Notas iniciais
Bom Capítulo! Xoxo Vic Winslet

Naquela noite, quando mostrei o resultado para minha mãe, ela quase pulou de euforia. Começou a falar sobre os diversos planos que tinha para meu futuro dentro da Erudição. Nas expectativas dela, meu caminho já estava traçado. Passaria da iniciação como primeira colocada e iria trabalhar direto no complexo. Após, faria políticas de alianças e conseguiria apoio das outras facções. Me tornaria líder da minha facção e elevaria a qualidade de vida de todos. Depois me canditaria e conseguiria o cargo máximo do Governo de Chicago. Confesso que só de imaginar já me sentia enjoada, aquele era o sonho dela, não o meu. Não queria decepcioná-la, contudo, não conseguia evitar que a frase de Caleb ficasse ecoando em minha mente. Eu deveria pensar em mim. Eu queria isso. Queria poder chegar a um cargo alto por meus méritos, minhas ideias, meus desejos. Queria ter a sensação de arriscar tudo, de tropeçar no meio do caminho, de cair e de levantar.

Havia decido, não iria me submeter a minha mãe. Amanhã, escolheria alguma facção com a qual me identificasse.

Me perguntei quantos jovens estariam com essa mesma dúvida nesse exato momento. Ou será que todos haviam ficado contentes com seus testes de aptidão? Também fiquei pensando no porquê de eu ter ficado consciente durante todo o teste. Será que era normal? Por algum motivo, achei que não era o momento de compartilhar minhas dúvidas com minha mãe.

— Chloe. – A imagem e a voz dela ecoaram em minha mente. Retirei os fones que usava rapidamente e me sentei na cama.

— A senhora já voltou? Nossa, nem ouvi a porta batendo. – Logo após chegarmos em casa, ela disse que precisava buscar algo que havia esquecido no complexo. Retirou de trás de si uma sacola branca de papel com escritas em preto, e me entregou.

— Abra. – Pediu. Abri a sacola e retirei de lá uma caixa de tamanho médio, era toda preta e estava enrolada em um laço azul. Desfiz o nó e abri a tampa da caixa. Assim que me livrei da seda que protegia o material, me deparei com lindo vestido azul. Tirei-o da caixa o pus da frente do meu corpo observando meu reflexo no espelho. O vestido ia até o joelho, era justo, mas nem tanto. possuía um decaimento na frente parecendo uma “gola boba”, e tinha mangas compridas. Era maravilhoso.

— Mãe, é lindo. Obrigada.

— Use amanhã. Você estará linda. Estou tão orgulhosa. – Disse me abraçando. Diante daquilo, qualquer ideia de deixar a Erudição se esvaiu. Ela nunca dissera que sentia orgulho por algo que eu fizesse. Era sempre o típico “Não fez mais do que sua obrigação. Você é Erudita, a perfeição sempre poderá ser melhorada”

Passamos a noite conversando, rindo, contando piadas, totalmente descontraídas, como a muitos anos não fazíamos. À noite, quando deitei em meu travesseiro, tive a plena certeza de que não a decepcionaria. Minha escolha no dia seguinte, seria a Erudição.

Meu despertador soando insistentemente era o aviso de que o dia mais importante de minha vida até ali, estava começando. Fui para o banheiro, tomei um banho arrumei meus cabelos loiros e deixei-os secar naturalmente. Desci as escadas vestindo uma roupa simples, afinal, não correria o risco de derramar café em minha roupa.

— Bom Dia! – Desejou-me minha mãe toda alegre. Tomamos café em um clima de harmonia, rindo e conversando.

— Bom Dia dona Jeanine, Bom dia Chloe. – Desejou-nos Marta chegando naquela manhã. – Peguei o jornal, estava lá do outro lado da área, deve ter voado com o vento. – Informou. Minha mãe deu uma rápida olhada e em seguida largou-o em cima da mesa. Dei uma lida e mais uma vez havia uma manchete contra a Abnegação, desta vez falando de Marcos Eaton, que ocupava o cargo governamental mais importante de Chicago.

— Acha mesmo que ele batia no filho? – Perguntei referindo-me a notícia.

— Não sei, mas por algum motivo Tobias mudou de facção. Se Marcus não consegue nem controlar o próprio filho, como pretende que sua carreira política dê certo.

— E a reportagem de ontem? Sobre Andrew Prior?

— Passei todas as informações que a Erudição tinha. É óbvio que estão desviando comida. A quem eles acham que aquele papinho de generosidade engana. Soube que ele tem dois filhos. Garanto que no futuro irão ser que nem os pais. Natalie, uma transferida vinda da Audácia e ele era da Erudição. Seus pais eram amigos dos meus. Mas ele decidiu abandonar toda a facção para viver uma aventura de bondade e generosidade ao lado da arruaceira da Natalie. Lembro-me de como Rebecca e Thomas ficaram decepcionados quando o filho os abandonou. Não garanto que aqueles lá não tenham Divergentes na família. Sendo descendentes de Edith Prior, nenhum deve prestar. – Disse arrogante. Eu nunca tive ideia do quanto ela detestava os Prior.

