Asas negras

14 Capítulo 7 - Pena - parte 2




Ele revirou os olhos.

- Ok, então vamos.

Já estávamos longe da praia. Fazia mais ou menos 2h 30min que já tínhamos saído de lá e acabado com aquela conversa estupida e sem nexo. Quer dizer, não sem nexo, mas que tinha ficado intimo o bastante para que eu ficasse constrangida.

Sem janelas, o vento batia livremente nos nosso rosto. Estava ficando frio e já fazia tempo que não comíamos Acho que ele percebeu.

- Quer ir direto para casa ou quer comer algo antes.

- Claro. O que sugere? — tive até medo de perguntar.

- Hum... que tal o Ambrosia & Nectar? É ótimo.

- Uhum... — eu não tinha o que falar. Eu nunca tinha ido ou ao menos ouvido falar desse lugar. Mas parecia bom. Só receei que um restaurante com Riley e eu parecesse romântico demais para ele.

A sós. Eu tremi.

Não pelo vento frio, mas sim pela palavra romântico Eu podia vomitar por causa da palavra e com a possibilidade de ser romântico

Já estávamos em Oia, no estacionamento do restaurante. Achei até legal. Riley estacionou e pudemos nos dirigir a recepção.

- Reservas, por favor.

- Sr. Crouch. Mesa para dois, ok?

- Claro.

Pera ai! Como ele já podia ter reservado uma mesa para nós? Ele não sabia de nada antes de eu dizer se íamos ou não! Qual era a dele? Quem era ele? Talvez ele fosse um daqueles caras que conquistava as garotas, levam elas para um restaurante e depois... sei lá Deus o que! Talvez eu estivesse paranoica, talvez não. Mas como se explica a reserva? Ele era algum tipo bizarro e sobrenatural?

Eu estava enlouquecendo. Eu tinha que perguntar.

- Como sabia que viríamos para cá? — perguntei, logo depois que o garçom nos acompanhou até uma mesa.

- O que?

- Como assim já reservou? Era um plano? Algo que esperava que tivesse conquistado? — eu estava sendo burra, mas, direta.

- Como é que é? — ele quase caiu da cadeira.

Tive que reprimir o riso.

- Minha família frequenta esse restaurante muito antes de você pensar em nascer ou reencarnar! O que deu em você? Por acaso pensou que... — então ele soube.

É. Ele tinha lido minha mente. Na verdade, nem era isso. Minha própria feição me denunciava. Com certeza a palavra que veio na cabeça dele — que estava já na minha — era...

Um psicopata. Um pervertido

Fiquei mais do que envergonhada. Riley me encarava incrédulo e, claro, decepcionado. Fiquei com o coração na mão ao me deparar com aquele tipo de feição que ele estava fazendo, mas tentei ficar tudo bem.

Riley abriu a boca para falar. Logo esperei o jorro de incredulidade e de "como Você pode pensar algo assim de mim", mas ele só chamou o garçom e disse.

- Posso pedir por você?

Minha boca se escancarou.

- A-a-ah! Claro... que pode.

Surpresa! meu inconsciente gritou.

- Dois Kataifi & Trio queijo e sobremesa... Triangulo caramelo de amêndoas tudo bem?

- Ah, claro. Você escolhe.

- Então, só.

- Bebida?

- Podem escolher o vinho.

Riley parecia tao confiante e seguro de si que comecei a tremer por isso. Na verdade, eu tremia por quase tudo. Para falar a verdade mesmo, eu tremia por tudo que não fosse normal na minha rotina. Aquela confiança e segurança era demais! Eu não via isso desde...

Desde Kyle.

Foi só seu nome soar na minha mente para aquela sensação aparecer de novo. O fogo da vela no meio da mesa tremeu e o ar começou a ficar frio. Riley pareceu não perceber. Mas eu sabia, eu tinha certeza, que faltava muito pouco para a faze 1 ou 2.

Foi então que o garçom voltou e tirou-me dos meus devaneios

- Tem alguém querendo falar com o Sr. — sussurrou a Riley. Quase não pude ouvir.

