Ascendente
3 Audácia
Notas iniciais
A cerimônia de escolha acaba e cada facção recebe a indicação de seguir seus respectivos líderes. Max, o líder da Audácia é o mais jovem entre seus colegas. Sua pele é morena, possui uma barba rala e um semblante sério. Ele nos instrui a sair do prédio e seguirmos os outros membros da Audácia, que, segundo ele, já sabem o que fazer. Quando estou prestes a obedece-lo, sinto que sua mão está em meu ombro.
— Se conseguir passar da primeira parte da iniciação com esses sapatos, juro que reservo meu cargo para você. – Disse ele. Encarei meus pés. Estava usando um par de sapatos de com um saltinho de sete centímetros. Ele ficava preso ao pé por meio de uma tira de couro. Costumava ter aulas de dança com um semelhante, deduzi que não seria tão difícil correr e pular com aquilo.
— Vou cobrar. – Respondi tentando provar a mim mesma que eu era capaz, em seguida segui os outros.
Vi diversas pessoas escalando a plataforma metálica que levava até os trilhos do trem. Mesmo assustada os segui, agradecendo internamente por estar com um short de malha por baixo do vestido. Como os espaçamentos entre as grades de sustento era curto, conseguia segurar minha mão nos “degraus” superiores e os pés nos inferiores. Quando cheguei lá em cima, tive uma sensação maravilhosa. Sorri para mim mesma, gesto esse que desapareceu quando vi um trem se aproximando e todos pulando dentro dele. Por fim, restaram apenas os iniciados, estes foram acompanhando a locomotiva e entrando com dificuldade nele. Segurei uma barra de metal e impulsionei meu corpo para cima. Tive que fazer força para que meu corpo adentrasse a porta. Assim que me vi lá, suspirei aliviada, mesmo que acreditasse que a iniciação não era somente aquilo. Me escorei em uma parede ao lado de uma garota castanha com vestes brancas e pretas, era uma transferida da Franqueza. Me sentei no chão e seu olhar me acompanhou.
— Se eu estiver sentada, as probabilidades de cair são quase nulas. – Me justifiquei. Ela repetiu meu gesto. Ao seu lado, Beatrice também se sentou.
— Sou Christina. – Se apresentou.
— Chloe. – Respondi.
— É, eu sei. Acho que todos sabem. – Comentou. Não levei a mal, a Franqueza sempre dizia a verdade, independente de você querer ou não ouvi-la. Não possuíam o filtro entre o cérebro e a boca. – É impressão minha, ou estão querendo nos matar? – Comentou olhando de Beatrice para mim. Concordamos.
— Não sei o que você está fazendo aqui. – Iniciou a de cinza.
— Como assim?
— Sua iniciação deveria ser automática, só pela coragem de ter escolhido a Audácia. – Explicou. Eu e Christina rimos.
— Vou usar isso como argumento. Obrigada. – Respondi sorrindo. Continuamos a viagem em um confortável silêncio.
— Eles estão pulando? – Indagou a morena espantada.
— Estão. – Concluí.
— O Que será que acontece se não pularmos? – Perguntou um outro transferido da Franqueza, ele era alto e grande.
— O que você acha? – Perguntou com desdém seu colega. – Vira um sem-facção. – Disse, para em seguida pular. Encarei as duas ao meu lado.
— No três? – Perguntou Christina. Assentimos. – 1, ,2, 3.
Pulamos. Assim que senti meu corpo tocar o chão, soltei uma risada.
— Você é louca. – Exclamou Beatrice ao meu lado.
Ficamos de pé e quando olhei para baixo, vi o corpo de uma menina estirado no chão, os ossos distorcidos. Me arrepiei.
— Meu nome é Max, e eu serei seu líder. A última fase da iniciação, é pular nesse buraco. Aos que se recusarem, acho que não preciso lembrar do destino.
— O que? Acabamos de pular e já querem que pulemos novamente? – Disse o garoto alto da Franqueza.
— Algum problema? – Max perguntou. O garoto negou.
