Asas negras
6 Capitulo 3 -Segurança
Acordei.
Já era dia.
Abri os olhos e fiquei meio confusa ao ver que estava na área dos seguranças. Ouvi murmúrios de gente lá fora, com certeza abrindo as lojas. Ainda meio tonta — por mais que parecesse entranho eu ainda sentir os lábios que me salvaram-, levantei-me. Foi então que senti algo caindo da minha mão. Uma pena. Uma pena preta, negra. Agachei para pegá-la, mas ela simplesmente e sumiu. Quer dizer, ficou um tipo de branco/invisível. O mais estranho ainda, o que podia me fazer ficar sem ar de novo, foi que eu ainda sentia a pena na minha mão. A textura de áspera e leve sob minha mão. Eu queria solta. Largar aquela pena sobrenatural que eu estava segurando, mas simplesmente não fui capaz..
Primeiro: Não sei porque, mas — apesar de não vê-la direito, mas senti-la — era uma coisa que me fazia sentir protegida. Não sei como, mas fazia.
E segundo: Essa era a única lembrança que eu tinha conservado daquela noite estranha, a única coisa da pessoa que havia me salvado. Um homem. Claro! Uma mulher não teria força o suficiente para me carregar até o terceiro andar sem escadas rolantes funcionando e não teria se incomodado a me ajudar.
Então guardei no bolso da calça. A porta se abriu. - Aure? Aure! — Leonard e Vitor correu para me ajudar. Pelo jeito eu estava bem acabada para perceberem
— O que houve? — perguntou Vitor. - Auremeron, dormindo no serviço? Mas não me incomodei com o tom dele, não agora,
- Ckipton, Ckipton, a galeria 07 foi roubada!
- O que?! - É, eu estava lá, mas... de alguma forma, não sei explicar, mas eu parei aqui. Pegou dois quadros e...
- Porque não o pegou?
- Eu... — eu não podia falar que simplesmente o cara me ajudou a voltar a respirar e caído fora. — ... o cara me dominou, bateu minha cabeça na parede e caiu fora. E claro que eu desmaiei, minha cabeça lateja. — fingi massageando as têmporas. Ckipton revirou os olhos.
- Vamos conferir. Descemos as escadas rolantes e fomos exatamente para a mesma galeria que tinha sido roubada. A garota responsável tinha acabado de entrar e veio correndo até a gente.
- Fui roubada! — disse ofegando.
- Já sabemos disso. - A porta estava aberta e havia um monte de espelhos. - O que você fez? — perguntou receado pela resposta.
- Eu recolhi.
- Mais que burra! — disse Vitor.
— Como vamos ver as digitais agora?
- Foi mal.
- Tudo bem. — disse Ckipton.
- O que?! — gritou todos nós. Ele estava doido né? Só pode!
- Tudo bem. - Como "tudo bem" chefe? Perdemos nossa chance de... - Não Leonard, não. não.! Ladrão como esse não deixa digital. Acho que conheço quem... mas pode ter certeza que dessa vez ele não vai devolver. Não mesmo. — murmurou parecendo para si mesmo.
- Chefe? - O que? Sempre de um jeito ríspido em relação a mim.
- Posso ir? Não estou me sentindo bem.
- Ah, claro... mas pera ia!
- Que? — perguntei sem me virar. - Viu o rosto dele? Do ladrão?
- Não. Não senhor. - Hum... Vitor me acompanhou até em casa. Ele parecia bem... não alegre, mas prestativo enquanto ia até minha casa. Não sei porque. Mas tentei não me incomodar com isso. Abri a porta e entramos. Vitor se sentou no sofá nem esperando eu convidá-lo e jogou o casaco em qualquer lugar. Não gostei disso. -
Awm... quer alguma coisa? Beber? Tem café.
- Só? — que folgado! - Só. É a única coisa que sei fazer. Se quiser mais alguma coisa vá a um restaurante. - Pode ser. — acho que ouvi ele falando algo como "garota inóspita", mas tentei fingir que não tinha ouvido isso e ficar com raiva. Entrei em no quarto, tirei a roupa e deixei a delicada pena a baixo do porta papel na minha escrivaninha. Ela pareceu brilhar por um momento, mas com certeza era coisa do meu sub consciente.
Tomei um belo banho e, quando sai, observei-me no espelho. Só de toalha. Meu rosto parecia ainda ter sombras do que tinha acontecido ontem a noite, mas não parecia cansado. Foi então que toquei meus lábios.
Boca a boca, pensei comigo.
Uma sensação de que você tinha acabado de ter sido beijada, mas não era isso. Eu não tinha sido beijada. Só tinha sido um boca a boca para me salvar de uma morte longe e sofredor. Mas eu estava que nem aqueles filmes tocando os lábios e pensando no beijo, quer dizer, imaginando o beijo que na verdade era um boca a boca. Eu ainda os sentia levemente amassados, mesmo que não tivessem se tocado por muito tempo. Mas sim — várias vezes, melhor, inúmeras vezes.
