância, levando Eisa a se curvar e gritar o nome dele como resposta à paixão que explodira dentro dela.
Era a primeira vez que ele fazia aquilo, mas percebera que estava no caminho certo. Voltou a introduzir um dedo e prosseguiu estimulando-a, fazendo leves sucções, oferecendo todo o prazer que podia entregar. Queria vê-la satisfeita, assisti-la se desfazer em seus braços.
Isso não demorou a acontecer. Perdidamente excitada, Eisa logo perdeu a noção de tempo e espaço. Uma sensação quente e desesperadora se empoçava no fundo de seu âmago. Aquilo crescia conforme seu namorado acelerava os movimentos que fazia tanto com o dedo, quanto com sua língua. De repente, ela perdeu o chão, algo transbordou dentro dela e tudo o que a jovem conseguiu fazer foi chamar pelo nome dele, enquanto se desmanchava naquela cama.
O rapaz não se conteve mais, engatinhou sobre a namorada e acomodou-se entre suas pernas, roçando sua masculinidade dolorosamente rígida contra a feminilidade dela. Ela respirava pesadamente, ainda se recuperando do recente orgasmo, mas abriu mais as pernas para melhor acomodá-lo. Wagner recebeu aquilo como um estímulo para prosseguir, então avançou, forçando a sua entrada. Um choque percorreu sua espinha quando percebeu o quanto ela era estreita. “Apertada demais.” Trincou os dentes e diminuiu a velocidade com que se introduzia nela. Viu-a arquejar e lágrimas se acumularem em seus olhos e realmente pensou na possibilidade de recuar. Foi então que ela tocou o seu rosto e lhe sorriu, deixando claro que ele deveria continuar.
Enternecido pelo olhar de Eisa, tomou seus lábios em um beijo cheio de ternura. Mesmo desesperado por possuí-la, ele esperou pacientemente que o corpo dela se adaptasse àquela invasão. Com movimentos lentos de seu quadril, indo e voltando, aos poucos avançava, até finalmente romper a frágil barreira. Um suspiro entre seus lábios, foi tudo o que ela fez quando ele se enterrou até o fundo dela. Wagner havia chegado ao paraíso.
A sensação estranha de tê-lo dentro de si, aos poucos se transformou em algo delicioso. Ela não conseguiria explicar. Tudo o que sabia era que o queria mais rápido e mais fundo. Instintivamente, abraçou-o com as pernas, cruzando os tornozelos atrás das costas dele. Eisa desejava mais de seu namorado e faria de tudo para conseguir.
Aquela reação e os gemidos dela se transformaram em uma tortura para ele. Sentia que estava próximo ao seu ápice e pensou que ela ainda poderia estar distante. Precisava que ela gozasse. Desejava o prazer dela, mais do que desejava o seu próprio. Wagner desceu a mão até o ponto onde os dois se encaixavam e com os dedos começou a massagear. A resposta foi imediata. Ele a sentiu claramente se contrair envolta dele, apertando-o. Eisa arregalou os olhos e abriu a boca, quando a onda de prazer a varreu. Ao senti-la sugá-lo e tremer com espasmos, ele relaxou e a inundou. Juntos gritaram, fazendo seu clímax ecoar naquela cabana.
Ele recostou sua fronte na dela e recebeu um sorriso preguiçoso como recompensa. A mocinha umedeceu os lábios e roubou um beijo rápido dele.
— Será que podemos fazer de novo? — ela perguntou arfante e sem vergonha alguma.
Wagner conteve uma gargalhada.
— Deus… Você vai me deixar louco, Eisa… — riu e a beijou.
≈≈
Nina rolou na cama e se deitou de bruços, cruzando os braços sobre o lençol e apoiando o queixo sobre eles. Com um sorriso tímido no rosto observava o irmão terminando de vestir seu uniforme de Einherjar.
— Já vai tão cedo? — deu um longo bocejo. — O sol ainda nem nasceu.
— Eu nem deveria ter dormido aqui… — disse de costas para ela.
A jovem revirou os olhos. Já estava cansada de ouvir aquilo do irmão.
— Você é tão chato quando começa com isso… — levantou-se da cama e se serviu um copo com água.
— Para você isso tudo é um jogo, não é? — olhou na direção dela. — Pura diversão!
— Jogo? — indignou-se. — Você é meu irmão e eu te amo! Quanto a diversão… — sorriu com malícia. — Não vejo problema algum nisso.
Ele deu um suspiro cansado e se sentou em um banco.
— Eu também te amo… Mas não desse jeito… Isso não é certo…
— Acho que agora é o momento em que eu deveria lembrá-lo de que foi você quem veio me procurar… — provocou cínica.
— O que aconteceu foi um erro...
— Errado é o mundo que está contra nós. Errado está você em negar o que sente de verdade.
— De qualquer forma isso não vai se repetir.
— O quê? Quer dizer que você ainda vai correr atrás daquela idiota?
— Veja bem como fala da Kat… — apontou um dedo na cara da irmã.
— Oh… Coitadinho… Para você ela é um anjo… A virgem intocada, que ninguém ouvia ou enxergava — foi irônica. — Acontece que a essa altura ela já não é mais a garota inocente que você acreditava.
— E o que isso importa? — deu de ombros. — Eu também não sou virgem.
— Aposto que ela já dorme há mais de um mês com ele! — tentou feri-lo.
Týr encarou a irmã em silêncio e pegou seu capacete.
— Se ela está feliz com ele, por mim está tudo bem — encaminhou-se para a porta. — Com ou sem ela, isso não vai se repetir. A partir de hoje pedirei para morar no alojamento da guarda. Assim nós dois mal nos veremos e você não correrá mais o risco de eu procurá-la. Sem recaídas. Tenha um bom dia.
Assim que a porta se fechou Nina deu um grito e atirou o copo que tinha em mãos.
— Se você não quer, encontro facilmente quem queira.
≈≈
Loki rolou na cama e estendeu o braço procurando por sua esposa. Mesmo sonolento, estava excitando e desejava profundamente começar aquele dia bem, vez que fora dormir sem uma satisfação da parte dela no sentido amplo da palavra. Aredhel deixara o quarto alegando ir ver o filho caçula e levar o jantar de James, mas o rei de Asgard adormecera e não a vira voltar.
Ele tateou, mas não a encontrou. Abriu os olhos e viu o lado dela vazio. “Ela já levantou?” Com uma bufada de frustração, Loki se levantou e rumou para o banheiro.
— Aredhel… — resmungou.
