Asgard Dirty Secrets
29 É o mar que sai dos olhos
Notas iniciais

Cerca de vinte anos antes...
James e Aredhel estavam sentados à sombra de uma árvore, lendo. Kat e Wagner corriam pelo jardim, sendo acompanhados por Hela e Igor. O ator baixou o livro, fitou os filhos com um semblante triste e olhou demoradamente para a amiga.
— Acredita que o passado regresse? — Jim perguntou repentinamente.
Aredhel tirou os olhos do livro e franziu a testa o encarando.
— Mais do que isso... Acredito que ele nunca nos deixa... — disse meio pensativa.
— Nunca? — ele pareceu aflito.
— É o que somos... — ela meneou a cabeça de forma condescendente.
— Incluindo as boas e más escolhas, eu imagino... — o ator deixou escapar um suspiro.
— Sim... Elas principalmente... E a vida cobra caro pelas escolhas erradas — a rainha completou fitando o livro que tinha em mãos.
— Acha que podemos nos redimir pelo que fizemos de errado? — inclinou-se na direção dela. — Sabe... Tudo o que fizemos... Essas guerras... As vidas que salvamos ou poupamos... — olhou para os filhos correndo. — As pessoas que amamos... Tudo isso pode compensar nossos erros de algumas forma?
— Compensar e redimir, creio que sim... — Aredhel balançou a cabeça com um olhar perdido. — Mas não se pode mudar quem você é. Seja lá quem você ame ou salve. Os erros sempre vão nos assombrar... Serão parte de nós e nunca vão nos deixar...
≈≈
Um servo pediu licença e tirou James de seus devaneios. Ele saiu do caminho e viu o serviçal se juntar a mais dois e, juntos, erguerem o berço para retirarem do quarto de Aredhel e Loki. Jim deu um suspiro triste e passou a mão por sua tez, visivelmente cansado. A culpa que sentia não o deixara dormir em paz.
Loki adentrou no quarto e observou apaticamente os empregados levarem o berço. E quando eles finalmente deixaram o local, batendo a porta, ele percebeu a presença do ator.
— Eles já vão trazê-la para cá — Loki fechou o punho, nervoso.
— Ela vai ficar bem, Loki — Jim falou mais para si mesmo, do que para o amigo. — Aredhel é forte. Vai se recuperar.
— Ela perdeu muito sangue e está com essa febre que não cede — o moreno começou a andar de um lado para outro. — Passou a madrugada delirando. As coisas que ela disse... — parou e crispou os lábios em uma linha. — Fica repetindo que é um erro, que atrapalha, que é uma maldição...
James engoliu em seco e mordeu os lábios.
— Murmura o nome daquele velho maldito do pai dela, da mãe e o do irmão — continuou Loki. — Até o nome de Greta ela chamou. E eu ainda não entendi porque ela fugiu. Em meio às palavras confusas, perguntou por que eu não a amava. Não compreendo. Nós não brigamos há meses e nem a vi o dia inteiro.
— E eu piorei tudo quando não a deixei falar e — Jim meneou a cabeça — disse que precisávamos dar um tempo em nossa amizade.
— Durante anos eu quis que isso acontecesse, mas você tinha que escolher o pior momento para fazer isso? — rosnou Loki.
— Eu sei que não justifica o que fiz, mas eu estava bêbado e amargurado... Jamais falaria isso a ela em sã consciência — afirmou. — Deus, eu... Onde eu estava com a cabeça quando falei aquilo? — levou as mãos ao rosto. — Passamos por tantas coisas juntos. Ela já fez tanto por mim. Arriscou a vida até. Eu nunca abriria mão de nossa amizade — foi sincero.
Loki estava prestes a fazer um comentário, quando algumas servas entraram trazendo Aredhel em uma espécie de maca. Elas acomodaram a rainha em seu leito de forma a ficar confortável. Ada e Eir, as servas mais velhas, explicaram ao rei sobre as medicações e o atualizaram sobre seu estado.
— O exame minucioso que foi feito na forja de almas não mostrou qualquer coisa mais grave com a rainha — começou Eir. — Ela não corre perigo.
Desolado, Loki se sentou na beirada da cama e segurou as mãos da esposa entre as suas.
— Ela continua inconsciente. Ainda está tão pálida e febril... — ele comentou com tristeza.
