Asgard Dirty Secrets
33 Full of ghosts and creatures within our hearts
Notas iniciais

Alguns anos antes...
— Vocês fiquem quietos enquanto eu converso com o tio Tony — pediu Aredhel às gêmeas e Fenrir.
— Ficarei com eles, mãe... — sorriu Hela.
— Ótimo! — Váli esfregou as mãos. — Pois eu também quero ver o laboratório do tio Tony!
— Eu também vou! — correu Narfi para acompanhá-los.
Hela chamou os irmãos menores para perto e se sentou no sofá de couro preto. Pepper entrou com uma bandeja de guloseimas e ofereceu às crianças com um sorriso largo no rosto. Educadamente, cada um pegou um prato e se serviram em silêncio. Hela, Eisa e Einmyria usavam os talheres com maestria. Fenrir por outro lado, deixou o garfo de lado e comia com as mãos.
— Nossa! — resmungou Hela. — Por que você tem que comer feito um selvagem? Sabe que nossa mãe não gosta quando se comporta assim — ralhou com o irmão em um sussurro.
Fenrir afastou o cabelo que lhe caía sobre o rosto e deu de ombros.
— Deixe-o... — Eisa meneou a cabeça. — Ele não vê o mundo como vemos... Para ele essas coisas são meras trivialidades... — explicou.
— Não se preocupe Hela... — sorriu Myria. — Ele vai melhorar com o tempo. Continuará pensando dessa forma, mas saberá se comportar melhor no futuro.
— Acho que tenho que discordar... — a voz de um rapazinho ecoou do alto da escadaria. — Esse já está velho demais para continuar comendo como se fosse um... — reconsiderou o que diria. — Deixe para lá... — desceu as escadas.
— Nick! — Hela depositou seu prato sobre a pequena mesa e acenou.
— Olá, Hela! — ele sorriu de lado e arqueou uma sobrancelha. — Quem são? — olhou na direção dos outros três.
— Ah — a princesa mais velha se levantou. — Esses são meus irmãos menores. Eisa, Einmyria e Fenrir — indicou.
Nicolas acenou com a cabeça em um rápido cumprimento. Fenrir sorriu exibindo os dentes sujos de bolo de chocolate e Eisa se encolheu timidamente. Myria apenas cruzou os dedos das mãos e o fitou longamente.
— Pois eu tenho certeza de que Fenrir será um homem muito educado — Einmyria retomou o assunto, encarando o filho de Stark. — E vou além... Afirmo que você e ele serão bons amigos.
O jovem franziu o cenho e inclinou a cabeça visivelmente confuso.
— Como pode afirmar isso? Acabamos de nos conhecer... Como pode ter tanta certeza? — riu de leve.
— Da mesma forma que sei que você e eu nos daremos muito bem — ela afirmou dando um sorriso singelo.
Nick achou a atitude de Myria um tanto petulante, mas algo no sorriso dela mexeu com ele. Até sua pulsação se alterou. Sem perceber, um sorriso se desenhou em seu rosto e ele se viu movendo a cabeça concordando com aquela estranha profecia.
— Se você diz... Eu acredito... — ele afirmou de volta.
≈≈
Loki se levantou de seu trono enfurecido com a audácia do jovem.
— Meça suas palavras seu moleque! — rosnou. — Você não está em Midgard, aquele chiqueiro que seu pai tenta há anos comandar! — acenou com a cabeça e os guardas se aproximaram de Nicolas. — Levem esse pirralho e esse outro — olhou na direção do arqueiro — para as...
— Loki — interrompeu Aredhel com uma voz que tinha um tom de alerta.
— Sogrinha! — alegrou-se Nick, ignorando o clima hostil.
— Aredhel? — Loki indagou entredentes, encarando a esposa.
— Você não está sendo muito educado com as visitas — ela sorriu cinicamente para o marido, enquanto se aproximava dele. — Afinal, além de ser amigo de nossos filhos, Nick é namorado de nossa filha — disse serenamente.
— Mas isso é uma afronta! — indignou-se o rei. — Eu não vou tolerar...
