Asas negras

12 Capítulo 6 - Irmão = parte 2


O homem foi embora mais rápido do que eu havia pensado. Bem, se ele queria me meter medo — sim, ele conseguiu. Eu mal fazia ideia onde toda aquela minha coragem tinha ido parar. Onde toda aquela ilógica irracional tinha ido parar. Pela primeira vez, quando olhei sob a rocha para a água, tive medo. Medo e receio.

Só estou dizendo: Ninguém mais vai vir te salvar.

Tinha mais algum significado em aquelas palavras que eu não identificara? Talvez sim. Talvez não. Mas — tendo significado ou não — aquelas palavras tinham feito eu pensar melhor.

E se aquela minha conclusão fosse mesmo absurda?

Eu estaria arriscando minha vida por nada?

É, era muito alto.

Alto o bastante para fazer-me recuar. Agora, pensando bem mesmo, aquela minha logica era completamente absurda e ridícula. Talvez era por causa do ar condicionado mesmo. Ele congelara meu cérebro até aqui.

Quer se matar? Vai em frente!

A palavra matar soou na minha mente por horas. Até que o cansaço fez minhas pernas cederem e deitei na rocha — obrigada, claro. Fiquei ali por um bom tempo sem me mexer — imóvel. Fiquei imaginando que eu estivesse mesmo obsessiva a Kyle. Como se ele fosse uma droga. Eu era como um drogado tendo que escolher entre ficar de bem com a vida e saudável com voltar as drogas e mentir a si mesmo que não ia morrer e ficar iludido. Era assim que eu me sentia. Kyle era ruim para mim, perigoso demais para mim, lindo e gentil demais para mim e, principalmente, confuso demais para minha mente. Eu tinha que acreditar que tudo aquilo que aconteceu fosse uma mera ilusão...

Mas não era.

Minha mente quase gritava para eu me atirar daquele penhasco, mas uma parte dela — a sensata e racional — aconselhava-me a ficar ali e pensar no caso. E eu ouvi ela.

Fiquei lá até adormecer.



Passou muito tempo até eu ouvir uma voz de novo.

- Vamos, hora de voltar a lucidez. — disse a voz me levantando da rocha e me carregando até um... triciclo/táxi. Eu não soube bem descrever, estava escuro e minhas pálpebras se recusavam a abrir. Nem levantei os olhos para Joanne e desabei no banco de carona.

Durante... acho que no meio do caminho... sei lá... foi que senti algo. Bom, não pude ver, mas eu senti algo me afagando. Uma mão passando levemente sob meu rosto me causando uma sensação que eu conhecia — a mesma que senti no restaurante italiano quando Kyle tocou minha mão. A mesma sensação que dizia: sou perfeitamente fabricado para você. E eu sentia medo. Medo de que não durasse para sempre — eu queria que durasse para sempre.

Percebi que Joanne resmungou algo, realmente irritada. Mas não tive chance de verificar se era Kyle ou não — o provável era que não era. Não, Joanne também não era. Só se... não. não mesmo. Nem o motivo do resmungo.

Mas foi rápido. A mão se afastou rapidamente e quando vi já estávamos em casa. Eu sentia o perfume da Ephane no ar.

- Anda logo! Acorda! — ela quase que me jogou para fora do triciclo/táxi. Sai dali aos trôpegos, com as pálpebras bem abertas, e dei de cara com alguém. Ephane, claro.

- Onde você estava! — aquilo não tinha sido realmente uma pergunta. Com isso, achei que não era preciso responder. Ephane estava de avental e com os cabelos pretos e desgrenhados prendidos por uma toca de cabelo.

Athos vinha logo atrás.

- Eu estou bem. Cai no sono. — tranquilizei-os.

- Foi ela de novo. A obsessão em pessoa.

- O que quer dizer com isso Joanne? — perguntei me virando em direção a ela.

- Xecháste to! — gritou Athos.

- Não! Ela precisa saber!

