O clima da cidade agradava Jonathan, passeava pelas ruas sem se preocupar com nada e com ninguém. Tinha 17 anos, cabelos negros até os ombros, pele levemente bronzeada e olhos azuis. Estava louco para arrebatar os corações das meninas, entrar em bordeis e arranjar um briga no bar. Nunca teve tanta liberdade. Os poucos raios de sol que chegavam a superfície eram tão fracas que pareciam vaga-lumes de tão pequenas, mesmo com grandes nuvens cinza cobrindo aquela pequena cidade da Inglaterra. A rua central continuava movimentada, a chuva ainda iria demorar a cair.


A população aproveitava para resolver suas pendências, compravam e vendiam mercadorias o mais rápido possível, enquanto o céu continuava calmo. Jonathan olhava para todos os lados maravilhado, como fora proibido de ver tudo aquilo pelos seus 17 anos vampirescos? Não entendia o receio dos pais com o contato humano.


Na verdade percebia os problemas que poderia causar aquelas pessoas, mas não imaginava que mal os humanos fariam. Os vampiros tantas vantagens contra eles, como haveriam de reagir a tamanha superioridade física? Jonathan ainda não estava preparado para a liberdade.


Procurava as vielas e os becos da cidade a procura de novidades, como um explorador numa floresta desconhecida. Olhava cada detalhe das lojas, barracas, carruagens, roupas e pessoas. Era um milagre conseguir processar todas as informações ao mesmo tempo. A felicidade dominava o seu corpo e seu sorriso alargava cada vez que passava uma mulher bonita ao seu lado. Um mundo sem fronteiras parecia possível, pelo menos agora para Jonathan.


Vivia num pequeno castelo aos arredores da cidade, pouco saia, não por vontade própria, mas por imposição dos seus pais. Não seria tão fácil sair da proteção dos dois, porém aquele pequeno passeio foi o suficiente para inflar o espírito de Jonathan, não era tudo que o mundo podia lhe oferecer, contudo era muito quando nada se sabia sobre o exterior dos portões do castelo.


Jonathan correu o olhar sobre as placas que jaziam na parede de casa, parou em uma que possuía uma porta de madeira e estava escrito “Bar”. Empurrou-a e adentrou ao recinto, um forte cheiro de fumo invadiu as suas narinas, lembrou-se do seu pai e a coleção de charutos, estava acostumado a aquele cheiro, entretanto não naquela quantidade. Demorou um tempo até recobrar os sentidos, encontrava-se estonteado assim que voltou ao normal marchou até o balcão de madeira no fundo do local.


Era um bar pequeno, com um simples piano ao lado esquerdo da porta para quem entrava, mesas com cadeiras em todos os cantos do cômodo e um longo balcão com compridos assentos, onde era colocada as mais diversas bebidas no estande em frente para atrair os clientes, deveria esconder uma porta para a saída dos fundos, mas Jonathan não tinha certeza disso, tudo aquilo ainda era muito novo para ele.


Sentou-se em uma das cadeiras do balcão, não eram muito confortáveis, pensou Jonathan. Apoiou os braços na intenção de melhorar sua posição, a madeira porcamente polida não contribuía. Uma velha senhora veio a sua direção do lado de dentro balcão, usava um vestido surrado e com lenço na cabeça. Jonathan imaginou por quanto tempo aquela mulher e suas encardidas roupas não encontravam uma tina de água e um sabão, e recordou-se que aquelas pessoas raramente tomavam banho.


Acordou dos seus pensamentos quando ouviu a voz estridente e rouca daquela velha senhora:
— Vais querer alguma coisa? – Jonathan cobriu as narinas com uma das mãos assim que a mulher abriu a boca, somente não a visão de tal asco por medo de ofendê-la.
— Er... Um copo de cerveja está de bom grado. – A mulher retirou-se para pegar a bebida. Jonathan agradeceu aos céus e desejou que aquela senhora nunca mais dirigi-se a palavra a ele. Olhou ao redor e viu vários homens bebendo e conversando alto nas suas mesas, poucas mulheres os acompanhavam, as outras andavam pelo local segurando em suas bandejas diversos tipos de bebidas, parando constantemente nas mesas para entregar as garrafas e copos.

Todas as mulheres eram mais jovens que a velha senhora que lhe atendera, no balcão além dele apenas dois homens se encontravam, estes cerca de 4 e 5 cadeiras de distância dele. O baque na madeira fez Jonathan voltar o seu olhar para frente, uma grande caneca com um liquido espumante entrou no seu campo de visão. Pegou-a pela alça e bebeu dois grandes goles, o amargor invadiu o seu paladar, aquele sabor novo era bastante agradável, voltou a colocar a caneca no balcão e limpou a boca suja de espuma com a manga do terno, apesar do ótimo gosto da bebida ainda preferia um bom vinho tinto português.


Uma das jovens moças que transitavam pela estalagem parou bem ao lado de Jonathan, berrou para a senhora de trás do balcão, que se encontrava conversando com um dos clientes ao fundo, pedindo alguns comes e bebes. Apoiou a bandeja na madeira e olhou do alto para o garoto. Deu-lhe um sorriso bem convidativo, alegre como de uma criança:
— És novo por aqui? – Perguntou abaixando o corpo para sentar-se.
— Ah, sem, mudei-me há pouco tempo. – Jonathan ficou surpreso com receptividade da garota. Gostou disso.
— Foi o que pensei, não tens cara de estrangeiro. Qual é o teu nome? O meu é Marie Curtis. – A menina deu um largo sorriso e estendeu a mão.

Jonathan olhou para aquele gesto e percebeu que nunca apertara a mão de um humano, isto lhe parecia tão irreal e agora era-lhe tão palpável:
— Jonathan Chesteryn, ou melhor, Jonathan somente. – Cumprimentou-a com bastante entusiasmo. Marie percebeu a sua animação, nunca vira alguém tão feliz por conhecê-la, aquilo a deixava contente.
— Hahaha! Tu pareces uma pessoa muito animada, depois conversaremos melhor, tenho de voltar ao trabalho – Marie levantou-se e pegou a sua bandeja, agora reabastecida de comidas e bebidas pela venha senhora enquanto eles papeavam.


Jonathan acompanhou com o olhar ela se dirigir a uma das mesas no centro do salão, sua saída do castelo tinha sido bastante compensatória:
— Vais querer mais um copo? – O garoto virou e deu de cara com a velha senhora, queria arrancar o nariz.
— Obrigado, mas não. – Pegou algumas moedas do bolso e jogou sobre o balcão, a mulher as olhou com desdém e as guardou no avental encardido que usava.


Jonathan levantou-se e dirigiu-se a saída da estalagem. Já estava na hora de recolher que seus pais determinaram, no dia seguinte teria mais tempo para vasculhar aquela cidade. Antes de sair encontrou pelo olhar Marie, essa acenou quando o avistou, com o seu costumeiro sorriso. Sorriu timidamente e retribuiu o cumprimento, certamente havia muitas coisas novas a se descobrir naquela cidade, ansiou Jonathan.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.