≈≈
Katarina despertou e viu que Igor ainda dormia pesadamente. Ela puxou o lençol e abafou uma risadinha nervosa ao perceber que acordara ao lado dele após fazerem amor com tanta intensidade na noite anterior. Sonhadora, quantas vez tinha imaginado aquela cena, dormirem juntos e acordarem na mesma cama e no mesmo quarto.
Suspirou alto e seus olhos pousara no rapaz loiro que ressonava desamparadamente, envolto em seus lençóis e travesseiros. Kat franziu o cenho. A jovem ainda tentava entender o que poderia tê-lo deixado tão perturbado. “Por que duvidaria do meu amor por ele?”
— Talvez… — murmurou pensativa.
Kat se lembrou da situação de Igor naquela família. Todos sabiam que ele era órfão, que seu pai tinha sido morto em uma invasão e que sua mãe morrera doente pouco depois. Pelo menos, era isso era o que contavam.
— Você não está sozinho… — sussurrou enquanto afagava os cabelos dele. — Você tem a madrinha, o padrinho, seus primos e… Eu… Eu te amo… Muito… — beijou-lhe o topo.
≈≈
Eisa abriu os olhos e viu Wagner dormindo de boca aberta. “Meu anjo… Tão lindo”, ela sorriu e roçou a ponta do nariz no dele. Ele se remexeu com a carícia e murmurando coisas inteligíveis, virou o rosto e voltou a dormir. A princesa riu baixinho e se sentou no leito. Um raio de sol, que passava por uma nesga da cortina, atingiu seu rosto e então ela percebeu que já era dia. “Pelos deuses… Dormimos aqui...”
Com as mãos ela cobriu o rosto e mordeu os lábios ao se lembrar da noite tórrida de amor que tivera. Ela e o namorado fizeram amor a noite inteira, até, por fim, serem vencidos pela exaustão. A face dela esquentou violentamente ao se lembrar do que fizera. “Não acredito que tive coragem de beijá-lo e lambê-lo ali… Tão duro e rosado… E tudo aquilo por mim...” Eisa puxou o lençol e cobriu a cabeça, como se com isso pudesse se esconder do que havia feito. “Mas foi tão bom...” Estava nas nuvens.
≈≈
Quando Loki desceu para o café, encontrou apenas Narfi, Rebecca e Myria à mesa. Tomou seu assento e fez sinal para que a serva lhe servisse.
— Onde estão os outros? — indagou, arrumando o guardanapo sobre o colo.
— Ah, meu pai… — sorriu Narfi. — Já faz semanas que seus demais filhos não tomam café com o senhor. Pensei que havia notado — deu um gole em sua xícara.
— Narfi… — sibilou Becca.
— Chá ou café, majestade? — indagou a ruiva, que não tirava os olhos de Narfi e Rebecca.
— Café… — sorriu Loki para o bule fumegante. Mais de vinte anos atrás, não tinha sido fácil trazer aquela fruta midgardian para plantar em Asgard. Mas a primeira vez que experimentara, ficara viciado. — E sua mãe? Já tomou café? — indagou ignorando a provocação do filho.
— Eu ainda não a vi… Imagino que esteja cuidando de meu irmão caçula ou na companhia do tio Tom — o rapaz de ombros.
— “Tio Tom”… — arremedou o pai, fazendo uma careta.
Ele olhou na direção da sobrinha.
— Também não a vi, tio...
A ruiva se aproximou de Becca e lhe ofereceu um pouco mais de suco, mas acabou entornando parte no colo dela.
— Ah! — gritou a loira com o susto.
— Perdão, princesa! — Liv, a serva, se apressou em ajoelhar entre os dois para ajudar a limpar.
Rebecca dispensou a ajuda e se distraiu limpando o vestido, enquanto Liv fingia limpar o chão e encarava Narfi que a observava. O príncipe não era tolo, percebera que a ruiva fizera aquilo de propósito. Ele olhou na direção do pai e assim que constatou que ele estava com a atenção voltada para sua xícara, indagou, movendo apenas os lábios, o que Liv pretendia. “Precisamos conversar”, foi o que ela respondeu da mesma forma. Meneando a cabeça em negativo, ele devolveu “não temos nada para conversar.” Um sorriso malicioso brotou nos lábios dela e ela olhou de esguelha para Becca que ainda lutava com o vestido molhado. “Você que sabe”, desafiou a ruiva se levantando com o pano sujo.
— Mais uma vez, mil perdões, princesa — ela se curvou e, com uma reverência exagerada, se retirou.
Narfi decidia se deveria ir ou não atrás da serviçal quando Eisa e Wagner entraram de mãos dadas e sorridentes. Loki ergueu uma de suas sobrancelhas quando viu o afilhado cheio de gentilezas, puxando a cadeira para Eisa e sentando-se ao lado dela. Assistiu os dois trocarem olhares e sorrirem corados. O rei de Asgard era muito vivido para ignorar o que aquilo poderia significar, mas se pensasse demais nisso teria que matar o rapaz. Bufou e deu uma garfada raivosa em uma fatia de bolo.
— As coisas que sou obrigado a aguentar… — resmungou. — E onde está a minha esposa? Ah… — olhou na direção da entrada do salão. — Finalmente deu o ar de sua graça.
Aredhel ignorou o comentário. Caminhava alheia aos presentes, com a mente longe dali, quando notou onde estava. Foi cumprimentada pelos presentes e respondeu com um “bom dia” quase inaudível.
— Aredhel? Você está bem? — Loki indagou preocupado ao notar o estado dela.
Sua esposa estava desgrenhada e pela sombra na base de seus olhos, parecia ter passado a noite em claro.
— Jörmungand? — exasperou-se o rei.
— Não, Loki… — ela se apressou em dizer. — Ele está bem… Só tive… Insônia… — mentiu e se dirigiu ao seu lugar à mesa.
— Pesadelos de novo? — insistiu.
— Sim… Um terrível pesadelo… — murmurou sombria e recusou quando outro servo lhe ofereceu o bule.
— Eu sinto muito… — Loki afagou a mão dela, entristecido. Perguntava-se quando aqueles pesadelos terminariam e se neste último ele ainda era o vilão e protagonista. Ele ainda se sentia muito culpado por tudo o que fizera a esposa passar.
— Está tudo bem — ela acariciou a face do esposo, com uma expressão triste no rosto. — Acho que só preciso tentar dormir novamente — disse meio distante.
— Tem razão… — beijou-lhe a mão. — Você precisa de descanso.
A rainha se levantava quando Kat invadiu o local com um papel em mãos.
— Wagner! Papai foi embora! — chorava. — Ele deixou esta carta e disse que ia morar na vila novamente. Disse para não o procurarmos! Por quê?