— Vossa alteza está muito debilitada em virtude do parto, pois perdeu muito sangue... — Ada esclareceu. — Mas quanto a febre... Ela cede um pouco, mas não passa por inteiro.
— O que ela tem? — questionou Jim.
— Nós ainda não sabemos — Eir baixou a cabeça. — Fizemos de tudo, meu rei.
— Meu amor... — Loki murmurou encostando a fronte na mão dela. — O que você tem? Volte para mim... Por favor...
≈≈
Hela fitava seu prato, sem a menor fome. Uma jovem serva fez menção de lhe servir leite, mas ela recusou com a mão.
— Não... Obrigada — murmurou. — Meus irmãos já vieram tomar café? — inquiriu olhando para a moça ruiva.
— Majestade, nenhum de seus irmãos apareceu para o café. Tampouco pediram a refeição em seus quartos — informou.
— Eu também não estou com apetite... — tirou o lenço do colo e o pôs sobre a mesa.
A jovem de cabelos pretos deu um suspiro e se levantou.
— Ah, que bom encontrá-la sozinha, minha cara Hela — a voz de Eric ecoou no salão.
Ele lançou um olhar desdenhoso para a serviçal, que prontamente se retirou do local.
— Eric, eu lhe avisei sobre o que aconteceu e... — a princesa começou, indo na direção dele.
— E? — ele a interrompeu. — Vou esperar a recuperação de sua mãe e o resto, mas as visitas continuarão. Afinal, como seu noivo, creio que seja meu dever vir lhe oferecer apoio. Logo seremos uma única família — sorriu cinicamente e lhe estendeu um buquê de lírios.
Hela, pegou as flores e o encarou com raiva. Ele se inclinou sobre ela e aproximou os lábios de seu ouvido.
— Eu não dou a mínima para a sua família — falou baixo e encarou-a seriamente. — Então não tente usar o que aconteceu como desculpa para me enrolar. Não vai funcionar. Sua mãe morrendo ou não, você se casará comigo — foi firme.
Furiosa, Hela ergueu a mão para dar uma bofetada no príncipe, mas este agarrou seu braço no ar.
— Não me provoque, Hela — disse entredentes. — Minha paciência é grande, mas não infinita.
A jovem ainda tremia de raiva, quando ele soltou seu braço.
— Eu vou lhe dobrar... — Eric sorriu, puxando-a pela cintura.
Antes que Hela pudesse empurrá-lo, ele a beijou. Dessa vez, em vez de ficar imóvel, ela cravou os dentes no lábio inferior dele. Ele a largou e sorriu de lado.
— Assim que eu gosto... Selvagem... — riu, enquanto limpava o sangue da boca. — Bem... Hoje a visita foi muito prazerosa. Até amanhã, minha amada noiva — fez uma reverência e se retirou.
Hela esfregou a costa da mão sobre os lábios. Teve vontade de gritar, de matá-lo.
— Noiva? — ouviu a voz de James indagar atrás de si.
Ela se virou para encarar o ator e o encontrou a lhe fitar com o semblante carregado.
— Para alguém que estava sofrendo com a possibilidade de eu a tomar como — ele fez aspas com as mãos —, “prêmio de consolação”, você foi bem rápida ao me substituir — disse com amargura.
Sem reação, Hela se limitou a ficar calada.
— Eu me pergunto se você realmente me amou ou se esteve brincando comigo todo esse tempo — Jim prosseguiu. — Pois mesmo depois que começamos a namorar, você continuou recebendo esse cara! E de repente, de uma hora para outra, descubro que já está noiva! — rosnou. — Quando ia me contar? Vocês já estavam namorando antes de nossa primeira noite de amor? Ele sabe que eu e você... — bufou. — Deus! — tentava controlar a raiva que sentia. — Você enganou a nós dois? — perguntou incrédulo.
— As coisas não são bem assim... — ela tentou se defender. — Eu...
— Vai negar? — interrompeu-a. — Acabei de pegar vocês dois se agarrando aqui... — abriu os braços. — Bem no meio do salão de jantar. Para todos verem! — sibilou. — Enquanto todos estão preocupados com sua mãe, você estava aqui, aos beijos com o príncipe Eric! Mas por que você se importaria, não é? Quem é Aredhel para você? Que importância ela tem para a filha amada que já a chamou de vagabunda? Que odeia se parecer com ela? Quem é Aredhel para você, além de sua rival imaginária? — gritou revoltado.