- Não disse o nome?

- Não.

Riley olhou sério para mim.

- Já volto Aure. — e saiu. Foi tão rápido que mal tive tempo para raciocinar. Acho que, se piscasse, eu perderia tudo que aconteceu ali. Foi então que a vela se apagou totalmente.

Isso não era bom

Depois que comecei a sentir aquela sensação, eu comecei a ter mais do que sextos sentidos. E aquele era o sétimo

O meu sentido do perigo.

Levantei da mesa e segui por onde Riley tinha ido. Não pude evitar em olhar sob os ombros — quase como uma fugitiva. Estava quase que correndo, quase chegando a porta quando dei de cara com alguém.

Era o garçom.

- não pode ir.

- Que historia é essa? Deixe-me passar!

- Não.

- Quer ser demitido?

Ele não respondeu.

- Foi o que eu pensei.

Fui porta a fora e fitei o estacionamento. Tropecei em tudo que possa imaginar. Para a direita... ninguém. Para a esquerda... sim. Lá estava. Um cara alto e forte segurava Riley pelo colarinho.

- Hei! — gritei indo até lá sem ao menos pensar duas vezes. O homem olhou para mim num susto que pareceu que eu ia atacá-lo com a faca da cozinha. Até eu me assustei com isso... pera ai!

Eu o conhecia.

Alto, cabelos loiro/preto/castanho, olhos mel penetrantes e uma certa aura que eu não podia explicar. Era puro demais para meus olhos. Eu sempre enxergava algo em volta dele... algo que eu nunca compreendi Eu reconheceria Kyle em qualquer lugar e de qualquer jeito. Até se estivesse...

- Kyle? Kyle?! É Você?

Ele começou recuar.

- O que faz? Ia machucá-lo? Kyle... eu te procurei como uma louca. Desculpa por... — mas Kyle começou a fugir deixando Riley no chão, mas nem me importei. Era ele que me importava agora e em toda minha vida. Eu tinha prometido que ia deixá-los em paz, mas a outra parte do acordo da promessa não foi cumprida. Kyle ainda aparecia para mim. — Hei! Volte! Kyle!!!

Mas ele tinha sumido na escuridão. Foi tão horrível! Eu mal conseguia respirar, mas aquela não era a hora certa para ter um ataque. Minha cabeça girava e tudo parecia tremer — apesar de eu perceber que era minha própria tremedeira. A angustia e a surpresa me acessou numa repentina explosão em meu state emocional. Pareceu que tudo ficou embaçado — apesar de eu perceber depois que era por causa das minhas lágrimas. Tentei afastá-las, mas minhas mãos não me obedeciam. Meu corpo estava imóvel observando a estrada em que ele tinha fugido. Tudo mais escuro, de repente.

- Hei! Aure! Me ajude. — não me mexi de imediato. Acho que na terceira ou quarta vez que Riley me chamou eu pude me mexer, apesar de não querer me mexer. Nem que Riley tivesse morrendo na minha frente eu ia me mexer.

Suspirei.

- Calma. — fui ajudá-lo a se levantar, mas ele não parecia machucado. Parcialmente.

- Aquele cara é um louco! Me agrediu sem mais nem menos.

- Não exagera. O cara mal tocou em Você. — quase ri com o termo cara. Não falar o nome de Kyle naquele momento exigia uma força enorme vinda de mim. Mas um sorriso estava querendo sair.

- Não exagera?! Aquele idiota quase me enforcou!

- Ah, cale a boca. Vamos pagar a conta e ir embora.

Riley suspirou. Pareceu sincero

- Desculpe por não ter sido o melhor jantar da sua vida.

- Tudo bem. — ele tirou a carteira do bolso e pagou no caixa. — Você não teve culpa. Alem disso, foi um dia ótimo. Você é um ótimo guia.

- Obrigado.

- De nada. Sério, eu estou muito feliz.

- Que bom. Agora até vejo até um lado bom.

- Qual? — peguntei. Tive medo da resposta.