— Meu querido... — insistiu a esposa em meio a um sorriso, mas lançando-lhe um olhar cortante. — Lembre-se do que lhe falei... — sussurrou.
Loki trincou os dentes e respirou profundamente. Começava a se arrepender de ter prometido se “comportar”. Ele decidiu, por fim, evitar se indispor com a rainha. Temia que ela cumprisse a promessa de abandoná-lo. Deixaria o assunto “filho do Stark” esperando por enquanto. Por enquanto...
Ele bufou e se sentou novamente. Viu a esposa dar um sorrisinho. Loki revirou os olhos e acenou debilmente com a mão direita, mandando os guardas se afastarem. Wagner ficou boquiaberto ao ver o seu padrinho recuar.
— Nick, meu querido! — Aredhel se encaminhou para as visitas. — Já estava com saudades.
— Majestade! — o jovem Stark fez uma reverência. — Também senti sua falta. Lamentamos muito a sua ausência no período conturbado que passamos na Terra — foi sincero.
— Eu não pude me ausentar... Estava com alguns problemas para resolver aqui... — olhou na direção do marido e ele fingiu que não ouvira. — Não vai me apresentar seu amigo? — virou-se para o rapaz de cabelos claros e sorriu.
— Ah! Este é Nathaniel... Filho de Clint Barton — revelou. — A senhora deve se lembrar dele, não é? Ele era um dos Avengers e...
— Majestade... — o rapaz olhou a rainha nos olhos e fez uma cortesia.
Os olhos de Aredhel se arregalaram e a cor se esvaiu de seu rosto. Como não notara a óbvia semelhança do rapaz com o pai?
— Ele ainda era um bebê quando o agente Barton faleceu... — prosseguiu Nicolas. — Vocês participaram daquela guerra, certo? — franziu o cenho. — Enfim, mesmo sem o pai, ele acabou seguindo seus passos... É um exímio arqueiro — deu um tapinha nos ombros do rapaz. — Nathan sempre quis conhecer a senhora e Asgard. Na verdade é fascinado por suas aventuras. E como vinha enfrentar a fera ali — indicou com a cabeça na direção de Loki —, eu o trouxe comigo — deu de ombros.
— A tia Natasha sempre falou de vossa majestade — Nathaniel continuava encarando Aredhel. — Creio que se lembra dela, não? Natasha Romanoff...
— Cla... Claro... — gaguejou Aredhel.
Aredhel ainda se lembrava da última vez que vira Natasha. Ainda estavam vivas em sua memória as acusações que a agente fizera, assim como a bofetada que ela lhe dera. E para completar, no fundo, a rainha de Asgard realmente se sentia culpada pelo que acontecera no passado.
“A culpa é toda sua! Clint morreu por sua causa! Amaldiçoada seja! Você nunca deveria ter vindo para esta realidade! Desde que chegou aqui tudo ficou pior! Sua Terra, seus filmes, isso tudo é um erro! Você não pertence a esse mundo! É você quem deveria estar morta!”, a voz de Romanoff perpassou em seus pensamentos. Com um olhar distante e apavorado, Aredhel ainda fitava Nathaniel.
— A senhora está bem? — Nicolas arqueou as sobrancelhas. — Está pálida...
— Es... Estou... Foi... Foi apenas uma tontura... — tropeçou nas palavras.
— Madrinha? — Wagner se aproximou para ampará-la.
O rei, que até então estava indiferente às novidades, afobou-se ao ver o estado da esposa.
— Aredhel? O que sente? — ele se levantou e desceu para se aproximar dela.
— Não foi nada demais... — ela balançou a mão debilmente. — Acho que ainda não me recuperei totalmente do parto... — sorriu amarelo.
— Vamos, madrinha. Eu a acompanho até seu quarto — falou o afilhado. — Precisa descansar.
— Eu a acompanho... — Loki insistiu, preocupado.
— Não precisa, Wagner irá comigo — ela afagou o braço do marido.
Loki olhou para os três rapazes e, inexpressivo, voltou-se para a esposa.
— Irei com você, não tenho mais nada a fazer aqui — desdenhou.