— Não fale do que você não sabe! — berrou a jovem. — Não há um dia no qual eu não me arrependa das atrocidades que disse a ela! Mesmo que tenha me perdoado, eu jamais conseguirei fazer o mesmo. Nunca me perdoarei pelo tanto que a fiz sofrer! — afirmou com os olhos ardendo, tentando conter as lágrimas que se formavam.
— E ainda assim, ela é sua adversária? — ele franziu o cenho.
— O problema não é ela, o problema é você! — Hela rebateu sem pensar.
— Eu? — encarou-a pasmo. — É você que não acredita em mim. Eu não sei mais o que fazer. O que você quer que eu faça para provar que eu te amo? — indignou-se.
Hela respirou fundo e conteve o choro que parecia prestes a explodir em seu peito. Sabia que tinha que colocar um fim nessa discussão. Logo se casaria com Eric e nada a salvaria desse destino. Precisava dar o golpe de misericórdia no coração dos dois.
— Verdade — mentiu. — Eu não acredito no amor que você profere ter por mim — foi firme.
Jim ficou parado, fitando-a inexpressivamente. Um punho invisível apertou seu coração, até fazê-lo em pedaços. Cacos sem valor. Era como ele se sentia naquele momento. Ela pode ler nos olhos dele seu sofrimento. Hela quis morrer.
— Acredito menos ainda nessa amizade desinteressada entre vocês — ela prosseguiu com a voz oscilante. — Nem tanto pela parte de minha mãe. Ela sempre foi uma mulher carente de pai e irmão... Mas você... Tem uma família que, mesmo longe, sempre lhe apoiou. Você é amado. Por que largou tudo para viver aqui? Pergunto-me se foi mesmo por Greta? Será que o ciúme de meu pai é realmente infundado? — tentava manter a voz firme. — São essas dúvidas que jamais me deixariam ser feliz ao seu lado. Meu amor por você não era forte o suficiente para me fazer deixar de lado essas questões. Para não me deixar consumir por elas.
— Era? — ele perguntou impassível. — Seu amor não “era” forte o suficiente? — repetiu. — Então é verdade. Eu já sou passado — deu uma risada sem humor. — Claro... Já ia me esquecendo... Você está noiva — ironizou. — Então tudo o que me resta é aceitar a situação... — balançou a cabeça e a encarou. — Desejo que seja muito feliz em Alfheim — falou rapidamente e deu as costas a ela, deixando o salão a passos rápidos.
Assim que a porta se fechou, Hela deixou que as lágrimas rolassem por seu rosto.
— Eu te amo... E sempre vou amar... — soluçou baixinho.
≈≈
Dois dias se passaram e o clima era de desolação. A festa surpresa de Aredhel terminara de forma trágica e ela ainda se encontrava acamada. A preocupação era generalizada entre os herdeiros do casal. Os filhos e afilhados se revesavam para fazer companhia à rainha e velar seu tão conturbado sono.
Loki era a imagem da tristeza. Sentado em uma poltrona ao lado da cama, ele vigiava e clamava, incansável, pela melhora da esposa.
— Pai... Vamos... O senhor precisa comer — Einmyria o puxou pelo pulso.
— Vá, Loki... Eu ficarei com ela, até você que retorne — atalhou Jim.
Relutante, Loki resmungou, deu um beijo no topo de Aredhel e acompanhou a filha. James tomou o lugar e ficou observando a amiga se mover inquietamente na cama.
O rosto macilento e de expressões sofridas da rainha era fracamente iluminado por uma luz que vinha de um abajur. Tal fato a fazia aparentar estar em pior estado. Jim engoliu em seco ao concluir que não via melhora em seu estado, muito pelo contrário.
Angustiado, ele levou uma das mãos à testa dela e percebeu que a febre estava voltando. Pegou um pano, mergulhou na pequena bacia dourada e pôs sobre a fronte de Aredhel.
— Eu sou um erro... Uma maldição... Não me ama mais... Nenhum gosta de mim... Ninguém... — ela murmurava confusamente, em meio ao delírio.
