Asas Noturnas
2 Capítulo 2
Ferdinando encheu a pequena xícara de chá de camomila e colocou o bule na pequena mesa de madeira, acrescentou um pouco de leite e sentou-se na poltrona vermelha que estava bem ao seu lado. Bebericou o chá e o colocou sobre as pernas cruzadas, apoiado num pires. Passou os longos dedos sobre a detalhada louça, certamente deveria vir de sua terra natal, Portugal. Pousou o olhar na porta que se encontrava logo a sua frente, divagava com o passado que transcorria como um pequeno filme na sua mente. A xícara lhe trazia muitas lembranças, há tempos não sentia saudades.
Uma trepidação na porta de madeira fez Ferdinando acordar de suas memórias, chegou a balançar levemente a louça no seu despertar, mas não o suficiente para fazer o líquido cair sobre o chão. A madeira chegou para a frente, porém emperrou riscando o piso, uma batida mais forte fez a porta abrir, desta vez sem atrito e com a maçaneta chocando-se na parede. Os sapatos enlameados pisaram no chão de madeira velha, o dono era um garoto de cerca de 20 a 24 anos, com madeixas longas, batiam um pouco abaixo dos ombros, cor de castanha e onduladas, tinha uma pele branca e olhos cor de amêndoa, media cerca de 1.70 metros e usava roupas bastantes simples comparadas aos de Ferdinando, uma camisa branca de mangas bufantes que vinham até o pulso e calça de linho e sapatos pretos. Segurava um pequeno pacote encharcado e de cheiro estranho, dirigiu-se até a mesa e jogou-o. Ferdinando acompanhou toda a ação e olhou pelo canto dos olhos o item lançado, permanecia sentado na poltrona com sua xícara, agora vazia. Levantou-se e colocou a pequena louça ao lado do pacote, que molhava toda a mesa e deixava um forte cheiro de sangue invadir o local:
— Tem de pouco, não tinha uma mais encharcada?
— Ora, não reclames comigo!! Aquele açougueiro custou-me a oferecer esta carne, tentavas vender-me umas com um ou dois pingos de sangue. Queria me fazer comprar esta mais caro! – O forte sotaque lusitano denunciava a nacionalidade do garoto.
— Ainda bem que somos dois, em três morreríamos de fome! – Ferdinando o pacote deixando-o perto do rosto, dois filetes de sangue escorreram da carne.
— Então da próxima vez vai tu, ora pois!! – O menino se retirou trotando pela sala, dirigiu em direção a cozinha, precisava lavar as mãos daquele sangue do qual tinha tanto ojeriza, sua veias pulsavam, o açougueiro tinha sorte por ele estar bastante controlado devido as broncas de Ferdinando, por muito pouco não avançara sobre o pescoço do ganancioso homem, a raiva lhe deixava impaciente e com fome.
Ferdinando segurou o pacote com ambas as mãos e rasgou o papel. A carne se revelava vermelho vivo, sua cor dava a impressão de que iria pulsar a qualquer momento. Seu olhar pesou por um instante sobre a comida, seu estômago estalou como se anunciasse que aquilo não era muito adequado ao seu paladar refinado. Pensou por quantos séculos ainda haveria de viver assim.
Fale com o autor