Aredhel aquiesceu. Achou melhor o marido ir e assim evitar maiores problemas.
— Se vocês me dão licença... — ela olhou para Nick e Nathan.
Nicolas e Wagner anuíram em silêncio. Nathaniel inclinou a cabeça, mas não desviou o olhar de Aredhel. Agoniada, ela engoliu em seco e, acompanhada de Loki, se retirou do salão, por uma de suas muitas saídas. Por outra porta Einmyria entrou toda esbaforida.
— Nick! — ela gritou.
— Minha princesa! — ele correu e a abraçou apertadamente. — Senti tanto a sua falta — afagou os cabelos dela.
Nathaniel deu um pigarro e Wagner fitava o chão.
— Olá, Nathan... — a moça sorriu com o rosto ficando carmim.
— Olá, Myria... — o arqueiro sorriu de volta.
— Lamento, loirinho... — Nicolas crispou os lábios e pôs a mão no ombro de Wagner. — Atrapalhei sua conversa com o meu magnânimo sogro...
— Não tem problema... — o loiro fez uma careta. — Mais tarde eu tento... E de preferência na presença da madrinha... — coçou a nuca.
— Pois é... — riu Stark. — Não imaginava que minha sogrinha tinha tanto poder sobre meu sogro.
— As coisas mudaram bastante nos últimos tempos... — Einmyria disse sombria. — Muita coisa aconteceu...
Wagner baixou os olhos e os outros dois homens trocaram olhares.
— O que você não me contou pelas projeções? — Nick arqueou uma sobrancelha.
— Vamos dar um passeio pelo palácio — ela disse de repente, fugindo do assunto. — Vamos apresentar Valhala ao Nathan, não é Wagner?
≈≈
— Como assim você vai se casar com ele? — indagou James estupefato, enquanto vestia suas calças.
— Jim... Não torne as coisas piores do que estão... — ela passou a mão pela fronte em um gesto cansado.
— Pior? Defina, pior! — bufou. — Uma hora você faz amor comigo e no momento seguinte diz que vai se casar com outro? Afinal o que você quer? — questionou indignado.
— Independente do que aconteceu entre nós — suspirou —, vou me casar com o Eric. Foi apenas sexo — mentiu.
James tentou não deixar transparecer a forma dolorosa como as palavras dela o atingiram. A incredulidade pairava acima da mágoa.
— Apenas sexo? — ele riu sem humor. — Conte outra, Hela! Eu a conheço muito bem! Você nunca foi uma mulher frívola — alterou-se e puxou a gola de sua camisa. — Eu vi a paixão em seus olhos! Santo Deus! — esbravejou. —Você implorou por meus beijos! Está claro que você sente algo por mim! O que está acontecendo?
Hela prendeu a respiração e engoliu em seco. Sabia que tinha se arriscado ao sucumbir à paixão. Desejava do fundo da alma acabar com aquela farsa e revelar de vez toda a verdade, mas não podia. Precisava se sacrificar para proteger sua família e Jim.
— É claro que ainda sinto algo por você... — admitiu cautelosamente. — Sinto atração física. Algo carnal. Apenas isso — tentou parecer indiferente. — Entenda... Passei anos me guardando... Privando-me desse tipo de experiência. Amanhã vou me casar com Eric... Então, eu precisava experimentar mais... Viver um pouco... Antes de passar o resto da vida ao lado de um único homem. Jim, você foi meu primeiro homem e devo admitir que o sexo com você é muito bom. Então, eu quis repetir a dose — mordeu os lábios.
— Então você me usou para seu prazer? — inspirou o ar lentamente. — Inacreditável... Não sei se me sinto lisonjeado ou ofendido — riu com amargura. — Não faz sentido... Essa não é você... Muito menos a Hela de ontem à noite... — meneou a cabeça.
Jim não era idiota e Hela sabia disso. Seus argumentos eram ridículos diante da forma apaixonada como se comportara na noite anterior. Que os deuses a ajudassem, teria que despedaçá-lo para fazê-lo desistir de si. E isso a faria em pedaços também...