— Não... Você não é um erro, Aredhel... — ele acomodou a mão direita da amiga entre as suas. — Eu não sei o que aconteceu, mas duvido que Loki não a ame. Tenho testemunhado sua angústia e ele já jurou inúmeras vezes que nada fez, que nem a viu. Eisa chegou a me confirmar isso... — deu um suspiro triste — Seus filhos, todos eles, inclusive os de coração — esboçou um sorriso tímido —, estão todos preocupados. Todos esperamos sua recuperação, gostamos de você... Nós a amamos... Oh, Deus... — meneou a cabeça. — Você não é uma maldição, eu que sou. Sou amaldiçoado para o amor. Aredhel... Você não tem ideia... Estou fadado ao fracasso de amar mulheres que não posso ou que serão tiradas de mim — murmurou com a voz embargada. — Parte do que Hela disse é verdade. Eu a amo desesperadamente e eu lhe juro que esse amor é real, mas... Só Deus sabe o quanto eu te amei um dia. Amei como mulher e não como irmã. Não como hoje... Foram tantos anos, sendo consumido por esse amor que nunca seria correspondido... Tentando esconder isso até de mim mesmo. Carregando a culpa de amar duas mulheres ao mesmo tempo... Sofrendo quando você sofria... — limpou a lágrima que escorreu por seu rosto. — E agora... Mesmo tendo deixado de te amar desta forma, sou assombrado por esse passado. E por conta disso acabei te magoando. Espero que um dia me perdoe. Eu já perdi a mulher que amo. Hela não me quer. Não posso perder a minha melhor amiga.
— Então é verdade... Já foi apaixonado por ela... — a voz masculina ressoou atrás de Jim.
Um calafrio percorreu a espinha de James. O ator virou a cabeça rapidamente e ficou aliviado ao ver que se tratava de Váli. A semelhança da voz do jovem com a do pai, quase fez o coração de Jim sair pela boca. Diante de tudo o que já ocorreu, ele não achava auspicioso que Loki soubesse da verdade.
— Sim, é verdade... — ele, sem alternativa, admitiu. — Amei a sua mãe de outra forma... Mas isso já faz tanto tempo... — foi sucinto.
Váli puxou uma poltrona e se sentou em silêncio.
— Desculpe-me por ter ouvido, mas... — o jovem continuou meio pensativo. — Pelo que entendi... Nem a mamãe e nem o papai nunca souberam disso...
— Não... — disse o outro com cautela. — Sou amigo dos dois e sempre fui. Nunca fiz nada para interferir no relacionamento deles. Eu sei o quanto os dois se amam e...
— Eu sei, tio Jim... Sei que nunca faria algo do tipo... Não é de seu feitio — Váli sorriu de leve.
O rapaz ficou quieto e fitou a mãe por um momento.
— Foi por ela que decidiu ficar aqui? Foram muitos anos? — o príncipe indagou repentinamente.
— De certa forma... Sim... Alguns bons anos... — o loiro passou a mão pela nuca. Aquela conversa, além de constrangedora, o estava deixando nervoso.
— Foi antes ou depois de Greta? — voltou a questionar o moreno. — Quando você disse que amou duas mulheres ao mesmo tempo... Estava se referindo a ela?
— Sim... — anuiu sem graça. — Não é algo de que me orgulhe, mas... Quando conheci Greta eu ainda amava sua mãe. Acabei me apaixonando por Greta e me deixei envolver. Durante anos, o que sentia por sua mãe ficou adormecido. Depois que fiquei viúvo, o sentimento voltou a se fortalecer, mas com o passar do tempo... Virou apenas um amor fraternal.
— E foi nesse período que começou a sair com as suas colegas do teatro? — Váli inquiriu e viu Jim afirmar em silêncio. — Agora muita coisa faz sentido — cruzou os braços atrás da nuca.
Uma nova pausa se fez.
— Váli... — foi a vez de James quebrar o silêncio. — Eu gostaria que você não comentasse isso com ninguém... Acho que só causaria problemas e...
— Não se preocupe, tio Jim... — ele olhou na direção do outro. — Isso é passado. Tocar nesse assunto só pioraria as coisas — crispou os lábios. — Saiba que isso não muda nada o que acho sobre o senhor. Eu o tenho como um segundo pai — disse com franqueza e viu James esboçar um leve sorriso. — Na verdade, saber disso só me faz admirá-lo mais. Mesmo tendo testemunhado o que meu pai fez, nunca tentou tirar proveito da situação. Embora eu ache que nunca teria a menor chance. Mamãe é louca por ele — ficou sério. — E imagino que existam mais segredos. Eisa esconde o que sabe, mas pelo que ela comentou uma vez e por tudo o que meu pai fez recentemente, sei que ele carrega outros crimes...