— O filho deles era da minha turma de matemática. – Comentei.

— Ridículo. As turmas deveriam ser separadas por facções. Espero que nunca tenha conversado com ele. Não é boa companhia. Iria prejudicar sua imagem. – Me levantei rapidamente e com raiva.

— O que foi? – Perguntou ela ainda sentada. Respirei fundo e respondi com a voz mais calma que consegui.

— Vou me vestir, já está quase na hora de sair. Com licença. – Não esperei resposta. Apenas subi correndo as escadas indo em direção ao meu quarto.

Agora me sentia confusa. E ao mesmo tempo com raiva. Não queria viver em uma facção onde todos pensavam daquela forma. Onde o preconceito era maior do que os gestos. Onde as fofocas ou o sangue falavam mais alto do que o caráter. Unindo o pouco de coragem que ainda me restava, me levantei, coloquei o vestido que ganhara na noite anterior. Já havia me decidido. Iria trocar de facção. Saí do quarto, terminei de me arrumar e esperei minha mãe. Me despedi de Marta e dei uma última olhada na casa, na qual eu sabia que nunca mais seria bem-vinda.

Quando estacionamos na frente do Eixo, percebo o quão alto o prédio é. Suspiro e acompanho minha mãe, entramos e sento na terceira fileira da arquibancada. Ouço o som dos ônibus parando e deduzo que a Abnegação está chegando. Observo a minha volta e percebo que eles e a maioria da Audácia são os únicos que faltam. Meu estomago revira com esta constatação.

— Helen chegou, quer sentar com ela? – Perguntou minha mãe. Neguei prontamente.

— Absolutamente não.

— Não entendo o porquê de não gostar dela.

— A cada cinco frases dela, uma é “Meu pai é do conselho da Erudição”. – Disse numa imitação fininha e exagerada da voz de minha colega. Após rir, ela completou:

— Vamos então apenas cumprimentá-los, o pai dela ainda é do conselho. – Informou. Revirei os olhos. Quando estávamos descendo as escadas, ouvi uma voz dizendo:

— Bom Dia Jeanine. – Ao me virar, constatei que a voz era de Andrew Prior.

— Bom Dia Andrew. Como o Marcus está indo? – Perguntou minha mãe de forma cínica.

— Bem, na medida do possível.

— É, temos que saber de onde esses rumores estão vindo.

— Acho que todos sabemos de onde eles vêm. – Desta vez foi Natalie que se pronunciou.

— Lhe garanto que se estiverem saindo da Erudição, eu descobrirei quem é. – Explicou ela. – Esses são seus filhos? Não sabia que iriam fazer a escolha hoje. Como são seus nomes?

— Eu sou Caleb. Prazer em conhece-la — Disse o garoto sorridente apertando sua mão. Não precisava ser gênio para saber que ele iria acatar o resultado do teste.

—Jeanine Matthews, essa é minha filha, Chloe. – Apresentou-me. Apertei mão dos quatro.

— Você e Caleb estudam juntos, não? – Perguntou-me Beatrice.

— Sim nos cursos de exatas. – Confirmei.

— E você é? – Indagou a líder da Erudição.

— Beatrice. – Sussurrou a menina.

— Vocês têm uma grande decisão para tomar hoje, tenho certeza de que seus pais irão apoiar qualquer decisão que tomarem.

— Não era para ser uma escolha. – Iniciou Beatrice. – O teste deveria nos dizer o que fazer.

— Ainda é livre para escolher. – Respondi, mais para mim mesma do que para ela. Ao meu lado, minha mãe assentiu.

— Mas sua mãe não quer que eu escolha. – Respondeu.

— Beatrice! – Caleb a repreendeu.

— Eu quero que você escolha quem realmente é, qual seu verdadeiro lugar. Não por capricho, não por desejar ser quem você não é, mas por que honestamente você se conhece. Eu quero que escolha com sabedoria. Eu sei que vai. E isso vale para os três.

— Então quer dizer que se hoje, sua filha escolher outra facção, a Abnegação por exemplo, você vai apoia-la? – Questionou Natalie.

— Acredito que Chloe esteja muito confiante em sua decisão. – Começou passando o braço pelos meus ombros – Mas sim, a apoiaria, indiferente de sua escolha.

— Jeanine! – Paul, o pai de Helen a chamou.

— Se me derem licença. – Pediu. E em seguida desceu as escadarias. Antes de segui-la me senti no dever de quebrar o clima gelado que havia ficado.

