Ascensão - Um conto de Arthedain
3 Viajantes
A velha ja caminhava a horas. Há noites ela não ingeria comida alguma a não ser alguns insetos que se abrigavam nos troncos das árvores. Quando eram assados em um fogueira, o sabor ficava mais palatável, no entanto, esse era um luxo que a velha e seu grupo não possuíam mais. "Eles estão muito perto.". Ela estava muito fraca, seu estômago doía de fome e seu intestino jorrava uma água marrom fazendo-a ficar com um sede incontrolável, porém quando procurava algum rio ou lago para saciar sua sede, conseguia beber apenas lama e morte. Muitos cadáveres ainda eram vistos flutuando aqui e ali. E o eterno caminhar prolongava-se assim a dias.
Após algumas noites sem comida e água potável, a velha revoltou-se:– Não podemos mais continuar assim, ou senão vamos todos morrer de fome, de sede ou doentes ! Nossa missão terá sido em vão... — lamentou a velha para o seu grupo enquanto caminhava por um extenso corredor verde cheio de pinheiros e vegetação rasteira.– Precisamos caminhar e seguir em frente, Olena. — disse um velho vestido com uma túnica acizentada meio comida por traças e suja. — Não perca a fé agora, eu lhe peço isso. A rainha precisa chegar em Longwood e ir imediatamente ao encontro da sua irmã. — olhou de relance para Myrthile que ja estava pálida e vomitava regularmente. — Ainda, não acho que falta muito para chegar lá. Mais alguns quilômetros, talvez um dia ou dois de caminhada até vermos os portões da fortaleza. — coçou a sobrancelha."Será que ele enlouqueceu ?", pensou Olena, "Nesse ritmo a rainha não durará nem mais um dia. Preciso convecê-lo que é melhor pararmos por enquanto. Tem de haver alguma hospedaria aqui por essas bandas, pelo menos, eu rezo para que haja."O céu começou a escurecer.– Acho que vai chover, Meryn. — disse um jovem de cabelos castanhos lisos e olhos sorridentes que trouxera consigo uma espada enferrujada que achou nas forjas de Arthedain antes do castelo ser tomado pelos exércitos de Voodyn. — É melhor parar e achar um lugar para se abrigar. A senhora Myrthile pode ficar ainda mais doente.O velho respondeu. — Sim, devemos parar. Se bem me lembro, virando à esquerda mais ali na frente, há um homem que sempre fazia favores ao rei. — tremeu ao falar essa palavra. — No meu tempo de arauto, o rei Ledoc sempre me mandava aqui para falar com ele, talvez consigamos alguma ajuda se o homem se lembrar de mim depois de todo esse tempo. Se o homem estiver bem-humorado hoje, talvez até nos empreste a sua carroça. Não há lugar para todos, claro, mas acho que nínguem se importaria de passar um tempo embaixo de um teto que proteja da chuva e perto de uma lareira que aqueça os ossos, não é mesmo ? — virou-se para o restante do grupo e deu um leve sorriso.Os olhos de Olena se iluminaram ao ouvir o que Meryn tinha dito. "Um teto... Sim, um teto e uma lareira ! É tudo que nós precisamos e de um pouco de comida. Ja faz tanto tempo que eu não sento embaixo de um teto, muito menos ver uma casa que não estivesse ou queimada, ou tomada por aqueles bastardos. Obrigada, obrigada, Deuses !"Quando os primeiro pingos de chuva começaram a cair, o grupo rapidamente procurou abrigo e acharam uma gruta vazia. "Finalmente um pouco de sossego". Dentro da caverna, o grupo ria e se divertia com as piadas do jovem Artur sobre uma vaca e um fazendeiro. A perspectiva de um lugar decente para se abrigar deixou todos mais animados e com uma energia a mais para completar o último estágio da viagem. Até Myrthile que estava pálida e nunca falava mais que uma ou duas palavras, ganhou uma nova cor e riu das piadas de Artur. Estava tudo acabado, eles finalmente iriam descansar e reabastecer a força.Havia se passado quase um mês desde que encontraram a rainha sozinha e desamparada, pronta para se entregar aos homens de Voodyn e a tinham tirado de lá. "Bem, isso se confiarmos no Meryn para contar os dias", pensava Olena enquanto Artur ja contava outra piada, dessa vez foi a de um dragão com um pombo. "Amanhã estará tudo acabado..."O dia nasceu cinzento mas dava sinais que o clima iria melhorar com o passar das horas. Todos acordaram alegres e ansiosos para que o grande momento chegasse.– Vamos, vamos, seus molengas e minha senhora. — falou Artur depois de se espreguiçar. — Já consigo sentir o gosto do café da manhã na minha boca. Ovos, bacon, pão, queijo... — estava coom água na boca e seu estômago roncava alto.Aos poucos todos despertaram e continuaram a caminhada, conversando e se esquivando das poças que se formaram após a chuva que durou a noite inteira. A floresta fazia uma curva fechada para a esquerda e subia, exigindo ainda mais das pernas dos viajantes. Quando Olena iria gritar para que parassem, uma casa de médio-porte, meio deteriorada pelas intempéries mas ainda em bom estado com uma placa que dizia: Lar da Senhora, surgiu na visão dos viajantes.– Finalmente, chegamos, amigos. Lar da Senhora, sim, esse é o mesmo nome que me recordo. Vamos, la dentro encontraremos o homem que pode nos ajudar. — disse Meryn, enquanto se dirigia para a taberna.