- Saber o que? — perguntei, impaciente.

- Saber que Você é uma assassina.

- Quem?! Eu?

- Não, minha avó... claro que é Você! Quem mais seria? Você matou a vida do meu irmão! Essa sua obsessão pelo Kyle...

- Como... como Você sabe sobre Kyle? O que exatamente Vocês sabem sobre... — hesitei.

- Kyle é meu irmão, se é que não se lembra. Podia no minimo deixá-lo em paz? Ele veio para cá pra se afastar de você e... com tudo que aconteceu... Você e essa sua obsessão o mata! Sabe quantas vezes ele já te salvou?! Sabe quantas vezes ele se expos? Sabe que, na verdade, ele nunca poderá ficar com você? Eu nem deixaria! Você não seria a pessoa indicada para ser... de um... — ela pareceu pensar, como se tivesse quase diro algo que não devia. — É tudo culpa sua! E agora você fica se arriscando... fazendo-o sofrer porque... deixe-nos em paz! Kyle é bom demais para...

Minha cabeça dava voltas. Talvez ainda não tivesse acreditando que estivesse no meio dos Genoom.

- Pera ai Joanne! E o meu sofrimento? Se Kyle é tão bom assim, porque me deixou sozinha anoite? Porque simplesmente não me deu o fora? Se ele era tão bom assim, porque me fez sofrer?! Hein? Mas, quer saber? não me importa. Eu estava prestes a acabar com a minha vida e... isso também não importa. Deixar Kyle em paz? Se ele tivesse me deixado, claro. Então fale para aquele idiota para me deixar em paz que eu ai deixo todos vocês em paz!

- Idiota não Aure. Por que você tinha que se meter com ele? Agora sofra as consequências.

- Consequências de algo que eu nunca quis?! Eu nunca quis me envolver com ninguém! Eu sempre ficava longe de pessoas... homens especificamente, para não me machucar de novo. A culpa é dele... quer dizer, a culpa é minha por deixar isso acontecer. Eu podia ter realmente ignorado tudo o que aconteceu e botá-lo na cadeia, mas... Olha, eu só não denunciei Kyle para a policia porque ele salvou minha vida. Só por isso. E se querem paz então... mas...

- Policia? — mas nem prestei atenção.

A raiva que eu sentia foi diminuindo até que eu percebi que estava dando um chilique maior do que necessário. Eles só queriam paz e eu, sem ter consciência disso, não estava ajudando. Obsessão em pessoa. Bom apelido para mim. E louca também. Se eles e Kyle queria paz — então era paz que eles iam ter. E nunca mais iam me ver também. Eu simplesmente não podia mudar o que eu sentia por ele.

-... mas, mesmo com tudo isso que aconteceu, eu não vou denunciá-lo. Pode ficar tranquila. Vou os deixar em paz se vocês prometerem que eu nunca mais o verei. Melhorará para ambos dos lados.

- Aure..

- Tudo bem, Ephane. Eu vou os deixar em paz, mesmo que minha intenção não fosse ao contrario. Olha, eu vou embora no fim de semana, juro. Mas prometam que nunca mais eu o verei, prometam.

- Eu prometo. Com tanto que você finja nunca mais existir.

- Claro Joanne. — havia milhões de coisas que eu queria dizer a ela, — que estavam entalado no fundo da minha garganta, que iam machucar, mas eu não disse. Eu não queria brigar com Ephane ou com Athos por causa da Joanne, não valia apena. E eu não queria descer meu nível, não mais.

Dei as costas — eu via o pedido de desculpas nos olhos da Ephane. Dei ombros. Joanne que tinha começado tudo aquilo, eu não podia fazer mais nada.

- Só não acredito o quanto você mudou. A Joanne que eu conhecia entenderia meu lado e me ajudaria. Eu não conheço mais você, quer dizer, eu acho que eu nunca conheci a verdadeira Joanne.

E fui dormir.