Wagner se levantou e correu para consolar a irmã.
— O que será que houve? — Becca indagou levando a mão à boca.
— Ele andava cabisbaixo, mas não imaginei que chegaria a tanto… — comentou Eisa.
— Com licença… Eu vou me deitar — disse Aredhel indiferente e se retirou.
Todos olharam atônitos a rainha seguir para fora do salão. Loki piscou algumas vezes e tamborilou os dedos sobre a mesa.
— Mas o que está acontecendo? — pasmou-se Narfi. — Vocês viram isso? Ela nem ligou.
— Será que ela não ouviu sobre o tio Tom? — sugeriu Rebecca.
— A madrinha está muito cansada, não deve ter nem ouvido mesmo… — Wagner tentou justificar, enquanto afagava as costas da irmã. — Não se preocupe Kat… Vou atrás dele e descobrirei o que houve.
— Eu vou com você — disse Eisa prontamente.
— Também irei! — ofereceu-se Rebecca.
Wagner saiu acompanhando a irmã, sendo seguido por Eisa e Becca.
— A mãe ouviu sim… — Narfi olhou na direção do pai. — Será que os dois brigaram?
— Duvido muito… — Loki fez uma careta. — Parece que nada é capaz de separar esses dois e acredite… Eu já tentei de tudo — revirou os olhos. — Vai ver ele se cansou de viver aqui, enxergando lembranças de sua irmã por todos os cantos do palácio — deu de ombros. — Ele não consegue superar que a perdeu para outro e, francamente, ninguém suportava mais ele vagando por aí, distraído, parecendo um morto-vivo. Nem os filhos dele aguentavam mais essa situação. Pela reação de sua mãe, eles devem ter discutido e, com toda certeza, sua mãe discordou da decisão dele. Mas o que ela pode fazer se ele assim decidiu?
— Tem razão… — meneou a cabeça. — A mãe nunca concordaria com isso… Deve ser por isso que ela parece tão abalada.
Loki abriu um largo sorriso.
— Ah, com toda certeza… Ela pode ficar contrariada, mas isso me agrada muito… — riu. — É um sonho se realizando vê-lo ir embora por livre e espontânea vontade. Melhor ainda é ver a sua mãezinha de mãos atadas diante da decisão dele! — gargalhou. — Tragam-me mais café… — ordenou Loki. — Parece que o mundo acabou… — ironizou.
≈≈
Broomhilda entrou em um pequeno escritório com uma bandeja em mãos. Um sorriso se desenhou em seu rosto ao avistar a cabeleira ruiva de seu namorado, cabisbaixo e parecendo concentrado em algo na mesa.
— Trouxe seu café, Sieg — ela disse se aproximando da escrivaninha. — Meu querido, esperava encontrá-lo na cozinha, mas você não apareceu para o café. Demorei um pouquinho porque tive que ver como estava o pequeno Jörmungand.
— Hã? O que disse? — ele balançou a cabeça distraído.
Ela fez um muxoxo e colocou a bandeja ao lado do álbum de ilustrações que ele folheava.
— Saudades da infância? — comentou ao notar que ele observava pensativo uma ilustração dele com Hela e Váli.
Siegfried a encarou e crispou os lábios. A jovem se assustou com a expressão preocupada dele. Ela não sabia, mas ele travava uma verdadeira luta interna naquele instante.
— Pelos deuses, Sieg... Seus pais pioraram?
— Não… Ontem quando os deixei aos cuidados de Sig, já não tinham febre e jantaram bem. Graças aos deuses eles estão melhorando.
— Então o que houve?
— Hilda… Preciso confessar uma coisa… Mas antes, peço que não comente com ninguém — pediu.
— Você está me assustando… — murmurou, quando ele a puxou para perto, sentando-a em seu colo.
— É preocupante mesmo, mas é um segredo que não me pertence, por isso preciso que você prometa não comentar com ninguém.
— Eu prometo, mas acabe logo com essa agonia.
— Hilda… Hela não se casou porque estava apaixonada por aquele príncipe. Ela casou por obrigação — revelou. — Foi vítima de uma chantagem.
— O quê? Mas como? — piscou os olhos, pasmada.
O amigo da princesa contou brevemente tudo o que ela lhe havia revelado. Estarrecida, Broomhilda se recusava a concordar com a decisão da jovem.
— Como você concordou manter segredo sobre isso? — levantou-se indignada. — Então Hela ama o senhor James e ele está aqui sofrendo pelos cantos? Isso não é justo! Com nenhum dos dois! Pelos deuses… Não quero nem pensar no que aquele cínico chantagista pode estar fazendo a ela… — cobriu o rosto com as mãos. — Sabe-se lá o que ele a está obrigando a fazer. Desde o casamento, a rainha não fala com ela e isso tem mais de um mês! — exasperou-se.
— Eu sei disso tudo… Por que achas que eu andava tão preocupado? Não tem um dia que eu não me pergunte como Hela está — confessou. — Mas eu dei a minha palavra e confesso que concordo com ela, se o rei soubesse isso viraria uma guerra e se aquele maldito abrisse a boca seria o fim da família real! Todos os reinos, inclusive — baixou o tom de voz e olhou para os lados — Jotunheim, ficariam contra Loki. Além dele não ser considerado um herdeiro legítimo por muitos, com a origem jotun, praticamente o acusariam de golpe! Lembra-se da confusão que ele causou antes de ser preso? E a reação de alguns reinos quando Thor abdicou em nome dele? Todos já olham essa família e esse reinado com desconfiança.
A moça deu um suspiro e levou a mão ao peito, angustiada.
— Não é por mero capricho e ambição que nosso rei tentou arranjar esse casamento — continuou Sieg. — Ele planeja casar os filhos com herdeiros de outros reinos, justamente para apaziguar os conflitos do passado e legitimar seu lugar no trono.
— Então ele planeja outros casamentos de conveniência?
— Sim… — ele fez uma careta. — Outro dia ouvi um dos Einherjar comentando sobre a vinda o novo chefe da guarda e de sua irmã. Parece que a vinda deles para Asgard é parte de um acordo de Loki com Sigyn, a atual rainha de Vanaheim.
— Verdade! — levou a mão à boca. — Týr e Nina são filhos dela!
— Eu só espero que aquela jovem não tenha interesse no principal herdeiro. Depois de tantos anos, sinceramente duvido que minha irmã pudesse esquecer Váli.
— Até parece que você não conhece seu amigo… — Hilda fez um muxoxo. — Ele é louco por Sig! Não importa quem o rei tente empurrar, só tem olhos para ela!