"Sim, sim, finalmente.", lágrimas rolaram pelo rosto de Olena.Ao chegarem no estabelecimento, Meryn bateu a porta e ouviram um rugido do outro lado:– Vai logo atender a porta, Thomas. Podem ser clientes que querem um lugar pra ficar. — disse uma voz de mulher.– Clientes ?! Nesses tempos ? Jamais... Devem ser aqueles desgraçados do Voodyn que vem exigir mais alguma coisa que nós não temos. Vai lá pra dentro e leve as crianças com você. — uma voz masculina respondeu.Quando finalmente a porta abriu-se, Thomas tomou um susto com aqueles viajantes e disse:– Já disse, não temos nínguem escondendo aqui. Se vocês seguirem adiante, podem falar com a senhora Flowers. Não adi... — o rugido do homem emudeceu e ele olhou melhor para o homem que estava na sua frente. — Um momento, vocês não parecem ser homens do bastardo... — olhou mais de perto para examinar melhor os visitantes. Hah ! Meryn, meu amigo ! Quanto tempo eu não te vejho, hã ? — Thomas deu um tapa no ombro do velho. — Mary, vem aqui. O velho Meryn finalmente reapareceu. E enquanto a vocês. — se voltou para o grupo novamente. — Vamos entrando que eu a Marya vamos preparar alguma coisa pra vocês comerem.– Thomas, é... Preciso conversar com você a sós se não for do seu incômodo. — disse Meryn preocupado.– Claro, como desejar. Mas entrem logo. Está frio aqui fora.Dentro da taverna uma onda de calor alcançou os rostos dos viajantes e reanimou os seus espíritos novamente. Da cozinha, um cheiro de carne sendo assada dominou o ambiente enquanto Thomas servia copos de cerveja gelada para eles. A taverna pelo lado de dentro era bastante acolhedora e os bancos bastantes confortáveis. Olena sentiu-se segura novamente.Assim que o grupo se fixou perto do galpão e Marya servia pratos de porco assado, torta de aves e bolo de morango , Meryn se levantou e foi ter com Thomas numa mesa reservada. Os dois comiam e bebiam.– Então, velho Meryn, me diga como você está. Nós aqui no Senhora ficamos sabemos do ataque no castelo que você trabalhava e ficamos preocupados com você e com as pessoas que ainda estavam lá. É uma sorte que você esteja vivo. Como chegou até aqui ? — perguntou Thomas após um gole de cerveja.– Bem, primeiramente queria agradecer a você Thomas e a sua esposa por nos abrigarem na sua estalagem. Ficamos realmente gratos. Se não fosse você, poderíamos estar mortos agora. Agora deixe-me contar a história de como chegamos aqui. — após uma colherada de torta de aves, Meryn narrou sobre o ataque a Arthedain, a morte do rei Ledoc, o refúgio dentro do castelo e parou nesse ponto. — Bem, foi ai que a encontramos. — fez sinal com a cabeça para Myrthile.– E quem seria essa mulher ? — Thomas estava com os olhos arregalados ao ouvir tudo o que acontecera.– Ela é a Rainha, meu amigo Thomas. E ela carrega consigo o herdeiro de Ledoc. — disse, olhando seriamente para o taverneiro.Thomas se engasgou e cuspiu a cerveja. — Pelos deuses, Meryn ! Com que intuito você a trouxe para cá ? Todos os dias homens do bastardo vêm aqui me perguntando se eu tenho notícias da rainha e quando eu nego, eles me roubam alguma coisa alegando indenização por eles terem caminhado até tão longe para nada. Eu preciso que você a tire daqui imediatamente. Eles vão me matar se a descobrirem aqui. — dessa vez sussurrou.Sim, também concordo. Só lhe peço que nos deixe passar a noite aqui e amanhã eu mesmo a levarei até a senhora Flowers.