— Váli... — o loiro tentou interromper, mas o jovem levantou a mão.
— O que quero dizer é que — continuou —, algo me diz que tudo poderia ser pior se o senhor não tivesse escolhido viver aqui. Meu pai uma vez comentou sobre o relacionamento difícil que mamãe tinha com meu avô e meu tio... Então, serei eternamente grato por ter zelado por ela durante todos esses anos. Por sempre ser o amigo, o confidente e o irmão que minha mãe precisava.
— Ah, Váli... Você não precisa agradecer... — corou Jim. — Eu faria qualquer coisa por ela... Aredhel não tem ideia do quanto cativa as pessoas...
— Verdade... Ela não tem ideia do quanto a amamos e o quanto é importante para nós... — o filho disse com tristeza, olhando para a mãe.
≈≈
Mais uma noite se passou na qual Loki permaneceu em claro. Para seu alívio, no início da manhã do terceiro dia, a febre de Aredhel finalmente cedera. Convencido mais uma vez por suas filhas, ele deixou a poltrona que ficava ao lado da cama e, contrariado, desceu para comer. Ele aproveitou a ocasião para se reunir com todos e informar sobre a melhora da esposa.
Algum tempo depois, Aredhel despertou. Ainda confusa, ela fitou o teto do quarto e tentou se levantar. Com muita dificuldade, conseguiu se mover. Seus músculos estavam doloridos e pareciam rígidos.
Sentou-se na cama e, levando uma das mãos à cabeça que doía, olhou ao redor e notou que estava sozinha. Para sua infelicidade ela sentiu falta de outro item que a fez lembrar de seus últimos momentos antes de perder a consciência: o berço. “Meu Deus... Ele está morto...”, a voz de James em sua lembrança, lhe atingiu feito um soco.
— Meu bebê... — arfou, levando ambas as mãos aos cabelos. — Morreu... A culpa é minha... Minha... — lágrimas desceram por seu rosto.
A dor a tomou por completo, envolvendo-a e fechando-se sobre ela. Aredhel se afogou no mar de sofrimento contra o qual vinha tentando nadar incansavelmente.
≈≈
Loki, James e Váli conversavam no corredor, próximo ao quarto. Hela tinha chegado ao topo da escada e avistado-os, quando um grito ecoou. Na hora todos reconheceram a voz agonizante que o emitira e correram para o quarto.
Ao entrarem no local encontraram Aredhel jogada no chão chorando copiosamente.
— Mamãe! — gemeu Hela, levando uma das mãos à boca.
— Aredhel! O que houve? — correu Loki e a ergueu do chão.
Ela o encarou, toda trêmula e com o rosto banhado pelas lágrimas.
— Isso é ficar louca? — ela perguntou, com os olhos arregalados. — Ver seu passado voltar para lhe atormentar? Assistir seus maiores medos se apresentarem à sua frente? Vivenciar cada pesadelo que se teve? Vê-los se tornarem reais? — soluçou. — Deus! O que fiz? — berrou agarrando a roupa do marido.
James, Váli e Hela, assistiam a cena estarrecidos. Um pensamento macabro passou pela mente deles, incluindo a de Loki: Aredhel enlouquecera.
— Meu amor, do que você está falando? — o rei perguntou preocupado.
— Eu não deveria existir! — Aredhel respondeu com um sorriso doentio nos lábios. — Sou um erro para meus pais, um peso para um marido que não mais me ama e um incômodo para meus filhos — afirmou com veemência. — Eu sou uma abominação na vida de cada pessoa que cruzo o caminho. Levo a morte, o fracasso e a destruição aonde quer que eu vá. Como um mal que se alastra feito uma nuvem de tempestade. Uma névoa que se espalha e faz todos se perderem para sempre — seu olhar se perdeu em algum ponto da parede que fitava. — Meu pai, minha mãe, Will, Greta, Jane, Barton... — citava.
— Aredhel... Não faça isso consigo... Isso não é verdade... — disse Jim se aproximando.
— Não? — ela o encarou com o mesmo olhar alucinado. — Você mesmo disse que sou uma maldição. Que minha amizade o atrapalha. Eu levei a desgraça até a sua vida... Greta morreu no meu lugar... — baixou os olhos.
Jim perdeu a fala e as lágrimas de culpa transbordaram de seus olhos. Como se arrependia do que dissera a ela.
