Asas de Vidro
3 Terceiro
Notas iniciais
Acordei com um susto. Ainda não passava das sete da manhã, e um barulho ensurdecedor me tirou da cama logo cedo. Ainda de pijama e pés descalços, saí do meu quarto e desci as escadas até o lado de fora, no quintal dos fundos. Era impossível que alguém estivesse ali. Aquele lugar estava abandonado desde o dia que eu e meu pai nos mudamos para lá. Pisei na grama quente do início da manhã e fui até a cerca que separava o meu quintal do campo vizinho. No celeiro ao fundo, alguém consertava as telhas e não parava de martelar. Eu precisava dormir mais um pouco.
— Ei! — gritei para que a pessoa me escutasse, minhas mãos protegendo meus olhos do sol. — Quem é você?
O homem parou de martelar e se virou para mim. Ele estava longe, por isso não consegui ver seu rosto. Ele desceu as escadas e caminhou até a cerca, lentamente. Então percebi que estava sem camisa e que seu cabelo era ruivo, e não consegui acreditar quando vi seus olhos verdes me observando, nossos corpos separados pelo arame farpado.
— Se não é o ex fuzileiro Isaac Davies. — Sorri. — O que está fazendo aqui a essa hora da manhã?
— Vou morar logo ali. — Ele apontou para o grande casarão branco do outro lado da cerca. O casarão que ficava perto do canteiro das flores que eu amava.
— Então seremos vizinhos? — Arqueei uma sobrancelha, sorrindo.
— Isso mesmo. — Ele sorriu de volta.
Seu cabelo reluzia pelos raios do sol, ficando com uma cor de bronze maravilhosa. Seus olhos me observavam da mesma forma que a outra vez, na semana passada.
— Você já tomou café da manhã?
— Isso é um convite? — Dessa vez ele arqueou a sobrancelha, sorrindo de canto. — Se for, eu aceito.
— Considere-se com sorte, meu caro Davies. Eu faço as panquecas mais deliciosas da cidade.
— Tenho certeza disso. — Limpou a testa com a camiseta que segurava em sua mão. Seu corpo era definido, mas não de forma exagerada. Era perfeitamente definido. — Mas vou até o casarão para tomar um banho, o.k.? Estou morrendo de calor.
Assenti com a cabeça, então ele se virou e começou a andar de volta para o casarão, e algo me surpreendeu. Em suas costas, bem no meio, um símbolo estava desenhado, uma tatuagem não muito antiga. E, dos lados desse símbolo eu pude ver duas cicatrizes grandes e profundas, perpendiculares.
Coisas da guerra, pensei, percebendo que eu não conseguia parar de olhá-lo, nem por um segundo, como se aquele símbolo me prendesse. Depois que seu corpo se tornou apenas uma sombra eu consegui desviar o olhar. Fui até minha casa, me julgando uma boba por me deixar balançar por ele. Sim, era um rapaz muito bonito, carismático e encantador, mas não passava disso. Isaac Davies era apenas um estranho para mim.
Coloquei um vestido floral e arrumei meu cabelo, afinal, não queria estar desarrumada na frente dele mais um vez. Peguei todos os ingredientes, então comecei a preparar as panquecas. Depois de fazer a massa, tive um pouco de dificuldade para virá-las na frigideira, mas quando meu vizinho bateu na porta da frente, elas já estavam prontas. Limpei minhas mãos sujas de farinha e fui até a entrada, abrindo-a logo em seguida. Isaac estava sorrindo.
— Você chegou na hora certa. — Sorri de volta. — Entre, vamos.
A madeira rangeu um pouco quando ele entrou, as botas pretas militares engraxadas com perfeição. Quando seu corpo estava completamente dentro de minha casa, percebi que ele escondia algo nas costas. E então um pequeno buquê de rosas vermelhas surgiu na minha frente, amarradas com um laço de cetim azul.
— Já que fui convidado, decidi trazer um presente. — sua voz era quase sussurrada, como se aquilo fosse um segredo que só nós dois poderíamos saber. — E, pelo que percebi quando entrei em sua cozinha naquela outra vez, você gosta de rosas.