— Eu mudei e meus sentimentos também. Aceite isso de uma vez — declarou com falsa altivez e frieza. — Foi melhor para nós dois. Afinal, que futuro teríamos juntos?
— O que você quer dizer com isso? — James franziu a testa.
— Jim... Eu sou uma princesa e você um ator de teatro itinerante — estendeu a mão na direção dela. — O que você teria a me oferecer? Uma vida simples em uma casinha na vila? — foi propositalmente venenosa.
A expressão de James se endureceu.
— Como o papai é claramente contra nossa união, seria demais que ele aceitasse que nós continuássemos morando aqui — continuou em sua empreitada dolorosa. — Eric por outro lado é um príncipe. O único herdeiro de Alfheim. Entende o que isso significa? — encarou-o. — Serei rainha! Terei um reino todo meu! — sorriu abertamente.
O silêncio que se fez em seguida chegou a ser sufocante. Hela tivera sucesso. Jim estava destruído.
— Tem razão... — ele murmurou após um tempo. — Não posso lhe oferecer nada parecido — disse calmo. — Desejo-lhe felicidades... — caminhou até a porta e deixou o quarto dela.
E na quietude do quarto de Hela, tudo o que se ouvia eram seus soluços abafados pelas roupas que ela ainda tentava guardar.
≈≈
James caminhava a passos largos na direção de seu quarto, quando passou por Katarina.
— Pai? Eu queria falar com o senhor...
O pai parou e tentou manter-se inabalável, embora sua vontade fosse apenas escapar para a escuridão que habitava seu coração.
— O senhor e a madrinha conversaram? Vamos deixar o palácio?
— Vamos ficar... — Jim disse com a cabeça ainda vagando pela discussão que tivera com Hela.
Kat sorriu com a boa notícia.
— Que bom! Eu sabia que vocês iam fazer as pazes. Sempre foram tão amigos. Sabia que ela não guardaria mágoa, afinal o senhor sempre foi um bom ombro amigo. Ela está melhor, não é?
— Melhor do que nunca... — balançou a cabeça. — E quem vai precisa de um ombro amigo sou eu... Dessa vez, quem vai precisar de Aredhel sou eu... — confessou triste e deixou o local apressado.
Katarina deu um suspiro e viu o pai se distanciar. Ela abraçou o livro sobre plantas venenosas e fechou os olhos. Gostaria de fazer algo para ajudar o pai, mas sabia que não tinha jeito.
— O que houve Kat? — a voz de Igor a surpreendeu e ela se virou para encará-lo. — Por que está com essa carinha triste? — deu dois passos na direção dela.
O coração dela disparou no peito e sentiu um calor subir por seu rosto. “Droga, não fique vermelha agora!”, ralhou consigo em pensamentos.
— Ah... Estou preocupada com meu pai... — confessou, toda sem jeito.
— Não fique assim... — ele afastou uma mecha do cabelo dela. — O tio Jim vai superar. Dói muito, mas, como diz minha mãe, não há mal que dure para sempre — tocou-lhe o queixo.
— Er... Como você sabe? — ela indagou em dúvida. — Bem... Você já foi desprezado por alguém?
Igor foi pego de surpresa pela pergunta dela. De fato ele falara aquilo com propriedade. Afinal, ele era apaixonado por uma mulher que não podia ter: Eisa. Entretanto, ele jamais confessaria isso a alguém, muito menos à Kat.
Viu ali a chance de não só apenas escapar da explicação, como também conseguir avançar em seu intento.
— De certa forma... — ele respondeu com astúcia e a viu entreabrir os lábios. — Digamos que eu sofra por um amor platônico — sustentou o olhar no dela.
— Oh... — mordeu os lábios e baixou os olhos, sentindo uma pontada de ciúme.
— Eu não me declarei até o momento porque tenho receio de não ser correspondido — um pequeno sorriso quase apareceu nos lábios dele ao perceber a reação dela.
— Entendo... — murmurou ainda cabisbaixa e apertou mais o livro contra o peito. Seu estômago embrulhou com a possibilidade dele estar apaixonado por outra mulher.
— Tenho medo de assustá-la... — Igor falou baixinho e com o indicador ergueu o rosto dela para que o encarasse. — Somos amigos, então temo perder a amizade que temos...