— Eu não sei… Depois que vi Hela se casando obrigada, espero tudo — entristeceu-se. — Entendo as razões dela… Ela teme que se a verdade fosse revelada isso virasse uma guerra. Hela sabe das limitações de suas habilidades e nunca conseguiu trazer nenhum ser de volta à vida pela segunda vez.
— Então significa que…
— Que ela não poderia trazer de volta nem a própria mãe e nem James — completou o que a namorada diria.
— Oh, Sieg… — amparou a cabeça contra o ombro dele. — Mesmo ela querendo evitar uma guerra, sinto que isso ainda vai terminar mal… — franziu o cenho, preocupada.
— Eu também acho… Sinto que talvez o sacrifício dela seja em vão.
≈≈
Váli chegou à porta de uma casa humilde na vila e bateu. Demorou alguns minutos até que Sigrid atendesse. O espanto foi involuntário quando ele a viu. A jovem ruiva estava pálida e com olheiras profundas. Váli quase sentiu pena de sua noiva… Quase…
Ela deu passagem a ele e seguiu para dentro, enxugando as mãos em seu avental.
— Obrigada por vir, meu amor… — deu um sorriso fraco e tentou arruma os cabelos desgrenhados. — Eu estou tão aliviada… Finalmente a febre cedeu e os dois estão comendo bem. Papai até foi se sentar no jardim.
— Você é que parece precisar de cuidados — ergueu uma das sobrancelhas. — Está com a aparência de quem esteve doente também.
— Estou tão feia assim? — envergonhou-se e mais uma vez procurou ajeitar o cabelo. — É... Mesmo revesando com Sieg, eu não conseguia relaxar. Nem estômago eu tinha para comer, tamanha era a preocupação. Ele não podia dormir todas as noites aqui por conta do trabalho, então eu fazia a virgília na maioria das vezes.
— Mas o meu pai o dispensou para que pudesse ajudá-la.
— Sim, sim… Somos muitos gratos por isso e pelas ervas que sua mãe me mandava, mas, ainda assim, nos primeiros dias fui eu que assumi a responsabilidade de ficar com meus pais. E como eles só pioravam, não tive condições de pensar em descansar.
— Ah — tomou as mãos dela entre as suas —, mas então agora você precisa e deve descansar, minha querida.
— Eu vou… Não se preocupe… Vou me recuperar com o passar dos dias…
— Na verdade você tem apenas um pouco mais de um dia para se recuperar — ele deu um sorriso.
— Por quê? — franziu o cenho.
— Porque depois de amanhã — envolveu a cintura dela —, à noite, é nosso jantar de noivado — revelou.
— Jantar de noivado? — encarou-o atônita. — Verdade? — os olhos dela cintilaram de emoção.
— Sim… — meneou a cabeça.
— Oh, Váli… — lágrimas desceram pelo rosto dela.
— E será como você pediu… Somente os parentes e amigos mais íntimos.
— Obrigada… — limpou as lágrimas e o abraçou apertado. — Muito obrigada, meu amor...
— Não precisa agradecer… — afagou de leve os cabelos dela. — Faço isso por você e por mim, afinal nos amamos, não?
— Sim… — continuou a derramar lágrimas. — Seus pais concordaram? — ergueu o rosto para vê-lo.
— Nós já tínhamos o apoio de minha mãe, quanto ao papai… Não se preocupe com ele… No final, ele também ficará contente com o resultado — sorriu abertamente. — Tenho certeza disso.
— Estou tão feliz… — ela fungou e afundou o rosto no peito dele.
— Eu também… — o sorriso se desfez no rosto dele. — Você não imagina o quanto — disse com um semblante sério e enigmático. — Mal posso esperar por esse jantar. Será inesquecível.
“Principalmente para você, traidora.”
≈≈
Hela tinha acabado de tomar seu café da manhã sozinha. Apesar de fingir ter longas noites de amor com seu esposo, levantar cedo virara parte de sua rotina. Dormir bem era algo que já não conseguia fazer. Não era apenas sua gravidez que lhe tirava o sono, o local onde dormia também. Além de passar metade da noite ouvindo gemidos e murmúrios vindos do quarto, ainda tinha que pernoitar em um armário bastante desconfortável. Como resultado, levantava muito cedo e passava o dia sonolenta.
A princesa empurrou o que restava de sua refeição e levou a mão à boca. Acordara faminta, mas de forma repentina tudo a sua frente perdera o sabor. A azia voltara com força total.
— Preferia algo diferente em seu café, minha querida? — a voz inconfundível de Vardamir ecoou no salão.
Ela olhou na direção dele e lhe ofereceu um sorriso, tentando disfarçar o desconforto que sentia.
— Talvez esteja sentindo falta de alguma iguaria existente em Asgard — aproximou-se e se curvou em uma mesura, tomando-lhe uma das mãos. — Se me disse o nome, posso pedir que providenciem para você, minha cara — depositou um beijo demorado nos dedos dela.
— Oh, não precisa se incomodar… — ela sorriu nervosa e puxou a mão. — Eu apenas não estou com muita fome esta manhã.
— Indisposta? — ele a olhou com evidente suspeita.
— Não! — apressou-se em dizer e sentiu o rosto se afoguear. — Eu estou bem… Só sem fome mesmo.
— Claro… — concordou. — Se você já terminou a refeição, gostaria de me acompanhar em um passeio pelo palácio? — mudou de assunto.
Querendo distância da comida e desejando ao máximo evitar que ele desconfiasse de seu estado, Hela concordou. Vardamir ofereceu o braço e a ajudou a se levantar. De braços dados, ele a guiou por um longo corredor, cheio de retratos de reis anteriores, do atual e de um menino que ela logo reconheceu se tratar de Eric.
Procurando manter a conversa distante de si mesma, ela o encheu de perguntas sobre as pessoas retratadas. O rei de Alfeim respondia as perguntas, mas sem tirar os olhos dela. Era como se ele estivesse enfeitiçado.
Hela podia sentir perfeitamente os olhos de Vardamir sobre si, mas fez o possível para não encará-lo. Chegava a ser intimidadora a presença dele ao seu lado e a forma ele acarinhava a mão dela, pousada na dobra de seu cotovelo. Não estava sendo desrespeitoso, mas o carinho íntimo a fazia estranhar a situação.
Eles chegaram ao final do corredor diante de uma grande porta e sobre ela havia um quadro de uma mulher de cabelos negros amamentando um bebê. Não era possível ver o rosto da mulher, pois estava com a cabeça baixa e os cabelos lhe cobriam o perfil.
— Quem é ela? — a curiosidade de Hela foi maior.
