Notas iniciais
Mais um capítulo dessa história que eu estou adorando escrever. Muitas idéias estão surgindo na minha cabeça e pretendo continuar contando essa história. Bem, espero que gostem e aproveitem.

A escuridão era insuportável. Os gritos e o som da sua própria respiração se misturavam em uma cacofonia de desepero e morte. "O que eu fiz para merecer tal destino ? Meu filho, o reino, Ledoc...".

O lance de escadas parecia descer infinitamente, enquanto Myrthile se aventurava pelas passagens secretas do castelo. Suas pernas doíam, sua cabeça latejava. "Preciso sair daqui", pensava enquanto seu mundo se reduzia cada vez mais aos sons do seu próprio respirar. Mais alguns degraus, uma grade de ferro carcomida estava à sua frente, trancada por meio de um cadeado. "É o meu fim." Ela tinha aceitado o seu destino. Morrer ali, sozinha, na escuridão... "E com o herdeiro de Arthedain no meu ventre.". Por alguns instantes, Myrthile decidira entregar sua sorte aos deuses e sentou-se num degrau meio destruído, meio poeirento. "Ledoc, me perdoe. Eu não fui forte o suficiente, eu não fui mulher digna de casar com você.". Lágrimas correram pelos seus olhos. " Meu filho, me perdoe por não deixá-lo conhecer o mundo. Oh deuses, me ajudem, me ajudem, me ajudem...". Eles pareciam não ouví-la.

Ela não soube quanto tempo passou ali embaixo, no entanto, um fio de esperança surgiu em seu âmago. "Eu preciso salvar esta criança. Meu filho...". O pensamento foi interrompido com barulhos de pedras caindo e sons de homens morrendo. Myrthile não viu, apenas sentiu seu corpo sendo arremessado para trás e sua visão escurecendo antes de desmaiar. "Oh, finalmente morri", não conseguiu mais pensar em nada.

Quando finalmente abriu os olhos, a dor em sua nuca era excruciante e gotas de sangue coagulado manchavam os desgraus e o corpete do seu vestido. Sim, ela agora conseguia reparar nos detalhes do piso e da sua própria roupa. A passagem estava iluminada. Myrthile lutou para se erguer novamente. "Por meu filho, por Ledoc." Quando finalmente conseguiu ficar de pé, um clarão penetrou sua visão e seus olhos doeram. " Não, não é possível. Devo estar sonhando, até um momento atrás este lugar era completamente escuro. Foi tanto tempo assim que fiquei desacordada ?", pensou, enquanto sua vista se acostumava a avalanche de luz.

Após uns instantes, ela finalmente viu. A grade não estava mais lá, a parede também havia sumido e ela não caiu por pouco. Olhou para o lado e viu as terras que antes foram Arthedain, passadas pelo archote, negras. "Não, não, não...". Campos que antes serviram para alimentar toda a população do Rei Ledoc, estavam completamente destruídos. Animais mortos com suas entranhas espalhadas pelo chão, homens mutilados, cabeças espetadas em estacas, crianças nuas correndo e gritando, mulheres sendo violentadas, faziam parte do inferno que se tornou Arthedain. " Não, não, não...".

À frente de Myrthile, a escadaria continuava descendo e se misturando cada vez mais às entranhas da montanha em que se situava o Palácio Real. Talvez ainda houvesse uma chance para o jovem rei. No entanto, de onde a rainha estava, ela precisaria pular um fosso que havia se criado após o impacto das pedras lançadas no castelo. As esperanças de Myrthile ruíram. "Talvez eu devesse voltar e tentar sair por outro lugar. Não há saída por aqui. Se eu ficar, certamente morrerei e toda a lnhagem de Ledoc se extinguirá. Preciso voltar e sair daqui o mais rápido possível."

A rainha preparava-se para partir quando ouviu vozes e gargalhadas vindas do topo da escadaria.

– Hah ! Está na hora da pilhagem, rapazes. — falou um homem com uma voz cortante.

– Sim. Vamos ver o que esse reizinho andava escondendo no seu quarto. — respondeu uma voz mais grave, mais séria.

– Apenas acabem logo com isso. O Voodyn disse que queria todos nós reunidos no Grande Salão para celebrar a vitória com a decaptação do rei. — uma terceira voz falou. Este parecia ser o chefe do bando. "Ele está vivo ! Ainda há esperança. Afinal, eles ainda pensam em decapitá-lo. Deve haver um jeito de salvá-lo das mãos desse tal de Voodyn."

Myrthile ouviu um dos homens cuspindo. — Que se foda esse tal de Voodyn. Que graça tem decapitar um rei que já esta morto, hã ? Pra você, Skraz, deve ter tido alguma graça, afinal foi você que cortou a gargante daquele desgraçado. — outro cuspe. — Eu fico. Vão os dois chupar o pau do Voodyn. Tenho objetos para saquear.

– Isso é uma ordem, Dolf ! — respondeu a voz que parecia ser de Skraz. — Você vem, e vem agora. Ou terei que lhe trazer à força ? — Metal roçando em couro. — Você não iria querer sua cabeça junto da do Ledoc, não é mesmo ? — silêncio. — É... Eu estava certo. Agora, vocês doi venham comigo. — mais uma vez o som de aço em couro. — Haradyn, tome conta desse desgraçado antes que faça alguma besteira.