— Mas têm água ou algo do tipo lá embaixo? – Questionou Christina.
— Vão ter que descobrir. – Respondeu o líder. – Quem se habilita a ser o primeiro?
A princípio ninguém se manifestou. Após alguns instantes Beatrice se remexeu ao meu lado.
— Eu vou. – Disse ela. Subiu no pequeno muro e tirou o casaco.
— Isso mesmo careta. Tira tudo – Provocou o outro transferido da Franqueza.
— Cala a Boca Peter. – Disse Christina.
Beatrice pulou e todos corremos para a borda do muro com a esperança de ver algo, o que não ocorreu.
— Próximo. – Chamou Max. Ninguém se manifestou. Unindo toda coragem que eu não sabia ter, dei um passo à frente. Subi no muro e encarei o imenso buraco negro.
— Olha só quem se habilita, a Jeanine dois. – Começou Peter. – O que foi rata de biblioteca? Está fazendo os cálculos para saber qual será o impacto na hora da colisão? – Terminou rindo. Ignorei-o pulando.
Enquanto mergulhava em direção ao desconhecido, me senti livre e feliz. Era maravilhoso. Senti meu corpo chocar-se com algo macio que se comprimiu diante do meu peso, mas logo voltou ao normal. Fui me levantar e me apoiei em uma das primeiras mãos que encontrei.
— Pulou ou te empurraram? – Perguntou o garoto que havia me ajudado. Ele aparentava ter uns dezoito ou dezenove anos, e era indiscutivelmente da Audácia. Seus piercings na sobrancelha e as roupas o denunciavam.
— Pulei. – Respondi.
— Qual seu nome?
— Chloe.
— Claro. Segunda a pular, Chloe. – Anunciou. Saí de lá e fui de encontro a Beatrice.
Assim que todos os iniciados já estavam no complexo, Max apareceu por uma escadaria.
— O quê?! – Iniciou Peter indignado. – Tinha uma porta o tempo todo? E você nos fez pular em um buraco? – Deduzi que fosse o impulso falando, já que em seguida ele ruborizou.
— É óbvio que tem outra saída, achou que nós sairíamos daqui como? Voando? – Respondi sem pensar. A maioria dos iniciados riu, assim como o jovem dos piercings.
— O Treinamento da Audácia consiste em dois estágios: O Físico e o Mental. – Iniciou Max. – Vocês irão ser separados em dois grupos, os iniciados nascidos na Audácia e os transferidos. Entretanto, ao final vão ser classificados juntos.
— Desculpe, mas como assim classificados? – Perguntou Myra, uma menina de aparência frágil que eu conhecia de vista por ser da Erudição.
— Mais tarde seus líderes irão conversar com vocês, exporem as normas e retirarem suas dúvidas. Agora, os transferidos serão levados por Quatro para conhecer o complexo, e os demais, acompanhem Eric. – Terminou. Christina riu.
— Quatro? – Perguntou divertida. – Como o número?
Quatro a encarou. Ele era alto, moreno de olhos verdes. Tinha as feições bem definidas. Sua imagem me parecia familiar, mas não sabia de onde poderia conhecer.
— Exatamente.
— O que aconteceu? – Continuou Christina – O um, o dois e o três já estavam escolhidos? – Quatro encarou-a e com a voz controlada perguntou-lhe.
— Têm algum problema com o meu nome? – A morena ficou tensa e negou com a cabeça. Ele virou-se e reiniciou sua fala. – Irei mostrar-lhes todo complexo, lugar esse que irão aprender a amar. Aqui, levamos muito a sério o lema “A facção antes do sangue”. O primeiro lugar que irei mostrar lhe é o Fosso. Ele... – Novamente parou de falar quando Christina comentou:
— Fosso, nossa. Que nome mais sutil. – Agora diante dela, o líder perguntou.
— Qual seu nome?
— Christina. – Sussurrou. Tive plena certeza de que ela não tinha o controle de suas palavras.