— É minha falecida esposa — a resposta foi direta, mas parecia carregada de algo que ela não conseguiu identificar.
Ela finalmente o encarou e enrugou a testa, confusa com a conclusão a que chegara.
— Por que não há um quadro dela no corredor? — não se conteve. — Existem quadros de todas as rainhas, mas nenhum da mãe de Eric.
A expressão no rosto dele mudou. Passou de fascínio para a algo sombrio. Após esse breve titubear, ele respondeu.
— Estão guardadas atrás desta porta — disse impassível.
— Então posso vê-la? — ela pôs a mão sobre a grande maçaneta da porta.
Antes que Hela pudesse girar e abri-la, sentiu as mãos dele pousarem sobre seus ombros.
— Outro dia — ele falou pausadamente ao seu ouvido.
Um calafrio percorreu a espinha de Hela. Ela fez menção de se virar, mas ele manteve as mãos firmes sobre seu ombro.
— Entenda, minha querida — Vardamir prosseguiu. — Até hoje ainda nos é muito difícil lembrarmos de que ela nos deixou. Creio que você possa entender isso, não?
Sentindo-se acuada, ela balançou a cabeça.
— Entendo… — saiu em um sussurro.
— Hela, minha cara… — ele tirou as mãos dos ombros dela e esperou que ela o encarasse. — Infelizmente terei que deixá-la. Tenho assuntos do reino para cuidar — tomou sua mão e beijou. — Tenha uma boa manhã — retirou-se.
Hela aguardou ele sumir no corredor e tentou abrir a porta.
— Trancada! — disse entredentes. — Mas eu vou ver esses quadros e descobrir todos os detalhes desse mistério! — afirmou determinada e saiu andando rápido na direção da ala dos empregados do palácio.
≈≈
Liv estava sozinha separando a louça para ser lavada quando Narfi entrou na cozinha. A ruiva afastou uma mecha de cabelo e sorriu de lado. Ele se recostou em uma das bancadas e cruzou os braços, muito tranquilo.
— Diga logo o que você quer — foi direto.
Ela não se deixou abalar pela rispidez dele. Largou a bandeja e se aproximou.
— Sempre muito sutil… — ela sorriu de leve e baixou os olhos. — Precisamos conversar sobre algo muito sério…
— Estou ouvindo.
— Narfi… Estou grávida… — revelou. — Estou esperando um filho seu.
Um som engasgado fugiu dos lábios do príncipe e a fez levantar a cabeça para vê-lo. Por alguns instantes Liv acreditou que ele estivesse entalado com algo ou chorando, até que Narfi explodiu em gargalhadas sonoras.
— O que é tão engraçado? — a ruiva cruzou os braços e fechou a cara.
— A piada que você contou… — chorava de rir.
— Eu não estou brincando! — sibilou. — Isso é sério Narfi! É verdade! Você precisa fazer algo a respeito antes que dê para notar!
— Deixe-me adivinhar… — limpou as lágrimas de riso e a encarou. — E a solução para isso seria me casar com você para legitimar essa criança?
— É o lógico a ser feito. O filho é seu! — disse convicta.
— Nem perca seu tempo… — balançou a mão no ar e voltou a rir. — Liv… Você não é a primeira a tentar vir com essa conversa de gravidez — voltou a rir. — Na verdade você chegou bem tarde para tentar dar esse tipo de golpe em mim. Creio que as outras já lhe falaram que isso não dá certo nunca, não é? — assistiu Liv bufar e crispar os lábios. — Deveria ouvi-las — sorriu. — Se essa gravidez for verdadeira, o que eu duvido, esse filho não é meu. Esqueça. Eu não vou me casar com você e não me casaria nem que todo esse teatro fosse verdade.
— Se você não vai casar comigo, não vai casar com outra também — desafiou com altivez.
— O que disse? — surpreendeu-se.
— Ah, agora tenho a sua atenção — foi irônica. — Sei que você está se fingindo de homem correto para a princesa Rebecca apenas para conseguir o que alcançou facilmente comigo. Não sei até onde planeja levar esta farsa, afinal falam pelos corredores que vocês ficarão noivos, mas acredite, ela será a primeira pessoa a saber dessa gravidez!
Ele avançou na direção da serva e a encarou diretamente nos olhos.
— Você fique longe dela — falou pausadamente.
Foi a vez de Liv rir.
— Você não conseguirá levar Rebecca para a sua cama, muito menos se casará com aquela tola!
A louça que havia sobre a mesa voou e se espatifou contra as paredes. Liv se encolheu e fechou os olhos com força. Narfi trincou os dentes e tentou controlar sua raiva. Nunca machucara uma mulher indefesa, muito menos uma que pudesse estar grávida e não seria aquele dia em que começaria a fazer algo do tipo.
— Meça bem suas palavras antes de falar o nome dela com essa sua boca imunda! — rosnou. — Para você, ela sempre será “alteza” — quase cuspiu as palavras. — Vou avisar mais uma vez... Mantenha distância dela e nem ouse pensar em contar essas suas mentiras para ela.
Ele se afastou dela e se virou para sair de lá, mas parou.
— Ah… Arrume suas coisas… A partir de hoje, você não trabalha mais no palácio. Vou transferi-la.
— Você está me mandando embora do palácio grávida de seu filho?
Narfi se virou, respirou fundo e revirou os olhos.
— Pare de perder seu tempo me perturbando e vá atrás do verdadeiro pai de seu filho — meneou a cabeça. — Você vai precisar dele agora que vai ganhar menos.
Dito isso, o príncipe deixou a cozinha e Liv deu um murro na mesa.
— Você vai me pagar por isso, Narfi… Você me paga!
≈≈
Aredhel andava de um lado para o outro em seu quarto pensando no que deveria fazer. Passara metade da noite anterior chorando pelo sofrimento que acreditava que sua filha passava e pela dor de perder seu melhor amigo.
Seu coração de mãe desejou matar aquele homem que machucara sua filha, enquanto que seu coração de irmã ansiou ouvir que tudo aquilo era mentira. Estava vivendo um pesadelo acordada. Como o destino poderia ser mais cruel?
Passado o pranto e a fúria inicial, a rainha de Asgard desistiu da ideia de acordar o marido e exigir justiça para sua filha. Acima de tudo amava seus filhos, mas também amava James. No isolamento do jardim e sob o abrigo de seu caramanchão preferido, ela conseguiu se agarrar ao pouco de racionalidade que lhe restara naquele mar de dor e ponderou sobre o assunto.
