Asas de Vidro
2 Segundo
Notas iniciais
Acordei naquela manhã e sentia meus olhos arderem pela noite mal dormida. Soltei um longo bocejo e me levantei, os pés no chão de madeira do meu quarto. Mesmo depois de quatro anos, o silêncio daquela casa ainda me assustava. Fui até o banheiro e tomei um banho demorado, lavando meus cabelos escuros. Quando saí, já passava das oito da manhã, e minha amiga logo chegaria com as primeiras crianças. Prendi meu cabelo molhado em um coque e coloquei a camiseta com o nome do nosso serviço de babás, junto com um short jeans qualquer. Meus chinelos estavam ao pé da escada de madeira, e desci correndo para preparar o lanche. Quando coloquei os cookies de chocolate no forno, a porta da frente se abriu e Claire apareceu com os pequenos John e Constance. Eram os irmãos gêmeos mais fofos do mundo, loirinhos e com olhos castanhos brilhantes.
Entreguei uma caixinha de suco de morango para cada um e comecei a preparar os sanduíches, quando Claire apareceu ao meu lado, tirando as cascas do pão.
— Alguma criança nova para hoje? — perguntei, tirando a franja do meu rosto com as costas da mão. Tinha me arrependido de cortar a franja tão curta.
— Os donos da livraria na cidade me ligaram ontem. Deixarão a filha deles, Lily, a partir das onze. Parece que eles terão uma convenção na região, mas disseram que se a pequena gostar, nos contratarão. — Ela sorriu.
— Acho que vamos precisar contratar mais alguém, não? — Soltei um suspiro, preocupada. — Somos só duas e já temos vinte crianças por dia, além de cinco que vêm de vez em quando.
— Uma ajuda não seria nem um pouco ruim.
Deixei que ela terminasse os lanches e fui até a sala de recreação, pegando uma folha de cartolina branca e uma caixa de lápis de cor. Coloquei-os na bancada e escrevi em letras grandes e garrafais com o lápis vermelho “PRECISA-SE DE BABÁ”, pedindo para que os gêmeos enfeitassem o cartaz para que eu o colocasse no lado de fora da casa.
Depois de alguns minutos, o aviso ficou pronto. As crianças desenharam alguns rostos sorridentes e flores coloridas, e eu e Claire não pensamos em algo mais perfeito. Faltavam poucos minutos para que os pais deixassem as outras crianças conosco, então decidi pendurar aquele aviso logo.
Quando saí pela porta da frente, os campos brilhavam pelo sol da manhã. No caminho de terra que ligava as fazendas a cidade, alguns caminhões com frutas e leite passavam. A caminhonete vermelha velha do meu pai estava parada em frente a pequena mureta de pedra. Respirei fundo, sentindo que aquele ar me renovava todos os dias.
Coloquei os pés para fora da casa, e me deparei com um embrulho colorido no capacho. Ao lado dele, uma rosa vermelha estava pousada, cuidadosamente colhida, com todos os espinhos retirados. Colei o cartaz na grande janela de vidro, para que todos que passassem por ali o vissem, e peguei o embrulho e a flor. Entrei, fechando a porta atrás de mim, me sentido confusa.
Voltei até a cozinha, e minha amiga já tinha terminado todos os lanches.
— Claire, acho que alguém deixou isso para você. — Estendi o presente à ela, que sorriu.
Minha amiga sempre foi muito bonita, desde quando éramos meninas. Com seus olhos verdes e seu cabelo loiro, sempre foi o centro das atenções na escola. Durante o Ensino Médio, quase todos os dias ela recebia presentes de admiradores secretos, e aquele não era novidade. A pequena Constance sorriu e começou a fazer perguntas sem fim, querendo descobrir o que tinha naquele embrulho tão caprichado.
— Alexis... — minha amiga sussurrou, com um sorriso gigantesco em seus lábios. — Isso não é para mim.
Então ela me estendeu com as unhas pintadas de rosa um pequeno cartão, em que se podia ler “Para Alexis”, com letras redondas e caprichadas. Meu coração parou por um segundo, e sorri de canto.
— Deve ser uma brincadeira sem graça... — murmurei. Afinal de contas, nunca fui como Claire, então aquilo não fazia sentido.
— Quando alguém te dá uma rosa e uma joia, não pode ser brincadeira.
— Uma joia?! — Peguei a caixinha que ela tinha desembrulhado, e era de um veludo azul brilhante. Como as caixas de joias.
Quando a abri, um colar delicado brilhou para mim. Era um par de asas de anjo, lapidadas em brilhante róseo. A corrente dourada também brilhava, e aquilo devia ter custado muito caro.