– Eu não estou gostando disso, velho. Mas mesmo assim eu a deixarei ficar em contragosto. Aproveitem a refeição. — assim, o homem se levantou e voltou para a cozinha.Os viajantes ficaram ali ainda um bom tempo conversando e esqueçendo pelo que tinham passado. Myrthile dava gargalhadas novamente, Artur dava saltos e Olena reclamava do jovem. Meryn estava sozinho. "Esta vai ser uma boa noite de sono como eu nunca tive.", pensou Olena. "Que os Deuses abençoem Thomas e sua família." Quando a noite finalmente adentrou no salão, Marya saiu da cozinha e foi cumprimentar os companheiros.– Ja que nos apresentamos, meu marido me pediu para que eu lhes apresentasse os seus quartos. Por favor, me sigam. — disse Marya se encaminhando para os andares superiores.O andar de cima da taverna também era bastante simples. Apenas um corredor dava acesso a todos os quartos. Eram cinco no total. Ao caminhar pelo corredor, a madeira rangia e poeria se erguia, mas isso não era nada que pessoas cansadas não pudessem suportar. Os quartos possuíam apenas uma cama de casal, um armário e uma janela que dava para a floresta que circundava a estalagem. Quando Marya terminou de instalar todos nos seus respectivos quartos foi se deitar com o marido e dormiu.Olena ainda ficou acordada um pouco depois de os outros dormirem contando as estrelas que haviam no céu. Estranhamente, o sono que desejava tanto não apareceu. "Finalmente nossa missão completou-se. Conseguimos trazer a Rainha a salvo até este lugar... Se minha filha estivesse viva eu contaria essa história para ela todas as noites. No entanto, os deuses parecem dar com uma mão e tirar com a outra.". A mulher ainda ficou ali por uns momentos quando alguém arrebentou sua porta com os pés.– Deuses ! — exclamou a velha.– Você será a primeira, velha... — disse uma voz cavernosa e monstruosa.Olena so viu um brilho vindo em sua direção. Por pouco ela conseguiu se esquivar, fazendo o machado cravar na parede ao seu lado.– SOCORRO !! — gritou a velha apavorada.– Não adianta gritar, velha. Já estão todos mortos e a Marya esta cuidando da rainhazinha. — um gritou ecoou pela taverna. — Hah ! Aí está sua rainha morta. Agora, é a sua vez. — o homem correu em sua direção e Olena viu. Thomas o taverneiro estava totalmente diferente. Sua pele estava esbranquiçada, seus olhos eram duas bolas avermeladas e no seu pescoço uma mancha negra pulsava.Ela não sabe como conseguiu, mas se esquivou da investida de Thomas e correu na direção da porta. Ao chegar no corredor, a porta em frente a sua abriu-se. "Estou perdida. Não vou conseguir escapar dos dois.". Iluminada pela luz da lua, Myrthile tinha suas mãos enxarcadas de sangue e numa delas uma faca estava pingando o líquido vital da vítima."Ela está viva ! Ela está viva !"– Senhora, sou eu, Olena ! Eu pensei que a S...– Olena, cuidado !! — Myrthile apontou com a faca para trás da velha.A criada so teve tempo para ver seu assassino levantar o machado para partir a sua cabeça. Sangue espirrou por todo o corredor enquanto o corpo da serva caía inerte no chão com a cabeça partida até o pescoço.O que antes fora Thomas se abaixou e pareceu ficar hipnotizado com a avalanche de sangue que saia do corpo da velha.– Sangue, sangue, sangue... — ele dizia, enquanto sugava e se banhava no fluído vermelho.Myrthile não conseguiu ver mais e, correndo, desceu as escadas para sair de lá e voltar para a escuridão que sua vida se tornara.Ela estava aos prantos."Ledoc..."
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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