Por mais que todos os fatos pesassem contra Jim, ela precisava dar a ele o benefício da dúvida. Relembrando tudo o que ele dissera, gravara bem em sua mente que ele não tinha certeza do que acontecera. Tudo o que tinha eram provas circunstanciais. Aredhel podia afirma que o conhecia pelo tempo de uma vida. Mais de trinta anos de amizade, para ser mais exata. Acreditava que o homem a quem chamava de irmão, jamais seria capaz de uma barbaridade dessas. Nunca o viu levantar a voz para uma mulher, que dirá fazer algo horrendo como o que ele acreditava ter feito. Se existia uma chance disso tudo não passar de um mal-entendido, ela se agarraria com todas as forças a essa esperança.
— Preciso falar com Hela… Abertamente… — murmurou decidida.
Respirando fundo, Aredhel procurou se concentrar para contatar a filha. Ela já tinha fechado os olhos e mentalizava, quando Loki adentrou no quarto.
— Estava tentando falar com quem? — ele indagou indo se servir de um pouco de água. — Pensei que a encontraria dormindo — lançou-lhe um olhar condescendente.
— Tentava falar com Hela… Estou com saudades… — não foi totalmente sincera.
— Aredhel… Hela é uma mulher casada agora, precisa de privacidade. Você tem que parar com essa mania de manter nossos filhos presos às suas saias — deu um gole em seu copo.
— Filhos são uma preocupação eterna e que só aumenta depois que eles crescem.
— Nem me diga isso… — fez uma careta. — Sei exatamente o que está falando. Tenho que assistir minhas filhas sendo aliciadas por gente que abriguei sob meu teto — trincou os dentes.
Aredhel passou a mão pela fronte, em um gesto de cansaço.
— Se eles ou elas não machucarem nossos filhos, não vejo motivos para me preocupar.
— Não vê? — ele bufou. — Pois eu vejo motivos sim… Quando nós menos esperarmos seremos surpreendidos com a notícia de que seremos avós! E não estou falando de Hela, a única que, pelo menos, está casada.
— Santo Cristo… Do que você está reclamando?
— De nossa caçula e nosso afilhado — torceu o nariz. — Se você os tivesse visto hoje de manhã no café…
— Ah, Loki… — suspirou. — Eles sabem se cuidar… Eu ensinei tudo o que podia sobre essas coisas. Quando nossos netos vierem, creio que será por decisão pensada de nossos filhos.
Ele a fitou por alguns instantes e um sorriso brincou em seus lábios.
— Você pretende dormir?
— Não… — ela meneou a cabeça. — Não conseguiria dormir agora.
— Então creio que podemos fazer alguma coisa… — disse se aproximando dela e tocando seu rosto. — Essa conversa sobre bebês e sexo, me fez lembrar que ontem fui dormir sem — passou a mão pela cintura dela, puxando-a para si — o seu calor… — sussurrou ao seu ouvido.
— Ah, Loki… — pôs a mão no peito dele. — Lamento, mas eu realmente não estou com cabeça para isso…
— Ainda chateada com a saída de seu irmãozinho? — revirou os olhos. — Ele foi embora porque quis. Dessa vez eu não tenho nada a ver com isso.
— Eu sinceramente não gostaria de falar sobre esse assunto — fechou a cara.
— Mais um motivo para voltarmos para a cama e esquecermos de tudo… — roçou o nariz no pescoço da esposa e deu um beijo suave no local.
Ela se esquivou e se desvencilhou dos braços do marido, como se ele tivesse a queimado com brasa quente. Não que tivesse perdido o desejo por Loki, mas não conseguia nem pensar em toques íntimos, que dirá em ter relações com ele naquele momento. Não enquanto tinha em sua mente as lembranças da filha segurando o vestido e em sua imaginação muito vívida um mundo de possibilidade do que poderia ter acontecido naquele dia. Era quase torturante pensar em sexo quando ainda temia que fosse real a possibilidade de que sua filha pudesse ter sido violentada.
A reação dela o deixou muito surpreso. Ele percebera o desconforto dela ao tocá-la.
— O que está acontecendo, Aredhel? — ele franziu o cenho. — Você está muito estranha. Eu entendo que esteja contrariada porque o outro foi embora e… — estacou.
Loki não era idiota e conhecia muito bem a esposa. Bem até demais. Nem no período de sua depressão ela se esquivara assim de suas carícias. A única vez que a viu agir parecido, foi quando ele fora violento com ela. Ao chegar a esta conclusão, trincou os dentes ao pensar no que poderia ter acontecido.
— Ele tentou algo de novo com você? — indagou entredentes. — É isso? Aquele desgraçado teve a audácia de lhe tocar? O que ele fez? — quase gritou.
Ela inicialmente ficou sem reação diante do interrogatório abrupto dele. Na verdade ficou pasma também com sua incapacidade de disfarçar quando uma situação parecida a que Loki sugeria, pairava sobre sua filha.
O silêncio dela o fez entender algo pior.
— Aredhel? Não me diga que ele… — a dor era evidente na voz e no rosto dele. — Aquele crápula te machucou? Ele… Ele a forçou? — a pergunta saiu estrangulada e cheia de pesar.
— Não! — gritou. — Ele não me fez nada… — levou as mãos aos cabelos e se sentou na cama.
Ele se sentou ao lado dela e tocando levemente o seu queixo, a fez encará-lo.
— Você me contaria se alguém a machucasse, não é? — olhou-a nos olhos.
Aquilo a tocou. Não que Aredhel não pudesse imaginar o quanto aquele homem a amava, mas vê-lo assim tão preocupado com ela quase a levou às lágrimas. Sentiu-se um pouco culpada de esconder a verdade sobre o que lhe afligia, mas sabia que até que tudo fosse esclarecido, não poderia correr o risco de Loki saber daquilo. Nada seria capaz de aplacar a fúria de seu marido se ele soubesse daquela história, nem mesmo ela.
— Claro que sim, meu amor… — afirmou e recostou-se no ombro dele. — Mas Jim jamais me machucaria… — murmurou. — Ele nunca faria algo do tipo… — disse pensativa, tentando convencer mais a si mesma do que Loki.
— Ah, Aredhel… — suspirou e beijou-lhe o topo. — Eu sei que sentirá falta dele, mas… Sei lá… Você poderá visitá-lo… — deu de ombros. — Tenho certeza de que ele voltará quando ele superar o casamento de Hela. Vocês dois não… — fez um muxoxo — …se desgrudam mesmo… Infelizmente duvido que ele fique muito tempo longe de você. Logo tudo voltará a ser como antes.
— Tomara… — ela falou baixinho, pensativa.
Uma batida à porta do quarto chamou a atenção dos dois. Loki mandou que entrasse e um servo apareceu.