— Que tipo de pessoa compra uma joia dessas e nem diz o nome? — sussurrei, quase sem ar.
— Alguém que está mesmo a fim de você. — Claire não parava de sorrir. Mas aquilo era loucura.
— Eu não posso aceitar. — Fechei a caixinha. — Vou colocar de volta com um bilhete agradecendo a gentileza. Isso... É irreal.
Então, a pequena Constance levantou-se de seu banquinho e ficou na minha frente, me encarando com os braços cruzados. Parecia indignada.
— Você não pode devolver! — Seu rosto continuava sério. — Alguém te deu isso e gosta de você, então coloque no pescoço. Não podemos recusar presentes tão bonitos.
Olhei para Claire, que ainda sorria. Fez uma expressão de “viu só?”.
— A voz das crianças é a voz de Deus, Alexis. Apenas ouça Constance.
Me sentindo derrotada e um pouco desnorteada, peguei a corrente e a prendi em meu pescoço, me sentindo no meio de um déjà vu sem sentido. Aquelas asas nunca me pareceram tão familiares.
Mas eu não tinha tempo para ficar me gabando de ter ganhado um presente. Então, coloquei a flor em um pequeno vaso com água e guardei o cartão na minha agenda. Quando terminei, mais crianças chegaram, e meu dia agitado acabara de começar.
...
Eu, minha amiga e as crianças estávamos nos fundos da casa, no quintal. Já estava quase na hora de levar todas para dentro para que eu contasse uma história e que tirassem uma soneca antes de irem embora. Algumas brincavam com bonecas e carrinhos, enquanto outras se divertiam com o escorregador ou os balanços. Estava sentada na escada de madeira, observando todas atentamente, tomando um copo de limonada gelada. O sol naquela tarde estava forte, por isso todos os pequenos tiveram que passar protetor solar antes de brincar. As risadas das crianças e o som dos pássaros faziam uma sinfonia maravilhosa.
De repente, um rapaz apareceu pelo portão lateral, adentrando pelo gramado. Ele usava uma calça camuflada e uma camiseta branca, e sorria para as crianças e para mim. Sorri de volta.
— Posso ajudar? — Me levantei, caminhando até ele. Pude perceber que seus olhos eram verdes como esmeraldas e seu cabelo ruivo estava desalinhado. Nas costas, ele carregava uma mochila que parecia pesada.
— Eu estou caminhando há muito tempo, e a água do meu cantil acabou. Será que eu posso reabastecê-lo aqui? — Seus olhos quase imploravam por um pouco de água.
— Oh, meu Deus! Claro que sim! — Exclamei, com pena. — Me acompanhe até a cozinha, por favor.
Subi as escadas e ele me seguiu, e entramos pela porta dos fundos até a cozinha. Ele me entregou o cantil e encostou na bancada, enquanto eu pegava água gelada para ele. Percebi que ele me olhava, mas não de forma desrespeitosa ou com desejo, mas sim como se ele me estudasse.
O silêncio estava começando a ficar constrangedor.
— Então... — Pigarreei. — Você não é da cidade. O que faz por aqui?
— Sou um ex fuzileiro. Eu morava em Londres, mas não conseguia mais aguentar o tumulto e a correria de uma cidade grande, por isso decidi vir para um lugar mais calmo.
— E você veio até aqui à pé? — exclamei. Era realmente um caminha muito longo para uma caminhada. — Sozinho?
Então ele sorriu.
— Um caminho solitário pode no levar ao lugar e às pessoas certas.
Então terminei de encher o cantil e o entreguei ao rapaz. Ele agradeceu.
Enquanto voltávamos ao lado de fora, me lembrei de algo importante.
— Hum... Já que você vai ficar na cidade, preciso ao menos saber o seu nome. O meu é Alexis Woods.
— Isaac. Sou Isaac Davies.
Ele sorriu para mim e se despediu, sorrindo e acenando para as crianças. Segui todo o seu caminho até o muro de pedras da frente de casa com o meu olhar, até que ele parou. Isaac se virou, o sol da tarde deixando apenas sua silhueta visível.
— Foi um prazer te conhecer, Alexis. — ele aumentou um pouco a voz para que eu o escutasse. — E à propósito, belo nome.
Assim, ele deu meia volta e saiu, continuando seu caminho.
E, na hora da história das crianças, enquanto Claire lia um conto de princesas, eu não conseguia parar de me lembrar da forma como aqueles olhos verdes me hipnotizaram e me prenderam.
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