Ela o encarou confusa. O coração puro e bondoso dela a fez tomar uma decisão altruísta.
— Eu a conheço? De repente, posso sondá-la e tentar descobrir o que ela sente por você... — ofereceu-se para ajudar inocentemente.
Ouvi-la falar daquele jeito o fez sentir algo estranho e ele quase desistiu de seguir adiante com seus galanteios. Quase...
Ainda assim, naquele momento, a inocência daqueles olhos azuis o fizeram prender o ar. Seu polegar acariciou a pele macia do queixo dela e seus olhos desceram, até se fixarem em seus lábios rosados. Repentinamente, ela parecia atraente demais. Katarina era uma mulher bonita, mas para ele, naquele instante, ficara praticamente irresistível. Ela percebeu a intensidade do olhar perscrutador dele e ficou carmim. A pulsação de ambos se alterou e, sem pensar no que estava fazendo, Igor se inclinou na direção dela.
Os lábios firmes dele tocaram os de Kat. Chocada, ela levou algum tempo até ter certeza de que não estava sonhando. Uma das mãos de Igor deslizou pela nuca dela, deixando um rastro de fogo. A outra mão se abriu sobre a cintura, tentando cobrir o máximo que pudesse de sua coluna, e a puxou para mais perto dele.
Candidamente, Katarina se entregou a ele e abriu a boca para recebê-lo. Para ela aquilo era a realização de seu singelo sonho romântico. Apaixonada por Igor há um longo tempo, passara noites em claro imaginando como seria ser beijada por ele. Seu primeiro beijo não poderia ser mais perfeito.
A língua hábil dele circundou os lábios de Kat, antes de invadir sua boca. O beijo dela tinha um gosto doce. Sabor de inocência. Ela espalmou as mãos sobre o peito forte e ele desceu a mão da nuca, apertando-a contra si. E quando ele mordeu o lábio inferior dela, um gemido baixo foi audível.
Igor deixou a boca da jovem e desceu arranhando o queixo dela com os dentes, fazendo-a arfar. Ele depositou beijos suaves em seu pescoço e afundou o nariz nos cabelos dourados da jovem. Katarina tinha um perfume que parecia uma mistura de flores, baunilha e sol. Um desejo insano de possuí-la tomou conta dele.
Buscando se controlar, ele se afastou um pouco, mas sem tirar os braços dela, e a olhou demoradamente. Estava rubra, com os lábios inchados e continuavam convidativos. Ela respirava rapidamente, fazendo seus seios subirem e descerem de forma ritmada contra o decote do vestido cor de lavanda. Era tentador demais para Igor. Ele desviou os olhos do colo dela, antes que não pudesse mais se conter.
— Perdoe-me... — ele murmurou com a voz entrecortada, enquanto tocava delicadamente o rosto dela e a fitava nos olhos. — Você é tão doce... E... — hesitou por alguns instantes. — Estou apaixonado por você, Kat — mentiu.
A moça loira arregalou os olhos e o fitou boquiaberta. A pulsação dela disparou. Seu coração batia tão forte contra suas costelas, que ela pensou que ele podia ouvir o barulho.
— Está? — perguntou incrédula. Era bom demais para ser verdade.
— Estou... — afirmou. — Mas por sua reação, percebo que não deveria ter confessado... — fez-se de vítima e tirou as mãos dela.
— Não! — exclamou aflita. — Você fez bem sim! Quer dizer... —envergonhou-se. — Eu... — baixou os olhos toda tímida — ...também estou apaixonada por você — confessou.
Um sorriso de satisfação se abriu no rosto de Igor. Kat estava a sua mercê. Ele a beijou suavemente. Ponderou que no final, mesmo não gostando da jovem da forma que proferira, poderia desfrutar proveitosamente por um bom tempo de sua companhia. Pelo menos, seria melhor que ficar sozinho, assistindo o irmão dela desfilar pelo palácio de braços dados com sua amada Eisa. “Será divertido”, afirmou para si.
Ele franziu o cenho e a olhou amorosamente.