— Elas são lindas! — Não conseguia esconder minha emoção. — Muito obrigada!
Ele me entregou as flores, então pedi que ele me acompanhasse até a cozinha, onde tomaríamos o café da manhã. Coloquei as flores no mesmo vaso que a outra rosa, e ficaram perfeitas, como se tivessem saído do mesmo canteiro.
Quando nos sentamos, percebi que Isaac me olhava.
— O que foi? — perguntei, sentindo minhas bochechas queimarem.
— Gosto dos seus olhos, Alexis. — Ele ainda não parava de me encarar.
— Mas eles não têm nada de especial.
— Eles são mais azuis do que o próprio céu, mas são tão profundos quanto o mar, e eu sinto que posso me perder neles a qualquer momento.
Eu, definitivamente, não sabia o que dizer a ele.
Meu rosto continuava queimando, então comi uma garfada da panqueca, sem conseguir olhá-lo.
— Eu não fui inconveniente, fui? — Ele parecia um pouco envergonhado. — Me desculpe, mas eu não consigo me controlar nessas circunstâncias. Sou muito precipitado.
— Está tudo bem, Isaac. — Levantei o olhar até ele. — Eu só não estou acostumada a receber elogios como esse.
Ele segurou minha mão com delicadeza por cima da toalha de mesa.
— Pois você deveria recebê-los todos os dias.
E assim, ficamos conversando durante a manhã toda. Era um sábado, então as crianças e Claire não iriam até minha casa naquele dia. Quando percebemos, já estava quase na hora do almoço e nem tínhamos saído da mesa. Isaac me ajudou a lavar a louça e arrumar a cozinha, me convidando para me levar para almoçar. Tentei negar, mas ele disse que não sairia da minha casa até eu aceitar. Então coloquei minhas sandálias, peguei minha bolsa e saímos. Para minha surpresa, Isaac Davies comprara um carro logo que chegou na cidade.
Fomos até a cidade e, quando ele estacionou o carro e saímos, percebi que todos nos observavam. Isaac também percebeu.
— Estou em um daqueles sonhos ruins em que fico só de cueca na frente de todos? — Ele sussurrou, conferindo suas roupas, me fazendo rir.
— Você está em Angel Falls, a menor cidade do condado. Vai ter que se acostumar em ser uma celebridade, Davies. — Dei uma leve cotovelada em suas costelas. — Caipiras amam novidades.
Então ele parou no meio da calçada, segurando minha mão para que eu parasse também. Olhei para ele.
— Então você me ama? — Ele levantou uma sobrancelha, soltando uma alta risada.
Então percebi do que ele acabara de me chamar.
Quando me dei conta, ele já estava longe, correndo de mim, enquanto ainda ria. E eu corri atrás dele, rindo como se ainda fosse uma criança.
...
Na praça da cidade naquele dia, estava acontecendo uma feira de flores. Lá, Isaac me contou que um dos motivos para ele comprar aquela fazenda abandonada foi o fato de que ele tinha um campo de flores logo no quintal. E ele adorava as flores tanto quando eu.
Ali, aprendi muito sobre minhas flores favoritas, e um fotógrafo nos convidou para tirarmos uma foto, de graça. Nos sentamos em baixo de uma das árvores de lá, e a foto ficou realmente muito bonita. Eu fiquei com ela.
No final da tarde, Isaac me levou para casa. Ele abriu a porta do carro para mim e me levou até a entrada de casa, da forma mais cavalheira e gentil possível. Ficamos nos olhando por algum tempo, sem saber direito o que fazer.
— Nos vemos logo? — Ele perguntou.
— Com certeza! — exclamei. — Essa foi uma das melhores tardes desde que me mudei para cá, Isaac. Claro que vou querer repetir.
Ele me deu um abraço e um beijo no rosto de despedida. Depois, a imagem daqueles olhos verdes ficaram na minha mente por toda a noite, e eu não conseguia esquecer o toque de sua mão na minha pele e a sua risada contagiante.
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