— Majestade — fez uma mesura —, há um senhor no salão principal querendo lhe falar ou com um dos príncipes.
— E quem é?
— Ele não disse o nome, apenas informou que é algo referente aos seus filhos.
Aredhel se levantou de supetão.
— Será algo sobre Hela? — exasperou-se.
— Veremos… — disse Loki dando passagem para Aredhel sair primeiro.
≈≈
Ness entrou correndo no quarto de Hela e fechou a porta com cuidado.
— Conseguiu? — a princesa se levantou ansiosa.
— Consegui… — estendeu o braço e abriu a mão, exibindo uma chave antiga e cheia de entalhes. — Mas não foi fácil. Praticamente roubei do quarto da arrumadeira do rei.
— Perfeito! — a outra ignorou tomando em mãos a chave tão almejada. — Não se preocupe, devolverei em no máximo uma hora. A arrumadeira nem perceberá que sumiu. Eu só preciso ver o rosto da mãe de Eric. Você vem comigo? — sorriu.
— Não… — massageou a nuca. — Estou me sentindo estranha hoje e me encheram de tarefas. Vou aproveitar a pausa que tive hoje para descansar.
— Nem imagino o porquê de você estar tão cansada — não conteve o sarcasmos e viu a outra corar. — Tarefas extras? Até onde sei você deveria ser minha serva particular. Pode deixar… Falarei com sua superior. Por que você não fica aqui e descansa um pouco?
— Ah… Não vou recusar a oferta… — jogou-se na cama.
— Descanse… Não vou me demorar.
Hela deixou o quarto a passos rápidos, tinha pouco tempo para investigar sem sentirem falta da chave. Com muito cuidado ela retornou até o corredor de quadros e assim que teve certeza de que estava sozinha, ela usou a chave para abrir a porta.
O local estava às escuras, então Hela retornou para fora da sala e pegou um candelabro. Assim que a luz invadiu a sala, a princesa entreabriu os lábios, surpresa. As paredes daquele lugar estavam coberta de quadros. Não havia um único espaço sem um retrato. Ela se aproximou de um quadro grande e ergueu o braço para iluminar melhor.
— Pelo amor de Odin! — exclamou.
Ela teve que se esforçar para não deixar o candelabro cair de sua mão diante de seu espanto. Trêmula, Hela moveu o braço para iluminar as demais molduras ali próximas, não acreditando no que via.
— Mãe? — murmurou ao reconhecer a mulher retratada.
A falecida rainha nada mais era que a imagem espelhada de sua mãe. Os cabelos escuros, os olhos quase pretos e a expressão doce no rosto. Tudo naquela mulher ali retratada era exatamente igual a Aredhel.
— Mas o que está acontecendo? — arfou assustada.
— Hela! — ouviu a voz de Eric a chamando ao longe.
Rapidamente ela apagou as velas do castiçal e saiu correndo da sala, trancando a porta toda afobada. Escondeu a chave no bolso de seu vestido e devolveu o candelabro ao seu lugar e saiu correndo para o início do corredor. Lá ela parou, respirou fundo e virou a esquina, encenando estar apenas passeando por ali.
— Eric! — fingiu surpresa. — Ouvi você me chamar.
— Hela… — envolveu-a em seus braços. — Estava atrás de você… Bem, hoje tenho a manhã livre, então pensei que podíamos — abriu um sorriso cínico —, voltar para o quarto e continuarmos o que passamos a noite fazendo.
— Eric — resmungou o empurrando. — Isso não é hora de pensar nisso.
— E desde quando tem horário para fazer sexo? Eu quero você agora — apertou-a contra si.
— Não… Eu não estou me sentindo bem hoje… — improvisou.
— Não? — franziu o cenho. — Meu coração… Agora que percebi… Já estamos há mais de um mês desfrutando mutuamente um do outro e até agora você não trancou seu quarto.
— Hein? — ela o olhou sem entender. — O que quer dizer?
— Suas regras… Elas não vieram… — ele abriu um largo sorriso. — Isso só pode significar que você espera um filho meu! — agarrou o rosto dela e deu-lhe um beijo nos lábios.
— Grávida… — murmurou aturdida.
— Sim! — ergueu-a no ar. — Eu terei um herdeiro! — rodopiou.
— Sim… Eu estou grávida… — forçou um sorriso. “E Ness também”, completou em pensamentos.
≈≈
A agitação de Aredhel e Loki, despertou a curiosidade de Myria e Narfi que os viram passar apressados pelo corredor.
— O que houve? — indagou Einmyria para o irmão.
— Eu sei lá… — ergueu os ombros. — Mas coisa boa não parece ser. Não é você quem deveria saber de tudo?
— Eu não necessariamente vejo tudo o que vai acontecer.
— Não… Mas já notou que ultimamente você não anda enxergando nada? Nem mesmo percebeu que seu namoradinho ainda não apareceu por aqui novamente — provocou.
Ela fez uma careta e seguiu os pais, com Narfi em seu encalço. Quando os quatro chegaram ao salão, encontraram um senhor de pele escura e aparência humilde. Loki rapidamente o reconheceu como membro de um povo nômade que viviam em acampamentos e viajavam entre algumas vilas e reinos em carroças.
— Majestade… — fez uma breve cortesia.
— O que o traz aqui, viajante? — indagou Loki.
— Meu rei, vim lhe entregar esta carta e… — puxou a capa. — Esta criança.
Ocultada pelo homem, estava uma menina de não mais que três anos, cuja pele era ainda mais escura, cabelos negros ondulados e olhos azul-esverdeados.
— Esta menina? — Aredhel indagou, se ajoelhando na frente da criança. — Olá, minha querida — sorriu.
Loki apanhou a carta das mãos do homem e começou a ler.
— Esta é Mintaka — apresentou o homem. — A mãe e os avós maternos dela morreram em um acidente com nosso transporte, quando estávamos cruzando dois vilarejos à três dias de viagem daqui.
— E ela não tem pai ou parentes paternos? — intrometeu-se Myria.
— Tem… — anuiu o homem — Os avós são vossas majestades — revelou.
— O quê? — Narfi quase se engasgou.
— Nossa neta? — Aredhel piscou lentamente e olhou demoradamente a menina. — Oh, meu Deus… — sorriu emocionada.
— Segundo diz a carta — Loki comentou aturdido —, ela é filha de um de nossos filhos — olhou na direção de Narfi.
Aredhel e Myria acompanharam o olhar na mesma direção.
— Sério isso? — indignou-se Narfi. — Até parece que só eu faço sexo nessa família.
— Narfi! — Aredhel cobriu os ouvidos da menina.