— Christina, se eu quisesse aguentar os espertinhos da Franqueza, teria escolhido outra facção. Aqui eu sou seu líder. Fui claro? – Ela assentiu.
Fosso, realmente era a melhor descrição para o lugar. Era escuro, úmido com aparência cavernosa. Possuía apenas algumas lâmpadas iluminando, dando ao lugar a sala um ar fantasmagórico. Tinha uma ponte sem corrimão que ligava até o outro lado. Para baixo era tudo composto por rochas, e o precipício era tão profundo que não era possível se ver o fundo.
— O abismo serve para lembrar que existe um limite tênue entre a coragem e a estupidez. – Disse Quatro. Prosseguimos. A frase ficou em minha mente.
Assim que terminar de mostrar tudo para vocês, pegarão uma muda de roupa da Audácia. Quando começar o treinamento, seus pontos serão usados como moeda para compras de roupas do que mais quiserem. Vocês podem sair do complexo, sempre acompanhados.
Continuamos com o “tour” e depois fomos jantar. O salão era enorme e haviam quatro mesas compridas. Me sentei ao lado de Beatrice e de frente a Christina. Dois garotos sentam ao seu lado. Um deles veste roupas da Franqueza e o outro da Erudição, mesmo assim não o reconheço.
— Olá. – Fala o primeiro. – Sou Albert. – Após as devidas apresentações, eles começam a conversar conosco.
— O pessoal da Abnegação é estranho. – Comenta Christina após Tris perguntar o que era um hambúrguer e falar que sua antiga facção abomina o egoísmo e a vaidade.
— Sinceramente, é preciso ter muita coragem para ser amigo de alguém da Franqueza. – Comenta o garoto da Erudição, que descubro se chamar Wiliam.
— Por que? – Al pergunta sério.
— Vocês não têm filtro. Falam tudo o que pensam. – Responde Will.
— Mas é melhor isso do que serem falsos. – Cometo.
— Tipo a Helen? – Provoca Beatrice, que agora prefere ser chamada de Tris. Reviro os olhos. Will ri.
— Quem é Helen? – Pergunta confusa Christina.
— A filha de Paul, da Erudição. – Comento. – A cada cinco minutos ela dizia “Meu pai é do conselho”. – Digo em uma voz fina. Todos riem.
— E você respondia “E minha mãe é a líder.” – Brincou Albert. Eu ri.
— Vontade não faltava. – Comentei.
— Sinceramente, acho que todo mundo quer saber, mas ninguém têm coragem de perguntar, então eu, como a mais cara de pau daqui, vou perguntar: Por que você trocou de facção?
— O discurso do Marcus. Quero dizer, eu culpo a ignorância pela guerra, mas culpo mais ainda a covardia. Além disso, em qualquer outra facção, eu seria vista como a filha de Jeanine Matthews. Aqui não. Poderei ser eu. – Assim que terminei eles me lançaram um olhar de compreensão.
— E você Tris? Por que saiu da Abnegação? Batiam em você? – Questionou Al. O encaramos confusos. – Você sabe. Como o Marcus.
— Não batiam em mim. – Tris concluiu. – Vim para cá por causa da comida. – Terminou. Rimos, sem de fato saber se era mesmo uma brincadeira. A natureza da Abnegação os obrigava a viverem apenas com o suficiente.
— Acham mesmo que o Marcus batia no filho? – Indagou Christina parecendo realmente curiosa. Observei Quatro se mexer inquieto ao lado de Al, percebi que mesmo que ele estivesse encarando seu cálice de bebida, estava prestando atenção em nossa conversa. Nem notei quando ele chegou.
— Por algum motivo ele mudou de facção. – Concluiu Will. – Eu acredito que seja verdade. Minha mãe sempre disse que Marcus era estranho. Christina e Al assentiram.
— Eu não sei. – Comecei. – Quero dizer, são boatos. Poderia ser mais relevante se divulgassem pelo mesmo uma fonte, sabe, alguém que pudéssemos perguntar algo.
— Me admira você, não acreditar nos boatos. – Diz Tris. — Quero dizer, não me leve a mal, mas todos sabemos de onde eles vêm.