Não sei porque fiquei tao tocada com aquilo. Qualquer um faria aquilo por sobrevivência da pessoa ao lado, mas... não sei. Eu sentia um leve gosto de perigo na língua. Eu sentia toque do perigo. Não sei porque isso agora. Eu fora tocada várias vezes pelo perigo, inúmeras vezes e eu não tinha ficado assim. Eu ficava com raiva. Mas dessa vez não. Mas não dessa vez que havia sido salva pela pessoa que fez mal e ao mesmo tempo o bem. de qualquer modo, eu senti...
O Toque. Certo que eu já havia sito tocada por vários garotos, havia ficado com vários garotos na minha infância, mas tudo isso tinha acabado aos meus quinze anos quando conheci o filho de Ckipton. Don Erick. Machista como o pai, mas na época eu não sabia. Quando eu soube da sua versão — versão machista e traumatizante para mim, fiquei tao horrorizada por ele dizer aquela mesma versão que Ckipton tinha como se nós mulheres não tivéssemos identidade que acabei odiando cada um dos homens. Algum era exceção — bem pouco, admito. Mas convivi na sociedade muito bem, mas evitando tudo que pudesse me traumatizar de novo. Uma batida na porta. Isso tirou-me dos meus devaneios.
Sai do banheiro, vesti-me e abri a porta.
- Não sabe esperar?
- Eu queria perguntar uma coisa. — Vitor entrou sem ao menos me pedi permissão. Não gostei daquilo, mas gostei da ousadia. Eu tinha adquirido sem querer uma certa... afeição ao perigo. Era aquilo que minha mente dizia agora sobre Vitor. Que ele era perigoso. - Perguntei. — falei sem ao menos me mover segurando a porta, mas observei-o pelo canto dos olhos. Foi ai que tomei um susto mesmo.
- Pera ai! Cara, o que é isso? — ele ergueu aquilo que eu não queria que visse, que eu tinha esquecido de guarda. Droga! — Isso é uma calcinha? - Larga isso! — me atirei em sua direção, mas ele saiu antes que eu ao menos o tocasse e foi porta a fora. Fui atras. Esbarrei em todos os moveis, bati o pé na mesa, mas não desisti. Já estávamos lá fora quando finalmente o peguei.
Mergulhei atrás dele de novo, mas dessa vez ele me abraçou e esticou a mão para que eu não pegasse-a.
- Abaixa isso seu idiota! — murmurei irritada.
Apesar de estar super irritada, decepcionada com sua descrição, eu estava me divertido. Me divertido até demais depois de tudo o que aconteceu. Nós estávamos rindo, apesar de tudo. Estava divertido e constrangedor ao mesmo tempo. Foi então que consegui pegar finalmente, mas sua mão foi junto parando sob nossos peitos. Dava pra sentir o coração pulsando por baixo das nossas camisas. Foi então que percebi que estava frio, me encolhi. Mas, em vez de voltarmos para dentro, ele perguntou.
- Quer sair comigo? Não sei porque, mas não fiquei surpresa com aquilo. - Vitor, você sabe o que eu penso sobre vocês... vocês ao todo. - Mas eu sou diferente. Você vai ver. Você sabe!
- Mas é ousado demais pro meu gosto.
Ele riu.
Não pude me conter e ri também.
- Uma chance? Por favor?
- Muito bem... a onde? — um sorriso iluminou seu rosto
- Me encontre no Moo's Madness. Tenho compromissos. Sabe onde é? - Sei claro. No final da 7th avenida. É um fliperama se não me engano. - Uhum. Durma e me encontre as 15h. — já era 5h da manhã. - Ok. - Então, até mais. — despediu-se beijando a um centímetro ao lado da minha boca. Perto demais, pensei. Olhou nos meus olhos procurando alguma raiva e quando se deu por satisfeito, saiu.
Senti um arrepio nas costas depois disso. Nao sei porque, mas agora tudo em relação a eles começou a me arrepiar. Senti aquela sensação de novo. Aproveitei que começara a chover para obrigar minhas pernas a correrem até a cama. Foi então que vi algo diferente. A pena, aquela pena que eu tinha deixado na penteadeira, ficou preta. Negra, mais do que escura e estava começando a se desfazer.
Fiquei desesperada.
Tirei-a dali e — não sabendo o que fazer para a pena não se extinguir, claro — coloquei em baixo do meu travesseiro. Não sei bem porque fiz isso, mas fiz. Logo tentei dormir para que aquela sensação não entrasse no meu sonho. Mas entrou. E piorou.
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