– Sim, capitão. Às suas ordens. — silêncio mais uma vez.

Myrthile estava em choque. " Não, pelos deuses, não...". Rios de lágrimas escorreram pelos seus olhos. "Está tudo acabado, ele morreu, ele está morto ! É o nosso fim...". A rainha estava se tremendo enquanto agarrava sua própria barriga num abraço selvagem. "Se pudesse, acabava com o meu sofrimento e do meu filho agora mesmo e me reencontrar com Ledoc nos céus. Talvez seja isso que eu realmente deva fazer... Me entregarei à morte e à lâmina do carrasco."

Myrthile reuniu todas as suas forças que ainda restavam e subiu a escada, retornando para o seu cômodo. No topo da escadaria, uma parede falsa tapava a saída daquele lugar. No canto dessa parede, uma corrente de ferro enferrujada estava presente. Antes da rainha puxar a corrente, colou seus delicados ouvidos manchados pelo sangue derivado do baque em sua nuca na parede fria. Não ouviu nada. Puxou a corrente e a parede se moveu. Aquilo pareceu durar uma eternidade enquanto Myrthile esperava para encarar sua morte de vez. Quando finalmente teve a visão do seu quarto, o choque foi instantâneo. As venezianas que protegiam o rei e a rainha foram arrancados, rasgados e jogados ao pé da cama. Estava com manchas de sangue. Roupas, acessórios, jóias, móveis, quadros, tudo estava quebrado, revirado e jogado ao chão. Sua cama era uma decepção. O corpo de uma das criadas mais novas, parecia ter uns dezesseis anos, estava no colchão da rainha. Seu corpo possuía marcas de sangue coagulado em todas as suas partes, um corte abriu a garganta da criada até as orelhas. Myrthile olhou mais de perto e notou que a menina tinha falta de dois ou três dedos. Pelo jeito que o corpo havia sido deixado, com marcas de unha, dente e outras coisas, as pernas abertas e completamente nua, provavelmente a serva tinha sido estuprada e lutado antes de finalmente deixar este mundo. "Deuses, nos salvem.". Por um momento Myrthile se esqueceu de tudo e o mundo à sua volta escureceu. " Eu nem sabia o nome dela... Como sua alma descansará em paz se os ritos funerários não forem cumpridos ? Eu podia fazer isso, mas eu não sei seu nome... Era meu dever como rainha saber o nome de todos aqueles que me servem, não ? Bem, agora não importa mais."

– Que sua alma descanse em paz, filha. — disse, se aproximando do corpo e fechando os olhos que outrora ainda queriam contemplar o mundo e as belezas que nele existiam.

Myrthile ainda passou um longo tempo contemplando aquele cadáver na sua cama, quando finalmente lembrou-se do que tinha que fazer. Saiu do seu quarto e caminhou pelo corredor em direção ao Grande Salão. "Nos uniremos nos salão dos mortos hoje, Ledoc.". Notou que os quadros em homenagem aos antigos reis de Arthedain haviam sido destruídos, queimados ou roubados. Sentiu falta deles enquanto percorria pelo mar de cadáveres e membros mutilados.

No final do corredor, a porta para o Grande Salão encontrava-se fechada, mas era possível ouvir vozes do outro lado. Vozes gritando e conversando. "Os desgraçados estão comemorando enquanto esperam a morte do meu marido. Darei a eles mais um motivo para festejarem.". Myrthile estava abrindo a porta, quando uma voz a chamou:

– Senhora, senhora, por aqui, por favor ! — não era mais que um sussurro.

A rainha virou-se na direção do sussurro e encontrou uma velha na porta que estava do seu lado. Pelas roupas precia ser outra servente. "Eu nem sabia o nome dela..."

– Q-quem é você ? — perguntou a rainha.

– Eu me chamo Olena, Vossa Graça. — a velha fez uma curta reverência com a cabeça. — Siga-me, por favor. Tem um grupo de sobreviventes aqui que se escondeu em uma das passagens secretas.

"Mas como que ela sabe de tais passagens. Nenhum criado sabia da existência delas. O único que sabia era o... Bem, isso não importa. Devo me juntar ao meu marido."

– Querida Olena, obrigada pela oferta mas eu devo me juntar ao meu marido, — disse, decidida.

– Mas, senhora, s-seu marido está morto... — disse, num tom de tristeza.

– Eu sei, e é por isso que irei me juntar a ele. Não há saída, Olena. Por isso decidi ir junto com ele. Pretendo me entregar a esses homens.

– Senhora, Vossa Graça não deve fazer isso. A senhora é a única esperança que nós temos.

"Sou mesmo ?"

– Não há mais esperança, Olena. Vocês viram o que esses homens fizeram e o que vão fazer quando descobrirem vocês ai. Não há como escapar disso. Aceite logo o seu destino e abrace-o. Será mais fácil.

– Talvez a senhora tenha razão. Mas eu digo que ainda há um jeito de se escapar disso, daqui...

– Você está enganada e eu ja fiz a minha decisão. Boa sorte, Olen...

Golpe. Dor. Escuridão. Sonho...

Abriu os olhos, ouviu o cantar dos pássaros e disse:

– Aonde eu estou ?

– No paraíso, Senhora.