— Até a minha aparência é um infortúnio — Aredhel olhou para Hela. — Minha filha abomina se parecer comigo. Nossa semelhança impede a felicidade dela e de meu amigo... Ah... Por quê Deus não quis que fossemos diferentes? — mordeu os lábios, virou-se para Váli e o fitou longamente. — E eu sempre vou ser um peso... Um ser inútil... Afinal, sou apenas uma humana... — ergueu os ombros.
Váli desviou o olhar, Jim tentava conter as lágrimas e Hela deixou escapar um soluço. Loki permanecia estático.
— Eu sou uma ameça à felicidade de todos, inclusive à sua — ela voltou a encarar o esposo. — Sei que não me ama mais e que inclusive tem uma substituta... Bem... Na verdade a oficial... — ensaiou uma ironia.
— Substituta? Do que você está falando? — Loki meneou a cabeça, claramente confuso.
— Sigyn... A sua esposa na mitologia... — esclareceu. — Meu marido deseja a liberdade, meus filhos me rejeitam e sou uma figura cuja convivência é indesejável por meu melhor amigo... — murmurou sem emoção. — Só me restou a solidão... Não se pode evitar ser quem realmente somos... — balançou a cabeça debilmente. — Deus é testemunha de que ficaria ao seu lado — cerrou os punhos e aproximou o rosto do dele —, que eu suportaria todas as humilhações possíveis — dizia entredentes — e sacrificaria minha vida para satisfazer seu ego... Faria tudo isso... Qualquer coisa... Apenas para ver meu filho crescer... Mas neste momento... — sua voz morreu.
Subitamente, Aredhel agarrou os pulsos de Loki.
— Eu lhe peço... — ela o encarou com olhos de quem clama. — Em nome do amor que um dia sentiu por mim... Do amor que lhe dediquei durante todos esses anos... Eu lhe imploro... Eu lhe suplico que me mate — disse em um sussurro, pondo as mãos de Loki em seu pescoço. — Liberte-me da agrura de continuar vegetando, de persistir nessa existência inútil... Eu... Eu jamais... Jamais conseguirei conviver com tanta culpa... — soluçava. — Poupe-me de tal tortura e dê um fim a essa minha miserável vida...
A comoção transbordou e encheu o quarto com sons de prantos sofridos. O desabafo de Aredhel havia exposto velhas e recente feridas, fazendo Loki, Jim, Hela e Váli, sufocarem com seus remorsos particulares. A declaração deixara evidente o estado do coração dela, mas também reduzira a pedaços, não só o coração, mas também a almas dos presentes.
— Eu não posso fazer isso, Aredhel... — foi tudo o que Loki conseguiu dizer em meio às lágrimas incessantes que desciam por seu rosto.
— Por quê? — ela perguntou agonizante, cerrando os olhos à espera de palavras de posse.
— Porque eu te amo... — declarou pausadamente, descendo as mãos até os ombros dela. — Eu jamais faria isso... Nunca a machucaria por querer... — confessou de modo sincero.
— Então me diga onde posso encontrar paz? — pendurou-se no traje dele. — Diga que eu, pelo menos, mereço ter paz... — rogou desesperadamente. — Estou tão cansada de lutar por ela... Não tenho mais motivos para prosseguir... Ele, que era meu motivo para continuar vivendo... Por quem eu levantava todas as manhãs... Meu único motivo para continuar lutando até meu último suspiro... — arquejou e apertou as mãos junto ao peito. — Meu filho está morto — sua voz sumiu em um soluço — e por minha culpa... — fitou as próprias mãos. — Eu não tenho mais motivos para viver... Não tenho nem o direito de continuar viva...
— Pelos deuses! — estertorou Loki erguendo a cabeça, mirando o teto dourado o quarto.
Ele apertou os olhos e, em seguida, olhou na direção dos outros três.
— Vocês dois! — rosnou para os filhos. — Tenham misericórdia! Vão logo buscá-lo! — ordenou angustiado. — Querem que ela enlouqueça de vez? Mexam-se! — berrou.
Hela e Váli prontamente se recompuseram e obedeceram. Saíram aos tropeços do quarto.
— Loki... Por favor... Explique logo a ela... — pediu James com a voz fraca, visivelmente emocionado.
Aredhel franziu o cenho e encarou o marido.
— Aredhel, Jörmungand está bem... Nosso filho está vivo! — revelou.
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