Asas negras

25 Eternidade


capitulo 11 — Eternidade...

Algo estava preparado para mim, num futuro muito próximo.

Ephane me tirou dos desvaneios internos. Da minha briga interna.

- Querida! Tudo bem? Me desculpe por... — disse me abraçando quando Kyle me pôs no chão — ainda preocupado. Não me mexi. Paralisada ainda por tudo que aconteceu e foi dito. Ela percebeu minha tensão. — Foi demais para você, não é? Era disso que eu tinha falado.

Engasguei.

- Boa Aure? — perguntou Athos. Bom, parecia que ele tinha me perdoado.

Joanne ainda observava Kyle, o corpo dele, procurando se havia algum tipo de danificação. Como se Kyle pudesse se machucar! Ela lançou-me um olhar cortante e voltou para o irmão — adotivo, claro. Bom, ela ainda ia continuar a me odiar.

- Ephane, preciso entrar. Preciso de um banho, tudo bem? — perguntei, ainda sem piscar. Paralisada.

- Claro. A vontade.

Arrastei meus pés para a porta, mas Kyle me deteve.

- Posso esperá-la?

- Kyle, não vou fugir se é o que quer saber. — tranquilizei-o, e entrei.

Entrei no banheiro, despi-me e entrei na água fervendo. Apesar do meu corpo rejeitar a temperatura, conforme o tempo ela foi se acostumando e relaxou.

Ultimamente eu tinha muito que pensar. Minha mente devia estar queimando. Eu quase podia imaginar a cena.

Ckipton caído no chão, Kyle com o pé na costas dele pressionando e com as mãos nas asas e... rasg! Sem asas, sem algo que conviveu, que estava mais do que grudado em seu corpo. Era como se tirasse uma das orelhas, um dos dedos, um dos olhos, Ckipton nunca mais poderia voar — se aquilo se chamava voar. Ele quase se arrastava, pois as asas não eram tão fortes. Como eu podia estar sentindo compaixão por ele? Quando ele não... nunca sentiu por mim? Um anjo caído machista como ele era nunca teria, nem merecia. Por que eu sentia tanta pena por ele ter perdido as asas?

Bati na parede de latrinas num punho.

Eu era tão boa assim de alma?! Ninguém é perfeito, só Deus. Eu queria me afogar naquela água fervente para ver se alguma resposta surgiria, mas eu só iria me matar. Só isso. Eu sentia um vazio, não por mim exatamente. Era como se tivesse tirado as asas de mim! Como era possível? Compaixão, pena... era tudo o que eu não queria sentir por ele agora. Ele tinha tentado me matar. Não tinha sentido nada — a não ser raiva e senso de vingança — quando enfiou aquela adaga no meu coração.

Se eu tiver um anjo da guarda, agradeço muito a ele.

Aos tropeços, sai do box e me sequei. A toalha e as roupas estavam em cima da cama... quer dizer, não só elas.

Kyle também.

- Pensei que fosse esperar lá fora. Eu já disse que não ia fugir. — aquelas palavras saíram mais ásperas do que eu tinha imaginado, não tinha sido minha intenção. — preciso me trocar. — acrescentei, mais doce.

- Esta brava comigo?

- Por que estaria? — tentei deixar a voz controlada.

- Você me viu arrancando uma parte alguém.

- Não é verdade. Eu pisquei, perdi tudo.

- Mas sua imaginação é o bastante para me ver como um vilão.

Ai! Ele pensava que eu era o que? Essa doeu.

- Kyle... — sentei-me ao seu lado. -... não seja paranoico.

- Então, não?

- Bom... você tem razão. Eu imaginei, mas Ckipton merecia. Não sei como, mas... não sei porque... isso me afetou um pouco.

- Por que sua alma é boa demais, compreensível. Eu não te mereço.

Não tive como não concordar com isso. Sobre sua alma é boa...

- Posso me torna má também e ai seremos compatíveis. Mereceríamos um ao outro, ok? — brinquei, mas ele não riu. Fazia já um bom tempo que eu não o via rir. Sentia saudades.

- Não, continue boa. Talvez você possa me melhorar. Fazer-me ser que um dia já fui, no céu. — um tom de amargura, capitei.

Afundei-me em seu peito procurando confortar nós dois. Sempre haveria um abismo enorme entre nós, e no meio havia a palavra Imortal e Bom e Mau demais. Não poderíamos ter um final totalmente feliz. Eu morreria um dia e deixaria Kyle vagar pela terra com sua maldição, sem perdão — ou talvez Ckpiton fosse esperto e mandasse alguém para me matar no lugar dele, eu deixaria Kyle. Comecei a chorar. Era impossível não se emocionar com essa situação. Minha garganta deu um nó, tentei engoli-lo, mas era impossível.

Impossível.

Era uma palavra que eu não usava nos últimos dias. Principalmente em minha mente. Afundei o impossível e todas as preocupações no mais profundo de minha mente e só me concentrei em beijá-lo.

Beija-o por toda a minha vida, se fosse possível. Eu queria que ele tirasse toda aquela tensão do meu corpo, toda aquela preocupação e paranoia que deixava o abismo cada vez maior. Eu sabia que não seria para sempre, uma hora teria de acabar, mas tentei aproveitar o máximo possível do meu resto tempo de vida que ainda havia com ele. Tentei fazer uma ponte e transportar por ela toda nossa felicidade e deixar cair tudo aquilo que não fosse essencial e que não fosse bom.

Entrelaçamos nossas mãos — pude sentir o calor humano que vinha de mim. Ele beijou meus cabelos e ficamos ali por muito tempo — pelo menos até eu me lembrar que tinha de me trocar.

Final feliz? Talvez. Havia coisas não terminadas, e eu ainda estava determinada a mudar Kyle. Mudar de um jeito que ele pudesse voltar ao céu, com todas as minhas forças. Até que o mundo acabe ou que eu morra, o que vier primeiro. Enquanto isso, eu estarei lutando com todas as fibras do meu ser, eu ia e vou lutar para que na eternidade Kyle estivesse no céu. Que alcançasse seus sonhos e voasse com suas próprias asas brancas pelas nuvens w...

+_+_+_+_+_+_+_+_+_+_+_+_+_+

(Deletei a letra W)