Asas negras
26 Alguma coisa aconteceu
Notas iniciais
– Pelas nuvens e... — apaguei a frase inteira e comecei de novo, mas empaquei no mesmo lugar. Então parei de digitar. O que haveria depois que ele se fosse? Não havia mais perguntas, na verdade. Kyle agora tinha uma escolha, algo que era tão marcante na minha mente agora que não consegui digitar o resto que aconteceu depois daquele momento e desliguei o computador.
Kyle estava na cozinha, eu podia ouvir o barulhinho do ovo sendo fritado.
"Como se ele fosse comer!" bufei. Kyle não precisava comer, só eu. Eu não achava justo que ele ficasse fazendo essas coisas humanas para mim, já fazia um bom e longo tempo que eu fazia as coisas sozinhas. Acabara me acostumando, sabe? Eu era e sou humana e era a única coisa o qual eu sabia ser, mas eu tinha de dar um tempinho pra ele. Logo ele não estaria aqui. Os Arcanjos haviam perdoado Kyle — disseram que antes de cair, ele tinha sido um ótimo anjo. Um exemplar, aliás. De qualquer modo, Kyle e eu éramos feitos um para o outro e — pelo que sei a vida inteira — amar não é pecado. Por causa dessa pequena benção, Kyle pode ter uma escolha. Logo que a hora chegasse para os Arcanjos me levarem, Kyle voltaria para o céu e tornar-se-ia um bom anjo. Assim, depois de um tempo, eu e ele iriamos para a terra (para cá agora) de novo e ai sim poderíamos ter o nosso final. Só quando eles me levassem, pois agora ninguém podia mais me matar. Eu era protegida. A não ser que alguém la de cima burlasse essa ordem, o que era absurdamente impossível.
Agora só tínhamos de nos conter.
Por quê? Ora! Porque Kyle é um anjo e eu uma humana! Humanos não podê ter com um anjo, é uma regra sem exceções. Kyle e eu não cometeria os mesmos erros dos nossos antepassados — de qualquer modo, os Arcanjos nem deixariam. Não íamos estar um com o outro e depois ter filhos maus e gigantescos. Resumindo, não íamos pecar. Aliás os Arcanjos estavam frequentemente nos visitando e estavam de olho em nos, claro. Justamente porque não vivíamos igual uma humana e um anjo da guarda o qual só a salva de perigos, e sim igual a uma humana amando um anjo o qual só que a unir a ela em um. Mas ainda não sabiam quando eu ia morrer, era isso que nos atormentava.
Agora eu só esperava Kyle terminar de fritar minha comida enquanto a areia da ampulheta do tempo corria sem parar. Ele veio até a mim, deu um beijo na minha testa e me entregou o prato. Sentei no sofá e comecei a comer.
Sabe, eu e ele podíamos nos beijar algumas vezes — pelo menos podíamos fazer isso sem extrapolar com o limite que os Arcanjos nos deram. Mas não era o que eu queria, apesar de ter sido a primeira coisa que eu pedia desde que eu havia o conhecido. Mas agora, nessa circunstâncias, eu só queria era o toque. Algo precioso para mim. Era do que eu precisava agora. A única sensação que eu podia gravar na minha mente mais do que seu beijo era seu toque, a textura da pele, a reação do meu corpo quando seus dedos se entrelaçavam nos meus cabelos. Era uma coisa a qual eu iria gravar na minha mente e levar para além do túmulo. Uma coisa a qual eu levaria para a minha outra vida, a única talvez.
O celular dele tocou.
– Alô? — foi a única coisa que pude entender. O resto... bom, nem tentei deduzir. Kyle fechou o celular num clic rápido e fechou os olhos com força, deduzi que ele se esforçava para não amassar o objeto.
– Quem era?
– Deixa que eu levo o seu prato.
Kyle foi até a cozinha com os olhos fechados, mais fui até ele.
– Não fuja do assunto. Prometeu não me deixar mais sem saber do que está acontecendo. — suspirei. — Era os Arcanjos?
– Ainda bem que não.
– Então quem era? Ah, Kyle! Se eu sei do seu segredo mais intimo, acho que posso saber também sobre quem era.
Num leve movimento, ele quebrou o prato no meio.
– Meu Deus! Kyle! — me agachei logo para pegar o prato repartido ao meio que havia caído no chão. Mal reparei que ele havia também cortado a própria mão com a faca, se querer. — Por favor, não me torture. Largue já essa faca.
– Era Ephane.
– Tudo bem, mas largue essa faca... por favor...
– Elá está doente! — gritou. — E essa porcaria de faca — rosnou atirando longe, quebrando sem querer o vidro da janela. — não é nada comparado com o que aconteceu com ela.
– O que houve?
– E você já não desconfia?! Aquele assassino do Ckipton! — (ps: a pia de ferro já estava toda amassada). — Ele atacou Ephane na saída de casa. Joanne me ligou do Hospital. Athos vai passar a noite lá.
– Tudo bem, mas fique calmo. Ephane deve estar bem agora. Está no hospital, lá eles sabem o que fazer.
– Aure, ela já não tem mais 20 anos. — murmurou indo até a sala e se jogando no sofá com o rosto entre as mãos, desolado. — Ela já está velha. Não vai suportar a cirurgia, vai morrer.
Eu o segui.
– Ela é forte, vai sair dessa. Os médicos...
– Foi os seus queridinhos médicos que disseram isso, Aure.
– Mas é melhor você se acalmar. Espere até amanhã de manhã, porque já está bem escuro e...
– Nós. Vamos. Agora. — Kyle me puxou e, quando vi, já estávamos no carro. Ele afundou o meu cinto de segurança no apetrecho do banco, amassou a porta ao fechar e enfiou o pé no acelerador.
– Kyle... — comecei, temerosa. -... não tenho um bom pressentimento quanto irmos até lá.
– Dane-se pressentimentos!
– Kyle, me escuta...
– Não!
Já que o hospital era pertinho de onde nos hospedávamos, logo ele já havia estacionado e já estávamos do lado de fora.
– Venha!
– Não... dá...
– Aure!... — ai sim ele percebeu porque eu não o seguia mais. — Largue-a.
– Vingança, doce vingança amigo. — e rasgou meu pescoço. Kyle gritou, mas não pude ouvir. Não senti nada de dor, apesar de ter sentido muito bem a lâmina rasgando meu pescoço, minha pele. Meu corpo parecia ter caído no chão, mas agora eu flutuava para o alto. O que havia acontecido? Pelo jeito, chegara minha hora.
Bom, de qualquer modo, agora eu só tinha uma única opção.
Esperar minha hora de voltar.
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