Asas negras
22 Traição - parte 1
Traição.
Vi aquela frase num livro. Me provocou arrepios.
Kyle não teria o perdão então... pensei. Condenado.
Reservado para o juízo.
Kyle me deu um tempo. Eu sabia muito bem que aquilo não era um adeus, nenhum de nós dois aguentaria ficar mais tempo longe um do outro, mas o tempo era preciso.
De todos os livros que eu tinha lido — especificamente ficção, eu adorava ficção — eu imaginava que se eu estivesse na mesma situação, eu diria sim. Sem conversa mole e ia adorar o novo mundo, para mim apresentado. Mas, agora, realmente estando nessa situação, nada é tão fácil assim. Ser humana, mortal, simples, que podia morrer a qualquer hora — a hora que Deus desejasse — e ter uma rotina era a única coisa que eu sabia fazer e ser. Eu não sabia o que era conviver pessoalmente com um imortal, como me comportar com isso. Um anjo caído. Não era tão fácil quanto eu sonhava.
Sonhar.
Eu sonhava sempre com uma vida diferente — influencia de livros e filmes. Mas a coisa é totalmente diferente. Você enxergava a coisa toda, enxergava que você podia morrer a qualquer hora e deixar seu amado para trás e ele viveria para sempre. Condenado, amaldiçoado a vagar pela terra — vendo pessoas nascerem, cumprirem suas missões e desencarnar. Era muito o que pensar.
Era muito o que decidir.
A noite caiu. Eu estava aninhada no sofá quando Joanne e Athos chegou. Sim, com certeza eles sabiam.
- Te odeio. Ficasse com Riley, mas tinha que levar meu irmão junto?! — disse Joanne, que logo se trancou no quarto. Até Athos, dessa vez, estava bravo e desconfiando de mim. Um dos meus únicos aliados naquela casa. Me senti tão mal, apesar de ser incogruente sentir isso. Eu devia estar feliz. Kyle tinha voltado para mim, mas, eu nunca soube porque, eu sempre me importava com as pessoas a minha volta. Eu sentia-as. Joanne, apesar de estar dentro do quarto, me xingou e brigava comigo atravéz da porta.
Esperei Ephane chegar. Eu sabia que ela ia concordar com Joanne e Athos dessa vez, e eu esperava conscientemente a bronca.
Ela chegou, mas não me olhou calorosamente como sempre. Eu já esperava. Estava com um bilhete na mão, ela me entregou.
- Ephane? — perguntei ao passar por mim. — Não vai brigar comigo?
- Que sentido há querida? Você escolheu conscientemente o que quer. Não vou obrigar-lhe a ficar longe de Kyle, se é o quer... só peço uma coisa. Escolha com quem você quer realmente ficar, e despende o outro. — ela foi sentar-se ao meu lado. Riley, entendi.- Eu cuidei de você como uma filha em Londres, quando sua mae foi ao México. Eu me sinto como uma segunda mãe para você. De qualquer modo, sou sua madrinha de batismo. — suspirou.
- Eu sei, mas...
- Escute. Só escute. Olha, eu vou ficar do seu lado qualquer que for a situação. Caso esteje certa ou errada. Mas não faça Kyle sofrer, não mais. Ele sempre protegeu todos nós, por isso eu o adotei. — ela riu, sem humor. — Líriel era minha filha. Acolhi Kyle quando ela morreu, a antiga família inteira. Mesmo depois da separação. Sabíamos sobre o que ele era, o que era. Então, deixe bem claro quem é que você quer. Vou ficar do seu lado, qual seja o caminho que escolher. Só entenda: Riley pode lhe dar uma vida normal. Pode dar coisas, fazer sentir coisas, fazer você se sentir bem, que Kyle não poderá. Entenda, ele é um anjo caído. É obscuro. Aquela sensação sempre vai continuar a sua volta, nunca vai mudar. É só você se afastar demais, quando você sonhar, ou quando ele estiver fazendo algo mais que ruim, você vai sentir. Vai ter pesadelos. Claro que ele pode fazer você sentir feliz, você o ama. O amor aguenta tudo. Mas nem o torpor pode ter proteger, eu sei o que estou dizendo. Eu sou a mae dele. Ponha quem tem que por no seu devido lugar. Sabe o que eu estou querendo dizer?
Demorei um pouco.
- Sim, claramente.
Eu sabia o que fazer, e sabia exatamente o que dizia naquele bilhete. Era de Riley, claro. E com certeza Ephane tinha lido. Mas abri mesmo assim — para saber a onde íamos nos encontrar.
A Moinho.
Perfeito. E no final dizia...
...Esqueci de dizer que sou o zelador de lá de noite. A porta da frente estará aberta. 11h 30mim.
Será que eu era corajosa o suficiente para entrar pela porta da frente e esclarecer tudo?
Estava um breu.
As luzes por ali piscavam e provocavam sombras tremulas a baixo delas. Eu mal vinha o caminho que estava seguindo. A porta do Moinho estava misteriosamente entreaberta. O vento uivou ao meu lado, eu tremi. Parecia aquelas cenas de filmes de terror. A pessoa chega perto da porta e de repente sombras obscuras e misteriosas te puxam para dentro e te mata. Eu podia ouvir meu subconscientes executar gritos dentro delas, meus tímpanos gritavam.
Era gritos sobrenaturais de tortura.
Eu nunca fui de ver esses tipos de filmes. O único que vi — não dormi por semanas. Bom, não era exatamente de terror, mas foi o bastante para me deixar traumatizada e doente. Jurassic Park. As cenas de sangue, devoração e carnificina era demais para mim. Comecei a passar mal e fui ao hospital. Fiquei realmente doente. Tomei soro e tudo mais.
Dei os três passos até a porta — ainda gritavam no meu ouvido. Talvez fosse só paranóia minha mesmo. Era só entrar, esclarecer tudo com Riley e ir embora. Só isso. Mas porque esse só isso estava me aterrorizando tanto? Talvez fosse só pelo lugar. Era uma possibilidade.
E como vi antes, um espaço enorme e com algumas decorações. De manhã pareceu-me legal, mas agora... aquele Moinho nunca foi tão assombroso. Eu estava no meio daquele espaço com toda aquela parafernalha enorme que fazia o Moinho funcionar. Aquela sensação que eu achava que ia vim, não veio. Isso me assustou mais, mas tentei me controlar. Não ia ser legal ter um ataque bem ali. Kyle não estaria aqui para me salvar.
E fazer um boca a boca.
Ai... foi só eu pensar nisso para me derreter com a lembrança. Era gostoso demais, apesar de estar numa situação desesperadora. Principalmente quando vinha acompanhado de um beijo. Como naquela noite no Central Park.
Ouvi passos atrás de mim.
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