— Foi realmente um prazer conhece-los, e desculpe qualquer coisa. – Disse para em seguida ir atrás de minha mãe.

Estava no banheiro lavando minhas mãos quando Beatrice saiu de uma das cabines. Usou a pia ao lado para lavar as suas. Quando estava saindo, me chamou:

— Matthews. – Parei e me virei. – Foi mal por antes.

— Tranquilo. Você teve muita coragem, nunca consegui responder a minha mãe. Será muito estranho se eu te parabenizar?

— Só um pouquinho. – Respondeu com um meio sorriso. Que logo se desfez. – Caleb gosta muito de você.

— Eu sei. Também gosto muito dele. – Ouvimos o chamado para que todos fôssemos a parte do auditório de sua respectiva facção.

— Boa Sorte Matthews. – Desejou-me.

— Por favor, Chloe. Detesto ser chamada pelo sobrenome.

— Beatrice. – Cumprimentamo-nos com um aperto de mão e dissemos em uníssono – Boa Sorte.

A cerimônia iniciara-se com todos em pé cantando o hino de Chicago, em seguida minha mãe tomou a palavra.

— O sistema de facções é um ser vivo composto de células. Todos vocês. E o único jeito de sobrevivermos e prosperarmos é cada um e vocês reclamarem seu lugar de direito. O futuro pertence a aqueles que sabem o seu lugar. – Todos aplaudiram e Marcus tomou a palavra.

— Sejam Bem-Vindos a Cerimônia de Escolha. – Iniciou ele. -Bem-Vindos ao primeiro dia do resto de suas vidas. Hoje nossos jovens fazem uma importante escolha. Há décadas atrás, nossos ancestrais chegaram a conclusão de que a causa da guerra não era ideologia política, da religião, raça ou nacionalismo. Mas sim, da personalidade humana e sua inclinação para o mal, seja qual forma for. — Ele fez uma breve pausa. E encarando os membros da amizade tornou a falar. – Aqueles que culpavam a agressão, formaram a Amizade. Aqueles que culpavam a ignorância se tornaram a Erudição. Aqueles que culparam a hipocrisia, criaram a Franqueza. Aqueles que culpavam o egoísmo fizeram a Abnegação. E aqueles que culparam a covardia, foram a Audácia. Juntas, essas facções vivem em paz a anos. Cada uma contribuindo para um setor da sociedade. A Abnegação nos deu líderes altruístas, a Amizade vem nos dando conselheiros e zeladores em entendimento, a Audácia vem nos proporcionando segurança tanto na área interna quanto na área externa, a Erudição nos fornecido professores e investigadores inteligentes, e a Franqueza têm nos entregado dirigentes justos e sensatos. Hoje, é o dia em que recebemos os iniciados que trabalharão conosco em busca de uma sociedade e de um mundo melhor. – Marcus terminou sua fala e todos aplaudiram. A lista começou de trás para frente. Meu coração batia freneticamente.

James Tucker é o primeiro a se transferir de facção, inicialmente era da Amizade e mudou para a Franqueza. Os nomes foram passando e minha angustia aumentando. De repente um nome chamou minha atenção:

— Caleb Prior. – Ele foi até o palco, pegou a faca que Marcus lhe ofereceu e fez um corte na mão esquerda. Parecendo muito calmo, deixou que seu sangue pingasse na água.

— Erudição. – Anunciou Marcus. Uma confusão de burburinhos iniciou, observei minha mãe dar um breve sorriso da mesa dos líderes de facções.

— Beatrice Prior. – Ela foi caminhando vagarosamente, quase podia ouvir seu coração batendo. Pegou a faca oferecida e repetiu o gesto do irmão, deixando seu sangue pingar nas brasas.

— Audácia. – Anunciou o líder. Mais uma sessão de sussurros. O sorriso de minha mãe só cresceu. Mais alguns nomes até que eu ouvi:

— Chloe Matthews. – Meu coração disparou, senti que estava começando a suar frio, e minhas mãos ficaram trêmulas. Respirei fundo e continuei caminhado. Peguei a faca na mão de Marcus feliz por ter parado de tremer. Fiz o corte em minha mão, mas a adrenalina impediu-me de sentir o ardor. Estiquei meu braço para o lado. Eu queria ser corajosa, queria zelar pela segurança. Culpava a covardia. Era da Audácia. Quando meu sangue tocou as brasas, um silêncio se apoderou do ambiente. Marcus demorou cerca de cinco segundos para anunciar o resultado. Ouvi um baque surdo. Era a cadeira de minha mãe que caíra quando ela se levantara de forma súbita.

— Audácia. – Anunciou Marcus. Pus minha melhor feição confiante e desci do palco, indo em direção a plateia que gritava em comemoração. Sentei-me ao lado de Beatrice. Que sussurrou:

— Que audácia.

— Literalmente. – Concordei. Sorrimos.

Notas finais
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