— É disso que estou falando. Não sou uma cópia da minha mãe. Não penso da mesma forma que ela e também não sou totalmente fiel a Erudição.
— É, mas no caso do Marcus – Iniciou Will, contudo foi cortado por Quatro.
— Já chega. Não quero ouvir sobre suas antigas facções, são da Audácia agora. – Após aquilo, encerramos o assunto.
Depois do jantar fomos novamente separados dos nascidos na Audácia, enquanto eles foram com Quatro, nosso responsável foi Eric.
— Boa Noite, como já sabem meu nome é Eric. Eu levo muito a sério o processo daqui. Existem regras que foram feitas para serem cumpridas. O treinamento iniciará às oito da manhã e se estenderá até as dezoito horas, com um intervalo para o almoço, todos os dias. Todos deverão estar na sala de treinamento no horário e após o término estarão livres para fazer o que quiserem. Poderão sair do complexo, mas somente acompanhados por alguém da Audácia. Ainda terão um intervalo entre cada estágio da iniciação. Aqui – Disse abrindo a porta atrás de si – É o quarto onde irão dormir.
— Desculpe, quarto? – Perguntou Myra o interrompendo. Eric lhe lançou um olhar gélido que quase me fez temer pela vida da garota. – Quero dizer, na Erudição os dormitórios são individuais ou em duplas.
— Então por que você não ficou na Erudição? Não quero saber como eram suas antigas vidas, de quem são filhos ou quão espertos se acham. Estão na Audácia agora. Continuando. – Disse após um suspiro. Existem doze camas e dez de vocês. Acreditamos que teríamos um número maior de iniciados esse ano. – Completou, mais para si mesmo.
— Éramos treze no início. – Exclama Christina.
— Sempre há alguém que não consegue chegar ao complexo. De qualquer forma, serão treinados separadamente dos nascidos na audácia, entretanto, serão classificados junto com eles.
— Como assim classificados? – Pergunta Myra. Tenho vontade de manda-la ficar quieta, mas não o faço.
— As classificações terão duas utilidades. Primeiro a escolha de seu emprego dentro da Audácia. E segundo apenas dez de vocês tornaram-se membros. – Todos começam a murmurar. O encaro estática. – Há dez de vocês e dez nascidos na audácia. Quatro iniciados sairão no início do primeiro estágio, e os demais após o teste final.
— Isso é injusto. Se eu soubesse disso... – Inicia uma garota alta e de aparência forte.
— Está dizendo que se soubesse das classificações não teria escolhido a Audácia? Se for isso pode sair. Não deveria estar aqui. – Repreende Eric. A garota nega com um balançar de cabeça. – Ótimo. Também terão que decorar e seguir o Manifesto da Audácia. Alguém já leu? – Perguntou. Timidamente levantei o braço. Percebi que fui a única e me repreendi mentalmente. Com a boca curvada em um princípio de sorriso, Eric revirou os olhos. – Capaz que não. Lembra de algo? – Perguntou. Eu o havia decorado, e mesmo não querendo reforçar a opinião dos outros sobre mim, decidi por dizer a verdade. Apenas assenti com a cabeça.
— Acreditamos que a covardia deve ser culpada pelas injustiças do mundo que a paz não se ganha fácil, que as vezes, é necessário lutar por ela. Mas, mas que isso: acreditamos que justiça é mais importante que a paz. Acreditamos na liberdade do medo, em negar ao medo o poder de influenciar nossas decisões. Acreditamos nos atos simples de bravura, na coragem que leva uma pessoa a se levantar em defesa da outra. Acreditamos em reconhecer o medo e o que o leva a nos governar. Acreditamos em enfrentar o medo não importa o que isso custa do nosso conforto, nossa felicidade, ou até mesmo nossa sanidade. Acreditamos... – Comecei. Eric me interrompeu.
— Ok eu entendi. Que livro você engoliu? – Perguntou. Eu ruborizei. – Parabéns Matthews, uma tarefa a menos.
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