— Pode não ser o único, mas, com certeza, é o mais imprudente quando se trata do assunto — Einmyria sorriu de lado. — Eu francamente não ficaria surpresa de saber que você abandonou uma pobre moça grávida.
— Essa menina não é minha — encarou a irmã. — Temos mais dois irmãos e um adotado para averiguar.
Myria bufou e foi se juntar à mãe e admirar a criança.
— Tão lindinha… — sorriu a princesa.
O homem deu um pigarro e coçou a nuca, constrangido com aquela discussão.
— Na carta tem mais detalhes sobre a mãe e a família — apressou-se em dizer, louco para deixar aquele local. — Fui apenas encarregado de entregá-la aos seus parentes vivos. Com vossa licença… — curvou-se.
— Vá em paz — disse Loki.
Assim que o homem se retirou, Loki se ajoelhou diante da menininha.
— Como o senhor sabe que isso não é invenção desse homem? — resmungou Narfi. — Podem estar apenas querendo se aproveitar de nós ou interessados em dinheiro.
— Se você tivesse estudado mais, saberia que esse povo nômade é conhecido por sua honestidade — Myria rebateu.
— Não só por isso… — comentou Loki. — Eles não se interessam por bens materiais e nunca abandonariam um filho. Geralmente são os filhos que deixam o grupo quando resolvem se casar com alguém que não pertence ao clã, ou quando resolvem fincar os pés de vez em algum local — estendeu a mão e afagou os cabelos da garotinha. — Olá, minha menina… — sorriu para ela que os olhava assustada. — Com esses olhos e traços, não restam dúvidas de que é minha neta… — pegou-a no colo.
— Você notou também? — indagou Aredhel toda sorridente. — Ela tem seu nariz.
— E seus lábios… — sorriu para a esposa. — Seja bem-vinda Mintaka… Parece que acertei, Aredhel… Inesperadamente viramos avós.
Novamente os três olharam na direção de Narfi.
— Ela não é minha! — o príncipe foi firme.
— Você tem certeza? — Myria insistiu.
— Ah! — levantou os braços. — Vá à merda! — saiu pisando firme do salão.
— E agora, minha princesinha? — Loki olhou para a pequena. — Quem será que é seu pai?
≈≈
Já passava da metade da manhã quando Fenrir despertou de um pesadelo. Mexeu-se bruscamente e sentiu uma fisgada em sua nuca. Abriu os olhos e percebeu que dormira sentado mais uma vez. Massageando o seu pescoço, ele olhou para o lado e viu que Merida se remexia meio inquieta.
— Merida? — chamou baixinho.
Os olhos da jovem tremularam e então ela piscou algumas vezes. Ao vê-lo a jovem tentou se mexer, mas sentiu muitas dores.
— Tente não se mexer… — ele tocou levemente o braço dela. — Você bateu a cabeça e tem uma costela quebrada.
Merida o observou por alguns instantes, tentando lembrar quem era, onde estava e como tinha parado ali. Em pouco tempo os detalhes tenebrosos e bizarros que vinha vivenciando voltaram à sua memória.
— Isso é loucura... Ainda estou aqui... — fechou os olhos com firmeza e se esforçou para não chorar. — Não é apenas pesadelo...
— Eu sinto muito pelo que houve, Merida… — fez um afago na mão da jovem. — Prometo que ninguém irá machucá-la ou perturbá-la novamente.
Ela olhou para aquele rapaz e quis acreditar no que ele dizia, mas ainda tinha medo.
— Mas aquele cara disse que…
— Esqueça-se dele… — interrompeu-a. — Deixei ordens expressas para que ele não se aproxime de você. Ficará aqui até se recuperar e depois veremos o que faremos para você retornar à sua Terra.
— Obrigada…
— Fico feliz que tenha acordado — foi franco.
— Eu fiquei apagada por quanto tempo?
— Apagada? Só minha mãe usa essa expressão — riu. — Você esteve em sono profundo por semanas. Há dois dias que começou a apresentar melhora.
— Sono profundo? Jeito bonito de dizer que eu estava em coma… — sorriu.
— Bem melhor assim… — ele também sorriu. — Você fica bem mais bonita sorrindo do que com aquela expressão preocupada.
Ela ficou sem graça.
— Não precisa mais se afligir. Você sempre estará segura comigo.
O constrangimento só aumentou para Merida. Cada vez mais se encantava com aquele homem e isso a assustava. “Pertencemos a mundos diferentes”, isso nunca daria certo.
— Então você é um príncipe — ela disse de repente, tentando mudar de assunto —, filho de Loki, e ele governa Asgard… E eu estou aqui... Meu pai… Nem a Marvel pensou nisso tudo...
— Sim… — confirmou. — Precisamente isso. Agora que você tocou nesse assunto… — empertigou-se na cadeira. — Você nunca ouviu falar de meu pai em seu mundo?
— Ouvir eu já ouvi, mas lá ele não é uma pessoa real… — balançou as mãos. — Seu pai faz parte do que chamamos de mitologia nórdica e é personagem de quadrinhos e filmes de uma empresa chamada Marvel e de vários outros títulos fictícios.
— E os Avengers? — inclinou-se na direção dela.
— Também fictícios — tentou dar de ombros, mas a dor voltou a incomodar. — Ai…
— Nunca aconteceu nenhum ataque ao seu mundo? — ele levou a mão ao queixo.
— Ataque? Tipo alienígena ou como no filme?
— Mais ou menos como no filme.
— Não… — ela negou como se ele estivesse falando algo absurdo. — Claro que não… São filmes.
Fenrir voltou a se recostar na cadeira, contemplativo.
— Então são mais de duas realidades… — ele pensou alto.
— Espere aí… Você tinha dito que eu pertencia a outra realidade… Agora você está me dizendo que há mais de duas?
— Sim… — voltou a se apoiar na cama da jovem. — Inicialmente pensei que você poderia pertencer à realidade de onde veio a minha mãe. Ela veio de uma Terra onde Asgard e meu pai são apenas lendas e personagens também. Todavia, o povo de lá sabe da existência de meu pai e dos Avengers como algo real. Há alguns anos, antes de eu nascer, ocorreram alguns conflitos que envolveram meus pais e os Avengers daqui na outra realidade. Todos foram para a Midgard de minha mãe. Sendo assim, se vocês duas pertencessem a mesma realidade, você obviamente saberia da existência de meu pai.
— Santo Deus… — ela levou a mão à testa. — Você está falando que a teoria de mundos paralelos é real?
— Exatamente… E pelo jeito, podem existir vários mundos… E você veio de um deles. Um mundo que nós nem imaginávamos que poderia existir.
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