— Minha querida Kat, eu adoraria poder pedir para que fosse minha namorada, mas você sabe que este não é o melhor momento para ter essa conversa com seu pai e muito menos com o meu — fingiu decepção. — O tio Jim está muito perturbado com o fim de seu namoro e o meu pai... — fez um muxoxo — ...anda muito irritadiço. Implicando com o relacionamento de todos os filhos... Sei que seria muito pedir para você que aceite manter em segredo ou que me espere até que todos esses conflitos de nossas famílias se arrumem...
— Não tem problema... — ela o interrompeu, toda afobada. — Podemos namorar em segredo por enquanto — disse alegremente. —Wagner tem feito o mesmo com Eisa... Ele também acredita não ser o melhor momento para revelar a verdade — deu um suspiro triste.
— Oh, é mesmo? — fingiu desconhecer.
— Sim... — afirmou olhando para os lados. — O padrinho está até implicando com o namoro de anos de Váli... — crispou os lábios.
— Verdade... —aquiesceu. — Então... — retomou — Você aceita ser minha namorada secreta? — fez uma expressão de súplica.
— Aceito... — Kat disse com olhos sonhadores. — Claro que aceito.
Sorridente, ele se inclinou mais uma vez e a beijou com ímpeto. “Não... Não será divertido... Será muito prazeroso...”, corrigiu-se em pensamentos.
A amargura de um amor não correspondido somados à inveja e ao ciúme, tinham envenenado Igor e o transformado em uma criatura fria e implacável. Na verdade, a partir do instante que decidira iniciar aquele falso relacionamento, deixara de ter um coração.
≈≈
Nathaniel estava com os braços cruzados contra o peito, encostado em uma das pilastras dos corredores. Ele observava de longe e em silêncio o amigo e a namorada conversarem. Não conseguia ouvir o que diziam, mas pelos gestos de Nick e a expressão dura no rosto de Einmyria, pode perceber que a conversa não estava sendo muito boa.
— Você não pode me exigir isso, Nick! — Myria sibilou. — Não posso simplesmente abandonar tudo aqui para ir viver na Terra — balançou os braços no ar.
— Por que não? Você já passou meses fora daqui... — deu de ombros.
— Mas isso é diferente... Você quer que eu vá morar com você...
— E qual o problema? — interrompeu-a. — Somos namorados! Tenho meu próprio apartamento, trabalho na empresa de meu pai. Tenho condições de sustentá-la. Quer que eu lhe peça em casamento?
— Nick... Não é isso... Não estou te cobrando nada — passou a mão pelo rosto. — Mas é que não é tão simples. Eu não pertenço à Midgard.
— Thor também não pertence e viveu por algum tempo lá — rebateu impaciente.
— Mas precisam de meus poderes aqui...
— E eu também preciso de você! — bufou. — Não dá para continuar desse jeito. Passo meses com você e meses sem! Isso nem parece um relacionamento! — praguejou.
— Eu também sofro com a distância... — ela disse em um sussurro.
— Então venha embora comigo — pediu.
— Não posso... Não ainda...
— Eu não vou viver o mesmo que você... Não posso te esperar a vida toda... — foi ríspido.
A declaração atingiu Einmyria como uma bofetada. Esse era um assunto no qual ela evitava tocar. A efemeridade dos humanos pairava feito uma maldição sobre o casal.
— Vou lhe dar alguns dias para você pensar e volto para saber sua resposta e lhe buscar se assim decidir... — ele falou entristecido. — Pense com carinho... Tudo o que quero é a nossa felicidade.
Ela ficou quieta e ele se inclinou e a beijou demoradamente.
— Até, Myria... Eu te amo... — murmurou.
— Também te amo... — respondeu baixinho.
Nicolas se afastou, indo na direção de Nathaniel. Einmyria deu um suspiro triste e, ao virar o corredor, esbarrou com Eisa. A irmã notou sua tristeza e questionou sobro o ocorrido. Sempre unidas, as gêmeas costumavam compartilhar seus segredos uma com a outra.
— Está tudo acabado... — Myria começou a chorar.
— Ah, Myria... — disse a irmã e afagou a sua mão. — Tenha calma. Vocês vão conseguir resolver isso... Não se aflija.
— Não... Não vai se resolver... Eu vi... — soluçou e abraçou Eisa. — Ele vai terminar comigo.
≈≈
Loki havia acabado de deixar o quarto, quando Aredhel se sentou à sua pequena mesa e se serviu de uma xícara de chá. Ela mexia a colher quando alguém bateu à sua porta.
— Entre...
A porta se entreabriu e ela se assustou ao ver quem era.
— Nathaniel? — levantou-se num átimo.
— Com licença, majestade... — fez uma reverência. — Fiquei preocupado e quis saber se melhorara de seu mal-estar — olhou-a de soslaio. — Nick e eu estamos de partida... Ele está um pouco... — ponderou — ...indisposto, então pediu que me despedisse por ele também.
— Oh... Sim... Estou bem melhor... — ficou desconcertada. — Espero que retornem mais vezes para nos ver — sorriu. — E me chame de Aredhel... Não gosto dessas formalidades...
— Também espero lhe ver mais vezes... — ele pegou a mão dela e depositou um beijo em seus dedos — ...Aredhel.
Encarou-a mais uma vez e deixou o quarto. Aredhel deixou escapar o ar. Ela não sabia o porquê, mas a maneira que o rapaz a olhava a deixava nervosa.
— Que sensação estranha... — ela murmurou levando a mão ao peito.
≈≈
No final da tarde, Hela chegava ao palácio de Alfheim. Nem mesmo a beleza singular e exuberante daquele reino conseguia animá-la. Lamentava não ter mais visto James. Pelo que soubera de Wagner e Katarina, no momento de sua despedida, ele estava trancado em seu quarto desde a manhã.
— Talvez tenha sido melhor assim... — murmurou pesarosa.
A sua partida em si, já fora penosa demais. Ainda que fosse ver sua família no dia seguinte durante a cerimônia de casamento, dizer adeus ao seu lar, sua família e amigos, para ir viver em outro reino, casada com um homem que odiava era tortura demais. Será que aquilo poderia ainda ficar pior? Sim. Algo em seu íntimo lhe afirmava que sua vida estava prestes a virar um grande pesadelo.
Aprumada em um vestido azul-claro e esvoaçante, ela caminhava pelo palácio de cabeça erguida. Confiante e orgulhosa, não deixaria transparecer a fragilidade de seus nervos. Se era para ser sacrificada, iria para “forca” com dignidade.
Altiva, ela adentrou no salão do trono tentando controlar o nervosismo. Finalmente seria apresentada ao seu futuro sogro, Vardamir. O rei de Alfheim estava sentado em seu trono distraído, lendo alguns documentos. Um servo anunciou a chegada da princesa e, sem olhar na direção dela, ele dispensou os conselheiros que o cercavam e mandou outro serviçal chamar seu filho para receber a noiva.
Hela cruzou as mãos diante do ventre e esperou o rei lhe dar atenção. Indiferente a qualquer coisa ligada à Eric, ela de fato não esperava uma recepção calorosa e nem nada parecido. Nada a faria mudar a opinião pré-formada sobre seu futuro naquele reino.
Quando o último conselheiro saiu do campo de visão de Vardamir, ele ergueu a cabeça e perdeu o oxigênio diante da visão que teve. A princesa de Asgard lhe sorria timidamente. Os traços delicados, a tez alva, os olhos azuis esverdeados, a boca rosa e os cabelos que cobriam os dela ombros em cascatas negras lhe pareciam fantasmagoricamente familiar. Hela era a cópia macabra de sua falecida esposa: Maeve.
— Majestade... — a bela mulher segurou seu vestido e fez uma suave cortesia.
O rei, hipnotizado, mal percebera que tinha se levantado e parado diante dela. Segurou a mão direita de Hela e beijou-lhe as pontas.
— Vardamir... — apresentou-se. — Inteiro ao seu dispor... — murmurou mergulhando nos olhos dela.
“Parece que os deuses me deram uma nova chance...”, pensou ele.
Fale com o autor